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The End of Recursive Tracking?

II- 2: Vision Based 3D Tracking and Pose Estimation for Mixed Reality

4. Tracking by Detection

4.3. The End of Recursive Tracking?

ROCK 24 HORAS.

O comportamento das bandas locais de Heavy Metal, no que diz respeito a rearticulação das manifestações das suas produções (shows) na cidade de Belém, logo após os anos que se seguiram ao 3º Rock 24 Horas (1993, 1994, 1995 e 1996), foi de continuidade de na construção e lançamento de suas demo-tapes e álbuns em formato de discos de vinil, além, é óbvio, de suas apresentações para o público headbanger paraense. Suas ações voltadas para uma iniciativa em busca da paz para a imagem do Rock em geral, inclusive o Heavy Metal, foram muito sentidas em qualquer evento de “música pesada”.

Todavia, existiram descontinuidades, enfrentamentos e negociações ligadas à busca por espaço que estava sendo feita pelo Heavy Metal na capital paraense. Com os desdobramentos do 3º Rock 24 Horas, ele acabou se transformando, partindo de Leonardo I. G. Faria, no “fator que possibilitou o início de uma política cultural de exclusão do rock na cidade, associando-o à violência”, fazendo com que, o local principal de shows utilizado pelas

134 Para Deena Weinstein, um concerto de Heavy Metal é “mais do que um espetáculo voyeurístico para o

público heavy metal”. É um momento que proporciona aos headbangers, “experiências emocionais específicas, para se afirmarem como uma subcultura através da atividade ritualística e, finalmente, para celebrar a música”. Leonardo Carbonieri Campoy reconhece o show de Heavy Metal dentro do cenário underground como uma “prática ritual” e, é somente através dele que o cenário “terá significado se ele confluir para o emanar do show”, onde o “underground como um „todo orgânico‟ só é vivenciado neste evento”. Além disso, Campoy afirma que o show é para os headbangers o “momento extraordinário de suas inserções no underground” e, espaço de contatos, trocas e vendas de gravações, marcações de entrevistas para fanzines especializados em Heavy Metal e, de futuros shows. Cf. CAMPOY, Leonardo Carbonieri. Op. Cit., pp. 198-213; WEINSTEIN, Deena. Op. Cit., p. 205.

135 Grande parte das informações descritas sobre esse show da DNA, realizado no dia 22 de maio de 1994, no

Teatro Experimental Waldemar Henrique e, que fez parte do Projeto Rock N’ Rola, realizado pelo produtor local

Ná Figueredo, foram retiradas de um vídeo feito a partir da filmagem dessa apresentação. Cf. Show “Rock N’

bandas de Heavy Metal, Teatro Experimental Waldemar Henrique, via nova diretoria, reduzisse a frequência deles em seu recinto.

O TEWH, que se localizava (e, ainda se localiza) na Avenida Presidente Vargas entre Rua Oswaldo Cruz e Avenida Da Paz, no bairro da Campina, área central de Belém, bem no meio da Praça da República, não deixava de ser um “pedaço headbanger” dentro do tecido urbano. Pedaço, ao ver de Magnani, “designa aquele espaço intermediário entre o privado (a casa) e o público, onde se desenvolve uma sociabilidade básica, mais ampla que a fundada nos laços familiares, porém mais densa, significativa e estável que as relações formais e individualizadas impostas pela sociedade”,136 adequado para a prática da “sociabilidade metálica” local.

Um dos motivos pelos quais as consequências do 3º Rock 24 Horas foram desfavoráveis para o Heavy Metal paraense foi a imagem violenta atribuída, em especial, a uma banda local, do referido estilo, a Jolly Joker, tanto pelos comerciantes, seguranças do evento (Empresa Gang Mexicana) e transeuntes sem nenhuma relação com o Rock, quanto a imprensa local. O jornal local O Liberal, do dia 26 de abril de 1993, um dia após sua realização, colocou da seguinte maneira:

Segundo os coordenadores do evento, barraqueiros e o próprio público, tudo começou durante a apresentação da banda Jolly Jocker, quando um rapaz da plateia (onde havia quase 10 mil pessoas) subiu no palco e foi abordado por dois homens da empresa de segurança Gang Mexicana, contratada para o evento. Como resistiu à abordagem, foi agredido e depois atirado no meio do público. Segundo uma testemunha, que pediu para não ser identificada, o vocalista Carlos, da banda Jolly Jocker, incitou o público a agredir os seguranças.137

