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Recentemente, na década de 1980, a linguística passou a considerar o texto visto pelo viés do discurso. Por discurso, pode-se entender a linguagem carregada de significado e portadora de elementos externos do mundo social e

cultural ao qual ele pertence, que se organiza por meio dos gêneros. Por isso, ocorreu o interesse mais acentuado pelos estudos sobre os gêneros textuais.

Os estudos de gêneros textuais estão se tornando uma prática cada vez mais multidisciplinar, uma vez que a “análise de gêneros engloba uma análise do texto e do discurso, uma descrição da língua e visão da sociedade, e ainda tenta responder a questões de natureza sociocultural no uso da língua de maneira geral” (MARCUSCHI, 2008, p. 149).

Entretanto, trabalhar sob a perspectiva de gêneros não é tarefa fácil, sobretudo se considerarmos a infinidade de textos que circulam na sociedade, bem como a flexibilidade e dinamicidade inerentes aos gêneros. Vejamos, a seguir, alguns teóricos que têm contribuído muito para os estudos dos gêneros.

Bakhtin apresenta uma perspectiva sobre os gêneros que tem servido de apoio a muitos estudos sobre os gêneros do discurso. Ao falar sobre os estudos de gêneros, não podemos deixar de mencionar a grande contribuição desse estudioso apresentada na obra A estética da criação verbal (2000), sobretudo no capítulo “gêneros do discurso”. Esse filósofo da linguagem apresenta-nos teorias sobre o gênero e enfoca sua função sociocomunicativa nas diversas atividades humanas, o que tem impulsionado muitas discussões teóricas desde a década de 1980.

Ele aborda ou concebe a linguagem em caráter dinâmico ou de forma dinâmica, circulando em esferas de atividades que proporcionam o surgimento de certos tipos de enunciados. O seu objeto de estudo é a linguagem praticada, são os enunciados realizados pelos membros de qualquer esfera de comunicação humana, uma vez que tais enunciados surgem da interação entre a linguagem e o contexto em que ocorre a enunciação. Para o autor, o que organiza e dá forma a uma enunciação é o contexto social em que ela se insere.

Bakhtin (1988, p. 112) define enunciado como a “unidade concreta e real de comunicação discursiva”, ou seja, o enunciado não pode ser separado de uma situação social. Como salienta o autor, a construção de um enunciado constitui justamente o produto da relação do locutor com seus interlocutores uma vez que “A palavra dirige-se a um interlocutor, ela é função da pessoa desse interlocutor,

variará se se tratar de uma pessoa do mesmo grupo social ou não, se esta for inferior ou superior na hierarquia social”.

Segundo o filósofo, para nos comunicarmos, utilizamo-nos sempre dos gêneros do discurso ou, em outras palavras, todos os nossos enunciados dispõem de uma forma padrão e relativamente constante de estruturação. Por isso, o autor define gênero como “tipos relativamente estáveis de enunciados” e dá ênfase, sobretudo, ao termo “relativamente”, pois considera que os gêneros podem sofrer mudanças, à medida que as esferas de atividades sofrem mutações e se alteram com frequência.

Fiorin (2006, p. 69), baseado nos estudos de Bakhtin, entende que “os gêneros são meios de apreender a realidade. Novos modos de ver e de conceptualizar a realidade implicam o aparecimento de novos gêneros e a alteração dos já existentes”. Por isso, o não conhecimento de um gênero pode representar a falta de vivência em uma determinada atividade de certa esfera. A riqueza e a variedade dos gêneros de discurso são infinitas, pois a variedade da atividade humana é inesgotável, e cada esfera dessa atividade elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso.

Diante da vasta gama de gêneros existentes, Bakhtin criou uma distinção entre gêneros primários (simples) e gêneros secundários (complexos). Os gêneros primários são aqueles relacionados à vida cotidiana em tipos de comunicações mais espontâneas, como bate-papo, bilhete, conversa ao telefone etc. Já os gêneros secundários são aqueles que aparecem em situações comunicativas com um grau maior de evolução e de complexidade cultural, como romance, artigo científico etc., transformando e incorporando os gêneros primários.

Para Bakhtin, o conceito de gênero do discurso permite-nos incorporar elementos da ordem social, histórica e cognitiva, bem como considerar sua situação de produção, desde posicionamentos ideológicos e hierárquicos dos interlocutores, veículo de divulgação, momento histórico etc.

