• No results found

Engineering the phrase book

In document Meaningful Method Names (sider 81-84)

_____________________________________________________

α__Os dois sóis de 129. Depois do amplo preâmbulo (que a tradição – como é sabido - nos legou

mutilado), em que Cícero expõe o seu plano de escrever um livro sobre o estado e a doutrina política, entendendo que certo tipo de actividades intelectuais também servem os interesses da colectividade, começa o diálogo de re publica1. Públio Cornélio Cipião Emiliano – escreve Cícero em resp. 1.14 - no ano do consulado de Tuditano e Aquílio2 (isto é: 129) decide passar as férias latinas3 na sua villa, que se situava num bairro suburbano a sul do Campo de Marte. Sendo um dia feriado, as élites romanas, normalmente ocupadas em questões de público interesse, podem suspender as suas actividades. É assim que Cipião recebe um número considerável de visitas (o total dos participantes do diálogo será nove). O primeiro a chegar é Quinto Tuberão, filho da irmã de Cipião. Enquanto esperam pela chegada dos outros, Tuberão, como que para fazer tempo, interroga o tio sobre um fenómeno inusitado que se tinha verificado em Roma: visne igitur, quoniam et me

quodam modo invitas et tui spem das, hoc primum Africane videamus, ante quam veniunt alii, quidnam sit de isto altero sole quod nuntiatum est in senatu? O que Tuberão define alter sol é o

fenómeno do parélio, cuja descrição confio de bom grado a M.Ruch: «Nous voici donc ramenés au mois de mai ante mortem Africani, c'est-à-dire aux feriae Latinae, date de la scène définitive du dialogue, date aussi de la parhélie. On sait qu'il s'agit là d'un phénomène astroscopique dû à la réfraction des rayons solaires par les cristaux de glace en suspension dans les hautes régions de l'atmosphère: il se produit une tache ronde, lumineuse, opposée au soleil. L'explication relève donc

* Usarei neste capítulo as formas 'Cipião' e 'Emiliano' para me referir ao Públio Cornélio Cipião nascido em 185/184 e morrido em 129). Usarei a forma 'Africano' para me referir ao Públio Cornélio Cipião avô adoptivo do primeiro (n. 236 - m.183), o qual, especifico, nunca será referido pelo cognomen 'Cipião'. Para informações sobre o Emiliano, remeto para a biografia de A.E.Astin, Scipio Aemilianus (=ASTIN 1967).

1 Sabemos que em maio de 54 Cícero já tinha começado a escrita do de re publica (cf. ad Q.fr. 2.12.1, desse mesmo período). Notícias sobre a composição em ad Att. 4. 14.1 (maio de 54), ad Att. 16.2.2 (junho de 54); ad Q.fr. 3.1.11 (setembro de 54); ad Q. fr. 3.5.1-2 (novembro de 54. Sabemos desta carta que o plano inicial era o de escrever o de

re publica em nove livros, em vez dos seis que agora conhecemos). Desde 54 até 51 o epistolário não nos dá notícias

sobre o de re publica. De ad fam. 8.1.4 (carta de Célio a Cícero, de maio/junho de 51), sabemos que o de re publica circulava em Roma. Outras notícias em ad Att. 5.12.2 (julho de 51); 6.1.8 (fevereiro de 50), 6.2.9 (maio/abril de 50); 7.3.2 (dezembro de 50)

2 Cf. ad Q. fr. 3.5.1.

3 As férias latinas eras férias conceptivae, isto é, tinham uma data móvel, mas – de um modo geral – calhavam na primavera. Ver FOWLER 1916, pp. 95-6.

non de l'astronomie, mais purement de la météorologie»4. M.Ruch também nos relembra que já os antigos davam do fenómeno uma explicação científica de tipo meterológico, conforme se lê na

Meteorologia de Aristóteles (377a-8b)5, em que o parélio é explicado como um fenómeno de refracção da luz (cf. 377a: Γίγνεται γὰρ παρήλιος μὲν ἀνακλωμένης τῆς ὄψεως πρὸς τὸν ἥλιον...).

