Kapittel 3: Metode og utvalg
3.2 Endelig utvalg; størrelse
Encarnações Miméticas, dentre os livros da Caixa Tunga, é o que parece de-
monstrar de maneira mais explícita a circularidade das imagens no trabalho edi- torial do artista. Se nos outros volumes algumas sequências de imagens parecem se mover de modo contínuo, porém, sempre voltando ao ponto de partida, nesse exemplar a própria estrutura do livro, em formato sanfona, permite que se entre ou que se saia por qualquer um de seus lados, não havendo sentido em se falar de primeira ou de quarta capa, mas de duas capas hierarquicamente equivalentes. No entanto, é importante reiterar que essa circularidade da obra não se restringe à produção editorial do artista e podemos observar uma correspondência nas ou- tras práticas, como por exemplo, nos já supracitados Ão63, filme, ou Palíndromo
Incesto64, instalação. No livro Encarnações Miméticas a conformação do objeto se
torna uma metáfora gráfica desse recurso tão caro ao artista e que parece conta- minar e entrelaçar os seus trabalhos, entre os quais a própria Caixa.
Sendo assim, nesse pequeno livro, sem começo ou fim, Tunga exibe duas de suas performances ou instaurações, como o artista prefere: Ação na Floresta e
Ação em Interior. A primeira delas foi realizada no Espaço Psico Ativo e a segunda
na Floresta da Tijuca, ambas no Rio de Janeiro, no ano de 2002. A disposição do título e do nome do autor, assim como o tratamento tipográfico, são idênticos nas duas capas; já a imagem de fundo remete à ordem de leitura, seja primeiro Ação
na Floresta, com uma imagem de uma mulher segurando uma escultura em uma
floresta, ou Ação em Interior, com uma imagem de uma mulher deitada junto com objetos. Sinos de ferro, amebóides com protuberâncias, amebóides com cavida- des, ossos, pessoas – todos misturados e recobertos por uma calda vermelha – é
Ação em Interior. Os performers, aparentemente prostrados, se integram à obra
por meio da gosma, no que parece ser o registro do fim de um ritual. No avesso de tudo isso, sinos de ferro, amebóides com protuberâncias, amebóides com cavida-
63 França (2008: 105) observou que o próprio título do filme, Ão, já ativa o mecanismo circular da obra, conforme explicitado no seguinte trecho: “O trabalho intitula-se Ão. O que é Ão? Ão é tí- tulo — é começo, mas Ão é uma terminação. É um fim, em português. Só em português. Uma terminação quase impronunciável por um estrangeiro. Ão é começo que já é fim, começo e fim fundidos em um título-terminação-fragmento de nada, de nenhuma e de muitas palavras”. 64 Lindote (2005: 70), ao analisar a obra comentou que: “A primeira vista, parece tratar-se da
geração de um grande circuito, feito da ligação entre cada uma das esculturas, o que aciona uma remissão permanente entre elas. Esta remissão tenciona o espaço da obra fazendo com que através da circularidade que se pôs em ação, a obra não tenha começo nem fim”.
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Figura 42. Tunga, Encarnações Miméticas, Caixa Tunga, 2007. Ação na Floresta (acima), Ação
em Interior (abaixo) – detalhe da(s) sanfona(s) aberta(s).
des, ossos, pessoas – todos se misturando com uma calda vermelha, ao ar livre – é Ação na Floresta. Os performers parecem explorar a obra, espalhando a gosma em seus corpos e em outros, sejam eles pessoas ou objetos, no que parece ser o registro do início de um ritual. Músicos acompanham o rito, em meio à floresta. Todas as observações anteriores partem de uma visão macroscópica do livro aberto. Nesse caso, as duas fotomontagens funcionam como painéis onde o tem- po parece congelado: a cristalização de um momento efêmero. Entretanto, as mesmas cenas podem ser subdivididas, ser espaçadas pelo tempo do livro, sen- do vencidas ao ritmo das dobras. Dessa maneira, as mesmas figuras, dos mes- mos painéis, antes estáticas, parecem se animar, ganhar movimento. Sob esse aspecto, o comentário feito por Costa (COSTA, 2009: 2157) sintetizou a discus- são quando afirmou que “a dobra é o valor sensível estruturante deste exemplar”. Nessa direção, Encarnações Miméticas é a possibilidade do artista de mostrar um importante momento de suas obras: a instauração, em momentos distintos, ou ainda em encarnações distintas desse mesmo trabalho. Essas encarnações, mesmo que miméticas, remetem umas às outras, se imitam, mas também assu- mem certas características únicas a cada apresentação. O próprio artista con- sidera que “a cada vez que se reinstaura uma performance, cria-se algo novo”. Entretanto, o momento da instauração é um momento fugaz e o registro sua única existência, duradoura, possível. Mas o livro não pretende ser a memória viva de um acontecimento; a apropriação das imagens busca criar uma instauração no próprio livro.
As esculturas que estão sendo ritualizadas fazem parte da instalação A Bela e a
Fera. Peças com buracos e protuberâncias, fêmea e macho, que lembram “or-
gãos sexuais rudimentares” mas que não se encaixam (EBONY, 2002: 144). Ade- mais, nessa liturgia outros elementos são incorporados, alguns que habitualmen- te fazem parte dessa instalação, como os cajados65, e outros que parecem fazer
remissão a outras obras do artista, como os sinos. O contexto, Interior e Floresta, mostram a relação entre espaço, tempo e trabalho.
65 O cajado é um elemento que se repete em várias das peças do artista e faz parte de sua hermenêutica, onde um elemento inserido em uma obra faz remissão à outra. Ademais, o cajado foi utilizado diversas vezes por outro artista que frequentemente é comparado a Tun- ga: Joseph Beuys (NAVES, 1987; LADDAGA, 1998; CELANT, 2001; EBONY, 2002; SOUZA, 2010). Essas comparações, grosso modo, se referem à escolha dos materiais e à criação de uma mitologia pessoal, sendo que esta última é, particularmente, explorada na dissertação de Munir Klamt Souza (2011).