Bakhtin (2000, p. 279), ao observar a grande variedade de gêneros discursivos existentes, justifica que ela ocorre pelo fato de que a própria atividade humana e a utilização da língua em si, seja ela oral ou escrita, são aspectos que

andam conjuntamente, isto é, sempre que falamos e que nos comunicamos, nas mais diversas situações e esferas da atividade humana, fazemos, naturalmente, o uso dos gêneros do discurso. Nesse sentido, a noção de gêneros do discurso possibilita-nos incorporar elementos de ordem social e histórica, permitindo-nos considerar: a situação de produção de um determinado discurso (quem fala, para quem, os lugares sociais dos interlocutores, posicionamentos ideológicos, qual o veículo de comunicação, qual objetivo, etc.); conteúdo temático (o que pode ser dito em um determinado gênero); a construção composicional (sua forma de dizer, sua organização, conforme disponível na circulação social); e seu estilo

verbal seleção de recursos e léxicos disponíveis na língua.

A escolha do gênero, dos elementos composicionais, do estilo e de todos os recursos linguísticos, como lexicais, morfológicos e sintáticos, pode ser determinada por aquilo que sabemos ou imaginamos saber sobre nosso interlocutor; aquilo que supomos que ele conheça sobre o assunto, suas opiniões, seus preconceitos e sua situação social. Assim, os gêneros constituídos envolvem formas razoavelmente estáveis e definidas por um conjunto determinado de circunstâncias. Os diferentes gêneros dispõem de auditórios precisamente organizados aos quais se adaptam.

Por isso, ao utilizarmos um determinado “gênero”, devemos considerar a situação de produção do discurso, ou seja, quem fala, para quem fala, a posição social dos interlocutores, o seu posicionamento ideológico, o momento histórico, a finalidade ou intenção, o veículo de comunicação etc.

Miller, outra estudiosa de gêneros, interessa-se pela natureza social do discurso e foi influenciada pelo pensamento de Bakhtin (2000) sobre os gêneros do discurso. A visão de gênero como ação social é defendida por membros da escola norte-americana. Miller, por exemplo, em seu texto, Gênero como ação

social2, publicado em 2009 na obra Estudos sobre gênero textual, agência e tecnologia, entende que a definição de gênero não é centrada na forma ou na

substância, mas na ação que é usada para sua realização (p. 22). Segundo a autora, os gêneros constituem “ações retóricas recorrentes” ou “artefatos culturais” que decorrem da comunicação em ambientes específicos; é uma

2 A primeira publicação deste texto recebeu o título de Genre as social action. In: F

REEDMAN, Aviva; MEDWAY,

convenção, pois deriva de ação retórica tipificada, com regras que o regulam, conforme a cultura.

Para Miller (2009, p. 41), “a compreensão de gênero como ação retórica está baseada nas práticas retóricas e nas convenções do discurso estabelecidas pela sociedade como forma de ação conjunta”. Com base em tais convenções sociais, a autora apresenta alguns elementos considerados importantes para a compreensão do gênero: 1) refere-se a uma categoria do discurso baseada em ações retóricas tipificadas, que adquirem significado a partir da situação e do contexto em que está inserida; 2) como ação significativa é interpretável por meio das regras que o regulam; 3) possui uma forma particular que se caracteriza pela fusão entre forma e substância; 4) por meio de padrões recorrentes de uso linguístico constitui a vida cultural do indivíduo; 5) recurso retórico que atua como mediador entre as intenções particulares e a exigência social, motiva a conexão entre o privado e o público, o singular e o recorrente.

A relação entre as noções de gênero e ação social também levou Miller a se referir à teoria de Giddens a respeito da estruturação. Para esse autor,

(...) a “estruturação” descreve nossa experiência de que as relações sociais são estruturadas no tempo e no espaço. As estruturas das relações sociais consistem de regras e recursos; as regras, como na linguística, são, ao mesmo tempo, constitutivas e normativas; os recursos são os meios através dos quais as regras se realizam. (GIDDENS apud MILLER, 2009, p. 50).

Ele entende que as atividades sociais humanas não são criadas por atores sociais, mas continuamente recriadas por eles através dos próprios meios pelos quais eles se expressam como atores.

Miller (2009, p. 30) defende que os nossos discursos, como gêneros consolidados, constituem-se em convenções sociais recorrentes e até mesmo ritualizadas. Para a autora, o que recorre não são os aspectos individuais, mas os fenômenos intersubjetivos e sociais e o que se mantém regularmente tipificado são as marcas da identidade do gênero textual como ação retórica baseada nas situações recorrentes.

