Escola Superior de Desporto de Rio Maior
Introdução
A evolução dos resultados do atletismo, considerada por muitos a modalidade rainha dos Jogos Olímpicos, tem sido uma constante desde os primeiros Jogos da Era Moderna . Esta evolução resultou da melhoria dos equipamentos e dos métodos de treino, assim como da evolução técnica assente em princípios biomecânicos . Todavia, em diversos momentos aconteceram alguns conflitos entre as técnicas, os equipamentos e os regulamentos . Houve casos em que algumas regras foram abolidas e permitiram o aparecimento de novas técnicas . Noutras situações, por questões de normalização e segurança foram criadas novas alíneas nos regulamentos . Com este trabalho vamos fazer uma viagem pela história do atletismo, identificando episódios e momentos em que aconteceram evoluções nos equipamentos, nas pistas, nos regulamentos e nas técnicas .
As pistas de atletismo
Durante os primeiros 68 anos da história do atletismo moderno (de Atenas’1896 a Tóquio’1964), as competições de atletismo desenrolavam-se em pistas de cinza . Foi nos Jogos Olímpicos do México (1968) que os atletas competiram pela primeira vez em pistas de piso sintético, o que permitiu a melhoria de vários recordes mundiais . Jim Hines (USA) foi campeão olímpico dos 100m com novo record mundial (9’95), tornando-se o primeiro atleta a
quebrar a barreira dos 10 segundos . Este record durou 15 anos . Nos 400m, Lee Evans (USA) venceu o ouro olímpico com 43,86, tornando-se o primeiro atleta a quebrar a barreira dos 44 segundos . Esta marca manteve-se imbatível durante 24 anos. Tommy Smith (USA), que ficou célebre por ter subido ao pódio descalço e com meias e luvas pretas, como forma de protesto contra o racismo nos Estados Unidos, foi campeão olímpico dos 200m, igualando o record mundial (19,80) . O saltador em comprimento Bob Beamon (USA), venceu o título olímpico com um novo record mundial de 8,90m, marca que só foi superada 23 anos depois e que ainda é record olímpico!
Corridas de Velocidade
Nos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna (Atenas ’1896), as corridas de velocidade pura foram o acontecimento desportivo de maior destaque . Surgiram novas técnicas de partida . Apareceu pela primeira vez a partida agachada, que nos jogos seguintes, viria a ser adotada por todos os corredores de velocidade . Mas os blocos de partida só apareceram nos jogos de Londres ’1948, para facilitar o ajuizamento das falsas partidas . Até aos Jogos de Berlim ‘1936, os atletas das corridas de velocidade escavavam buracos para apoiar os pés durante a partida .
As estafetas foram incluídas pela primeira vez no programa olímpico nos Jogos de Londres ‘1908, com distâncias mistas: os dois primeiros percursos de 200m, o terceiro de 400m e o quarto de 800m . Só a partir dos Jogos de Estocolmo ‘1912, passaram a disputar-se as estafetas de 4x100m e 4x400m . A delimitação de uma zona de transmissão de 20m, foi introduzida em 1926 . E a última alteração ao regulamento, ocorreu em 1963 com a introdução da zona de balanço nas estafetas de 4x100m, o que proporcionou uma clara melhoria dos resultados .
Sapatos de corrida para velocidade
Para os Jogos Olímpicos do México em 1968 os atletas da equipa dos Estados Unidos pensaram usar um novo tipo de sapatos de corrida . Estes apresentavam 60 pitons de titânio que ofereciam a mesma aderência dos pitons tradicionais, mas com uma menor fricção (enterravam-se na
maior . Infelizmente para os americanos, estes “super sapatos” foram imediatamente proibidos .
Corridas com barreiras
Foi no Colégio de Eton (Inglaterra), que em 1837 se realizaram pela primeira vez provas com obstáculos . A distância percorrida foi de 100 jardas e os 10 obstáculos encontravam-se fixos no solo. Mais tarde, em 1860, na Inglaterra, há a intenção de estabelecer alturas fixas, assim como estandardizar o número de barreiras e a distância . Até esta altura, as barreiras eram um obstáculo comum para todos os corredores, construídas com troncos de madeira fixos ao solo e de altura variável, o que justificava as grandes diferenças entre os tempos realizadas sobre a mesma distância . Em 1893 começaram a utilizar-se obstáculos parecidos com cavaletes . Foi no ano de 1896 que se utilizaram pela primeira vez as barreiras em “T invertido” . As barreiras em “L”, de altura variável, contrapeso ajustável e facilmente derrubáveis, foram inventadas em 1935, pelo treinador americano Harry Hilman. Foi também neste ano que se aboliu a regra da desqualificação, no caso do atleta derrubar mais de três barreiras .
