Uma das principais marcas da programação musical do tempo pioneiro do rádio no Brasil, inclusive da primeira emissora não-comercial que deu origem aos segmentos do campo público da radiodifusão, foi a música clássica, quase totalmente a erudita. E o que se pode perceber neste resgate histórico é que tal característica se deveu ao fato de ser considerada o símbolo de transmissão da cultura e de educação, juntamente com a veiculação de palestras e debates científicos, além de programas instrucionais. Mesmo que, naquela época, outros gêneros de música, especialmente a popular brasileira, já fizessem parte da programação das estações comerciais e tivessem caído no gosto inclusive da elite brasileira.
Um dos mais destacados radialistas brasileiros, que iniciou sua carreira naquele período, ao resgatar a memória do meio no Brasil em “Bastidores do Rádio – fragmentos do rádio de ontem e de hoje”, publicado em 1976, fez severa crítica a esta concepção de cultura adotada para a implementação da programação pelo rádio
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pioneiro. Atribui a este entendimento uma das causas das dificuldades para se desenvolver e se popularizar que o rádio enfrentou naquele período.
[...] no começo, pretendiam impor o rádio apenas como veículo de um tipo de cultura, com uma programação quase que só de música chamada erudita (da qual ninguém gostava), conferências maçantes, palestras destituídas de qualquer interesse, enfim, um rádio sofisticado para meia dúzia de “crentes”, não atingindo a massa. O magnífico slogan da Roquette Pinto – 'Trabalhar pela cultura dos que vivem em nossa terra e pelo progresso do Brasil', divisa que, ainda hoje, a Rádio Ministério da Educação menciona orgulhosamente – não permitia que se popularizasse o rádio, tal como ele precisava para se expandir. Nada de publicidade, nada de música popular (em samba, então, nem era bom falar), nada daquilo que, de algum modo, desvirtuasse ou atingisse as boas intenções do programa traçado na famosa divisa. [...] (MURCE, 1976, p. 19)
Sublinhamos, nesta pesquisa, a avaliação negativa de Murce para aquela programação musical porque ele próprio era apreciador deste gênero de música e inclusive começou sua carreira na Rádio Sociedade com a apresentação de um programa dedicado à ópera.
Assim, os primeiros anos do rádio foram difíceis: muita música clássica, muita ópera, muita “conversa fiada” e a colaboração graciosa de alguns artistas da sociedade. Quase todos apresentavam números do mesmo estilo dos discos irradiados. Eu mesmo apresentei-me na Rádio Sociedade, a convite de meu dileto amigo Roquette Pinto, em junho de 1924 (data que assinalo como a minha entrada para o sem-fio), com um programa operístico. Sempre fui muito ligado ao movimento lírico no Brasil [...]. Assim entrei para o rádio, mas a minha aventura, no campo lírico, terminou aí (MURCE, 1976, p. 19-21).
Mas a acolhemos a título de ilustração e de resgate para analisar que a opção pelo gênero erudito se deveu ao fato de que a elite intelectual e também sócio- econômica é que constituía o seleto grupo não só de produtores, mas igualmente de ouvintes do rádio naquela época. Murce, como bem identificou FERRARETTO (2008, p. 30 e 31), avaliou assim a programação radiofônica musical pioneira não só com base na sua experiência profissional e de ouvinte. Também porque entendia que o rádio só poderia desenvolver-se pela via comercial.
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[...] o altruísmo desta parcela da elite intelectual ao valorizar a alta cultura vai se chocar com uma visão mais focada no potencial do rádio como negócio, exemplificada aqui por[...] Renato Murce, radialista que é contemporâneo deste processo[...] (FERRARETTO, 2008, p. 30).
Na verdade, nada surpreendente, já que, por exemplo, as músicas irradiadas eram dos discos doados às emissoras pelos próprios ouvintes. Mais uma vez recorremos a Murce para resgatar aquele tempo em que a elite fazia rádio para ela mesma, porque a esta classe da sociedade brasileira pertenciam os ainda poucos privilegiados que tinham acesso ao novo meio de comunicação.
