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Como vimos, Sandra aparecia nas sessões como uma avó com sede de lutar pelo que houvesse de melhor para Nayara, sem dúvidas de que o melhor para sua neta era estar com a mãe. Contudo, era exatamente este ponto que exigia um enorme esforço de Sandra: a avó precisava lutar para que a mãe quisesse estar com a filha e cuidar da menina. Ora, a presença de Nara não só nas sessões, mas de volta na vida de Sandra e Nayara era algo que inaugurava a possibilidade de restabelecer o laço e o vínculo entre essas três gerações. Sandra se agarrava à oportunidade de poder convocar Nara para ocupar o lugar de mãe de Nayara.

Nara, pouco a pouco, saía da posição de vítima de sua própria história, e com isso, podia recuperar seu papel de autora de sua vida. A menina-mãe que desenhava casinhas e flores nas sessões junto à filha já não era mais alguém que vivia reclamando das responsabilidades que sua mãe lhe convocava, nem tampouco das tarefas que a maternidade lhe exigia. Nara pôde estabelecer uma nova relação com Nayara, de modo que, em

determinado momento, a mãe viu surgir a necessidade de manter Sandra um pouco mais afastada da relação entre ela e a filha, pois não precisava mais de Sandra como intermediária e ponto de ligação com Nayara. Ela queria recuperar seu lugar de autoridade com a filha. A mãe parecia estar pronta para cortar o fio conector, uma vez que uma conexão de outra ordem já havia se instalado.

Nayara aprendeu a respeitar a mãe e inaugurou seu espaço de relembrar e reinventar sua história. A atividade preferida de Nayara se tornou brincar de casinha. A casinha da menina era sempre enorme e contava com toda a família, tanto do pai, quanto da mãe, morando sob o mesmo teto. Eu era a única pessoa que tinha uma casa separada. Nas brincadeiras de Nayara, eu morava sozinha e era sua vizinha. A menina me visitava várias vezes por sessão. Nayara também me telefonava pedindo que eu a visitasse, informando que estava com saudades. Nayara experimentava através das brincadeiras uma construção lúdica diferente, na qual era possível visitar, rever e falar sobre aqueles que faziam falta.

No entanto, em determinadas sessões, Nayara chegava nervosa e irritada dizendo queria matar seu pai, porque ele havia se esquecido dela. Assim, foi possível conversar sobre o quanto era sofrido ser esquecida pelo pai, que prometia visitas, passeios e viagens, no entanto, quase nunca cumpria o combinado, posto que surgia algum outro compromisso que o impedia de estar com a filha. Como vimos, mãe e filha eram atravessadas pelas marcas doloridas de serem trocadas por algo mais interessante. Entretanto, nesta ocasião era permitido falar sobre as dificuldades de lidar com isso.

Nayara, logo em seguida, arrumou uma filha boneca inseparável para suas brincadeiras. A menina se tornara mãe e não abandonava a filha boneca por nenhum segundo nas sessões. Depois disso, enquanto Nara se permitia despertar seu lado mulher, trazendo as lembranças de seu passado à tona, Nayara concluía: "agora falta só um marido pra mim, a

filha eu já tenho. Vou achar um marido e sair com ele pra passear, enquanto isso você fica cuidando da minha filha!!" (sic). A menina estava muito identificada com sua mãe. Era como se a pequena revivesse, através da história de sua mãe, a possibilidade de que uma mulher existisse concomitantemente, embora não coincidentemente, com a existência de uma mãe.

Nayara pôde ouvir não só a história de sua mãe, mas também a sua própria história, que emergia, conforme as lembranças de Nara eram acessadas. Além disso, a menina pôde ouvir os impasses de sua mãe com relação à posição de filha e pôde descobrir que as mães não nascem mães, elas se tornam mães. Ela também descobriu que as avós não nascem avós, esse percurso é todo constituído. Todos nós aprendíamos muito com aquelas descobertas fundamentais.

Nara contou sobre como a filha chegou em sua vida, como sua vida mudou com a presença da filha e como a relação entre ela e Nayara foi sendo construída desde os primeiros momentos. Nayara pôde sentir raiva por tudo o que ouvia, pôde ficar brava. A menina sentiu ciúmes da mãe com os rapazes com quem ela conversava e tudo isso pôde ser dito, acessado e significado no decorrer do trabalho terapêutico.

A pequena Nayara também começou a fazer perguntas sobre como eram as coisas quando ela nasceu, onde a mãe dela morava, se a mãe e o pai foram namorados, se eles iriam se casar algum dia etc. As sessões estreavam um espaço de diálogo entre mãe e filha. Era um espaço de compartilhamento de histórias. Um espaço em que o passado podia emergir e ser (re)significado. Com isso, a menina pôde falar sobre a violência do abandono, da saudade, da rejeição, do excesso de disputas... Nayara seguia sua vida com as inquietações, dúvidas e perguntas que rondam a fantasia e o crescimento de todas as crianças, em meio ao processo de descobrir o mundo, desvendar sua origem e inventar-se.

A menina não era mais o objeto de guerra entre a mãe e o pai, nem tampouco entre a avó e o pai ou entre a avó e a mãe. Nayara pôde ir se discriminando desse objeto. A pequena tinha conquistado seu lugar nas sessões, na vida da mãe e na história entre sua mãe e seu pai. Nara, cautelosamente, foi capaz de construir seu lugar de mãe, se autorizando a embarcar nessa missão e se implicando na criação da filha. Sandra pôde assumir uma posição um pouco mais distante, de modo que não era mais ela a peça de encaixe elementar que conectaria Nara e Nayara. Sandra podia, enfim, assumir seu lugar de avó, uma vez que Nara era a responsável por Nayara.

Sandra, Nara e Nayara puderam finalmente significar suas lembranças confusas, como no trecho da obra Infância, de Graciliano Ramos, que deu início a esta seção. Essas três mulheres puderam dissipar a escuridão e o silêncio que envolviam sua origem, puderam

reunir pedaços de si mesmas que boiavam no passado confuso, puderam articular tudo como

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