Salto com vara
Até ao congresso da IAFF de Berlim 1936, o regulamento estipulava que as varas só podiam ser de madeira ou bambu . Só em 1964, no Congresso da IAAF de Tóquio, ficou definido que as varas poderiam ser construídas com qualquer material, ou combinação de materiais, com o que se oficializou as varas em fibra de vidro. Cornelius Warmerdam, com vara de bambu e a cair para uma caixa de areia, saltou 4,77m em 1942, marca que só foi batida 15 anos depois . Bob Gutowski (USA) foi quem 15 anos depois, em 1957 e já com vara metálica, bateu o record de Warmerdam, com 4,82m, marca que ficaria para a história como o último record mundial com vara metálica. Nesse ano, Gutowski ainda saltaria 4,83m, que seria record mundial, mas essa marca não foi homologada, porque a vara passou por baixo da fasquia, o que na altura não era permitido .
Foi em 1956, nos jogos de Melbourne, que o grego Roubanis, saltando pela primeira vez com uma vara em fibra de vidro, ganhou uma medalha de bronze (4,50m). O primeiro record do mundo com vara em fibra de vidro foi batido em 1961 pelo americano George Davies, com 4,83m .
A partir desta altura, deu-se o “boom” definitivo dos saltadores com varas de fibra de vidro. A principal alteração técnica foi o maior afastamento das mãos durante a chamada, para permitir uma maior flexão da vara. John Pennel (USA), que bateu vários recordes do mundo do salto com vara, foi protagonista de um episódio dramático nos Jogos Olímpicos do México ‘1968 . Tendo sido o único finalista a transpor a fasquia a 5,40m, viu este salto ser anulado, por a vara ter passado por debaixo da fasquia . Teve que se contentar com o 5º lugar . A ironia foi que no congresso da IAAF, que terminara horas antes, ficou decidido suprimir esta causa de anulação do salto.
Dardo
Nos Jogos Olímpicos da Grécia Antiga, praticava-se o lançamento do dardo em três modalidades distintas: em precisão, a cavalo e em distância . Nos jogos da Era Moderna, apenas foi adotado o lançamento em distância . No início os dardos eram de madeira e levavam uma ponta metálica . Só após a 2ª Guerra Mundial apareceram os primeiros dardos metálicos . Em 1953, Dick Held (USA), construiu um dardo com excelentes qualidades planadoras, mas que exigia um modelo específico para cada lançador. Com este dardo, o seu irmão Frank Held tornar-se-ia o primeiro atleta a superar a barreira dos 80 metros, com 81,75m . Depois de terem surgido vários protestos em relação aos dardos “Held”, em 1954 a IAAF resolve precisar com mais detalhe as condições de construção dos dardos . Deveriam ter um aspeto fusiforme e o centro de gravidade a 1,10m da ponta . Resolvido este problema, logo dois anos depois a IAAF é confrontada com outro . Em 1956, algumas semanas antes dos Jogos Olímpicos de Melbourne, o espanhol Miguel Salcedo, usando uma técnica rotacional que ficou conhecida por “técnica espanhola”, lançou o dardo a 83,46m, a poucos centímetros do record mundial . Por razões de segurança, esta nova técnica teve vida curta, pois foi proibida pela IAAF poucas semanas antes dos Jogos Olímpicos de Melbourne ‘1956, o que deixou os espanhóis sem hipóteses de lutarem pelo título olímpico . Uns anos
associado ao aparecimento de dardos tão sofisticados quanto polémicos. Em 1991 introduziu um dardo cuja superfície apresentava estrias, o que facilitava a rotação diminuindo a vibração do engenho e aumentando as propriedades aerodinâmicas deste . Este dardo foi proibido pela IAAF por não estar de acordo com as regras atuais e não foram homologados os records mundiais realizadas com estes dardos pelos atletas Zelezny (89,66m), Backley (91,98m) e Raty (96,96m) . Em 1992 surgiu nova polémica com os dardos “Németh”, desta vez por estarem a ser construídos com diferentes tipos de materiais . Mas a mudança mais radical no lançamento do dardo surgiu na sequência do lançamento de 104,80m que o alemão Uwe Hohn realizou em 1984 . Perante lançamentos desta magnitude, o risco para juízes e atletas tornou-se muito real, pelo que em 1986 a IAAF tomou a decisão insólita de promover alterações ao regulamento que provocaram um retrocesso das marcas, movendo o centro de gravidade do dardo 10 centímetros para a frente . Esta medida veio facilitar o ajuizamento do local de queda dos dardos, que planavam menos e caíam sempre com a ponta .
