Já afirmei anteriormente que as alas, oriundas do universo cultural e simbólico do funk, foram levadas às torcidas após a interdição dos bailes e permaneceram como unidade fundamental de coesão na torcida. Entretanto, também as alas passaram a ser objeto de atenção das autoridades, preocupadas em dissolver a violência oriunda das torcidas. Para meu espanto, um funcionário da Cearamor, numa conversa, anunciou que as alas haviam sido proibidas na torcida.
Ala na Cearamor tá proibida, hoje não existe mais Ala não... Hoje só é o bairro! E a gente tá acabando com esse negócio de bairro também... Assim, chegar no estádio gritando “uh, é não sei o que, uh não sei o que”, não. É só Cearamor, hoje em dia o pessoal tem que gritar só Cearamor. Isso tá mudando, não mudou ainda não.
O meu estranhamento veio da contradição entre esta proibição formal e a materialidade física e simbólica das alas como princípio organizador da torcida. Quando digo da materialidade física, me refiro, por exemplo, às camisas, às faixas espalhadas pelo estádio, ou onde quer que a torcida esteja. Mas, sobretudo, essa materialidade remete à organização dos integrantes: o deslocamento para o estádio, o percurso dentro deste, o posicionamento no espaço reservado à torcida, enfim... Como eu já havia afirmado, se o “torcedor comum” é um torcedor no singular, o torcedor organizado nunca o é, ele sempre estará acompanhado pelo seu grupo, pela sua ala, portanto. E esta se anunciará enquanto tal. A ala funcionava como uma espécie de sobrenome, um lugar no mundo capaz de situar seus integrantes. Por isso, o integrante da Cearamor se referiu, com um ligeiro atordoamento, à interdição das alas.
Foi feita até uma reunião com a promotora... Ala Terror, Ala Mal, Ala não sei que... Foi tudo... Diz ela que incentiva a violência, só, que, pro pessoal, era uma maneira de se chamar o bairro, pra não dizer ah é... Pra dividir o bairro, por exemplo: o Rodolfo, tem o da TUF gay, é um núcleo, e o da Cearamor, já tava dizendo é o Rodolfo Cearamor.
A fala denota uma incerteza, uma ambigüidade comum ao estar preso entre dois lugares: o de funcionário da torcida – que precisa mediar a relação com os órgãos responsáveis pela suposta legalidade e segurança social –, e o lugar de torcedor organizado. E, neste caso, não de um torcedor qualquer, de um antigo, que viveu a época dos bailes funks e que iniciou a própria identificação de torcedor neste celeiro simbólico e cultural.
A fala é de alguém familiarizado com a territorialização dos bairros pelos jovens integrantes das alas. Quando ele diz que é só um jeito de dividir o bairro entre torcidas diferentes, ele não questiona essa divisão como o lugar gerador dos conflitos. Ele não a vê, passa por ela porque não a reconhece como estranha. Justamente por isso, a sua concordância com a promotora que decidiu pela extinção das alas vem através de uma fala hesitante, esgarçada, que não entende muito bem o próprio porquê.
E é por isso que, a despeito das determinações legais, as alas permaneceram. A astúcia juvenil as rebatizou, passaram a ser os bairros. A despeito da pressão das autoridades pela sua dissolução num todo homogêneo e pacífico, elas persistem. E devo dizer que, de certa forma, sem as alas a torcida organizada não seria possível. Tanto que existe uma disputa significativa em torno de determinados bairros da cidade, que se mostram hesitantes entre a Cearamor e a M.O.F.I. Os presidentes e diretores tentam manter seus bairros, conquistar outros. Também as punições e expulsões são aplicadas a bairros inteiros, e não a indivíduos isolados. Na verdade uma nova denominação começa a se insinuar: os “comandos”, uma alternativa mais “ameaçadora” que a noção de bairro. Mas a sua utilização ainda é reduzida. Ainda. Então, por hora, importa pensar sobre a categoria de gangue.
