O governador Fernão de Sousa (20/6/1624 a 4/9/1630) foi mandado a Angola para salvar a colônia da ruína causada pela ganância dos governadores passados. Os lucros da colonização deveriam ser revertidos exclusivamente para a Coroa, sendo preferencialmente obtidos pelo comércio e não pela guerra. O rei mandava que se desenvolvesse a mineração de cobre em Benguela e estimulasse a agricultura através da concessão de terras.280
O rei lhe passou instruções para que fizesse todo o possível para ter paz e amizade com Ngola Mbandi e tê-lo sob obediência, assim como deveria agir com todos os sobas, “por meios brandos e sem rigor.” Reconhecia que governadores passados moveram guerras injustas contra sobados em benefício próprio e decretou que os sobas que aceitassem a evangelização em seu território não deveriam ser obrigados a pagarem tributos. O rei sistematizou melhor a taxação dos sobas, e para que não houvesse excessos, determinou que os baculamentos deveriam ser pagos voluntariamente pelos sobas que recebessem ajuda militar contra seus inimigos, caracterizando assim a relação de vassalagem.281 Segundo seus cálculos, em 1624, havia 81 sobas que pagavam voluntariamente cerca de 320 escravos, o que rendia 22 mil réis a Coroa, e havia outros 109 sobas que poderiam vir a ser tributários se a guerra não os incomodasse. Assim a
279 Livros de Fernão de Souza, Tomo I, fl. 326 ao fundo, e tomo III, fl. 30. Em nota do anotador de
Cadornega. Vol. I. p. 153
280Instrução secreta do rei ao governador. 19/03/1624. Em Heintze, 1985. doc. 03. p.136-137. 281Regimento do governador de Angola. 20/03/1624. Em Heintze, 1985. doc. 04. p.145.
122 Coroa estimava que o comércio pacífico e a cobrança “sem extorsões e com suavidade” seriam mais lucrativos que a guerra.
Mas antes que Fernão de Sousa pudesse realizar as ordens régias, Ngola Mbandi morreu na ilha de Kindonga. A data de sua morte é incerta. Curvelier afirmou que Ngola Mbandi morreu no final de 1623282. Heintze situou sua morte na primavera de 1624, mas utilizou a divisão de estações do ano pelo ponto de vista do hemisfério norte.283 Sabemos que ele morreu entre março, quando o rei recomendou a Fernão de Sousa ter paz com o Ngola, e junho de 1624, quando o governador chegou a Angola e encontrou a crise de sucessão.
Segundo Cadornega, Ngola Mbandi teria adoecido e morrido de causas naturais.284 Cavazzi descreveu Ngola Mbandi como um soberano déspota, que assumiu o poder violentamente, governou com a espada e assassinou os seus possíveis sucessores, dentre eles o filho de Nzinga, que passou a odiá-lo. Na visão eurocêntrica de Cavazzi, foi Ngola Mbandi que invadiu as conquistas portuguesas, sendo derrotado e obrigado a se refugiar na ilha de Danji. Na sua narrativa, Ngola Mbandi foi sitiado pelos portugueses e abandonado pelos seus, “de maneira que não teve outro remédio senão morrer de veneno que, conforme o boato, lhe foi entregue pela própria Jinga”, que quis vingar a morte de seu filho. A narrativa de Cavazzi apresenta a visão dos fatos segundo a concepção portuguesa, nem menciona o não cumprimento do acordo de 1622 e tem vários erros cronológicos graves, por exemplo, diz que Ngola Mbandi morreu em 1627.285 Esses boatos de que fala Cavazzi circulavam nas décadas de 1650-1660, muitos anos depois das intensas guerras de perseguição contra Nzinga, que afetaram negativamente sua imagem diante dos portugueses.
As cartas de Fernão de Sousa revelam informações importantes sobre esta passagem, e estão bem mais próximas temporalmente do evento. Em 15 de Agosto de 1624, o governador escreveu ao governo noticiando a morte do soberano:
“El Rey d‟Angola he falecido de hus pôs de peçonha que tomou de paixão por lhe não cumprir o governador João Correa de Souza a promessa que lhe tinha feito de mudar o presídio da Embaça pera a Luynha conforme ao assento que se tinha tomado sobre isso
282Curvelier. Biographie coloniale belge. Vol.II. p. 741. Em Cavazzi. P.70. Em nota 283Heintze. Angola nos séculos XVI e XII. P.182.