Peso
Nos Jogos Olímpicos de Atenas ‘1896, a prova do lançamento do peso foi realizada primeiro com a mão direita e depois com a mão esquerda, com os atletas a lançarem o peso em cima de uma plataforma de madeira (0,80m x 0,70m e 0,05m de altura) . O vencedor foi o americano Robert Garrett, com 11,22m . A partir dos jogos de Paris ‘1900 e até aos Jogos Olímpicos de Berlim ‘1936, o lançamento do peso foi realizado em círculos de terra, cinza ou relva, com os atletas a usarem sapatos com pregos!
Nos Jogos de Paris ‘1900, o lançamento do peso passou a ser realizado no interior de um quadrado de 7 pés (2,135m) . A partir dos Jogos Olímpicos de St . Louis ‘1904, o lançamento do peso passou a ser realizado num círculo com 2,135m de diâmetro traçado com cal no chão . Em 1909, foi introduzido o uso da antepara, com a finalidade de ajudar o lançador a equilibrar-se dentro do círculo depois do lançamento .
Nos primeiros Jogos da Era Moderna, a técnica era muito rudimentar . Os atletas partiam duma posição de parado, com o peso do corpo sobre
a perna direita, seguravam o engenho com as duas mãos e terminavam o lançamento apoiados sobre a perna esquerda . Esta técnica sofreu uma ligeira evolução, passando para a deslocação lateral, com o avanço prévio do pé esquerdo .
Na década de 60, o americano Parry O’Brien revolucionou esta disciplina, criando um novo estilo, iniciando o lançamento de costas para o local do arremesso . Esta técnica tinha a vantagem de aumentar o percurso de aceleração do peso, provocando uma maior velocidade de saída e uma consequente maior distância . Com esta técnica e num curto espaço de tempo, Parry O’Brien fez evoluir o recorde mundial de 17,95m para 19,30m e venceu os Jogos Olímpicos de Helsínquia ‘1952 e Melbourne ‘1956 e ganhou a prata em Roma ‘1960 e ainda se classificou em 4º lugar em Tóquio ‘1964 . Bateu por 16 vezes o recorde do mundo e manteve-se invicto em 116 provas consecutivas!
Disco
O lançamento do disco faz parte do programa olímpico desde a 1ª Olimpíada e o peso e as dimensões do engenho têm-se mantido inalterados desde então .
Nos Jogos Olímpicos de Atenas ‘1896, os gregos impuseram que o lançamento do disco se fizesse de acordo com o estilo clássico ou Helénico, com o lançamento a ser executado em cima de uma plataforma retangular (80x70cm) e elevada em relação ao solo . Nos Jogos de Paris ‘1900 o lançamento foi em estilo livre e executado num retângulo de 2,135m de lado . Em Estocolmo ‘1912, também se realizou a variante de lançamento do disco com a mão esquerda e com a mão direita .
Em Londres ‘1908, o lançamento do disco passou a ser executado num círculo com 2,50m de diâmetro . Martin Sheridan (USA), bicampeão olímpico no disco nos Jogos de St . Louis ‘1904 e Londres ‘1908, foi um dos primeiros atletas a utilizar a técnica de “uma volta e um quarto” . Nos Jogos de Paris ‘1924, o americano Tom Lieb teve a ideia de colocar o pé direito mais à direita, ganhando assim mais um quarto de volta e batendo o record do mundo com 47,61m. Esta técnica ficou conhecida como a técnica de “volta e meia” e manteve-se até aos dias de hoje . O atleta americano Alfred
quatro olimpíadas consecutivas, de 1956 a 1968 .
Martelo
O lançamento do martelo faz parte do programa olímpico desde 1900 . Desde então, sofreu pequenas evoluções . Por razões de segurança, ao longo dos anos o ângulo do setor de lançamento foi diminuindo . Em 1958 passou de 90° para 60°, em 1965 de 60° para 45° e em 1970 de 45° para 40° . Em 2002 este ângulo foi fixado em 34.92°. Relativamente ao engenho e para evitar o aparecimento de engenhos fraudulentos, os martelos passaram a ser sujeitos a uma rigorosa inspeção para serem certificados para competição, de modo a garantir que o centro de gravidade do martelo não esteja a mais de 6 mm do centro da esfera .
