O PCIC divide-se em três volumes, nos quais se identificam os níveis de referência para a coesão no ensino/aprendizagem do Espanhol. O seu objetivo passa por:
…proporcionar a los equipos docentes de la red de centros del propio Instituto, y a los profesionales relacionados con la enseñanza de ELE, un amplio repertorio de material que pueda servir a distintos fines y utilidades relacionados con el aprendizaje, la enseñanza y la evaluación del español (Instituto Cervantes, 2007a: 11)
Este documento segue as diretrizes do QECR para as Línguas e reconhecemos-lhe uma dupla utilidade: a especificação de objetivos gerais e conteúdos objeto de ensino não só para os profissionais dos centros do Instituto Cervantes, mas também para o público em geral, como por exemplo para aprendentes autónomos e independentes que queiram regular o seu próprio nível de ensino e o seu progresso.
Decidimos analisar o PCIC por se tratar de um documento regulador do ensino do Espanhol Língua Estrangeira (ELE) importante e essencial para a nossa prática de ensino aquando do desenho e planificação das unidades curriculares. Quisemos averiguar até que ponto também o PCIC aborda a dimensão afetiva da
aprendizagem e se sugere alguma aplicação em sala de aula e de que forma poderia ser levada a cabo. Uma vez que a nossa prática de ensino abrangia turmas de 8º e 9º anos, optamos por fazer uma análise apenas aos níveis de referência A2 e B1 do respetivo Plano por coincidirem com os níveis de ensino do QECR e do programa de Espanhol para o 3º Ciclo do Ensino Básico.
O PCIC trata as diferentes temáticas de ensino em capítulos separados: objetivos gerais; gramática; pronúncia e prosódia; ortografia; funções; táticas e estratégias pragmáticas; géneros discursivos e produtos textuais; noções gerais; noções específicas; referentes culturais; saberes e comportamentos socioculturais; habilidades e atitudes interculturais e procedimentos de aprendizagem.
Assim, a primeira alusão à afetividade surge no capítulo relativo aos objetivos gerais, na perspetiva do aluno enquanto “hablante intercultural”, tanto no nível A2 como B1, do qual se espera que seja capaz de:
- identificar las motivaciones, las actitudes y los factores afectivos personales en relación con otras culturas en general y con las culturas de los países hispanos en particular;
-fortalecer las motivaciones, la sensibilidad y la apertura hacia otras culturas, en particular hacia las de los países hispanos;
- desarrollar un control consciente de las actitudes y factores afectivos personales en relación con otras culturas en general y con las culturas de los países hispanos en particular. (Instituto Cervantes, 2007/2008a: 84-85).
Espera-se que o aluno desenvolva atitudes e estados emocionais positivos para com a língua e cultura hispânica. Atitudes como a empatia, a curiosidade, a abertura, a relativização, a tolerância e a consciencialização para os fatores emotivos inerentes à aprendizagem da língua e aquisição de conhecimentos culturais permitem que o aluno desenvolva a sua habilidade e atitude intercultural (Instituto Cervantes, 2007a e b).
Uma outra alusão à questão da afetividade surge no capítulo dedicado aos géneros discursivos e produtos textuais, no qual se refere ser importante selecionar textos de determinados géneros que vão ao encontro da necessidade e criatividade da audiência alvo (Instituto Cervantes, 2007/2008a e b), isto é, dos nossos alunos. Pretende-se criar um elo entre os textos explorados em aula e a criatividade dos alunos, apelando à imaginação e às suas memórias. Este aspeto torna-se relevante na didática das línguas pois admite que o aluno possui já “sus propios esquemas de géneros, que han desarrollado por medio de la interacción en su lengua materna, de modo que se parte de un concepto familiar para ellos” (Instituto Cervantes,
2007/2008a e b: 280; 322), ainda que aqui não se esclareça de que forma é que esse vínculo pode ser estabelecido.
No capítulo relacionado com os procedimentos de aprendizagem encontramos discriminados alguns procedimentos a que podemos recorrer para trabalhar os fatores afetivos aquando da aprendizagem do espanhol. Este capítulo assenta na ideia de que quem aprende uma língua nova realiza “operaciones destinadas a movilizar, regular e incrementar los recursos cognitivos, emocionales o volitivos de que disponen, tanto en el proceso de aprendizaje como en el uso de la lengua” (Instituto Cervantes, 2007/2008a e b: 473; 623). Porém, não se pretende que as estratégias aqui apresentadas sejam encaradas como “receitas de aprendizagem”, mas como uma base sobre a qual podemos planificar as nossas aulas, segundo os objetivos a atingir e as tarefas a desenvolver. Quere-se que com estas estratégias o aluno seja capaz de desenvolver o seu próprio conhecimento estratégico, partindo da autorregulação e controlo consciente dos fatores cognitivos, afetivos e sociais (Instituto Cervantes, 2007/2008a e b).
Seguidamente, por julgarmos relevante, debruçamo-nos sobre as atividades propostas pelo PCIC com o objetivo de proceder à sua análise no que respeita à alusão à criação de imagens mentais (Instituto Cervantes, 2007/2008a e b).
Assim, para trabalhar a ansiedade, o PCIC sugere a criação de diálogos internos e estratégias de visualização antes da realização de atividades de expressão ou interação orais, através das quais os alunos podem observar-se numa situação agradável com toda a turma, como por exemplo numa conversa. Estes procedimentos vão ao encontro da estratégia de ensaio mental defendida por Assagioli, entre outros, e que descrevemos no ponto 1.2.3 8 deste relatório. Ainda relativamente à ansiedade o PCIC apresenta estratégias de relaxamento, como respirações profundas com o diafragma; meditação, concentrando-se em alguma imagem ou som para centrar os pensamentos e tensão ou distensão dos músculos. Entendemos que, e baseando-nos na nossa experiência de ensino, estas estratégias podem ser utilizadas no início da aula ou antes de alguma atividade que exija maior concentração, como a produção escrita ou análise de algum tópico gramatical.
As estratégias de visualização e criação de imagens mentais surgem novamente neste documento como proposta de aplicação para desenvolver o autoconceito e melhorar a autoestima, a autoimagem e a autoeficácia. Mais uma
vez, esta sugestão prende-se com a tipologia do ensaio mental e incentiva os alunos a imaginarem-se a realizar uma atividade complexa com êxito.
Ao fazer uma leitura mais pormenorizada e atenta destes procedimentos de aprendizagem aplicados às questões da afetividade, constatamos que conciliam esforços para regular e controlar fatores emotivos que influenciam, positiva ou negativamente, a aprendizagem do espanhol. Verificamos que o PCIC dá um passo à frente no que respeita à apresentação de estratégias de visualização e criação de imagens mentais, que ajudarão tanto professores como alunos/aprendentes independentes a orientar e monitorizar o seu próprio processo afetivo de aquisição de uma determinada língua. Tais estratégias vão ao encontro de algumas aplicações sugeridas por Assagioli e Brown na técnica do ensaio mental. Contudo, parece-nos que, tal como acontece no QCER, muito fica ainda por explorar, pois cremos que estas estratégias podem desempenhar um papel importante noutras áreas da aprendizagem das línguas, como na memória, na construção de uma aprendizagem significativa, na leitura, na gramática, no desenvolvimento da competência auditiva, na produção escrita e oral e na pronúncia, como já havíamos referido anteriormente.