Vimos que os computadores e a Internet estão distribuídos por diferentes cenários do palco escolar: salas de serviço administrativo como as secretarias, direção e supervisão administrativa e salas de serviço pedagógico como salas de professores, de coordenação, salas de aula e os espaços multimídia, multiuso ou sala de vídeo.
O pessoal que cuida dos assuntos administrativos da escola relataram problemas de hardware, de software e de desempenho nos computadores e na Internet. Foram 81% de escolas que apontaram um conjunto de problemas relacionados à parte física da estrutura dos equipamentos e serviços. Bem como 61% das escolas que apresentaram problemas relacionados com o sistema operacional e programas de computador.
Encontramos reclamações sobre o desempenho das máquinas: computadores lentos por serem obsoletos, com processadores com baixa capacidade de operação; baixa velocidade das memórias RAM e de espaço de armazenamento no disco rígido, entre outros. O problema reside no fato de que os computadores que fazem parte do patrimônio escolar podem ter peças trocadas, mas a substituição só pode ocorrer com peças equivalentes, que tenham as mesmas características das anteriores, tornando as máquinas difíceis de serem atualizadas e mantidas em uso.
Observamos reclamações sobre defeito nos equipamentos por causa de a) oscilação da energia elétrica: queima de fontes, de placa de rede, de placa de vídeo, de
roteadores e de monitores; e de b) em virtude do uso coletivo: troca frequente de periféricos; sumiço de cabos, de extensões e de adaptadores de tomada.
Um terceiro conjunto de reclamações girou em torno do desempenho da Internet: lentidão da velocidade da conexão por causa da distribuição para muitos usos, oscilação e queda da Internet por causa de rede/cabeamento antigo e muitas vezes mal montado.
Além destes apontamentos sobre a composição mais física das TIC's esses atores escolares relataram problemas e dificuldades com o programa Sistema de Gestão Escolar (SGE) que faz controle de matrículas e notas da secretaria. Consideram-no lento, instável e obsoleto, travando constantemente.
Mas o grande vilão da parte lógica dos computadores foi o Linux, o sistema operacional que o governo disponibiliza para uso nas escolas. Reclamam da falta de suporte e treinamento para usá-lo, fazendo com que versões não sejam atualizadas e a pirataria do sistema da Microsoft Windows seja um recurso recorrente. Nossos informantes relataram ainda que os professores não sabiam usar os computadores de forma plena, mas principalmente o Linux.
O grupo de atores sociais responsável pela área administrativa de 85% das escolas pesquisadas disseram ter dificuldades de trabalho advindas com problemas relativos à qualidade, funcionamento e organização das demais TIC's. Os problemas mais recorrentes correspondem à quantidade insuficiente de equipamentos pela demanda da escola, 44% de reclamações; a falta de recursos humanos e espaço para organizar, controlar reservas e armazenar equipamentos (30%); a rápida deterioração dos equipamentos por descuido e muito uso por diferentes pessoas (26%); sumiço de extensões, cabos e adaptadores de tomadas (18%); falta de conhecimento dos professores para montar, desmontar e usar os equipamentos (22%); entre outras reclamações diversas.
Esses informantes disseram que realizam orientações para conscientizar os professores durante as coordenações e semana pedagógica e no dia à dia sobre o manuseio ideal dos equipamentos. Afirmam que o sistema de reserva de equipamentos é uma forma de gerir o uso diante da demanda e controlar para terem noção de quem usou e assim poder proceder com a responsabilização por algum dano que o equipamento possa ter sofrido. Encontramos algumas escolas que fazem estoque de cabos, fios, extensões e adaptadores. Outras que distribuem um kit para cada professor ter esses acessórios para usar sem depender cotidianamente da estrutura da escola.
Com o segundo grupo de atores sociais, os professores de Sociologia, procuramos saber a interação deles com a infraestrutura de TIC's que a escola oferece. Inquiridos sobre as maiores dificuldades que enfrentam na escola para dar aulas com seus métodos de ensino 18% dos professores não encontraram dificuldade ou quase nenhuma. Entre eles, três apontaram que não faltavam material de trabalho do qual necessitavam; e dois elogiaram a equipe de professores e/ou de coordenação. Entretanto, 52% relataram dificuldades relativas às condições materiais da escola. Em nove falas diferentes apareceu que são poucos os recursos para a demanda da escola:
[...] o espaço físico na escola não ajuda, faltam materiais, computadores a gente tem restrição. Tipo assim, tem uma sala mas está sem pessoas lá pra ajudar, para trabalhar. Por exemplo, eu não tenho computador aqui na coordenação, tem Internet, mas agora que está pegando, ficou um tempo sem pegar, sem conseguir pegar na escola então é coisas mais ou menos desse tipo. Às vezes é recurso mesmo que... tem a sala de vídeo, mas é uma sala de vídeo pra todos os professores, entendeu? Embora seja muito boa a sala, é uma única pra todo mundo. Então tem aquela questão de você, embora tenham três Datas Show e ajuda bastante, mas são três para todo mundo, às vezes você quer fazer alguma coisa mas alguém já reservou, então tem essa dificuldade. (M. A. L. - Sobradinho)
Por esse motivo um novo conjunto de reclamações se definem sobre o processo de agendamento para uso dos recursos tecnológicos nas escolas:
É, além do tempo, a questão dos recursos. Não tem recurso suficiente, então você tem que pegar e fazer uma reserva daqui para um mês antes, por exemplo. (A. F. S. - Samambaia)
Outras dificuldades recorrentes encontradas foram equipamentos quebrados, danificados ou sumidos; sobre o laboratório de informática, seu funcionamento ou sua falta; sobre a Internet e seu sinal oscilante e fraco para chegar até as salas de aula.
