Nenhuma análise que tenha como objeto o sujeito pode prescindir de pensá-lo em articulação com os avanços tecnológicos que têm redesenhado a vida humana nos últimos
tempos. Orquestrando transformações sem precedentes, a tecnologia tem oportunizado ―a
vivência de experiências absolutamente inéditas, modificando nossas percepções e
produzindo noções inconcebíveis até muito recentemente‖. (SARAIVA, 2006, p.19).
Desse modo, faz-se necessário procurar compreender e analisar as novas práticas produzidas em nossa convivência com as novas tecnologias, já que nossos modos de pensar e de ser são construídos nessas relações. Inseridos numa cultura pós-moderna, essencialmente midiática, todos nós somos, de algum modo, interpelados a reconfigurar nossas maneiras de pensar e agir, porque estamos condenados a viver num mundo midiático, do qual não podemos escapar e cujo alcance exerce um poder tão difuso quanto produtivo.
Ao tomar a mídia como objeto de estudo, Gregolin (2003) demonstra como a mídia funciona por agenciamentos discursivos que controlam, delimitam, classificam, ordenam e distribuem os acontecimentos discursivos. Para nós, isso esclarece como, através de uma lógica própria, aparentemente difusa e incoerente, se exerce, pela mídia, uma poderosa rede de poderes, capaz de moldar condutas.
Como o próprio nome parece indicar, as mídias desempenham o papel de mediação entre seus leitores e a realidade. O que os textos da mídia oferecem não é a realidade, mas uma construção que permite ao leitor produzir formas simbólicas de representação da sua relação com a realidade concreta [...]. Nesse sentido – como construtora de imagens simbólicas – a mídia participa ativamente, na sociedade atual, da construção do imaginário social, no interior do qual os indivíduos percebem-se em relação a si mesmos e em relação aos outros. Dessa percepção vem a visualização do sujeito como parte de uma coletividade. (GREGOLIN, 2003, p. 97).
Como produto das tecnologias de comunicação e informação, a mídia funciona promovendo a produção, circulação e cristalização de sentidos em nossa sociedade, o que vem alterando o modo como atribuímos significados ao mundo, mudando a forma como o percebemos. É interessante destacar, portanto, que existe, atualmente, uma importante relação entre as tecnologias e a produção de sentidos: os sentidos que atribuímos ao mundo estão profundamente articulados com as tecnologias de comunicação e informação.
Para Saraiva (2006, p. 21) ―talvez a tecnologia que esteja mais imbricada com as atuais transformações do mundo contemporâneo seja a internet‖. Apesar de ser uma tecnologia recente, a internet já afeta as mais diversas áreas da vida humana e cada vez mais diversificam-se as suas aplicações e expandem-se os seus usos.
Essa gigantesca e incontrolável rede de computadores está se fazendo presente nas mais diversas atividades cotidianas, embaralhando as fronteiras, redesenhando as distâncias. Sua importância é tamanha que fez com que se pensasse no aparecimento de um novo espaço, chamado de ciberespaço. Se de início era utilizada para compartilhar informações, hoje seus usos são quase inumeráveis: operações bancárias, compras on-line, trocas de arquivos com músicas e filmes, jogos compartilhados com parceiros distantes, troca de correspondência e de mensagens instantâneas. Pela web, pode-se fazer amigos e pagar a conta de luz, encontrar um amor e abastecer a dispensa, comprar um livro editado na Dinamarca e ver as fotos do netinho que mora em Londres, assistir ao vivo um terremoto no Japão e monitorar o filho na escola. (SARAIVA, 2006, p.21).
Tais exemplos comprovam a centralidade que a internet vem ocupando em nossas vidas, através das múltiplas possibilidades de experiências que oportuniza, alterando efetivamente nossas relações com o espaço/tempo. Além de fazer referência ao ciberespaço, Saraiva, apoiando-se nas reflexões desenvolvidas por Pierre Lévy, refere-se à cibercultura,
cuja principal característica é o que ele chama de ―universal sem totalidade‖, já que apesar de
sua universalidade, a cibercultura não está baseada na imposição totalitária de sentidos únicos e universais:
A cibercultura tem sido entendida como capaz de atingir todos os indivíduos, mas distribui uma multiplicidade de mensagens que produzem formas diferentes de compreender o mundo e a vida. Essa característica a difere das mídias mais antigas, como TV, rádio e jornal, que se tornam universais pela imposição de sentidos que, embora não sejam únicos, são bastante homogêneos. Ainda que existam sites cuja maciça visitação concede-lhes alguma hegemonia na constituição dos significados, o acesso às diferentes idéias é bastante facilitado nessa grande rede. Na internet, ninguém tem conseguido ter o controle das mensagens que estão sendo disseminadas, para o bem e para o mal. (SARAIVA, 2006, p. 22).
