Ajudando a tornar o futebol um esporte de massa e também uma mercadoria (DAMO, 2012), a FIFA transformou a Copa do Mundo no que hoje é considerado um megaevento esportivo. Um dos principais fatores dessa transformação é a audiência televisiva. Segundo a própria FIFA, 3,2 bilhões de pessoas viram de casa a Copa da África, em 2010, 8% a mais do que a audiência da Copa da Alemanha, em 200646.
Como já visto, a cobertura midiática é um dos elementos centrais que caracterizam os megaeventos. Ao falar sobre os Jogos Olímpicos, Pierre Bourdieu (1997) afirma que, como produto comercial, eles obedecem à lógica de mercado:
(…) portanto, deve ser concebido de maneira a atingir e prender o mais duradouramente possível o público mais amplo possível: além de dever ser oferecida nos horários de grande audiência nos países economicamente dominantes, ela (a produção da imagem televisiva) deve submeter-se à demanda do público. (BOURDIEU, 1997, p.124)
O mesmo acontece com a Copa do Mundo. Alguns jogos em 2014, por exemplo, serão realizados às 13h no horário brasileiro47, momento de sol e calor fortes no país, mas horário nobre em algumas nações europeias. Em 1986, no evento realizado no
anterior, durante o jogo de semifinal.
44 BERTOLOTTO, Rodrigo. Prostituição sub-17 ronda estádio da Copa das Confederações em Fortaleza. UOL COPA, 25 de junho de 2013. Disponível em: http://bit.ly/161MejO. Acesso em 17 de julho de 2013.
45 ESPN. Balanço da Copa das Confederações: protestos e turistas marcaram os jogos de Fortaleza. Disponível em: http://bit.ly/140TvCA. Acesso em 17 de julho de 2013.
46 FIFA. Quase metade do planeta sintonizado em casa na África do Sul 2010. Disponível em:
http://fifa.to/14zataa. Acesso em 19 de julho de 2013.
47 FIFA. The matches of the 2014 FIFA World Cup Brazil. Disponível em: http://fifa.to/13Ze4ix. Acesso em 19 de julho de 2013.
México, a grade também foi planejada levando em consideração a transmissão televisiva na Europa, com jogos disputados em pleno verão e sob sol escaldante, o que gerou críticas de jornalistas sobre “a falta de preocupação com a qualidade do produto que estava sendo veiculado pela TV” (GURGEL, 2006, p.78).
A Rede Globo de Televisão detém os direitos de transmissão das Copas do Mundo até 2022, inclusive a de 2014, segundo a FIFA. Além do prestígio de transmitir a Copa ou as Olimpíadas, a rede de TV também pode lucrar com a venda de comerciais (PREUSS, 2008). A Globo é responsável pelas transmissões da FIFA no Brasil desde a Copa do Mundo do México, em 1970. Apesar de não ser a empresa geradora das imagens de 2014 – esse papel é da HBS, empresa suíça responsável pela produção das imagens dos eventos FIFA –, a Globo detém os direitos de transmissão via cabo, satélite, terrestre, móvel e por internet de banda larga em todo o país.
Bourdieu (1997) aponta que dois eventos esportivos acontecem – aquele que é jogado e o que é transmitido. Segundo ele, os megaeventos esportivos são, portanto, produzidos duas vezes:
Uma primeira vez por todo conjunto de agentes, atletas, treinadores, médicos, organizadores, juízes cronometristas, encenadores de todo cerimonial, que concorrem para o bom transcurso da competição esportiva no estádio. Uma segunda vez por todos que produzem a reprodução em imagens e em discursos desse espetáculo, no mais das vezes sob a pressão da concorrência e de todo o sistema das pressões exercidas sobre eles pela rede de relações subjetivas na qual estão inseridos. (BOURDIEU, 1997, p.127).
Cada aspecto, ênfase e esquecimento das retransmissões produz um novo megaevento, visto por milhões de pessoas que não puderam estar fisicamente presentes nas competições. Gurgel (2012) coloca o esporte-espetáculo como uma fonte geradora de imaginários, um “show de imagens” (GURGEL, 2012, p.8) que torna o esporte um mercado rentável na economia do entretenimento. Por isso, a interferência dos meios de comunicação de massa é marcante para a construção dos megaeventos esportivos como espetáculo:
Os megaeventos esportivos – como os Jogos Olímpicos e as Copas do Mundo de Futebol, entre outros – adquirem papel estratégico, pois eles representam o ápice desse processo de construção de imagens esportivas espetaculares, que são midiatizadas de forma massiva. (GURGEL, 2012, p.8)
O esporte – e dentro dele, os megaeventos esportivos – alimenta a comunicação – e o jornalismo – e é alimentado por ela. Enquanto a comunicação de massa contribuiu para o fortalecimento de Jogos Olímpicos e Copa do Mundo, estes oferecem pautas constantes à mídia, não apenas durante o período em que são realizados. Nesse sentido, os megaeventos como espetáculos midiáticos tornam-se desafios para o jornalismo
esportivo, que tem dificuldades em separar a informação jornalística do marketing em que se transforma o espetáculo (GURGEL, 2012).
A visibilidade garantida pelo megaevento e o grande número de telespectadores e turistas atraem empresas dispostas a pagar caro por cotas de patrocínio.48 Essa relação entre esporte, cobertura midiática (nos diversos meios: TV, rádio, impresso e internet) e as empresas patrocinadoras também foi fator gerador da expansão dos megaeventos esportivos (HORNE, MANZEREITER, 2006). Os interesses de marketing e entretenimento do megaevento – e na área esportiva como um todo – acabam entrando em conflito com a atuação do jornalismo esportivo (GURGEL, 2012), que não é mais a mera cobertura da realização e dos resultados das competições, como será apresentado no próximo capítulo, embora tenha problemas em ir além disso.
Vale ressaltar, mais uma vez, que as características de um megaevento esportivo são complexas e não envolvem apenas jogos e partidas. As consequências – ou o legado, para utilizar termo definido em tópicos anteriores – são vistas em diversos aspectos da sociedade, em uma relação intrínseca e de difícil separação. Até por esse motivo, também cabe ao jornalismo esportivo abordar em suas produções, tanto no gênero opinativo como no informativo, os aspectos econômicos, culturais, ambientais e políticos, entre outros, do esporte.
O capítulo seguinte trata das particularidades dessa editoria, expondo, além dos aspectos que a caracterizam, como a informalidade e a subjetividade nos textos, um breve histórico, desde o início do século XX, e a teoria sobre agendamento e critérios de noticiabilidade, que justifica a relevância da Copa do Mundo para o jornalismo.
48 Para 2014, seis dessas cotas foram colocadas à venda pela FIFA exclusivamente para empresas brasileiras, com custo estimado entre R$8 milhões e R$ 16 milhões. Com a venda de direitos de transmissão e de cotas de patrocínio, a FIFA estima que a receita com o Mundial de 2014 seja de US$ 4 bilhões, o que tornaria essa a Copa mais lucrativa para a instituição (TORRE, 2013).