Observamos que 52% dos professores fizeram a associação entre as condições materiais da escola e a motivação para o trabalho. Apenas 11% realizaram apontamentos que nos orientaram a pensar no estabelecimento positivo da relação, isto é, a disponibilidade e funcionamento de TIC's motivando os professores a desenvolver seu trabalho. Mas 41% fizeram referência às condições materiais da escola como influenciando negativamente seu processo motivacional para o trabalho. Entre os apontamentos aparece com maior frequência a palavra falta, compondo um conjunto de fatos que impedem ou dificultam os professores desenvolver aulas com recursos TIC's:
Nossa são tantos que... a falta de estrutura da própria escola, assim... essa escola falta muita coisa, entendeu? Dificulta muito o trabalho, e você, se você não estiver muito empolgado, não produz. (C. H. S. - Plano Piloto/Cruzeiro)
Às vezes é a própria estrutura da escola que me desmotiva... A impossibilidade de você fazer alguma atividade, por exemplo, a televisão está queimada, ou não tem os cabos pra você ligar, pra você fazer aquela aula... Impossibilidade de passar o filme, o documentário que você quer. (M. V. - Taguatinga)
Os professores foram levados a classificar as condições da infraestrutura física da escola quanto aos equipamentos e recursos eletrônicos de TIC's para apoio às aulas. As classificações foram 52% de ótimas e boas e 48% de regulares e ruins. As justificativas para ótimas condições falam do que a escola tem em termos de equipamentos e espaços com TIC's montadas e sobre a quantidade disponível para uso. As justificativas para boas condições foram compostas de 18 afirmações positivas e 07 negativas. As afirmações positivas destacam o que as escolas têm e as negativas destacam a pouca quantidade, algum problema de funcionamento e a falta de pessoal para dar suporte na montagem e manutenção dos equipamentos.
As justificativas para a classificação como regular das condições da infraestrutura de TIC's tiveram o predomínio de afirmações negativas que se referem à quantidade pequena ou ausência de equipamentos e da necessidade de agendamento; de problemas com a falta de organização e manutenção e de serviços indisponíveis na região e/ou escola. Em linha semelhante, as justificativas para a classificação ruim destacam a pouca quantidade de equipamentos funcionando, o fato de terem alguns danificados e de estragarem ou sumirem; a falta de alguém para manter e organizar.
Apesar de não fazer referência exclusiva às TIC's, os professores de Sociologia foram também conduzidos a classificar as condições da infraestrutura física das salas de aula. Os professores classificaram como 37% boas, 48% regulares, 7% como ruins e outros 7% como péssimas. Ao justificar a classificação das condições da sala de aula em todos os níveis os professores fizeram afirmações positivas e negativas. Falam a respeito dos quadros ou lousas, das carteiras e cadeiras de professores e estudantes, da ventilação, iluminação e acústica das salas e dos equipamentos TIC's fixos, quando existem.
Destaca-se sobre a infraestrutura das salas de aula as afirmações de 70% dos professores sobre a ventilação das salas e problemas com ventiladores e sua falta: o fato
das salas terem boa ventilação ou contarem com ventiladores apareceram como positivo; afirmações que indicam que precisa de melhoria na ventilação, salas que precisam de ventilador e não tem, que o teto esquenta a sala e a ventilação é ruim são as afirmações negativas.
Afirmações de 52% dos professores é sobre as cadeiras, mesas e carteiras realizando apontamentos positivos pelo fato delas não estarem quebradas, estarem em bom estado. Utilizam afirmações negativas sobre as cadeiras dos professores serem duras, mas principalmente 44% disseram sobre as carteiras dos alunos ser desconfortáveis.
Do ponto de vista dos estudantes, o terceiro grupo de atores sociais informantes das condições materiais das escolas, 33% consideram regular as condições dos equipamentos móveis que dão suporte às aulas. As classificações como ótimas e boas foram de 25% somadas juntas e tiveram mais peso que as classificações como ruins e péssimas que foram 16% de estudantes que atribuíram.
As salas multimídia, multiuso ou salas de vídeo foram classificadas pelos estudantes como tendo condições boas 26%, seguidas de regulares 20%. Mas se somarmos as classificações boas e ótimas, elas reúnem 33% das avaliações contra 14% dos que consideraram como ruins ou péssimas.