O atendimento de Cecília foi desafiador também neste sentido, da transformação do self da criança e das repercussões no ambiente familiar. Quando fui ao encontro da paciente, na sala de espera, encontrei-a em pé, mirando pela janela com olhar muito distante. O corte de cabelo e as vestimentas que trajava, tornavam aquela jovem de 12 anos, muito assemelhada a um menino. Enquanto permanecia absorta, não respondendo ao meu chamado, a madrasta, que a acompanhava, apressou-se em abordar-me acerca das dificuldades da garota na convivência cotidiana, referindo desobediência e fugas do lar. Naquele local público, ela relatou que a enteada era muito problemática, que odiava tomar banho, ir à escola e auxiliar nos afazeres domésticos.
‘ Já tentei colocar a menina no psicólogo mas ela não parou. É difícil doutora, tenho medo dela se perder. Agora está dando de pegar coisas das colegas e trazer para casa. Vamos ver se a senhora consegue alguma coisa com ela. Já estou a ponto de me separar do meu marido, por tanta briga lá em casa, só por causa dela.’
Chamei a garota e a conduzi à sala de atendimento, para contornar a excessiva exposição produzida por sua acompanhante. Ela seguiu-me silenciosa, com expressão inamistosa e contrariada. A ficarmos sós, Cecília devotou-me um olhar de quem buscava algo, o que me estimulou a abordá-la. Perguntei como ela estava, e a menina mostrou-se disposta a colaborar no contexto de ajuda. Falou espontaneamente sobre o que julgava ser o seu problema, parecendo necessitar muito de um interlocutor:
‘É que aconteceu aquilo comigo...aquela coisa ruim que acontece com as mulheres solteiras. E então eu fui no médico e ele falou que eu não era mais virgem. Quero esquecer o
que aconteceu, mas não consigo tirar isso da minha cabeça. Acho que a minha vida está estragada de vez, agora que eu estou perdida. Eu me perdi.’
(...) Então eu saio de casa e fico na rua para não ficar mais triste. Eu desço na Rua do Pecado, mas não faço nada demais. Fico lá ouvindo música e só, mas ninguém entende!’
Aquela menina pareceu-me à beira de um despenhadeiro, pronta a lançar-se nos desvãos da prostituição e da marginalidade, pelo forte sentimento de indignidade e desvalorização que a dominava. Ao revelar-me o processo de autodenegrimento pela perda corpórea sofrida, ela evidenciava estar movida por um rígido código moral internalizado, que a vitimizava. Visando conferir a tenacidade da conexão que ela estabelecia entre haver sido desvirginada e sentir-se irremediavelmente estragada, provoquei-a a falar-me sobre sua história. Estava aflita, abaixando a cabeça e trançando os dedos das mãos de unhas corroídas, enquanto argumentava que ‘nenhum
menino mais iria querer ficar com ela a sério, casar... sabia que todos pensavam assim, o pai, a madrasta, as amigas’. Reconhecia que brigava muito em casa com todos, não porque não gostasse deles, mas se sentia muito nervosa e revoltada com o que era a vida dela.
Cecília parecia uma criança que havia quebrado um brinquedo valioso, na plena posse da impulsividade. Agora lastimava o ocorrido e sentia o peso das recriminações das pessoas que a rodeavam, o que a tornava ainda mais condenável e irreparável aos olhos de todos. ‘Bem feito!
Quem mandou fazer o que não devia?’, parecia ser o que lhe diziam em casa. Ela ansiava por uma mamãe (ambiente) que pudesse se aproximar dela, consolá-la e reunir seus pedaços, mostrando que nem tudo estava perdido, desde que retomasse o uso lúdico das pessoas e objetos e reativasse a esperança. Ela estava ‘perdida’ frente à lacuna instaurada, desconectada, ela tentava recuperar um senso de mãe e de holding para não enlouquecer. A inaceitação de seu self
corporal pelo meio, a levava à recusa a limpar-se, enfeitar-se como uma menina, sentir-se íntegra e não depreciada e estragada. Considerei de forma mais abrangente o feminino que Cecília não podia portar, pois ser menino era flagrantemente mais vantajoso, como ela percebia nos caprichos que circundavam a vida do irmão, na atenuação dos feitos praticados pelos homens agressores. Às mulheres só ocorriam ‘coisas ruins’, conforme legislava afetivamente em sua ordenação interna. Na escola que freqüentava era afastada do convívio das garotas, que talvez pudessem auxiliá-la a transformar o cenário de impossibilidades identificatórias. Cecília era vista como ‘masculinizada demais’.
