– as palavras e corpos negros e indígenas. Então, como fabular em tempos como esse? Como fazer do acompanhamento de imagi- nações possíveis uma sismografia do tempo presente? Como olhar para essa sismogra- fia e dinamitar os entraves? Os blocos duros, fascistas, que tentam nos paralisar?
Acompanhando as proposições de Suely Rolnik em seus escritos atuais sobre o in- consciente colonial capitalístico, podemos notar as evidências a partir das quais se faz possível perceber que não é simples nem fácil nos reapropriarmos da potência vital – que vem sendo sugada velozmente pela de- voração capitalística dos saberes e práticas de criação de outros mundos. Portanto, se- gundo ela, a reapropriação das potências vi- tais não acontecerá por “simples decreto de vontade, por mais imperiosa que esta seja, tampouco da consciência, por mais lúcida e bem intencionada.”
Não seria possível, tampouco, que tal con- quista se desse de maneira coletiva e ho- mogênea, como um só corpo, supostamente natural, dado, a priori, em sinergia absoluta. O desafio está na resistência ao próprio campo da política de produção de subjetivi- dade e de desejo dominantes, ou seja, aquilo que é dominante em nós mesmas. Suely vai dizer que isso não cai do céu, nem se encon- tra em alguma terra prometida, “ao contrário, este é um território que tem que ser incansa- velmente conquistado e construído em cada existência que compõe uma sociedade, o fim, mas a travessia. Precisamos constante-
mente seguir com o desafio de liberar a ex- periência vivida e nossa imaginação do lócus da representação, da permanência e da cap- tura. Não como um fim, mas sim como câm- bio de atitude, o que implica inevitavelmente encontrar outras navegações, distintas das projeções de futuro que a dinâmica capita- lística impõe. Tais conjuros podem funcionar como nossas bússolas para liberar a vida em todos os lados onde ela esteja aprisionada pelos traumas e abusos.
Trata-se, portanto, de travessias que con- vocam a radicalidade germinativa a partir das marcas do tempo no corpo, das marcas do tempo nos outros corpos, situar o corpo como o lócus onde as imagens se materiali- zam. O corpo segue sendo o campo de bata- lha, mas com uma transversão, distinto, não mais para que sob ele passem as batalhas dos efeitos da colonialidade nos agencia- mentos da vida – disso precisamos nos pro- teger –, mas sim para que as batalhas sejam os platôs de afetos e alianças, de modo a não sucumbirmos às forças de captura e aos abusos provocados pelas incessantes ondas que tentam capturar consciências e incons- cientes.
A degola do pensamento branco ocidental não é um processo estático, apático, indi- ferente... Porque as tentativas de encaixe dessas cabeças nas nossas nos torturam ortopedicamente há séculos, de várias maneiras... A fala virou o lócus do corpo no mundo, o letramento virou o status do corpo A atitude moderna colonial desenvolveu su-
jeitos que compartilham as experiências vi- vidas com seus “pares” e, ao mesmo tempo, separam aqueles que não consideram como “pares”, constituindo assim os processos de racialização e generificação, que estruturam a lógica classificatória moderna. Por isso, tal desafio implica de fato outras orientações frente ao tempo e ao espaço, frente às re- lações consigo e com as outras. Exploração de outras formas de orientação, construir o mundo do “tu”.
¿Superioridad? ¿Inferioridad?
¿Por qué no simplemente intentar tocar al otro, sentir al otro, revelarme al otro? Mi libertad, ¿no se me ha dado para edificar el mundo del Tú?
Al final de esta obra, me gustaría que sintie- ran, como nosotros, la dimensión abierta de toda conciencia.