Não deixei, contudo, de colaborar como pude com o rádio. Diletante da música clássica e operística, colecionara eu cerca de 1.200 discos do famoso 'selo vermelho', da RCA, gravados pelas maiores celebridades de todo o mundo. Dada as condições precárias com que funcionavam as rádios (Sociedade e Clube do Brasil), os locutores faziam apelos aos ouvintes, solicitando que se inscrevessem como sócios, mediante a módica contribuição de 5$000 (cinco mil réis); meio centavo hoje. E que colaborassem enviando bons discos de suas discotecas para melhorar os programas. Então, a cada momento, era anunciado:'A seguir transmitiremos o 'Prólogo' da ópera Il Pagliacci, de Leoncavalo, em disco gentilmente cedido pelo nosso ouvinte Dr. Arnaldo Guinle; ou acabaram de ouvir 'Caro Nome' de Rigoleto, de Verdi, colaboração do nosso sócio e amigo Sr. Renato Murce[..] (MURCE, 1976, p.21)
Mas também nada tão contraditório, como já apontamos no subcapítulo 3.2, intitulado A contradição nas primeiras programações do rádio educativo. Uma programação musical predominantemente erudita, veiculada para poucos, pode ser considerada o melhor modelo para o segmento de rádio que ensaiava, então, seus primeiros passos com missão de levar cultura e educação ao povo brasileiro? Ao mesmo tempo em que se detecta esta contradição, não há como não ressaltar que aquela programação fez, sim, parte do enorme esforço dos radialistas pioneiros em cumprirem a função social que enxergavam no rádio. E viam nela, naquela programação musical, características fortemente educativas e transmissoras de cultura. Isto é possível observar em depoimento do maestro e ex-diretor musical da Rádio MEC Edino Krieger:
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A música clássica foi o carro chefe da programação da Rádio MEC desde sua fundação. Era certamente parte integrante do perfil educativo e cultural que Roquette-Pinto quis imprimir à emissora ao transferi-la para o Ministério da Educação e Cultura. Esse perfil consolidou-se ao longo dos anos [...].A programação musical tinha, ela própria, um caráter educativo, de formação e informação do público radiouvinte. Além do repertório predominante, que ia do barroco ao impressionismo, havia – como ainda hoje -programas específicos destinados a divulgar a música pré-clássica – medieval e renascentista – e a música contemporânea. (KRIEGER, 2007, p. 115)
No seu artigo “Rádio MEC: um centro de difusão da música clássica”, KRIEGER resgata sucintamente a formação da grade erudita da emissora, citando seus principais e mais destacados programas no decorrer de sua história, sempre defendendo suas características essencialmente educativas e culturais.
Entre os programas legados por herança daquele período está o Atendendo aos ouvintes [...]. Através desse programa, sobretudo, podia a Rádio traçar o perfil verdadeiro de sua audiência, que, longe de ser elitista, como se poderia supor, mostrava um percentual elevado e mesmo majoritário, nas correspondências, de ouvintes das classes B e C, que muitas vezes escreviam com dificuldade o título das obras e o nome dos compositores que desejavam ouvir de novo. A procedência da correspondência era também predominantemente da periferia do Rio, inclusive de penitenciárias, e de municípios vizinhos ou de outros estados. (KRIEGER, 2007, p. 15-118)
Concordando com análise de (FERRARETTO, 2008, p.30), ressaltamos que esta concepção de programação educativa-cultural expressa bem o contexto daquela época. Recorrendo à Renato Ortiz, Ferraretto analisa que “o rádio, para as parcelas da elite responsáveis por sua introdução no país, constitui-se em elemento modernizante e civilizatório”. E para esta elite, levar cultura e educação ao povo brasileiro, significava, como podemos observar nas grades das emissoras pioneiras, veicular música erudita, transmitir conferências. Enfim, irradiar alta cultura, a cultura das elites intelectuais e sócio-econômicas daqueles tempos.
Mas, mesmo assim, Ferraretto (2008, p. 30) destaca “o altruísmo desta parcela da elite intelectual”. Também lembra que, afinal,
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batuta de Roquette-Pinto, que inclusive tentou resistir à transformação da radiodifusão em puro negócio.