O encaminhamento à instituição decorreu de denúncia encaminhada pela direção da escola, após constatação de graves ferimentos corpóreos. Ela apresentava marcas pelo corpo e couro cabeludo, decorrentes das surras e pauladas de que fora vítima no lar. A menina referia sentir tanto medo nos momentos de agressão, que quando se desencorajava de permanecer diante da fúria dos agressores, ela fugia e se refugiava no chiqueirinho do quintal, até as coisas se acalmarem. Dizia ter aprendido a ‘chorar por dentro, para não se mostrar fraca para os outros’.
A madrasta, a própria mãe e o pai batiam ‘merecidamente’ nela, que já nem chorava mais ao ser surrada, ‘porque era justo’, disse-me a garota. Submeter-se, era a única maneira de receber o amor de que necessitava, e o qual não podia dispensar. Assim como outras crianças que respondem aos maus-tratos com desafios e provocações, Cecília vinha a avalizar a violência contra si mesma, por sentir-se responsável pela desagregação do ambiente. As crianças vulneráveis encontram dificuldades, no início da prática abusiva, em diferenciar ou reconhecer os excessos no disciplinamento corporal. Aprisionadas nos circuitos dos maus-tratos, elas podem provocar o abusador a desferir ainda mais ataques sobre ela, como uma alternativa de obter controle e domínio naquele quadro penoso.
Por mais temível que se configurasse a tragédia do lugar a ela destinado, encontrava um assentimento da parte de Cecília, que vislumbrava nas imputações injustas e condenatórias, alguma forma de cuidado e desvelo do outro para com ela. ... Afinal, ela necessitava agarrar-se a algo para não se ‘perder’ de vez, na voragem da agonia sem fim.
Quando me referi com prudência, à falta que fazia uma mãe reparadora e positiva para auxiliá-la a se proteger e a amar o seu corpo e o seu viver, ela respondeu-me duramente, forçando um ar de desdém:
‘Nada a ver... minha mãe nem gosta de mim! Resolvi esquecer ela também! Só fico brava porque a minha madrasta fica nervosa comigo às vezes.’
A veemência da resposta apontava para o oposto da desimportância do vínculo materno, como ela afirmava. Cecília afirmou que procurava não se importar com lembranças, porque a mãe era “seca” com ela, e afirmou que por este motivo também estava ficando assim quando pensava nela. Pensar na mãe a fazia sentir, ainda que fosse revolta e mágoa. E assim aparentemente ressequida, a paciente foi-me relatando sua história, repleta de manifestações de grave negligência, desilusões, sedução e abandonos. Ela experimentou toda sorte de distorções e de abusos, que a empurravam para as manifestações anti-sociais, tendendo para a irrecuperabilidade, embora mantivesse a seiva da sensibilidade. Havia esperança.
Afirmava ‘querer melhorar mas não conseguia, por mais que tentasse’, via-se fazendo as mesmas ‘coisas más’ para as pessoas, tais como mentir e pegar coisas dos outros sem autorização. À medida que falava, ela ia evidenciando sinais de crescente perturbação, encurvando-se e transpirando muito nas mãos, no rosto, o que apontava para uma desorganização depressiva que atingia toda a sua corporeidade. Era como se ela chorasse pelas mãos, as lágrimas que já não liberava pelos olhos, esses, palco de um enorme vazio. Contudo, nossa conversa modificava seu semblante .