284Cadornega. Vol.I.p.53 285
123 per autos que ficao em meu poder. Deixou nomeada no trono Dona Anna de Souza sua irmã que esta baptisada, mas ella se não nomea senão senhora d‟Angola. Tenho carta sua em que me diz que mudando o presídio se sahira logo das ilhas donde esta (ilha de Quindonga) e se passará para a terra firme e que fará as feiras na Quiçala onde se costumavao fazer, e que mandará aos seus que venhão a ellas,e que tragão peças por o ter assy assentado com os seus macotas, que são os do conselho, e que semeará as terras, e pedirá padres da Companhia para baptizarem os que quizerem fazer christãos, e o seu tendala, que he a pessoa principal se quer logo baptizar e pede ao Bispo lhe mande levantar igrejas, e que se lhe mande hua pessoa de respeito pêra tratar distas coisas. Pólas razões que se apontão no auto que fez João Correa, e no que fez Pero di Souza, retificou o Bispo servindo de governador, que todos tenho em meu poder, me parece que será de grandi serviço de Deos, e di Vossa Magestade mudarse o presídio da Embaça pera a Luynha por não aver nisso perigo por estar o Reyno muito pobre, e falto de gente, e quando parecer tornar a situar o presídio onde esta podesse fazer, e perdendo esta boa ocasião, que Dona Anna offerece do Christianismo,e abrir dos caminhos e principiar feiras não se tornara a ter tão boa, o que importa muito para a Fazenda di Vossa Magestade e bem comum disti Reyno em que há grande falta de peças.”286
Em outro documento, escrito ainda em 1624, Fernão de Sousa escreveu:
“E vendo ElRei Angolla estas dilaçoens que eram enganos, e de paixão morreo e dizem que de peçonha que ele mesmo tomou de desesperado. Morto ele ficou em seu lugar Dona Ana de Sousa Ginga Ambande que já era cristã, e avizou o Bispo de sua morte pedindo cumprimento dos autos a que o Bispo não deu cumprimento logo.”287
Os documentos evidenciam o suicídio de Ngola Mbadi por desgosto. O não cumprimento do acordo de 1622 por parte dos governadores portugueses aparece como causa direta da morte. Nzinga aparece como soberana legitimamente nomeada, cristã, disposta a regularizar o comércio no Ndongo e negociar com os governadores portugueses, assim, é vista como uma aliada, como uma ótima oportunidade para se firmar a paz no Ndongo e retomar as feiras. Chamamos atenção para a abrupta mudança de opinião de Fernão de Sousa em relação a Nzinga Mbandi ao longo de seu governo, que será analisada a seguir.
Seguindo as interpretações de Miller, em que a morte simbolizaria a extinção do título e não apenas da pessoa288, a morte de Ngola Mbandi pode ser entendida como um
suicídio político,uma vez que ele estava derrotado e sem o apoio dos seus, só lhe caberia morrer, deixando vago o cargo de Ngola.
286 Carta de Fernão de Sousa ao governo. 15/8/1624. Em Heintze. Fontes para a história de Angola.
1988. Vol.II p.85. doc. 36
287História das relações entre a Angola portuguesa e o Ndongo- 1617 a 1624. 1ª parte. Em Heintze.
Fontes para a história de Angola.1985. Vol.I. doc.23. p.196. Ver também 2ª parte da História das relações... Heintze, 1985. doc. 24 p. 199.
124 Ngola Mbandi deixou seu único filho sob a guarda do Jaga Caza. Cadornega registrou que o soberano deixou seu herdeiro com o Jaga Caza, por não se fiar em Nzinga.289 Cavazzi escreveu que Nzinga Mbandi mandou afogar seu sobrinho no Kwanza após fingir amor a Caza.290 Caza certamente era um grande guerreiro que seria capaz de educar o futuro Ngola nas artes da guerra e protege-lo. Mas protege-lo de quem? Quem mais concorria ao trono do Ndongo e ameaçava a vida do futuro herdeiro? Os documentos de Fernão de Sousa deixam transparecer que Ngola Mbandi desejava proteger o filho dos portugueses, que seriam já neste momento a maior ameaça à soberania do Ndongo: “O pouco que possuhya deixou encomendado a Dona Ana de Sousa sua irmã e em poder do jagua Caza hum só filho por lhe parecer que estava com ele mais seguro de nós.”291
Todas as fontes afirmam que a guarda do sobrinho - e das insígnias de poder - foram delegadas ao Jaga Caza, mas pouco se refletiu sobre esta tutela. Seria este o mesmo Jaga Caza Cangola que agiu ao lado de Vasoncelos para invadir o Ndongo e depois se rebelou?292 O que significou a escolha de um Jaga para proteger o herdeiro do trono do Ndongo? Sinaliza que os Jagas já tinha um grande prestígio na corte do Ndongo, e tinham uma relação próxima com o Ngola, a tal ponto que lhes foi confiada a sucessão do reino. Redinha mencionou que “alguns antigos Ngolas usaram o título de Jaga, embra não esteja esclarecido em que medida o título correspondia a alguma entidade étnica ou grupal, ou constituía designação honorífica”. 293
Fernão de Sousa registrou que Nzinga, “através de dádivas que deu ao Jaga Caza”, recebeu o sobrinho e o matou para assumir o poder. Ele enxergou descuido do Bispo Simão de Mascarenhas, seu antecessor, porque se este houvesse pedido o herdeiro ao Jaga “pudera metelo no Reyno gem nome de Vossa Magestade com que