É, entretanto, o primeiro movimento da longa trajetória do veículo em território brasileiro com uma programação marcada por conferências literárias, artísticas e científicas, números infantis, poesia, música vocal e instrumental, além de umas poucas notícias de interesse geral. Tal perspectiva cristaliza-se na frase de Roquette-Pinto, logo adotada como slogan pela emissora: “Pela cultura dos que vivem em nossa terra e pelo progresso do Brasil”. (FERRARETTO, 2008, p.30)
3.5. “A Hora do Fazendeiro”: o mais antigo programa de rádio em
veiculação na América Latina
A Hora do Fazendeiro integra a grade da Rádio Inconfidência AM de Minas Gerais desde que a emissora entrou em funcionamento em 1936. Confirmadamente, segundo informou o supervisor de jornalismo Getúlio Neuremberg 11(2008) em entrevista, é o mais antigo programa radiofônico em veiculação ininterrupta na América Latina, conforme registro da BBC de Londres. Pode ser inclusive de todo o mundo, de acordo com o jornalista e radialista.
E por nossa observação é um dos programas da estação mineira que melhor traduzem a linha da sua grade de programação. Embora tenha, no geral e durante maior parte de seus 73 anos, acompanhado modelos referenciais do rádio brasileiro, a Inconfidência AM também consolidou um perfil com objetivos singulares entre os quais destacam-se a integração capital e interior. E neste, A Hora do Fazendeiro tem cumprido seu principal papel.
A Rádio Inconfidência pega uma carona logo no início do dia no Trem Caipira, para chegar, no fim da tarde, na Hora do Fazendeiro e se encontrar com todos na madrugada do Mutirão Sertanejo. É a mais tradicional programação rural do estado, com programas que existem desde a criação da emissora. Locutores famosos, de ontem e de hoje, dão voz e vida para a história da radiodifusão mineira, desde os tempos da “Onda Rural”, como era conhecida a Inconfidência. Desde o início, a emissora esteve em consonância com a vocação agropecuária do mineiro. Criada através de um consórcio entre prefeituras e o governo estadual, foi sempre um grande instrumento popular de unificação e de
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informação, com notícias e programas para o desenvolvimento do produtor rural (INCONFIDÊNCIA, 2008, p. 2).
Na atualidade transmitido diariamente, de segunda a sexta-feiras, das 17 às 18 horas, A Hora do Fazendeiro veicula técnicas de manejo e plantio, cotações de preços da Ceasa, os índices das bolsas agropecuárias, previsão do tempo e demais informações necessárias ao agronegócio.
Nas primeiras fases da radiofonia nacional, com certeza um programa deste tipo prestou serviços fundamentais ao homem do campo mineiro, levando as informações com maior rapidez ao interior, que naquela época, sem as facilidades modernas de comunicações, era distante, de difícil acesso e contava com poucos recursos e condições para se comunicar com os centros urbanos.
Naquela época, do advento e consolidação da radiodifusão no Brasil, A Hora do Fazendeiro foi criado para transmitir notícias de interesse ao campo, responder consultas, a grande maioria feitas por carta, desde as mais prosaicas até as que exigiam profundas e especializadas explicações.
O rádio, então, era o meio de comunicação de massa mais rápido e eficaz. Voltado e atingindo especialmente o homem do campo de Minas, A Hora do Fazendeiro tornou-se um dos mais populares programas rurais de todo o país. Foi inspirador do modelo deste tipo de programa em todas as rádios brasileiras que segmentam as suas grades com programação rural e inclusive na televisão. Neuremberg (2008) diz em entrevista que até o Globo Rural tem linha e perfil nele inspirados.
O sucesso nacional do programa, imbatível em tempos anteriores à televisão e internet, foi possibilitado, entre outros, pelo fato de a Inconfidência ter alcance não apenas em todo o país, mas também continental e mundial. Nos períodos em que o rádio reinou absoluto, a Inconfidência conseguia tal alcance por operar, além de OM/AM, também em Ondas Curtas. Mas até hoje é considerado um dos principais da grade da emissora, tanto que vai ao ar em horário nobre, no final da tarde.
E conforme Neuremberg (2008), mesmo nos dias de hoje, com outras fontes e meios de informação, atualizado, o programa tem boa audiência na área rural de Minas, recebe muitos e-mails e cartas de ouvintes, inclusive de outros estados. De acordo com Élida Murta (2008), assessora da presidência e na coordenação do projeto de criação
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do Memorial da Rádio, a diretoria da Inconfidência pretende ingressar no Instituto Histórico e Artístico de Minas Gerais com pedido de registro de A Hora do Fazendeiro como patrimônio cultural e imaterial do estado.
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