Voltemos agora ao de re publica; entretanto, o número das visitas já se fez mais numeroso; Filo (resp. 1.21-2) conta então que Sulpício Galo, homem de grande cultura (como nos recordam também as palavras de Cícero em Brutus 78 e as de Suetónio no de poetis [Ter. 4]), um dia em que se encontrava em casa de Marco Marcelo, sendo o tema da conversa o fenómeno do parélio, pediu para que lhe trouxessem o planetário de Arquimedes6, que o avô do seu anfitrião (que também se chamava Marco Marcelo) tinha levado a Roma depois de expugnar Siracusa, em 2127. Tudo deixa supor que mediante esse planetário Galo tenha conseguido dar uma explicação científica dos dois sóis8. Segue uma lacuna (faltam algumas páginas do sexto caderno), depois da qual lemos uma consideração de Cipião sobre um episódio que se tinha verificado em 168, durante as guerras macedónias, nas quais o próprio Emiliano tinha participado, com apenas dezassete anos. A lua - diz Cipião em resp. 1.23 - subitamente tinha desaparecido e o exército foi atacado por religio e metus: «superstição e medo». Também neste caso, o autor de uma explicação científica foi Sulpício Galo, o qual, no dia seguinte, comunicou ao exército que não tinha havido nenhum prodígio, e que o eclipse lunar voltaria a acontecer sempre que a a lua se encontrasse numa posição que a impedisse ser atingida pela luz solar (cf. memini me admodum adulescentulo, cum pater in Macedonia consul

esset et essemus in castris perturbari exercitum nostrum religione et metu, quod serena nocte subito candens et plena luna defecisset. tum ille cum legatus noster esset anno fere ante quam consul est declaratus, haud dubitavit postridie palam in castris docere nullum esse prodigium, idque et tum factum esse et certis temporibus esse semper futurum, cum sol ita locatus fuisset ut lunam suo lumine non posset attingere). Aqui, pelo que parece, Cícero – mediante Cipião – cria uma

contraposição nítida entre os conhecimentos científicos e as crenças supersticiosas. Essa sensação é reforçada pelas palavras de Tuberão, no mesmo resp. 1.23, referidas à maneira como Galo explicou aos soldados que o eclipse lunar não era um prodígio: docere hoc poterat ille homines paene

agrestes, et apud imperitos audebat haec dicere? «Conseguia convencer homens quase agrestes, e

4 RUCH 1954, pp. 205-6.

5 Informações também em Plínio (2.57; 2.71), que depende muito do Aristóteles da Meteorologia, e Séneca (nat.

quaest.1.12) .

6 Sobre o planetário de Arquimedes, ver o quadro sinóptico sobre os testemunhos antigos em DEMING 2010, vol. 1. p. 139. Ver também nat. deor. 2.88.

7 Sobre a conquista de Siracusa, ver Lívio, 25.24.

8 Como nos relembra justamente F.Guillaumont (GUILLAUMONT 1984, pp. 124-5, nota 4), é muito difícil imaginar a maneira como um fenómeno atmosférico, devido a razões meteorológicas, pôde ser ilustrado mediante um planetário; o texto lacunoso decerto não ajuda: «Il y a là une difficulté que personne n'a jamis résolue», diz F.Guillaumont (ibidem).

tinha a ousadia de dizer certas coisas na presença de ignorantes?». São os homens paene agrestes e

imperiti os que se deixam levar pelo terror, enquanto os cultos – categoria que todas as personagens

do de re publica representam – estão bem longe de ceder a certas crenças. O quadro faz-se ainda mais claro quando lemos resp. 1.24: rem enim magnam <erat> adsecutus, quod hominibus

perturbatis inanem religionem timoremque deiecerat. «Tinha conseguido um resultado importante,

isto é, afastar o medo de uma inútil superstição de homens perturbados». Infelizmente, a leitura é interrompida por mais uma lacuna, à qual se segue uma secção (resp. 1.25) em que é referido um episódio do eclipse lunar que apavorou os atenienses durante as guerras peloponesíacas e que Péricles, valendo-se dos ensinamentos de Anaxágoras (do qual tinha sido aluno), explicou cientificamente, livrando o povo do temor. Em suma, o texto do de re publica dá-nos a sensação de que certos fenómenos são objecto de uma apreciação unicamente racional e que, portanto, não são entendidos como prodígios.