289Cadornega. Vol.I.p.53
290 Cavazzi. Vol.II.p.106-107.
291História das relações entre a Angola portuguesa e o Ndongo- 1617 a setembro de 1625. 2ª parte. Em
Heintze. Fontes para a história de Angola.1985. Vol.I.doc.24. p. 199.
292Heintze afirma que sim, seria D. João Casa Cangola. Em 1985. P.199. nota 22.
293Redinha, José. Boletim Cultural da Câmara Municipal de Luanda, Nº 23, Abril - Junho, 1969, páginas
25-31. Disponível em: http://introestudohistangola.blogspot.com.br/2006/05/31-donde-vem-o-nome- angola.html
125 ficava tudo seguro”294, já mostrando seu desejo de intervir na escolha do governante do Ndongo.
Em dezembro de 1624, Fernão de Sousa escreveu ao governo dando conta do terrível cenário da conquista: os holandeses ameaçavam o litoral e seriam ajudados pelo rei do Congo, que preparava um ataque por terra; faltavam soldados e alimentos para as tropas e presídios; a indisciplina nos pelotões era tamanha que todos queriam ser capitães. Completa a carta noticiando:
“Dona Anna senhora de Angola me aperta muito que lhe cumpra a palavra que lhe deu o governador João Correa de Sousa, e que lhe mude o presídio da Embaça, e que logo se passará para terra firme, e mandará buscar padres da Companhia, e levantará igreja, e fará feiras largandolhe Vossa Magestade os quizicos e sovas que com a guerra que diz se lhe fez injusta lhe tomarão do que tenho dado conta, e apontado as razões que pera isso há, fico esperando hordem pera seguir a que for em mais serviço de Vossa Magestade.295” (grifo nosso)
Fernão de Sousa mostrava-se favorável à retirada de Ambaca, que a esta altura não era um entreposto importante, difícil de guarnecer, “muito sujeito a cobiça dos brancos”.296 João Correia de Souza já havia aprovado junto à Câmara a mudança de Ambaca para o Luinha, em posto que facilitasse a defesa do território, pensando em promover a paz com o Ngola e retomar as feiras no Ndongo. Apesar de aprovada e enviada ao rei, a ação não foi realizada pelos sucessores de João Correia, evidenciando a ruptura da política colonial a cada mudança de governo. Quando chegou a Angola, Fernão de Sousa prometeu a Nzinga retirar-se dali, aguardando somente a ordem de Felipe III para isto. Justificou sua demora por ainda não ter chegado no reino João Correia de Sousa para melhor apreciação dos fatos pelo rei.297 Bento Banha Cardoso também defendia a saída de Ambaca, pois em sua opinião o presídio estava condenado a extinguir-se devido a grande distancia que o separava de Luanda e estava muito vulnerável a algum levantamento298. No final de 1624, a câmara de Luanda decidiu que a retirada de Ambaca só ocorreria após ordem expressa do rei e que os ijiku injustamente tomados por Luiz Mendes de Vasconcelos só seriam devolvidos após
294História das relações entre a Angola portuguesa e o Ndongo- 1617 a setembro de 1625. 2ª parte. Em
Heintze. Fontes para a história de Angola.1985. Vol.I.doc.24. p. 199.
295Idem. p.199.
296Idem. p.198.
297Extenso relatório do governador a seus filhos. 1630. Em Heintze, 1985. Doc.30.p. 227.
298Arquivo Histórico Ultramarino (AHU). E-83. Citado por Parreira. Economia e sociedade na época da
126 Nzinga se avassalar.299 Ao invés de se retirar de Ambaca, o governo se fortaleceu na região e inaugurou ali uma feira de escravos ainda em 1624.300 A partir deste momento, Ambaca ganhou cada vez mais importância no avanço da colonização portuguesa e tornou-se pólo de irradiação da “cultura atlântica criola”. 301