O futebol em seus primórdios emergiu como um interessante e aglutinador momento/espaço de lazer, tanto no seu despontar na Inglaterra quanto em seu desembarcar no Brasil, neste último, nas bagagens dos filhos da aristocracia local que retornavam de temporadas de estudos na Europa como também nas de marinheiros e imigrantes que aportavam em terras brasileiras, como nos revela a historiografia sobre o tema. Ao acompanhar os processos históricos de desenvolvimento societal, sejam eles tecnológico, econômicos, morais, éticos etc., este desporto transcendeu o caráter restritivamente lúdico.
Imbricado em uma complexa “rede de relações de interdependência” (ELIAS, 2001), composta por diversos agentes e agências, com desdobramentos econômicos e simbólicos em vários setores da sociedade, o “futebol profissional”49 conseguiu com o passar
dos anos tornar-se um fenômeno sociocultural de abrangência global50, ganhando espaço de
destaque dentro da indústria esportiva – espécie de subproduto ou ramificação da “indústria cultural” (ADORNO, 2000) – tornando-se um “símbolo da cultura brasileira” (DAMATA et al, 2010).
Entre as décadas de 60 a 80, inspirados por uma leitura tanto quanto reducionista do marxismo, e embasados por um viés da teoria crítica da Escola de Frankfurt, alguns autores começaram a analisar o processo de profissionalização dos desportos, inclusive do futebolístico, como um produto da cultura competitiva e do individualismo exacerbado, elementos cada vez mais presentes na sociedade graças a existência de uma ideologia dominante e notadamente burguesa.
Foi apenas na década de 80 que as ciências sociais no Brasil começaram a sistematizar uma produção sobre a irradiação do futebol em nossa sociedade. Segundo o antropólogo Luiz H. de Toledo (2002) esses trabalhos tinham em comum tanto o fato de se distanciarem da tese do futebol ser “o ópio do povo”, quanto pelo fato de compartilharem da hipótese que a passagem do amadorismo para profissionalização desse desporto estava correlata ao próprio processo de urbanização das cidades brasileiras.
Boa parte dos estudos que sustentavam essa proposição seguiam o esteio da teoria elisiana e sua perspectiva “configuracional”. Em síntese, os sociólogos Norbert Elias e Eric Duning, no livro “Em Busca da Excitação” (1992), elaboraram uma “sociogênese” do desporto moderno, focando no processo de transição pelo qual passou os “jogos lúdicos” europeus até chegarem a sua condição “moderna” de “esporte”. A tese sustentada pelos autores nessa obra é a de que esse processo não é um reles produto de um “processo civilizador” mais global, porém, ele faz parte da “rede de interdependência” que engendra um tipo de macroprocesso que seria atravessado por várias outras configurações sociais.
49 Utilizo-me das aspas nesse momento por duas razões, primeiro para evidenciar uma categoria bastante presente
em minha pesquisa, a qual muito de meus interlocutores fazem menção, como também para demarcar claramente qual prática futebolística (a profissional e não amadora) irei fazer referência ao decorrer deste texto. Ao longo do texto o termo poderá vir substituído por “futebol espetacularizado”, “futebol de espetáculo”, “futebol profissionalizado” e “espetáculo futebolístico”, sem a presença das aspas.
50 Não tive acesso a dados de pesquisas, mas a mídia de massa, seja brasileira, seja internacional, incorporou a
algum tempo um discurso que eleva o futebol a esporte mais visto e praticado no mundo. Segundo certos veículos comunicação que endossam tal posicionamento, são mais de 3 bilhões de espectadores e praticantes da modalidade ao redor do mundo. Disponível em: < https://goo.gl/Rol254> Acesso em 24/12/2016
De acordo com Toledo (2002), outros estudos no Brasil, sobretudo os antropológicos, preocupavam-se em analisar o viés ritual do esporte, particularmente enfocados no caráter “dramático” do desporto. Entre essas produções figuram os trabalhos realizados pelo antropólogo Roberto DaMatta (1982,1994), nos quais o autor fez uso da noção de “drama”51.