Mi último ruego:
¡Oh, cuerpo mío, haz siempre de mí un hom- bre que interroga!4
Com esse intento Frantz Fanon situa a atitu- de interrogativa no corpo, portanto, na expe- riência vivida, na dimensão relacional. A interpelação de Fanon tem seus efeitos ressoando há décadas. Não podemos nos esquecer das vivências a partir das quais tem sido possível colocarmos no centro de nos-
4 FANON, Frantz. Piel negra, máscaras blancas. Madrid: Edi-
ciones Akal, 2009 (p. 190). movimento de espelho, de autoficção, auto-
comtemplação, sobretudo enclausuramento, uma dinâmica onde o negro e a raça pos- suem os mesmos significados para os imagi- nários das sociedades europeias e, eu diria, para aquelas afetadas pelo sistema moder- no colonial em suas variações contínuas. Mbembe afirma que o delírio produzido na modernidade tem a ver com o fato de o Ne- gro ser aquele que vemos quando nada se vê, quando nada compreendemos, e sobre- tudo quando nada queremos compreender. Sair da armadilha – de modo que possamos experienciar encontros a partir dos quais as afecções aconteçam por meio de outras dinâmicas que não as leituras-espelho, as vivências-espelho, as escolhas-espelho, as práticas-espelho, e nos liberarmos das do- bras que se voltam para o mesmo – é tarefa urgente.
Acompanhando as reflexões de Nelson Mal- donado Torres,3 podemos situar essa tarefa
urgente na escolha de práticas que, de acor- do com ele, são pré e pós metodológicas; implicam atitude, implicam outra orientação no tempo e no espaço, portanto a orienta- ção estética também precisa ser reconheci-
2 MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Portugal: Antigo-
na, 2014.
3 MALDONADO-TORRES, Nelson. Outline of Ten Theses on
Coloniality and Decoloniality. In: Fondation Frantz Fanon. Pu- blicação eletrônica de 26 de outubro de 2016. Disponível em: http://frantzfanonfoundation-fondationfrantzfanon.com/arti cle2360.html
134 135 perda das características que os constituem e os contém.
Com nossas capacidades de criação, de invenção de mundos, de sustentação de trajetórias singulares, que tipos de relações entre corpos e espaços podemos agenciar? Que tipos de relações com o passado po- demos estabelecer para criar não outro fu- turo, mas outra forma de habitar o presen- te? Quando conectamos nossos trabalhos de criação com processos que estão a dizer a partir de outros códigos que não os tra- dicionais modos de operar instituídos pela linguagem hegemônica, a meu ver, estamos nos imantando de um caminho que possui vestígios. Esses vestígios podem ser anun- ciados por muitos agenciamentos. A ques- tão talvez seja como fazer a escavação. Que escavação? Me parece que um dos movimentos necessários para a escavação tem a ver com acessar visões espiraladas da história e provocar a abertura para a passagem de outras imagens pelos nossos corpos, implicar o corpo desde outra mira- da que não é linear e nem teleológica, ela depende de nosso modo de agir – a atitude que me referi no início do texto ao acompa- nhar Maldonado-Torres.
Podemos pensar que pairam no ar, mas tam- bém encontram-se sob o solo que pisamos, vibrações que estão articuladas com vários modos de agenciar a vida cotidiana na re- lação entre corpos e espaços pluriversais. Esses modos, embora não estejam explíci- tos em sua dimensão material, nos habitam como rastros, como atravessamentos que cortam o presente. Ao tomarmos consciên- cia deste processo, é como se fôssemos impelidas a criar zonas de passagem para que estamos diante de uma universidade, de
uma paisagem onde o conhecimento adqui- rido ao longo das vidas por grande parte das pessoas que a habitam e habitaram não tem o menor valor.
Para Silvia Cusicanqui7 a visão estreita da
crítica acadêmica tem passado distante do valor interpretativo da imagem. A noção de verdade histórica se apoia nos marcos con- ceituais e morais daqueles que desenham ou escrevem. Ela traz como exemplo a re- presentação de execuções famosas, como a morte de Atawallpa, em 1533, e de Tupaq Amaru I, em 1570. Os desenhos – repro- duzidos e vistos infinitamente pelas tecno- logias coloniais de imagem e exposição – trazem a imagem de um espanhol cortando a cabeça de Atawallpa com uma grande faca. O percurso de Silvia vai ao encontro da reivindicação por outra narrativa: no tex- to, ela afirma que já se sabe que ele não morreu dessa maneira, pois foi submetido à pena do garrote. Portanto, temos uma in- terpretação e não uma descrição dos fatos: pelas imagens opera-se o gesto de reforço ao movimento de descabeçar a sociedade indígena.