Bem, em uma das ocasiões em que estive com os meninos do Barroso II, ouvindo as suas narrativas, percebi que um deles, especialmente, apresentava um semblante mais ameaçador, apesar de sua pequena estatura e magreza adolescente. A sua fala, as suas posturas, tudo denotava uma agressividade potencial significativa. À medida que ele me respondia percebi que ele mesmo ficou extremamente perturbado com a minha naturalidade ao escutá-lo, com a minha ausência de espanto. Com dezoito anos, não estudava nem trabalhava, morava com o pai, um vigia noturno. A mãe, separada do pai, viveria em outra casa e era traficante de drogas.
Ao me contar sobre a profissão da mãe, percebi a sua expectativa em ler no meu rosto a censura, o rechaço e a reação ao estigma. Como me mantive alheia a isso, ele, como quem quer testar os limites do outro, me perguntou se eu queria ver uma foto
de sua mãe. Todos os outros rapazes riram violentamente, numa mistura de desdém e provocação. Eu, obviamente, disse que sim, que gostaria de ver a foto de uma mãe tão querida, cujo filho amoroso tatuou o nome dela em seu corpo. Então ele mostrou. Na fotografia, uma mulher de trinta e cinco a quarenta anos, cabelos tingidos num tom de louro escuro, segurava um grande baseado.
Peguei a foto, as risadas cresceram, eles se empurravam.... Observei-a alguns instantes, cuidadosamente, com atenção. Desloquei o meu olhar da foto para o rapaz e dele para a foto, repetidamente. Então, exclamei: “menino, mas você tem os olhos iguaizinhos aos da sua mãe! Bonita ela, jovem... Nem parece que tem filho desse tamanhão”. Impressionantemente todos se calaram. Ele, muito intrigado, olhou fundo pra mim e disse: “Olha a tia! A tia é “gangueira”, não é”? Olhando-o com a mesma intensidade, respondi: “Não sei, posso até ser... O que é ser gangueira”? Ele me esclareceu: “É a amizade, todos por um”!
Esta significação da gangue como sinônimo de amizade e de unidade é recorrente em quase todas as falas dos que se autodefinem assim. Entretanto, a gangue apresenta uma marcação social mais definida: o gangueiro é do bairro, é pobre, briga e rouba. Se autodefinir como gangueiro é potencializar ao máximo o uso do estigma, na medida em que a designação traz, inapelavelmente, a significação do roubo e da briga como características estruturantes. É o caso de L, dezenove anos, torcedor organizado e morador do bairro Piedade. L já foi preso justamente pelas brigas entre bairros. Quando perguntei sobre a relevância das alas, ele me respondeu quase com indiferença: “não tem muita diferença não”. Todavia, quando fiz a pergunta de outro jeito, e inquiri sobre a relevância do bairro, eu vi o brilho da excitação em seus olhos. “Ora, é muito importante, né? Ora! É a galera, a gangue! Né não, tia”? Perguntei ao rapaz do que ele não gostava na torcida, o que era ruim. Ele mal me deixou terminar a pergunta, como se esperasse por ela: “Ora, tia, os playboy, né? Corta a força. A torcida tem que ter é bandido, ladrão que responda”.
Como se pode ver, existe uma fluidez de significações que permitem que, ora se fale de ala, ora se fale de bairro e, ainda, ora se fale de gangue. Não fosse pela interdição, talvez as alas ainda prevalecessem enquanto marcação simbólica mais usual. Todavia, a gangue, mesmo tendo características em comum com o bairro e a ala, puxa para si práticas que circunscrevem o seu conteúdo significativo e social, associando-se ao roubo e às brigas de uma maneira mais direta e clara. Quer dizer, enquanto a noção de bairro pode ainda reivindicar a sua inserção no campo de uma suposta normalidade e
legalidade social, camuflando práticas estigmatizadas, a noção de gangue toma tais práticas e as ostenta, numa inversão total da normatividade socialmente aceita, em pura subversão simbólica e, portanto, material.