No final da década de 90 e decorrer dos anos 2000 o campo de estudo sobre o futebol foi sendo alargados paulatinamente de acordo com as refrações que espectro esportivo do futebol lançava sobre a sociedade.
Uma miscelânea de trabalhos criativos e inovadores foram enriquecendo a literatura da área. Essas novas produções faziam referência a temas como a circulação de atletas brasileiros no mercado globalizado do futebol (Cf. RIAL,2009), ao fenômeno do “pertencimento clubístico” e formação das “identidades clubísticas” (Cf. DAMO 2007,2012,2014), as dinâmicas das disputas entre clubes e sua influência, assim como a da grande mídia, na identificação clubista do torcedor (Cf. VASCONCELOS, 2016), a vida dos atletas de futebol após o encerramento da carreira de jogador (Cf. ROGÉRIO, 2014), aos “atos desinteressados” dos torcedores (Cf. GADELHA, 2012) etc.
Todavia, julgo que dentro desse alvorecer de novas temáticas, uma recebeu maior relevo dentre as demais e inaugurou um campo próprio de pesquisa; refiro-me as que tratam do fenômeno do hooligamismo no futebol, em outros termos, sobre os conflitos e a violência simbólica e material que orbitavam em torno do campo das torcidas organizadas (Cf. TOLEDO 1996; PIMENTA, 2000; DIÓGENES 2003; RIBEIRO, 2011).
Os fluxos das variadas transformações societárias que atravessaram e continuam atravessando o futebol brasileiro são marcados, entre outras coisas, pela influência de novos elementos que emergiram nesse universo, como, por exemplo, a internet, o computador e o Estatuto do Torcedor (2010) 52 etc. Além disso, o surgimento de figuras importantes como é o
caso do sócio torcedor e seu congênere o “torcedor-consumidor” (TOLEDO, 2010) também imprimiram novas dinâmicas para esse campo de relações sociais. Essas mudanças afetaram profundamente não só as estruturas econômicas e simbólicas do esporte, como influenciaram a relação de engajamento do torcedor com seu clube do coração. Diante desse dinamismo, algumas questões foram ganhando oxigenação e se tornando cada vez mais pertinentes aos olhos das ciências sociais, sobretudo, da sociologia e antropologia.
51 Para Da Matta, o esporte figuraria como evento privilegiado por meio do qual os atores sociais falariam de uma
forma ritualizada e “dramatizada” sobre sua sociedade. O futebol era, por excelência, um fenômeno que comunicaria à nós mesmos quem seríamos de fato; falaria de nossa história, de nossas estruturas e hierarquias etc.
52 Uma peça jurídica que entrou em vigor em 2010, e elaborada após uma série de debates entre poder judiciário e
Problematizações sobre a manutenção das estruturas socioeconômicas e simbólicas dos diferentes circuitos nos quais se encontram inserido o “futebol de espetáculo”53 (DAMO,
2007,2014), inquietações sobre a atuação e agência dos atores envolvidos nesse contexto – sejam eles profissionais da imprensa esportiva, atletas, torcedores ou instituições reguladoras, como FIFA e federações locais -, e, aquela que é a mais imprescindível para esta pesquisa, a fidelidade torcedora, sustentáculo maior de todo o empreendimento futebolísticos, seja em termos econômicos ou simbólicos.
Contudo, como não tenho o propósito de esgotar anos de literatura sobre o assunto, esse breve levantamento bibliográfico cumpre o papel de fornecer apenas cintilações sobre como a temática vem sendo abordada pela classe acadêmica brasileira. Dessa forma, na próxima secção deste capítulo, irei me ater mais detalhadamente ao fenômeno esportivo e os engendramentos que levam ao que chamo de engajamento clubístico.