Mas seria errado dar a questão por concluída. F.Guillaumont, que – como já vimos no capítulo quinto aquando da análise da opinião privada de Cícero sobre a adivinhação – não descarta a hipótese de o Cícero do de re publica e, mais em geral, o Cícero dos anos 50, ter uma certa sensibilidade para com os fenómenos tidos como prodigiosos, chama a atenção para um dado que pode enriquecer a nossa análise. Ao referir a interpretação de Galo sobre o eclipse de 168, que assustou as tropas acampadas na Macedónia, Cipião, e com ele Cícero, não generalizam: «...il n'est pas sûr qu'il faille appliquer leurs remarques à tous les phénomènes astronomiques, ou météorologiques»9. O estudioso francês também cita dois passos plutarquianos, em que a possibilidade de uma explicação científica não invalida a potencialidade premonitória de determinados acontecimentos. Na Vida de Péricles (6), conta-se que a cabeça de um carneiro, que tinha um só chifre, foi levada a Péricles de uma quinta da sua propriedade. O adivinho Lampão, analisado o chifre duro e robusto que surgia do centro da testa do animal, afirmou que, havendo na cidade dois poderes, um de Tucídides e outro de Péricles, eles acabariam por se concentrar nas mãos daquele ao qual o prodígio unicorne se tinha manifestado. Diferente foi o parecer emitido por Anaxágoras, que – depois de cortar a cabeça do ovino – mostrou que o cérebro não tinha enchido toda a caixa craniana, tendo-se concentrado na zona em que surgia a raiz do chifre, a qual, obstruída, tinha acabado por não se desenvolver. Anaxágoras foi muito admirado pelas pessoas que assistiram à sua explicação, mas a mesma honra tocou pouco depois a Lampão: Tucídides foi deposto e todo o poder passou para Péricles. Eis a maneira como o Queroneu comenta o episódio: ἐκώλυε δ᾽ οὐδέν, οἶμαι, καὶ τὸν φυσικὸν ἐπιτυγχάνειν καὶ τὸν μάντιν, τοῦ μὲν τὴν αἰτίαν, τοῦ δὲ τὸ τέλος καλῶς ἐκλαμβάνοντος. «Nada impedia, creio eu, que quer o cientista quer o adivinho

tivessem razão: um compreendeu bem a causa, um compreendeu bem o fim»10. Na Vida de Nícias (23), da mesma forma, Plutarco – ao falar de um eclipse lunar que apavorou Nícias e os soldados atenienses no delicado período do cerco de Siracusa (em 413) – condena o terror supersticioso pelo qual o general se sente atacado, mas ao mesmo tempo considera que teria sido preferível a presença de um adivinho; essa presença, aliás, poderia ser útil precisamente para afastar Nícias da δεισιδαιμονία. A estes dois passos plutarquianos que F.Guillaumont assinala pode-se bem acrescentar um da Vida de Camilo (5) em que – como já vimos no primeiro capítulo – o Queroneu afirma que, em matéria de prodígios, é preciso saber encontrar o meio termo entre a crença excessiva (τὸ πιστεύειν σφόδρα) e incredulidade excessiva (τὸ λίαν ἀπιστεῖν).

De resto, explicação científica e exegese divinatória podem conviver mesmo no âmbito da teorização estóica sobre a adivinhação. O segundo livro do de divinatione dá óptimas indicações nesse sentido. Tudo – diz Marco no § 60 – tem necessariamente uma causa. As criaturas monstruosas (portenta), nascidas de um homem ou de um animal, têm sempre uma causa. A ignorância das causas faz com que certos factos inusitados encham o homem de medo. Mas uma vez descoberta a causa, nem os ruídos subterrâneos, nem o rachar-se da abóbada celeste, nem uma chuva de pedras, nem uma estrela cadente, nem as chamas no céu espantarão o homem. O ponto de vista de Marco coincide com o de Cipião e Filo. Mas vejamos o ponto de vista estóico, referido pelo próprio Marco no § 61: Quarum (scil. os fenómenos portentosos que Cícero acaba de enumerar)

omnium causas si a Chrysippo quaeram, ipse ille divinationis auctor numquam illa dicet facta fortuito naturalemque rationem omnium reddet. «Se eu perguntasse a Crisipo a causa destes

fenómenos todos, até ele, campeão da adivinhação, nunca diria que aconteceram fortuitamente e deles todos daria uma explicação física». Isto leva a concluir que também para o estóico Crisipo a explicação científica pode conviver com a divinatória, sem haver sobreposições entre as duas: a indagação física explica a origem do fenómeno inusitado, enquanto a interpretação divinatória permite ver no fenómeno inusitado significações premonitórias.

