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Em carta dirigida a jovens investigadores, Novoa (2015) apresenta assim um dos seus conselhos para investigação educacional: “Conhece bem as regras da tua ciência” (p. 14). Ser investigador na área da educação, como em qualquer outra área científica, implica conhecer o estado da arte do campo que se investiga, do paradigma onde nos circunscrevemos às regras e metodologias mais usuais, do conhecimento existente às possibilidades de (re)criação do mesmo. Contudo, quando o autor conclui esse mesmo conselho dizendo: “mas não deixes de arriscar e de transgredir”, está a relembrar que a ciência é feita frequentemente fora dos consensos, no que é desviante ou no que intriga.

Assim, a exploração de referentes teóricos tem por finalidade descobrir o campo teórico onde se articula a problemática que se procura conhecer e transformar, delineado nos mais importantes contributos teóricos aportados para a área científica em questão, território onde tentaremos fundear a nossa própria experiência de intervenção/investigação. O trabalho científico, feito de conjeturas e possibilidades mas também de transgressão e descoberta (Nóvoa, 2015, p. 15), faz-se assim sobre o trabalho anteriormente feito, ou seja, sobre os ombros de gigantes. Contudo, a nossa investigação não surge com a pretensão de fazer aumentar o conhecimento existente, mas apenas no sentido de permitir intervir de forma mais sustentada e produtiva no contexto do projeto que abraçamos.

Ao propor, como subtítulo para este trabalho académico, uma dinamização literácica e cultural num espaço bibliotecário, abrimos um conjunto de vetores que nos conduziram a uma reflexão aprofundada sobre algumas das dimensões contidas nesta proposta. Estes referentes teóricos assumem uma importância crucial no desenvolvimento deste projeto, justificando práticas diferenciadoras, na medida em que, sendo conduzidas pela teoria, estas práticas a ela retornam constantemente. A investigação educacional, principalmente a que se desenvolve no âmbito do paradigma qualitativo, não é um processo linear mas interativo (Aires, 2011, p. 14). Isto não significa que se possa investigar sem uma fundamentação teórica, mas apenas que o desenvolvimento da prática conduz a sucessivos níveis de reflexão, progressivamente mais sistematizadas, no sentido de melhor orientar a compreensão da realidade, e que em todas essas fases a teoria é convocada e (re)interpretada.

O nosso trabalho de investigação resultou assim no conjunto de ideias que consideramos serem as mais pertinentes para o desenvolvimento deste projeto, os contributos teóricos que

seguidamente trataremos de sistematizar. Este esforço passará também pela demarcação, a bold (negrito), de frases que nos parecem basilares, ideias-chave que serão os faróis da nossa navegação.

A literacia é agora o conceito através do qual é aferida a capacidade para lidar com informação, uma vez que se trata de uma abordagem complexa e rica, quer em termos de amplitude quer de profundidade, e que abre um enorme leque de possibilidades literácicas. Logo, a literacia configura um continuum mais informativo e esclarecedor do que o simples conceito de alfabetização. Para trabalhar com adultos num projeto desta natureza é importante perceber qual a relação deste público-alvo com a informação, nomeadamente com a informação escrita, sendo certo que a alfabetização deixou de ser um conceito útil para este propósito, uma vez que os adultos já serão (praticamente) todos alfabetizados, e isso, não obstante, pouco nos revela sobre as suas capacidades para lidar com diferentes tipos de informação.

A possibilidade de aceder à informação escrita e a capacidade de a descodificar, processo que tem na leitura a sua dinâmica mais expressiva, é uma das melhores formas de conhecer e de dar novos sentidos ao mundo, sendo também o melhor caminho para nos posicionarmos nele de forma crítica e esclarecida, assumindo assim o nosso papel de sujeitos e não de objetos. Para além de elucidar sobre o papel da leitura, a nossa reflexão permite também fundamentar que a leitura do mundo é tão importante como a leitura da palavra, e de que estas diferentes abordagens se retroalimentam. Acrescentar ainda que a escrita é também fundamental em qualquer processo de dinamização literácica, e que os adultos se devem envolver com atividades deste tipo uma vez que a leitura se complementa na escrita, e vice-versa.