A autora concebe gênero como ação social, pois a ação ocupa papel de destaque, já que é por meio dela que “criamos o conhecimento e capacidade necessários à reprodução da estrutura”. Em outras palavras, o gênero tem um potencial estruturador da ação social porque é o elo e o mediador entre o particular e o público, entre o indivíduo e a comunidade.

Outra contribuição importante para os estudos sobre gêneros textuais na abordagem norte-americana é o trabalho desenvolvido por Charles Bazerman. Inspirado no trabalho de Miller. Bazerman trabalha na mesma perspectiva de ação social, observando as regularidades ou “rotinas sociais do dia a dia” que dão origem a recorrências na forma e no conteúdo do ato de comunicação entre os usuários.

Para esse autor (2011, p. 19), cada organização social tem seus tipos de textos e, por meio deles, “criam novas realidades de significação, relações e conhecimento”. Os textos de cada grupo social se encontram inseridos em atividades sociais estruturadas e dependem de outros textos que influenciam a atividade e a organização social.

De acordo com Bazerman (2011, p. 22),

(...) cada texto bem sucedido cria para seus leitores um fato

social. Os fatos sociais consistem em ações sociais significativas

realizadas pela linguagem, ou atos de fala. Esses atos são realizados através de formas textuais padronizadas, típicas e, portanto, inteligíveis, ou gêneros, que estão relacionadas a outros textos e gêneros que ocorrem em circunstâncias relacionadas.

Os vários tipos de textos se instauram em um sistema de gêneros, os quais fazem parte dos sistemas de atividades humanas. Os pontos considerados relevantes para definir o sistema de gêneros são: a) os gêneros encontram-se inter-relacionados uns aos outros em contextos específicos; b) a noção de sistema de gêneros amplia o conceito de grupo de gêneros; e c) o sistema de gêneros seria o conjunto completo de gêneros que dão instância à participação de todas as partes.

Para Bazerman (2011, p. 29), ao criarmos formas tipificadas ou gêneros, também somos levados a tipificar as situações nas quais nos encontramos. A tipificação dá certa forma e significado às circunstâncias e direciona os tipos de ação que acontecerão. Para o autor, uma maneira de coordenar melhor nossos atos de fala uns com os outros é agir de modo típico, ou seja, de um modo facilmente reconhecido como realizador de determinados atos em determinadas circunstâncias. As tipificações auxiliam o indivíduo a identificar situações e momentos similares, porém o identificável como gênero depende muito mais da cultura local, de conhecimento compartilhado, da educação e do nível de socialização do indivíduo.

Bazerman compreende os gêneros como “fenômenos de reconhecimento psicossocial” (2011, p. 31) que integram os processos das práticas organizadas socialmente por meio de textos orais e escritos, reconhecíveis como forma de comunicação que coordenam atividades tipificadas e possibilitam o compartilhamento de sentidos. Para o autor, restringir a noção de gênero a um conjunto de traços textuais é ignorar não apenas o papel dos indivíduos na construção dos sentidos, mas também o uso criativo para atender a novas demandas.

A linguagem materializa-se por meio do gênero, que deve ser visto como um produto histórico e sociocultural que controla as ações comunicativas e torna nossas intenções e sentidos inteligíveis para os outros.

Segundo o autor, a melhor maneira de se chegar à tipificação dos enunciados é “agir de modo típico, modos facilmente reconhecidos como realizadores de determinados atos em determinadas circunstâncias” (2011, p. 29), ou seja, agir com similaridade em situações similares, pois, com base na regularidade de ações, surgem os gêneros. A tipificação é o processo de padronização de enunciados, que realizam ações facilmente reconhecidas em determinadas circunstâncias e que permitem a compreensão de situações determinadas. Diante disso, o indivíduo consegue identificar e definir os gêneros com base em seus padrões textuais e situacionais.

Conforme exposto anteriormente, a preocupação com o estudo dos gêneros não é recente e sempre propicia novas descobertas, uma vez que seu

surgimento e alterações estão intrinsicamente relacionados às transformações ocorridas na sociedade. Por isso, o tempo todo há o surgimento de novos gêneros, bem como mudanças dos já existentes.