Sob que cidade caminhamos, subjetiva e ob- jetivamente? Quais corporeidades estão em tensionamento? Que outras vazaram desse espaço? Que outras tentam, à força, se pre- sentificar? Os espaços vão perdendo suas habitações porosas e ganhando superfícies de concreto duro, liso, que apaga, forçando a
7 CUSICANQUI, Silvia, R. Ch’ixinakax utxiwa: una reflexión
sobre practicas y discursos descolonizadores. Tinta Limón: Bue- nos Aires, 2010.
Procuro situar o foco principal de minhas buscas na mirada para os repertórios de imagens que nos habitam, ou seja, com- preender que a partir da experiência vivida há um conjunto de verdades sobre nossos corpos, nossas marcas no mundo, nossos estilos e escolhas que estão e são cafeti- nados pelas forças abusivas que colapsam mundos e nos levam a estados extenuantes, sejam eles físicos ou mentais.
Sair da dinâmica do abuso, com a proposi- ção de subverter as marcas traçadas pela experiência vivida. Vejo essa proposição possível de ser feita desde a perspectiva do diálogo com as proposições descoloniais, com o intuito de que tal processo possibili- te erupções que causem abalos, de modo a desmoronar o sistema de operar imaginativo que foi ao longo dos tempos injetando do- ses tóxicas de estilos de vida em meus pen- samentos e meu corpo, portanto, tal atitude exige implicação, exige uma exploração crí- tica frente às palavras, às imagens, aos sons, aos movimentos...
Esse questionamento do sentir hegemônico tem a ver com um processo de escavação para acessar repertórios do sentir que foram e são sistematicamente apagados. Acom- panhando Sueli Carneiro,6 podemos pensar
que o epistemicídio se dá por diferentes ve- tores. Ele cumpre função estratégica e está em conexão com a tecnologia do biopoder. Se pensarmos nos espaços em que traba- lhamos, por exemplo, podemos identificar
6 CARNEIRO, Sueli. “A construção do outro como não-ser
como fundamento do ser”. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2005. Tese de doutorado.
que intrinsecamente inclui seu universo re- lacional.”5
Tenho, pouco a pouco, procurado identificar aquilo que não faz o menor sentido para mim em termos de alianças para buscar outras – de cura, de habitação, de enredamentos... Proponho pensar que habitamos em fre- quências que o modo de operar da dinâmi- ca da modernidade-colonialidade contribuiu para que tais frequências sejam convertidas em frequências mortas, em ruínas. Vejo um giro epistemológico possível a partir da atitu- de de potencializar tais ruínas.
A concha, o casulo, o céu, as habitações ex- tra-humanas são pouco valorizadas – mas acho que elas estão a nos ensinar muitas coisas do habitar que não têm nada a ver com essa habitação voraz e zumbi que nos toma. Como fazer a escavação para acessar outras peles, outras camadas das habita- ções que nos tecem?
Penso que isso tudo está relacionado ao desafio de tentarmos olhar para esse mo- vimento de traçar linhas, dispor palavras e repartir superfícies considerando todos os elementos implicados nisso: corpos huma- nos e não humanos, subjetivação, texturas, memórias, marcas, ruínas, assepsias, olhar para as fraturas, erosões e desarticulações que causam as ilhas continentais como for- ças que incidem sob nós, mas também como marcas que traçamos em nossas cartogra- fias, nossas atitudes.
5 ROLNIK, Suely. O inconsciente colonial-capitalístico na
mira. Sugestões para a resistência micropolítica ao sinistro. No prelo.
as descrições de tais práticas epistemici- das, mas, ao mesmo tempo, também linhas de fuga, na medida em que seus posicio- namentos frente à colonialidade opressora se manifestam como força de invenção, no corpo: “línguas selvagens não podem ser domadas...”.
Eu me lembro de ser pega falando espanhol no recreio – o que era motivo para três bolos no meio da mão com uma régua afiada. Eu me lembro de ser mandada para o canto da sala de aula por “responder” à professora de inglês quando tudo o que eu estava tentando fazer era ensinar a ela como pronunciar meu nome. “Se você quer ser americana, speak “American”. Se você não gosta disto, volte para o México, que é o seu lugar.”
