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2 Theory

4.3 Results

4.3.1 Energy Consumption

Como ficam os símbolos religiosos quando a religião se seculariza? É importante lembrar que Vattimo, seguindo a trilha de Gadamer, não dispensa a tradição e, no caso da religião, toda a carga simbólica expressa nas doutrinas, na espiritualidade ou na Bíblia. Esses símbolos não devem ser descartados mas precisam ser secularizados para que tenham algum significado para o homem do nosso tempo.

Em Acreditar em acreditar Vattimo diz que não é escandaloso pensar que a revelação bíblica ainda está em curso e que por isso não deve ser pensada como uma

verdade dada de uma vez para sempre. Ele parte da compreensão de que Jesus, intérprete do Antigo Testamento, ao anunciar a vinda do Espírito Santo, o Espírito da verdade que continuaria ensinado aos discípulos, dá seqüência ao processo de reinterpretação da Bíblia.

Em Depois da cristandade Vattimo fala sobre a leitura “espiritualizada” da Bíblia, que é uma interpretação livre de autoritarismos e literalismos, em que o mais importante não é compreender o que o “verdadeiro” sentido do texto expressa, mas é compreendê-lo de forma “plena” (DC, p. 39). Reportando a Schleiermacher, é permitir que o texto bíblico fale livremente à compreensão das pessoas, é permitir que o leitor se torne também o autor da Bíblia. Mas, quais as possíveis conseqüências positivas dessa leitura “espiritualizada”?

Uma leitura mais espiritual do texto bíblico, e dos dogmas cristãos de forma geral, parece ser hoje uma demanda que serve não apenas para reconhecer a essência profundamente religiosa de tantos aspectos da religiosidade secularizada, mas também para tornar possível o diálogo ecumênico das igrejas cristãs entre si e delas com as outras religiões. O reconhecimento dos direitos iguais para as culturas outras, que no plano político ocorreu com o final do colonialismo e no plano teórico com a dissolução das “metanarrativas” eurocêntricas, no caso das igrejas cristãs exige o abandono dos comportamentos “missionários”, isto é, da pretensão de levar ao mundo pagão a verdade única (DC, p. 64).

Talvez a grande possibilidade dessa leitura esteja na abertura a formas de apropriação da mensagem a partir de culturas não-cristãs ou não vinculadas ao ensino oficial das igrejas. Diante do reconhecimento da verdade das outras religiões é necessário esforço para se colocar em evidência o ponto central da mensagem cristã, que é o amor, isso porque exige muitas vezes o desvinculamento das leituras tradicionais. Esse “afrouxamento” da literalidade da Bíblia não é somente uma possibilidade, para a igreja é uma necessidade, porque “Enquanto permanecer prisioneira da rede de sua ‘metafísica natural’ e de seu literalismo (...), a igreja não conseguirá jamais dialogar livre e fraternamente não só com outras confissões cristãs, mas sobretudo com as outras grandes religiões do mundo” (II, p. 69).

Essa forma de ler a Bíblia que passa pela noção de ser como Ereignis, de forma que torna impossível qualquer tentativa de tomar o texto como portador de verdades imutáveis, encontra inspiração, ainda que de forma bastante livre, na “teologia da história” de Joaquim de Fiore, em que a história seria dividida em três momentos equivalentes às três pessoas da Trindade: o primeiro momento seria a idade do Pai, em que o ser humano viveria debaixo da lei e que é caracterizado por um

relacionamento com Deus de servidão; o segundo momento seria a idade do Filho, aí o ser humano já não viveria mais debaixo da lei mas da graça, o relacionamento de servidão filial; o terceiro momento, ou “terceira idade”, seria a idade do Espírito, nesse último momento – que Joaquim dizia estar apenas prevendo a partir das Escrituras, ainda não vivendo, mas que para Vattimo já estamos em parte vivendo mas com a possibilidade de nunca o concretizarmos – a graça seria mais perfeita e a relação seria de liberdade. Esse último momento Vattimo relaciona livremente com a pós-modernidade enquanto época da dissolução das estruturas fortes da metafísica. Vattimo acredita que Joaquim com essa teoria modificou e completou as varias teorias interpretativas da Idade Media. Os eventos narrados no texto bíblico deixam de ser apenas provedores de mensagens diretas à vida dos leitores e passam a apontar para eventos futuros da história da salvação. A crítica vattimiana a Joaquim consiste basicamente em existir um aspecto por demais rígido em seu pensamento: a leitura das narrações bíblicas como “eventos ‘objetivamente’ verdadeiros ou, pior, como profecias de fatos destinados a acontecer ‘realmente’ no plano histórico/mundano” (DC, p. 42). Diante disso Vattimoexplica que

Os sinais da aproximação da terceira idade, que hoje chamamos de época do fim da metafísica obviamente não são para nós os mesmos de que falava Gioacchino. Todavia, no que tange o significado fundamental da idade do Espírito (...) a obra de Gioacchino ainda nos serve de guia, e podemos até mesmo ousar pensar que o longo processo de secularização que nos separa da época histórica do abade calabrês tenha sido um preenchimento de condições que aproximam o advento da terceira idade (DC, p. 45).

Essa leitura só encontra sentido se levamos em consideração a kénosis como o momento em que Deus abandona sua divindade, se enfraquece, dando origem ao processo de destranscendentalização. Nessa perspectiva também podemos ler outros símbolos da fé cristã e até de outras religiões porque “Cristo não desmente os mitos e as estórias de deuses falsos e mentirosos; torna-os, pela primeira vez, capazes de simbolizar o divino” – no mesmo pé de igualdade dos mitos e estórias bíblicas (PAI, p. 82).

Quanto aos conteúdos da fé, também podem ser lidos nessa perspectiva “espiritualizada”. O seguinte exemplo nos ajuda a compreender isso:

Se recito o credo, ou até se rezo, as palavras que uso não têm para mim o som realista que os adeptos de uma fé concebida pensam dever atribuir- lhe. Assim, se chamo a Deus “pai” carregarei este termo de um conjunto de referências que têm a ver com a minha experiência histórica mas também com a minha biografia e que não ignoram o caráter problemático

de atribuir à divindade traços humanos e, para além disso, ligados a um determinado modelo de família (AA, p. 75).

Outro exemplo de secularização dos elementos da fé é a compreensão de Vattimo a respeito de pecado. Partindo da tradição bíblica ele diz que da mesma forma que a circuncisão como, condição para se fazer parte do povo de Deus, e a guarda do sábado foram revogadas, alguns pecados (que ainda são considerados pecados) também deveriam ser. Ele fala a partir da compreensão de pecado como quebra de preceitos morais sexuais e familiares pregados pelas igrejas. Uma possível ressignificação seria a de entender pecado como deixar de amar a quem deveríamos – ao próximo e até mesmo a Deus.

Essa leitura não é um tipo de racionalização dos elementos da fé. É uma re- significação, de maneira que tenha sentido para o homem de hoje. Secularizar a fé não quer dizes o fim do elemento mitológico da experiência religiosa (seria isso possível?) já que a superação da metafísica implica na idéia de que não há um verdadeiro ser.