Soube que seus pais haviam se separado por decisão da mãe, que as entregou à família paterna, por duas vezes, a ela e à irmã menor, alegando não poder criá-las. Em uma das visitas ela inesperadamente raptou as filhas, com 8 e 6 anos respectivamente, e as levou para a capital, onde residia. A expectativa da paciente de permanecer próxima e cuidada pela figura materna logo se esvaiu, e Cecília teve que ir trabalhar na rua, pedindo esmolas para sobreviver ou vendendo objetos que o namorado da mãe comercializava. Este indivíduo abusou sexualmente da menina aproveitando-se das ausências da mãe, que costumava se demorar por dias seguidos em paradeiro desconhecido, deixando as filhas com vizinhos ou trancadas em casa. Viveram por dois anos assim, enormemente desassistidas, até que o pai, descobrindo o paradeiro das filhas foi resgatá-las, e as trouxe de volta para viver com a família. Cecília surpreendeu-se com o novo
contexto familiar com o qual se deparou, não somente pelo reencontro com o pai que julgava falecido, conforme as informações da mãe, mas porque constatou que havia uma madrasta com uma filha de 15 anos, e um meio-irmão, filho pequeno desse novo relacionamento. Na consulta, a garota chorou muito quando se referiu às mentiras apregoadas pela mãe, à dor de lidar com a enganosa morte do pai, e ao sofrimento por não conseguir adaptar-se à nova vida dele. Estranhei que nenhuma menção fosse feita ao abusador, provavelmente porque sua participação fosse secundária à luta de Cecília pelo afeto materno.
As crianças vitimizadas buscam avidamente o objeto de reconhecimento e de sustentação, porém, ao se depararem com figuras inconfiáveis e praticantes do desmentido, vêm-se mergulhadas em estados de vergonha, culpa, ódio e confusão. Os relatos de Cecília configuraram-me que ela sabia que seria esperado dela um envolvimento com a situação incestuosa. As meninas ‘consentem’ com as manobras perversas, por conta de uma expectativa na relação com a mãe, na esperança de finalmente obterem um olhar de atenção, de valorização e de aprovação. Diante da não-retribuição, elas devotam às progenitoras grande parte de seus ressentimentos pelo que sofreram, ordem de afetos que afetará a constituição de sua feminilidade. Eu compreendia que a menina, abusada reiteradamente, encontrava-se perdida, chegando a não mais poder confiar nos próprios sentidos e percepções. Era flagrante a intensidade da reação da paciente em resposta à alusão que fiz à mãe. Denunciava que algo vivo da relação de ambas era ferrenhamente preservado, sob o manto do ódio, do menosprezo, e dos auto-ataques. Ficar perdida para uma vida digna a tornava assemelhada à mãe do pecado, da mentira, do rapto, para quem ela sentia que necessitava desesperadamente ser alguém.
‘Nunca vou querer ter uma vida como a da minha mãe. Ela foi boba de casar e ter filhos. Agora só sabe sofrer e chorar, a vida dela tá perdida.’ Entoavam Cecília e outras garotas atendidas ao longo da pesquisa, quase em coro. As mulheres descritas pelas filhas não se apresentavam como espelhos, nos quais elas pudessem se mirar. Ao contrário, elas eram vividas como despojadas, derrotadas, vítimas infelizes e co-dependentes de uma relação naufragada, ou de uma sucessão delas.
Temos um quadro de colagem, de separações impossíveis. Ao mesmo tempo em que as garotas repudiavam a vida e o corpo maternos, buscando amputar-se deles, elas encontravam uma forma de conservá-las em si, tal como ‘membros-fantasmas’. Abria-se uma ferida nunca cicatrizada, devida ao brutal desinvestimento. As mães raivosas, inconfiáveis, mantinham as filhas atadas a si mesmas numa modalidade de relacionamento narcisista, que as tornava alternadamente odiadas e amadas, e se convertiam concomitantemente no objeto buscado e repelido. Esta modalidade de ausência que remete ao desamparo, e à presença permanente do
objeto rechaçante e rechaçado como uma sombra, virá tingir todas as futuras relações afetivas das filhas, numa espécie maligna de contágio. Marcas negativizantes decorrentes dos vínculos empobrecidos, encontravam-se na matriz do ser dessas pacientes, severamente atacadas nas tentativas de construção de uma identidade feminina que viesse a ser valorizada. Marcas que deveriam ser alcançadas e transformadas no decorrer dos atendimentos, ponto de partida para a mudança identitária, rumo à potência autêntica e construtiva de seu ser.
Ao demonstrar na consulta suas dores pelas profundas ambigüidades, Cecília via abrir-se um importante espaço psíquico para si, capaz de circunscrever as vivências traumáticas e dotá- las de alguma ordenação, alcançando e transformando as defesas dissociativas.
No retorno ao lar paterno, as previsíveis dificuldades de adaptação à nova família foram se intensificando. Cecília encontrava-se, então, em meio à mesma confrontação abusiva, agora sem o respaldo do progenitor. Como anteriormente servira de instrumento entre a mãe e o padrasto, ela foi colocada entre o pai e sua parceira, em litígio. Era uma situação por ela conhecida, voltando a esmolar, desta vez em casa, pelo afeto familiar.