Em shows de Heavy Metal, é comum que os headbangers, presentes na plateia, sempre demonstrarem seu apreço pela banda presente na ocasião e o nível de entusiasmo revelados no evento, pelo ato de subir no palco, se congratular com os seus membros, terminando essa atitude jogando-se no meio do público, sendo essa ação denominada de stagediving (“pular do palco”).138

136 MAGNANI, José Guilherme Cantor, Op. Cit., p. 20. 137 Jornal “O Liberal”, 26/04/1993, p. 14. Belém – PA.

138 Stagediving é o nome dado quando um headbanger, durante o show, chega próximo ao palco, sobe nele,

chega próximo aos músicos da banda que está tocando, interage com eles “batendo cabeça” (“headbanging”, em inglês) e depois se atira no meio do público headbanger. Traduzindo para o português, significa, literalmente, “pular do palco”. Segundo a socióloga norte-americana Deena Weinstein, o “stagediving” é o: “(...) símbolo da solidariedade da audiência”. WEINSTEIN. Op. Cit., p. 230. O etnomusicólogo Hugo Ribeiro, também afirma que é: “(...) forma de interação entre público e banda”. RIBEIRO, Hugo Leonardo. Dinâmica das Identidades: análise estilística e contextual de três bandas de metal da Cena Rock Underground de Aracaju. Tese de Doutorado. Universidade Federal da Bahia. Bahia. 2007, p. 80.

Membros da Empresa de Segurança Gang Mexicana estranharam esse aspecto tão comum ao comportamento dos praticantes do Heavy Metal em momentos de shows, resultando assim, nas palavras de Pedro Alvim Leite Lopes, em “curtos-circuitos de códigos entre essas diversas pessoas com diferentes visões de mundo”139, em que a cultura do Heavy

Metal, nos dizeres de Clifford Geertz, tem um “ethos” definidos pelo “tom, o caráter e a qualidade de sua vida, seu estilo moral e estético e sua disposição, é a atitude subjacente em relação a ele mesmo e a seu mundo que a vida reflete” e uma “visão de mundo” colocada como “o quadro que elabora das coisas como elas são na simples realidade, seu conceito da natureza, de si mesmo, da sociedade”.140

Mas, os próprios membros da Empresa Gang Mexicana, continuaram afirmando que não tiveram culpa no início desse enfrentamento e, atribuíram a culpa, única e exclusivamente ao vocalista Carlos “Banana Podre” Ruffeil da banda Jolly Joker, logo ele “insuflou os presentes, depois que tivemos que retirar um roqueiro que subiu no palco. E aí, a multidão partiu para cima. Éramos oitenta homens contra 20 mil cérebros alcoolizados”.141

Tal momento de conflito, também foi provocado, visto a falta da Polícia Militar do Estado, presença significativa de gangues de rua (“Carecas” e “Terror”) e não esclarecimento dos critérios de seleção para participar do 3º Rock 24 Horas.

Izabela Jatene de Souza, catalogou, durante sua pesquisa de mestrado, entre os anos de 1994 e 1997, em torno de 122 gangues, atuantes na Região Metropolitana de Belém (RMB), constituída, à época de Belém, Ananindeua e Marituba. Parece que, a grande maioria era composta por pichadores. Entre elas, estava presente a Gangue do Terror, oriunda do bairro da Pedreira, afastado do centro da capital paraense, era composta. Todavia, segundo a autora, todas as gangues de Belém promoviam a “RÉU” (reunião de seus membros), durante a semana, a partir de quarta-feira, sempre à noite na Praça da República, sendo que, dentro desse intervalo, cada uma escolhia um dia específico para sua reunião. Logo depois, da RÉU, os seus membros se dispersam pela cidade, frequentando boate e danceterias, como Spectron, Círculo Militar, Company B, Dance Night, Balanço Da Tuna e, nesse trajeto, ao qual chamam

139 LOPES, Pedro Alvim Leite. Heavy Metal No Rio De Janeiro e Dessacralização De Símbolos Religiosos: A

Música Do Demônio Na Cidade De São Sebastião Das Terras De Vera Cruz. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. 2006. Tese de Doutorado. p. 33.

140 GEERTZ, Clifford. “Ethos, Visão de Mundo e Símbolos Sagrados”. In: GEERTZ, Clifford. A Interpretação

Das Culturas. Rio de Janeiro. Livros Técnicos e Científicos Editora. 1989. Págs. 143-144.