Tendo em vista que é comum o termo gênero estar atrelado aos estudos literários, na escola, é frequente a utilização do termo tipo de texto para gênero de texto, relacionando-o a receita, o memorando, a reportagem, artigo de opinião etc. Isso evidencia um equívoco na construção do conhecimento na sala de aula de línguas, pois muitas das propostas de produção de texto, oral ou escrito, referem-se aos tipos textuais e não aos gêneros. Marcuschi (2007) esclarece essa questão argumentando que tipo de texto3 são sequências textuais definidas pela natureza linguística de sua composição. O que entendemos por gêneros textuais está muito além dessas sequências, envolvem características específicas como propósito comunicativo, interlocutores, suporte etc.

Para Marcuschi (2007, p. 19), os gêneros caracterizam-se muito mais por suas funções comunicativas, cognitivas e institucionais do que por suas peculiaridades linguísticas e estruturais; mas isso não quer dizer que a forma deve ser desprezada. De acordo com o autor, os gêneros textuais são “fenômenos históricos, profundamente vinculados à vida cultural e social” e colaboram para a ordenação e estabilização das atividades comunicativas do dia a dia. É por essa razão que, assim como surgem, podem desaparecer, pois seu funcionamento está vinculado às necessidades e atividades socioculturais e às inovações tecnológicas. Como exemplo disso, temos a grande circulação do gênero e-mail e, paralelamente, uma enorme redução no uso do tradicional gênero carta pessoal.

O autor evidencia a diferença entre gênero textual e tipo textual, esclarecendo que tipo textual denomina a construção teórica delimitada pela natureza linguística de sua organização, envolvendo cinco categorias conhecidas como: narração, argumentação, exposição, descrição e injunção. Com base nessa afirmação, ao identificarmos um texto como narrativo, descritivo ou

3

Conforme as palavras de Marcuschi (2007, p. 22): “os tipos de textos são usados para designar uma espécie de sequência teoricamente definida pela natureza linguística de sua composição (aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais, relações lógicas). Em geral os tipos textuais abrangem cerca de meia dúzia de categorias conhecidas como: narração, argumentação, exposição, descrição, injunção”.

argumentativo, como geralmente fazemos na escola, estamos nos referindo ao predomínio de um tipo de sequência e não nomeando um gênero. Ao relacionar os tipos textuais, Marcuschi, com base em Werlich (1973), caracteriza-os de acordo com o predomínio dos seguintes traços:

a) textos narrativos – elemento central: sequência temporal; b) textos descritivos – predomínio das sequências de localização;

c) textos expositivos – predomínio de sequências analíticas ou explicitamente explicativas;

d) textos argumentativos – predomínio de sequências contrastivas explícitas;

e) textos injuntivos – predomínio de sequências imperativas.

Já o gênero textual trata de textos materializados que se encontram em nossa vida diária, com características sociocomunicativas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição característica (Marcuschi, 2008, p. 154-155). Sendo assim, seria quase impossível identificar, em dados numéricos, todos os gêneros existentes, bem como é também pouco provável conhecê-los em sua totalidade, uma vez que Antunes (2002, p. 70) ressalta, “os gêneros se determinam por fatores da situação de uso dos textos” e somente pela análise dos contextos reais de uso, podemos verificar a existência e a funcionalidade de alguns gêneros.

Resumindo, o que caracteriza os gêneros textuais não são somente os aspectos formais, mas as funções que eles exercem nas práticas sociais partilhadas por uma mesma comunidade discursiva. Diante do exposto, os gêneros textuais podem ser definidos como ritos sociais transformados em texto, ou seja, formas verbais de ação social.

Esclarecemos que, nesta pesquisa, estamos adotando a perspectiva teórica de gêneros textuais de Marcuschi, pois acreditamos que, ao valer-se dos gêneros textuais na sala de aula segundo as concepções desse autor, os nossos aprendentes poderão associar o ensino e a aprendizagem às suas práticas

sociais, considerando-se os propósitos comunicativos, o contexto em que eles ocorrem, a sua organização estrutural, entre outros aspectos.

Diante dos pressupostos apresentados anteriormente em relação às contribuições teóricas linguísticas acerca dos estudos dos gêneros textuais, indagamos: de que forma podemos utilizar os gêneros textuais como instrumento para o ensino de leitura e letramento? Por isso, passamos a discorrer, na sequência, a respeito da importância dos gêneros textuais no ensino e na aprendizagem.