O sofrimento intensificou-se quando ela resolveu revelar tudo sobre o abuso, almejando complacência, porém todos se voltaram contra a garota. O pai não se conformava com o fato de a
filha dele haver permanecido tanto tempo trancafiada com o abusador, ‘porque ela não pedira
socorro, não fugira?’, argüiam-na. O pai e a madrasta julgavam-na repetidas vezes, afirmando que ela gostara da ‘sem-vergonhice’, e que ela ‘fez tudo aquilo porque queria.’ As alegações que a incriminavam e poupavam a ação do abusador, visto como ‘fazendo o papel dele de homem’, continham o aspecto ainda mais nefasto do trauma que ela revelava.
Uma breve e interessante observação sobre a patologia do abusador, pode ser encontrada em Winnicott (1966), sobre a identificação feminina dos homens adultos com as meninas, as quais iniciam na experiência sexual. Seu elemento feminino ex-cindido, leva-os a reiteradas buscas por novas presas, vítimas nas quais buscarão suscitar o desejo que se sintam capazes de saciar. A condição infantil dos desviados os leva ao temor da mulher adulta, e à necessidade de reafirmação da própria potência num contexto no qual angústias de castração podem ser contornadas. Cecília fora uma das vítimas de um pervertido, e sofrera a bruta experiência do corpo feminino ainda em arquitetura, sumariamente roubado. Como reavê-lo senão voltando-se à mãe, contra ela, no próprio corpo dela?
Os familiares que julgavam a menina, não compreendiam as circunstâncias dos abusos que, conforme parecia indicar no caso de Cecília, dispensam violência física. As criançasEsta forma de abordagem dos menores em condições de dependência do abusador, que implica em estratégias poderosas de convencimento e de sedução, mentiras e chantagens, está
freqüentemente associada à violência psicológica. É certo que o uso da força física não constitui um indicador seguro da ocorrência de vitimização sexual, especialmente em crianças, cujo ‘consentimento’ e entrega do corpo ocorrem a partir da degradação da auto-estima e, fundamentalmente, da perda dos nexos e sentidos de si, como ocorrera com esta paciente.
Azevedo e Guerra (2000) assim como Furniss (1993), realizaram amplas pesquisas sobre a família incestogênica, alertando para esta etapa do circuito abusivo, ou seja quando os membros passam a responsabilizar e a odiar a vítima pela consecução da prática transgressora. Elas ressaltaram o incabível de adotarmos a tese do livre consentimento, mesmo em circunstâncias de não-violentação física. O meu trabalho com pacientes que, como Cecília, foram seviciados e tornaram-se ‘adictos’ à figura do abusador e ao contexto do abuso, seja pelo ódio ou pela satisfação, convenceram-me também nesta direção. Não há como onerar ainda mais as crianças, que sofreram a quebra de confiabilidade, com uma compreensão que as incrimine. Não podemos fazer equivaler o silêncio frente ao abuso, como conivência, pois há que se considerar a imensa vulnerabilidade das vítimas, atropeladas que foram em importantes processos constitutivos. Elas agem simplesmente na busca de controlar e metabolizar uma situação que as transborda. Adictas ao contexto do abuso, as jovens tentarão obter alimento, carinho, atenção, vantagens ou o que quer que seja, pela via da sexualização.
Constatei nas vítimas um misto de curiosidade ou mesmo de temer acerca de sua convocação para o leito de adultos. O investimento parcial e excitatório de que se sentem objeto, as aprisiona num circuito de relações do qual amargam derrotas. Entendo que a participação da criança no contexto abusivo e mesmo a reprodução dessas experiências com irmãos menores ou com outros parceiros, como verifiquei, são táticas de sobrevivência, e remetem ao desgosto e ao vazio oriundos das falhas originais.
Havia ainda uma outra grave conseqüência, com a obtusão dos afetos apropriados à situação. Em vez de poder sentir as raivas e a indignação apropriadas, manifestando-se zangada pelas carências, Cecília enredou-se em idéias auto-acusatórias, perdida em meio à culpa e ao desgosto por suas supostas tendências perversas e pecaminosas. As fantasias sádicas de vingança e castigo ao emergirem, revertiam-se para o seu eu, cobrando-a com infelicitações e condenações.