I want you to speak English. Pra encontrar bom trabalho tem que saber hablar el inglés bien. O que vale toda a sua educação se você fala inglés com um “accent”, diria minha mãe, mortificada porque eu falava inglês como uma mexicana. Na Pan American University, eu e todos os estudantes chicanos fomos obrigados a pegar duas disciplinas de prática oral de língua. O propósito delas: livrar-nos de nossos sotaques.
Ataques à forma de expressão de alguém com o intento de censurar são violações. El Anglo con cara de inocente nos arrancó la len- gua. Línguas selvagens não podem ser doma- com isso, acessar outras imagens de minha
presença no mundo – quando, por exemplo, Gloria fala sobre transformarmos as metá- foras que nos levam a estados extenuantes em outras que acreditemos.
O corpo-encruzilhada, para operar, também necessita de consciência fronteiriça, de cons- ciência entrecruzada, diferencial. E por isso necessita de redes, de alianças, de espaços de confiança e de ternura radical.10
Ao situar os corpos como encruzilhadas fa- zemos a proposição das encruzilhadas que incidem nas trajetórias de vida como platôs (zonas de intensidades contínuas) para en- contrarmos ancoragem. Subvertendo a ideia de encruzilhada como ponto onde se deve tomar decisões e considerando a bifurca- ção que se apresenta na encruza como um repertório de mundos possíveis. Temos fios para puxar, sabendo que esses fios osci- lam entre emaranhados que, muitas vezes, trazem a sensação de uma bola de pelo no estômago; outras, de linhas de fuga; outras, ainda, de zonas de consistência que susten- tam a vida. A busca que faço se dá a partir de um processo que tem a ver com o dar-se conta de que o epistemicídio que vivemos, em termos dos saberes possíveis relacio-
10 BACELLAR, Camila Bastos. “Guianças para habitar o cor-
po-encruzilhada: performance, pedagogias, feminismos e des- colonização na América Latina”. Texto apresentado no exame de qualificação de Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UNIRIO, junho de 2017.
A leitura move-se contra a análise sociocien- tífica objetificada, visando, ao invés, com- preender sujeitos e enfatizar a subjetividade ativa na medida em que busca o lócus fra- turado que resiste à colonialidade do gênero no ponto de partida da coalizão. Ao pensar o ponto de partida desde a coalizão, porque o lócus fraturado é comum a todos/as, é nas histórias de resistência na diferença colonial onde devemos residir, aprendendo umas so- bre as outras.9
Podemos pensar na estratégia de, diante de tais práticas, situar o corpo como encruzi- lhada, portanto, desestabilizar as rachaduras coloniais. Mais que resistir, o que se percebe é que a força vital dos agenciamentos diz respeito à urgência em percebermos os so- pros combativos que tais processos criativos estão a mobilizar.
Diante das encruzilhadas (cruces de cami- nos) fazermos as oferendas para nos mover- mos, porque Exu, que recebe as oferendas, é o orixá do movimento, que faz a função de mensageiro, e penso que a escritora Glo- ria Anzaldúa, em toda sua trajetória, tentou constituir projetos de cura.
Tenho feito uma proposição vital para mim mesma todos os dias, e essa proposição
9 LUGONES. Maria. “Hacia un feminismo descolonial”. In: La
manzana de la discordia. Cali: Universidad del Valle, 2011, vol. 6, nº 2 (pp. 105-119).
algo que podemos chamar de cura, sanação das cisões que nos habitam e que nos colo- cam em desmoronamentos constantes. Pois muitas vezes não temos condições para ma- nejar tais desmoronamentos porque a bús- sola de acesso às sensações vem passando ao longo dos séculos por um processo voraz de mortificação. Por exemplo, as imagens que são produzidas e reproduzidas pela mídia global participam da dimensão pura- mente ótica do mundo. Coreografadas pelas câmeras e pelo aparato de representação midiático, elas estão sempre já carregadas de representação, do espelho. Rachar tais processos, olhar para as ruínas, perceber as cisões entranhadas em nós não parece tarefa fácil.