Acrescente-se que Tuberão, ao falar do parélio, especifica, em resp. 1.15, que ele foi anunciado no senado (cf. videamus... quidnam sit de isto altero sole quod nuntiatum est in senatu). Esta informação remete-nos directamente para o âmbito da adivinhação romana: o acontecimento de factos alegadamente prodigiosos era referido no senado, o qual – após avaliação do caso – tinha a possibilidade de convocar o colégio dos arúspices, para que o prodígio fosse interpretado. Foi isso, por exemplo, o que aconteceu em 56, na conjuntura histórica que esteve na origem do de

haruspicum responsis11. Considere-se também que é muito provável que o parélio de 129, de que

10 GUILLAUMONT 1984, p. 125. 11 Cf. supra, cap. 3, nota 22.

Tuberão e os outros falam no de re publica, tenha sido interpretado pelo senso comum como um fenómeno antecipador da morte iminente de Cipião12, que ocorrerá poucos dias depois da data dramática do diálogo e que – como veremos em breve – será explicitamente referida no sexto livro do de re publica, no âmbito do relato do sonho profético. Em nat. deor. 2.14, Balbo, ao indicar as quatro causas que, segundo Cleantes, formam no homem a noção de deus, indica uma longa série de fenómenos que geram espanto e que não podem senão ser imputados à divindade (cf. quibus

exterriti homines vim quandam esse caelestem et divinam suspicati sunt). Entre esses fenómenos,

Balbo coloca o do sol geminatus, que – especifica o porta-voz do estoicismo – se verificou no ano da morte de Cipião13 (o qual, por sinal, é definido sol alter). Existe outro dado que pode dar a esta secção preliminar do de re publica uma conotação religiosa. Em resp. 1.25, Cipião fala de um eclipse solar que coincidiu com a morte de Rómulo14. Esse mesmo episódio será referido novamente em resp. 2.17 e 6.24. F.Guillaumont nota que Cícero nunca afirma abertamente a existência de uma ligação directa entre o eclipse e a morte de Rómulo. E acrescenta: «Peut-être est-ce un effet du hasard. Mais l'insistance qu'il met à rappeler cette coïncidence est troublante»15.

Podemos então concluir que Cícero, mesmo não a referindo explicitamente, deixava em aberto a possibilidade de o parélio ser um fenómeno antecipador de eventos? Eu tendo a dizer que não. Julgo ser possível conceder que as explicações científicas do parélio e do eclipse dadas pelas personagens do de re publica visam ilustrar a causa dos fenómenos naturais, e não se interrogam sobre o problema do fim, isto é, sobre a possibilidade de esses fenómenos estarem destinados à prenunciação. Isso cria de alguma forma uma folga onde a interpretação dupla do parélio, entendido como fenómeno natural e ao mesmo tempo premonitório, se pode facilmente inserir. Mas há um caso que pode quebrar esse equilíbrio. Refiro-me ao eclipse que ocorreu no ano da morte de Rómulo. Em resp. 1.25, Cipião afirma que, como testemunham o poeta Énio e os annales maximi, a capacidade de se prever com precisão se tinha tornado extremamente precisa já nos tempos antigos, a tal ponto que - a partir mais ou menos de 350 a.u.c (cf. anno trecentesimo quinquagesimo fere

post Romam conditam), foi possível calcular ao recuo todos os eclipses solares anteriores, inclusive

a que se registou no último ano de reinado de Rómulo, em 716 (37 a.u.c.), precisamente no dia 7 de julho. E depois acrescenta: quibus quidem Romulum tenebris etiamsi natura ad humanum exitum

12 Sobre esse aspecto, ver RUCH 1948, p. 165; RUCH 1954, pp. 207-11; RUCH 1958, pp. 237; 241.

13 Outro sinal da ideia de prenunciação que circulava à volta da morte de Cipião pode ser visto no de fato. Aqui, a morte de Cipião é indicada como exemplo romano de evento que, segundo a lógica megárica, era necessária. É oportuno especificar que a morte de Cipião, neste passo do de fato, não se encontra associada a nenhum evento astronómico preciso; é no entanto significativo, na minha opinião, o facto de ser escolhido precisamente Cipião como exemplo notável de morte necessária. Sobre este aspecto, de uma perspectiva mais ampla e mais completa da que aqui apresentei, ver CALDINI MONTANARI 1984, pp. 37-8.

14 Cf. também Séneca, ep. 108.31 (= Fenestela, Annales, fr. 6 Peter). 15 GUILLAUMONT 1984, p. 126.

abripuit, virtus tamen in caelum dicitur sustulisse.', «embora tenha sido a natureza a arrastar

Rómulo para o fim da sua vida no meio daquelas trevas, diz-se contudo que a sua virtude o levou ao céu».