Uma criança assim, que acolheu esse jorro de projeção maligna para dentro de si, poderá estar tão embotada emocionalmente, que nada mais terá qualquer significado para ela, além de usar as relações para expurgar os fragmentos do trauma. Libertá-la do contexto do abuso, seria uma alternativa fundamental para auxiliar a paciente a ressignificar o acontecimento fundante do sofrimento, e a alcançar melhor resolução de sua evidente amargura. Para tanto recorri, na
abordagem inicial da paciente, a uma estratégia mais direta e realística de sua história, com nuances desculpabilizantes e reasseguradoras138, que objetivavam contrabalançar a consumição de que a garota era vítima.
Anne Alvarez, analista canadense com larga margem de experiência com crianças e jovens severamente perturbados, ao discutir os aspectos da técnica psicanalítica em circunstâncias de crise, levou-me a refletir sobre o caso de Cecília, em que tantas urgências se impunham. Parece-me justificável produzir guinadas na técnica, como ela propôs, para socorrer pacientes politraumatizados, ou os pacientes regredidos, de acordo com a discussão empreendida por Winnicott (1954-5). Cito Alvarez:
“ Não adianta perguntar a uma pessoa que se afoga o que ela sente enquanto afunda; é preciso oferecer-lhe uma corda para que ela possa chegar à margem, dar-lhe uma xícara de chá quente, para que, aos poucos, ela possa contar como se sentiu naqueles momentos de terror.” (...) Mas isso talvez seja apenas reasseguramento, não é psicanálise. Podemos argumentar que isso é psicanálise para uma
criança traumatizada, que está em crise.”139
Apresentando noções assemelhadas às de Winnicott, Alvarez (1994) trabalhou com crianças seviciadas e demonstrou que se tornam fragmentadas, embotadas e que precisam ser reunidas de modo a terem um senso de “Eu”, “Você” e “Ele”. Tal capacidade requer a construção de um equipamento mental com o qual se possa incluir e pensar a experiência. A terapia deve viabilizar a construção e a preservação desse equipamento, e não contrariamente supor equações simbólicas sobre a situação do abuso. É preciso facilitar o desenvolvimento da simbolização para abarcar a vivência traumática. A matriz do pensamento de Alvarez, que alertou para a urgência do atendimento psicoterápico em casos de crianças precocemente traumatizadas, é substanciada pela sua concepção da terapia focada na situação traumática, a
138 Lucia Fuks argumenta, parece-me nesta direção, ao discutir ‘Sobrevivência e Elaboração’ nos processos de análise dos pacientes vítimas de abuso sexual, defendendo o uso dos incentivos advindos do externo, associados às ‘experiências intersubjetivas de restituição-reparação’. Eles atuam como fortalecedores e mobilizadores das forças internas, na reversão do trauma. In: Percurso, Ano XVIII, n. 36, 1ºsemestre de 2006.
139 Grifo meu. Anne Alvarez, Caso clínico “Valéria”. In: Seminários Clínicos e Temáticos: Anne Alvarez em São
Paulo. Acervo Psicanalítico da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. São Paulo, 1999, p. 122-123. Winnicott (1954-5) em “Aspectos clínicos e metapsicológicos da regressão dentro do setting psicanalítico”, colocou em discussão o aspecto da tranqüilização na análise, como traduzido no português. Permito-me inferir, com alguma legitimidade, que o termo reassurence na edição inglesa, faz mais jus aos pressupostos winnicottianos mais basais, em referência ao holding. O reasseguramento, como um segurar duplo, reforçado, como me permito raciocinar, inspira a confiança renovada, e é inerente a toda análise de modo inegável. O analista reassegura que estará lá onde o paciente necessita, fornecendo a ele um setting fidedigno e íntegro, por ter uma confiança nos processos maturacionais, e não recusar a regressão necessitada. A tranqüilização como gratificação, como consolo e compensação ativa, constitui o avesso da psicanálise, pois é decorrente de um tecnicismo que submete o paciente e obtura seus processos, resultando de inabilidades contratransferenciais. Agradeço a Janete Frochtengarten e a Eliana B. P. Leite, as conversas que empreendemos a propósito da tradução deste termo, e que me auxiliaram na escolha