2. Theoretical framework
2.6 Entering Eastern Europe
As cores tendem a se organizar na vida humana ora de forma social ora de forma científica. Até o inicio do Renascimento, as ideias platônicas e aristotélicas dominaram o cenário científico no que se refere às cores. Acreditava-se no conceito pitagórico dos raios de “fogo” emitidos pelos olhos a sondar o mundo, encontrando a cor nos objetos. Kepler questiona essas teorias, e dá os primeiros passos sobre o funcionamento fisiológico do olho humano, associado à luz e à matéria. Retornando a Aristóteles, ele explica, segundo Pastoureau, que a cor vem da luz, que se atenua ou obscurece ao atravessar diferentes objetos ou meios190. Por isso, as cores estão sobre um eixo que vai dos extremos - branco e preto -, com as demais cores no meio. O branco e preto permanecem como cores verdadeiras, o verde não está entre o azul e amarelo, e o violeta não é mistura de vermelho com azul (azul com preto).
189 Cf. contrato de Fillipino Lippi para o afresco da Capela Strozzi em Santa Maria Novella, em Florença (1487) e o contrato de Pinturicchio, para a série de afrescos na Biblioteca Piccololini em Siena (1502). GAGE, 1993, p. 129.
François d’Aguilon, um jesuíta polígrafo, próximo a Rubens, formulou uma teoria próxima à das cores primárias modernas. Em seu diagrama, ele situa o branco e o preto nos extremos, como cores “extremas” (e verdadeiras), as cores “médias” vermelho, azul e amarelo, e as cores “misturadas” verde, violeta e laranja. É um dos primeiros registros da exclusão do verde como cor principal, rompendo com todos os usos sociais e simbólicos dessa cor até então, antecedendo a teoria das cores primárias e complementares. Sobre a interação do branco e do preto com as demais cores, d’Aguilon conceitua a ideia de intensidade191.
Figura 3.7: François d’Aguilon. Em Opticorum libri sex, Antuérpia, 1613, p. 8. Fonte: PASTOUREAU, 2011, p. 141.
Figura 3.8: Círculo de cor de Robert Fludd. Fonte: GAGE, 1993, p. 9.
191 Ibidem, p. 139-141.
Para John Gage, os círculos cromáticos192 utilizados por grande parte dos artistas
parecem ter se originado através de análises de uroscopia medievais, como forma de diagnóstico193. No século XV as cores eram estudadas partindo do preto para o branco, através dos amarelos e vermelhos. Para Gage e Pastoureau, uma das tentativas mais radicais para reduzir as percepções iniciais de cor para um simples diagrama foi o círculo de cor do médico inglês Robert Fludd, publicado em 1626 (1631 em Pastoureau), considerado o primeiro círculo cromático impresso. Fludd organiza sete cores em uma sequência aristotélica entre o branco e o preto. O vermelho (rubeus) e verde (viridis) são ainda cores vizinhas. No lado do amarelo e do laranja, a luz é majoritária. Do lado do azul, o contrário.
Newton194 prova cientificamente que a luz é a formadora das cores, que não se enfraquece ao decompor-se ao formá-las. A luz decomposta no espectro pode voltar a ser luz branca, como provou Newton em seus experimentos. Segundo Pastoureau: “A partir de então, a luz e as cores que contém são identificáveis, reproduzíveis, passíveis de ser controladas e mensuráveis” (PASTOUREAU, 2011, p. 140). Segundo a nova ordem de Newton, o vermelho não ocupa mais a posição central; está agora em um dos extremos. O verde assume lugar entre o amarelo e o azul, confirmando o que os pintores e tintureiros já sabiam. Não há mais lugar para o branco e preto como cores reais, principalmente para o preto. Uma pequena vantagem é vista no branco, por ser a soma de todas as cores do espectro. Eles deixam de serem cores. O disco de Newton ofereceu a maior coerência mostrando as relações entre as cores análogas, sendo prontamente utilizadas pelos pintores. O círculo de Newton foi substituído pelo círculo de Claude Boutet, apresentando três primárias e três secundárias. Em 1720-25, Jakob Christoffel Le Blon desenvolve um
192 Atualmente, os círculos (ou discos) cromáticos representam sistemas de cores onde geralmente as cores primárias, secundárias, terciárias e até quaternárias (ou intermediárias) estão representadas, de forma a mostrar como elas se relacionam entre si e como podem ser combinadas, de acordo com a sua posição no disco. A maioria privilegia os tons e suas relações entre si e suas misturas, outras podem desdobrá-los em seus tons e saturação. Não existe um modelo padrão único e verdadeiro, pois discos cromáticos podem ser desenvolvidos para atender a diversos tipos de análises cromáticas. Entre suas principais funções estão: distinguir esquematicamente a mistura das cores primárias e derivadas, cores análogas, complementares e as relações de contraste simultâneo e harmonia.
193 GAGE, 1993, p. 9.
194 Entender a teoria de Newton sobre as cores é fundamental para este estudo, mas ocuparia um espaço que seria melhor destinado à sua influência para os artistas. Diversas obras da bibliografia explicam em detalhes sua teoria.
processo de impressão baseado nas cores vermelho, azul, amarelo e preto195. A
utilização das quatro cores é suficiente para a obtenção de todas as outras sobre o suporte branco do papel. Essa inovação técnica permite uma ampliação das funções artísticas e didáticas, mas, principalmente, confirma a nova hierarquia das cores: a hierarquia das cores primárias e complementares. Moses Harris publicou, cerca de 1776, o que provavelmente seja o mais antigo círculo de cores simétricas.
Figura 3.9: Moses Harris. Circulo prismático, c. 1776. Fonte: http://www.gutenberg-e.org/cgi- bin/dkv/gutenberg/ slideshow_low.cgi?pn=28. Acesso em 23 de junho de 2012.
Figura 3.10: Circulo cromático de Traité de La Peinture en mignature, 1708. Fonte: GAGE, 1993, p. 126.
195 A título de curiosidade, efeitos cromáticos (principalmente luz e sombra) eram sugeridos nas gravuras monocromáticas pelos virtuosos gravadores especializados, quando reproduziam pinturas, como as de Rubens. Segundo Pastoureau: “No início do século XVII, na Antuérpia e nos Países Baixos, as pessoas sabem perfeitamente fazer cor em preto e branco” (PASTOUREAU, 2011, p. 119). Entretanto, as imagens em preto e branco não são capazes de assumir aspectos específicos da cor. Por outro lado, a criação de códigos para as cores no universo da gravura e da tipografia foi crucial para o mundo das imagens, através de algumas convenções.