Para sobrevivir en la Frontera debes vivir sin fronteras ser un cruce de caminos.8
Podemos pensar nas atitudes capazes de provocar rachaduras nos agenciamentos rígidos que nos sufocam e, com isso, movi- mentar o deseclipsar das partes encobertas pela colonialidade, de modo a rachar as ima- gens de violência, criminalização dos corpos e dos pensamentos. Expurgar a letalidade das fronteiras físicas e das fronteiras em nós. O que as ruínas estão a nos dizer? Pen- sar em corporalidades que se situam no que, acompanhando Maria Lugones, podemos
8 ANZALDÚA, Gloria. Borderlands / La Frontera: the new
mestiza. 2ª ed. San Francisco: Aunt Lute, 1999.
Imagens → Ancorando navios no espaço, Angela Donini e Flavia Viana. Fotos Flavia Viana
142 143 montanha/serra; e katu = bom).
As referências de temporalidades e mun- dos indígenas estão ali, nas palavras desig- nadas na amplitude dos espaços – Jardim Peabiru, Bauru, Sorocaba, Anhembi, Avaré, Rio Paranapanema, Rio Tietê. Se pensar- mos que os nomes dos lugares, das cida- des, dos rios, dos morros, das cachoeiras etc. são nomes indígenas, e as localizações onde nos situamos, ou seja, as ruas onde nossas casas estão situadas, as praças (que são nossos espaços de convivência coletiva) e a grande maioria dos monumen- tos têm seus nomes e características milita- res e coloniais, concluímos que o solo onde pisamos é cartografado pelo movimento de assassinos e colonizadores assassinos. A batalha é contínua.
Saindo da Av. Paulista, marchamos em dire- ção a essa estátua de pedra, chamada de Monumento às Bandeiras, que homenageia aqueles que nos massacraram no passado. Lá, subimos com nossas faixas e hastea- mos um pano vermelho, que representa o sangue dos nossos antepassados, que foi derramado pelos bandeirantes, dos quais os brancos parecem ter tanto orgulho. Alguns apoiadores não indígenas entenderam a for- ça do nosso ato simbólico e pintaram com tinta vermelha o monumento. Apesar da crí- tica de alguns, as imagens publicadas nos jornais falam por si só: com esse gesto, eles nos ajudaram a transformar o corpo dessa obra ao menos por um dia. Ela deixou de ser pedra e sangrou. Deixou de ser um monu- mento em homenagem aos genocidas que dizimaram nosso povo e transformou-se em um monumento à nossa resistência. Ocupa- do por nossos guerreiros xondaro, por nos- Volto à proposição: diante das encruzilhadas
fazermos as oferendas para nos movermos, porque Exu, que recebe as oferendas, é o orixá do movimento, que faz a função de mensageiro.
O trabalho: ressignificar as marcas que me habitam – que também tem sido o trabalho de reencontro com trajetórias de vida de ou- tras temporalidades e com as implicações drásticas do sistema patriarcal e colonial em nossas vidas. Tentar subverter os encontros para zonas de aliança, na medida em que essas referências fizeram e fazem parte de minha subjetivação e que alguns encontros têm me ajudado a mudar as metáforas apli- cadas em meu corpo pelo projeto colonial. Penso que nessas mudanças de metáforas que tenho feito foram várias as encruzilha- das com as quais me deparei.
a história e a etnografia nunca foram por nós. Faço mesmo é manguezal de palavrório. Fa- mília caranguejo saída das lamas, trepando nas raízes suspensas dos mangues. (...) Assim vou fazer meu manguezal genealógico, berçá- rio de espécies, lama lodo de Nanã. Arenoso, salobro, rasteiro e aéreo. Manguezal donde se revelam as sombras do meio-dia. Pequenos estalares de destampamentos destempa- mentos destempos.14
Sou de uma cidade do interior de São Paulo chamada Botucatu, cujo nome vem do tupi guarani ybitu katu, que significa bons ares, bons ventos (ybitu = ar/vento; e katu = bom) ou pode também ser de ybytyra (que seria
14 Idem. a lê-las academicamente pela escolarização