Aqui, pelo que me parece, o racionalismo abrange não apenas a explicação do fenómeno natural, como também o evento que, segundo uma leitura religiosa, o eclipse anteciparia ou indicaria. Rómulo morreu por causas naturais, e a sua ascensão ao céu, devida à sua virtus, é apresentada como uma crença popular. Note-se, a esse propósito, a dicotomia sugerida pela concessiva etiamsi e a forma verbal dicitur: Este reparo parece-me ir no sentido de desmistificar não apenas o eclipse, como também a morte do primeiro rei. A coincidência dos dois factos é apresentada como sendo casual. É claro que, ao aplicarmos obstinadamente (mas nem por isso menos legitimamente) a lógica sugerida por F.Guillaumont, a morte de Rómulo pode ser entendida como uma morte devida a causas naturais e mesmo assim antecipada ou indicada pelo eclipse. Mas – pergunto eu – Cícero insistiria tanto sobre as explicações racionais, se não quisesse dar aos fenómenos naturais inusitados um estatuto unicamente físico, desprovido de qualquer significação religiosa? Poder-se-ia objectar, com o mesmo F.Guillaumont, que a explicação de resp. 1.25 se refere ao eclipse solar, e não ao parélio. «Scipion, et Cicéron à travers lui, ne généralisent pas», diria o estudioso francês16. Mas – pergunto mais uma vez – Cícero teria inserido, mediante Cipião, uma explicação tão lucidamente racional do eclipse e da morte de Rómulo, se não lhe tivesse atribuído um valor emblemático, e como tal sujeito a ser estendido também ao parélio e à morte do Emiliano?

Esclarecido que, pelo menos na minha opinião, o parélio de 129 era para Cícero nada mais que um fenómeno natural a que a explicação científica subtraía qualquer valor premonitório, não podemos esquecer o que foi dito aquando da leitura de nat. deor. 2.14: Balbo, ao referir o fenómeno atmosférico em estreita conexão com a morte de Cipião (cf. quod [scil. o parélio] ut e patre audivi,

Tuditano et Aquilio consulibus evenerat, quo quidem anno P. Africanus sol alter, extinctus est),

deixa intuir que era opinião difundida que os dois eventos estivessem associados; daqui a considerar o parélio como um evento prenunciador da morte do Emiliano, a distância não devia ser muito grande. À luz dos dados que foram expostos supra, a conclusão mais plausível que se pode tirar é no meu ver a seguinte: Cícero torna o parélio de 129 um evento evocativo da morte de Cipião (que ocorrerá poucos dias depois da data dramática do diálogo), mas só do ponto de vista da narrativa interna à obra. Com efeito, é difícil supor que o Arpinate, ao dedicar tão amplo espaço ao fenómenos dos dois sóis – que fazia parte dos acontecimentos que podiam ser relatados ao senado enquanto prodígios – não tivesse em mente as fortes implicações simbólicas da sua operação. Da

mesma forma, dificilmente não terá tido em consideração a possibilidade de o eclipse que ocorreu no ano da morte de Rómulo, referido em resp. 1.25, 2.17 e 6.24, ser interpretado como um prodígio antecipador. Mas é precisamente à luz desse simbolismo que a explicação racional oferecida por Filo e Cipião adquire um significado muito importante: Cícero, mediante as duas personagens do diálogo, terá procurado opor uma interpretação científica a uma interpretação supersticiosa de carácter popular17. Valendo-se habilmente de uma opinião consagrada pelo senso comum, o autor conseguia favorecer as instâncias racionalistas e, ao mesmo tempo, dar à narração uma intensa carga dramática.

Esta, porém, é só uma das razões que terão levado Cícero a dedicar um espaço tão amplo espaço e a um problema atmosférico, sem uma conexão directa com a linha mestre da discussão do de re

publica, que é politica18. Na verdade, como nos recorda J.E.G.Zetzel, ao introduzir a reflexão sobre o parélio o escritor Cícero tinha razões bem válidas e diversificadas19. Com efeito, o parélio permitia uma utilização simbólica extraordinariamente diversificada. Além da razão dramático- narrativa que já vimos, o fenómeno dos dois sóis funcionava como uma óptima metáfora dos problemas políticos que afectavam Roma na altura em que o diálogo é contextualizado. O pano de fundo é o da reforma agrária promovida por Tibério Graco, que – como veremos infra (pp. 159-60)

provocou uma fractura na sociedade romana: uma sociedade dividida em duas, tal como a imagem solar depois da refracção da luz. Significativas as palavras de Lélio em resp. 1.19: quid enim mihi

L. Pauli nepos (scil. Tuberão)... quaerit quo modo duo soles visi sint, non quaerit cur in una re publica duo senatus et duo paene iam populi sint? «Mas porque é que o neto de Lúcio Paulo me

pergunta o motivo por que apareceram dois sóis, e não pergunta o motivo por que num estado único existem dois senados e, no ponto em que estamos, como que dois povos?».

Outra possível função da discussão sobre os dois sóis é a de exaltar a importância dos

In document Meaningful Method Names (sider 81-84)