Os caminhos da competência leitora cruzam-se com diversos estudos sobre hábitos de leitura dos portugueses, trabalhos que poderão, no entanto, espelhar verdades ligeiramente desfasadas da realidade. Mesmo com o desdobrando dos materiais legíveis, os números insistem em classificar a maioria dos adultos como leitores regulares, apesar de serem vários os indicadores que teimam em contrariar estes dados. Assim se depreende que, os hábitos de leitura são difíceis de aferir, e os dados obtidos sobre a realidade portuguesa pouco congruentes. Independentemente dos motivos desta incoerência, que poderão ser parcialmente imputados a fenómenos de massa (televisão), existem fatores bem mais desconcertantes gerados pela sociedade de informação, ao contribuir, por exemplo, para um inequívoco afastamento com as práticas de leitura e escrita em suporte tradicional (papel), mas enraizando, indubitavelmente, toda a sua atividade em processos desta natureza.

A pós-modernidade e o advento das novas tecnologias de informação são responsáveis por leituras paradoxais que vão sendo feitas sobre determinadas realidades, resultando em ideias

desconcertantes sobre as quais importa refletir. Como exemplo, a consideração de que nunca se leu e escreveu tanto como hoje, ou que no mundo académico se escreve muito e lê pouco. Daniel Pennac, no seu pequeno grande livro, obra que aparenta ser já uma referência incontornável na reflexão sobre hábitos de leitura, enumera e consagra os direitos que assistem aos leitores, começando com o direito de não ler. A articulação deste direito, de inquietante sinceridade e frieza, com os paradoxos da pós- modernidade, argumentos que estremecem consensos, promove a necessidade urgente de (re)equacionar estratégias de promoção da leitura.

O contexto das bibliotecas merece especial atenção neste enquadramento, fruto do contexto onde nasce e se desenrola este projeto académico, na tentativa de perceber qual o papel que têm desempenhado na promoção da leitura junto dos adultos, e a relevância que poderão assumir na senda dessa missão. A visita que efetuamos à BLCS, aquando da entrevista que nos foi concedida pela sua diretora, permite desvelar algumas das dinâmicas próprias que este espaço assume, estratégias diferenciadoras que redefinem o conceito de biblioteca como até aqui tem sido entendido, e que poderão apontar para caminhos alternativos e mais profícuos no envolvimento dos adultos com as leituras. Desta forma, o estudo sobre estes equipamentos educativos e culturais elucida que estão mais próximos de cumprir a função para a qual foram idealizados quando se preocupam com a criação de contextos, ao invés de se centrarem nos conteúdos. Logo, as bibliotecas não deveriam ser apenas espaços com livros, mas, sobretudo, espaços com estratégias. A construção de estratégias enquadra-se no âmbito da valorização de contextos, sendo que a cultura, em todas as suas manifestações, se configura como um dos mais ricos e completos contextos de desenvolvimento pessoal.

A natureza da instituição que acolhe o projeto “Leituras e Leitores” justifica a inclusão da problemática da valorização cultural como referente teórico. Sendo provavelmente um dos conceitos mais difíceis de definir, porquanto fácil de perceber mas difícil de explicar, a cultura impõe-se, naturalmente, como uma forma de estar e de construção identitária no relacionamento com o outro e com o mundo. Para além disso, a cultura é também um constructo social que deve ser sentido e vivido, expressões da presença e atividade humanas que resultam em património que deve ser valorizado e salvaguardado, tanto na sua vertente material como imaterial. Contudo, se a valorização do património cultural implica a sua salvaguarda, ela implica também, e sobretudo, o seu conhecimento e dinamização. A dinamização do património cultural passa pelo envolvimento com os seus elementos constituintes, bem como pela participação nos fatores que a corporizam. No fundo,

trata-se de uma responsabilização social que apela para uma cultura de participação cívica e de cidadania ativa.

A cidadania é uma construção frágil que nunca se pode dar como adquirida, definitiva ou irreversível. O seu esforço passa pela resolução da tensão permanente entre direitos e deveres, trabalho que se reflete no reconhecimento do conceito de humanidade, da forma como é concretizado às possibilidades que urge idealizar. Deste modo, os direitos que, progressivamente, se vão conquistando (ou perdendo!), moldam a dignidade humana, com consequências óbvias para as dimensões da liberdade e da autonomia. Assim, a cidadania é um processo contextualizado, porquanto o compromisso entre direitos e deveres articula-se num determinado contexto histórico e social, de que resulta o desenvolvimento de competências cognitivas, éticas e sociais. A prática da cidadania (ativa) é garante de dignidade humana, havendo uma relação direta entre cidadania e competência leitora.

4. ENQUADRAMENTO METODOLÓGICO DO ESTÁGIO