Como se vê, por suas especificidades, essa cultura produzida via internet põe em circulação uma pluralidade de sentidos que em sua heterogeneidade, possibilita que travemos contato com os mais diversos e impensáveis significados. A um simples comando realizado no computador, está a nossa disposição uma variedade imensurável de informações, imagens, dados, opiniões... que afetam de alguma maneira nossos modos de pensar e de ser.
Pensando na multiplicidade de sentidos postos em circulação pela internet e na produtividade das tecnologias em oferecer matrizes de significados para que possamos
atribuir sentido às coisas e ao mundo, é que buscamos ter acesso à produção e circulação de discursos sobre a instituição escolar, através de notícias veiculadas na rede. O que estamos querendo ressaltar é a nossa crença na construção discursiva dos objetos. Rejeitando qualquer perspectiva essencialista, acreditamos que o que tomamos como realidade, não passa de uma construção discursiva.
O objeto escola, por exemplo, é construído discursivamente, já que os modos como o percebemos, como pensamos sobre ele ou como lhe atribuímos sentidos são resultado do contato com o modo como ele é discursivizado nas mais diversas instâncias com as quais travamos relações. Dessa maneira, as práticas discursivas existentes na internet que tratam da instituição escolar estão a todo momento produzindo e pondo em circulação uma variedade de sentidos sobre a escola que acabam, também, por forjar nossos modos de pensar e agir em relação a ela.
Diante dessa possibilidade de produzir e fazer circular uma maior heterogeneidade de sentidos, dadas as suas especificidades, voltamos nosso interesse para a internet, com o objetivo de problematizar os sentidos sobre a escola postos em circulação através de notícias veiculadas na rede. Objetivando compreender como o objeto escola é construído discursivamente em notícias veiculadas na internet, centraremos nossos esforços em descrever e analisar enunciados, bem como problematizar verdades sobre a escola produzidas nas narrativas das notícias.
Graças à centralidade que ocupa como formadora de opinião, a mídia exerce um poderoso papel na produção de regimes de verdade. O discurso jornalístico, em especial, legitimado sob a égide da objetividade, faz crer que retrata fielmente a realidade, o que lhe confere credibilidade.
Utilizando-se de um discurso referencial, pautado pela clareza e precisão, o papel do jornalismo é cumprir o contrato social firmado com a sociedade, em que lhe cabe a responsabilidade pelo fornecimento de informações. Para isso, é necessário fazer crer que é um espelho do real, tendo como marcas a imparcialidade e isenção. Sob a ilusão de relato fiel dos fatos, as notícias passam a ser consideradas narrativas imparciais, confiáveis e verdadeiras.
Desse modo, consideramos que as notícias que tratam da escola constituem um poderoso referencial por meio do qual a sociedade passa a dar sentido a esse objeto. As notícias produzem e legitimam sentidos sobre a escola, ao mesmo tempo em que atuam no governamento dos sujeitos. Através dos fatos que apresenta, a notícia serve como instrumento de normalização, de coesão social. As situações descritas nas narrativas instituem o que é
considerado normal e adequado em relação à instituição escolar, forjando nossos modos de pensar e agir em relação a esse objeto. É a isso que nos referimos quando pensamos na informação como instrumento de governamento dos sujeitos contemporâneos.
3.1. A (RE)PRODUÇÃO DE DISCURSOS SOBRE A VIOLÊNCIA ESCOLAR.
Como se sabe, a violência é um dos temas mais recorrentes na mídia, especialmente na mídia jornalística. Essa intensa produção discursiva que focaliza a violência tem como conseqüência a produção de dois efeitos de sentido. Se por um lado, faz crer que esse é um dos maiores problemas do mundo atual, por outro, banaliza a sua existência. Rocha (2005) ressalta que a visibilidade que a mídia confere à violência se dá pelo fato de que ela (a violência) se tornou um produto de consumo, pois as notícias violentas chamam a atenção (porque são sinistras, exóticas, cruéis, chocantes, bárbaras ou espetaculares) e vendem.
Ao falar da violência, a mídia institui sentidos por meio da seleção, classificação, edição e apresentação de enunciados que se cristalizam como verdades. Há uma repetição incansável e insistente de dizeres que caracterizam o ambiente escolar como um espaço de recorrência de diversos tipos de violência, o que é responsável por regular os nossos modos de ver e falar sobre a escola. Nesse sentido, é interessante pensar sobre a produtividade dessa produção discursiva que tematiza o indiscriminado aumento da violência, uma vez que funciona como condição para a aceitação da crescente implantação de novos mecanismos de controle nas escolas, como pretendemos mostrar no decorrer das análises.
Para dar início às análises, consideremos a seguinte notícia, publicada pelo Jornal Folha de São Paulo, em sua versão on-line, no dia 5 de abril de 2010:
05/04/2010 - 13h26