Salto em altura
Os primeiros saltadores em altura saltavam praticamente de frente, cruzando a fasquia em tesoura . Com esta técnica o saltador americano Sweeney saltou 1 .97m em 1895 . Entre 1900 e 1912, também se realizava a variante de salto em altura sem balanço . Em Paris ‘1900, Raymond Ewry (USA) ganhou os dois eventos e também o salto triplo sem balanço . Os saltos sem balanço deixariam de fazer parte do programa olímpico em 1912 . Nos anos 30 do século XX, apareceu a técnica de rolamento californiano, com o saltador a aproximar-se da fasquia em diagonal e fazendo a chamada com a perna exterior, enquanto a outra perna era elevada para cima para ajudar o corpo a passar a fasquia . Usando esta técnica, Cornelius Johnson saltou 2 .03m ganhando a medalha de ouro nos Jogos de Berlim ´1936 . Uns anos mais tarde apareceu a técnica de rolamento ventral, com os atletas a fazerem a chamada com a perna interior e rodando de ventre para a fasquia, obtendo assim uma transposição mais económica . Com esta técnica, o russo Valery Brumel ganhou a medalha de ouro nos Jogos de Tóquio ‘1964, com 2,28m . Entre 1940 e 1950 o rolamento ventral foi ocupando o lugar do rolamento californiano . Em 1957, o saltador em altura russo Yuri Stepanov estabeleceu um novo recorde mundial (2,16m), usando no pé de chamada um sapato
com uma altura de 5 centímetros na parte anterior . Com este sapato, o atleta obtinha vantagem biomecânica, aumentando o tempo de chamada e a altura de saída . Em resultado dos protestos apresentados, a IAAF decretou que a partir daquela data, a sola da sapatilha não poderia ter uma espessura superior a 13 mm . Mas como esta regra não teve efeitos retroativos, o record de Stepanov foi homologado . Nos Jogos do México ‘1968, Dick Fosbury (USA) surpreendeu o mundo com uma nova técnica de salto em altura e ganhou a medalha de ouro olímpica . A enorme popularidade que a técnica “Fosbury flop” sofreu desde então, ficou a dever-se à maior facilidade de aprendizagem e à menor exigência física e técnica.
Salto em comprimento e triplo salto
O triplo salto já era praticado na Antiga Grécia na variante “3 jump’s” e sempre fez parte do programa olímpico . Nos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna e até 1912, os saltos horizontais eram realizados nas variantes com e sem balanço . Nos jogos de Atenas ‘1896, foi adotada a variante “hop-hop-jump” com e sem balanço, mas nos Jogos Olímpicos seguintes foi introduzida a sequência “hop-step-jump”, que permanece até à atualidade .
No salto em comprimento, no início dos anos 70, o biomecânico americano Tom Ecker, idealizou uma técnica com mortal á frente durante a fase aérea . Bruce Tener (USA) foi o atleta que melhores resultados conseguiu, ultrapassando os 7,60m . A vantagem desta técnica era não contrariar a tendência do tronco em rodar para a frente, aproveitando e acentuando esta rotação . Mas devido à sua perigosidade para o atleta, foi proibida pela IAAF em 1975 .
Conclusão
O atletismo é um dos desportos onde o lema olímpico proposto pelo Barão Pierre de Coubertin “Citius, Altius, Fortius” (o mais rápido, o mais alto, o mais forte) melhor se aplica . Sendo a superação o principal objetivo e a maior motivação dos praticantes de atletismo, a evolução dos resultados nesta modalidade tem sido uma constante ao longo da história . Esta evolução tem sido o resultado da melhoria dos locais e dos equipamentos (pistas
colchões de queda, etc .), mas também se deveu à implementação de métodos de treino mais eficazes e aperfeiçoamento e otimização das técnicas.
Houve momentos em que, por razões de normalização ou de segurança, a evolução das técnicas e dos equipamentos foi travada pelos regulamentos .
A história do atletismo confunde-se com a história do olimpismo e está repleta de episódios emocionantes . Conhecer a história e a evolução das técnicas do atletismo, acrescenta dimensão cultural a este desporto, enriquecendo a intervenção dos treinadores com ferramentas que permitem compreender melhor as técnicas atuais, os seus fundamentos biomecânicos e os seus condicionamentos regulamentares .
Bibliografia
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