141 Entrevista concedida por “Mexicano”, dono da Empresa de Segurança Gang Mexicana, ao jornal O Liberal.

de “descida”, acabam realizando “arrastões”. Neles, praticam assaltos, ato de violência contra gangues rivais que encontram no caminho e barulho.142

O 3º Rock 24 Horas aconteceu, sábado e domingo, de abril de 1993 (24 e 25) na Praça Kennedy, local bem próximo da Praça da República, onde as gangues se reuniam e, da área portuária da cidade, no bairro do Reduto, na Av. Assis de Vasconcelos esquina com a Av. Marechal Hermes, onde muitos mendigos, vagabundos, viciados e membros de gangues transitavam. Inclusive, a gangue dos Carecas, composta por pessoas adeptas de idéias ultranacionalistas, fazia reuniões nessa área, em vãos de alguns galpões da Companhia Das Docas Do Pará. Em Belém, possivelmente, surgiram no início dos anos 90, com as movimentações de pessoas saídas do movimento Punk. Existiam gangues de Carecas em alguns bairros, como Guamá e Cidade Nova (Ananindeua), mas não tinham uma unidade definida, eram desorganizados.143

Para Izabela Jatene, a presença dessas gangues, enquanto “tribos urbanas” na Belém dos anos 90, significa que, a cidade é um “cenário para a expressão de todos, uma grande „aldeia‟, onde as diferentes formas de representações podem ser notadas através de características referentes a maneira de ser e de estar de cada „tribo‟, além de possibilitar a busca por uma “identidade grupal”. O encontro de diferentes “cenas” e “mundos artísticos”, foi inevitável, durante o 3º Rock 24 Horas, assim como o conflito, aspectos das “identidades constrativas”, desenvolvidas a partir das alteridades de cada uma dessas “tribos urbanas”.144

Outra fala do meio headbanger, representada por Sidney K.C., então baixista da DNA, sobre os possíveis questionamentos que poderiam vir de vários grupos da sociedade paraense, em relação ao desfecho do 3º Rock 24 Horas para o Rock local, em geral, ele afirma que sempre “acontecem incidentes desse tipo no futebol, mas a torcida é sempre a culpada. Nunca culparam a instituição futebol. Tenho certeza de que, como aconteceu em uma cidade provinciana, a instituição rock pagará por isso”.145

Os dizeres de Sidney K.C. estão de acordo com a reflexão de Hermano Vianna, para quem “fenômenos que são considerados violentos para determinados grupos não o são para outros”. Pelo fato de muitos grupos sociais, integrantes da sociedade paraense, colocarem-se como “outsiders extremos”, demonstrando nenhum interesse em conhecer os aspectos da

142 Cf. SILVA, Bernard Arthur Silva da. Op. Cit., pp. 583-631; SOUZA, Izabela Jatene de. Op. Cit., pp. 88-113. 143 Ibidem.

144 Ibidem.

145 Entrevista concedida por Sidney K.C. ao jornal O Liberal, falando sobre o 3º Rock 24 Horas. In: _____.

cultura do Heavy Metal e Rock, acabaram elegendo-os como os responsáveis por esses “incidentes”.146

O tamanho da capital paraense, nos níveis extensão territorial, populacional e atividades culturais, em comparação com outras capitais brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte é muito divergente. E, o Festival Rock 24 Horas e sua intenção de fazer 24 Horas de Rock corridas, era sem precedentes no Pará e Brasil. Logo, chamou todas as atenções locais e, até nacionais, fazendo com que, ao ocorrer as ações violentas do 3º Rock 24 Horas, a “instituição rock pagou” por isso.

Afora isso, têm-se também a opinião expressada pelo Governo do Estado, naquele momento, via Secretaria de Cultura do Estado (SECULT) pela figura de Guilherme De La Penha, colocando que “não responsabilizou os organizadores do evento e nem as bandas de

rock pelo espetáculo de violência ocorrido no local” e, para ele todas as questões que

ocorreram no 3º Rock 24 Horas “devem-se ao contexto social, que permite o aparecimento de gangues de arruaceiros”. E isso “gerou a reação da empresa Gang Mexicana” e a não existência de uma “boa orientação do pessoal da Gang”.147

Dessa forma as lembranças presentes, nas falas dos vários sujeitos, ilustradas na notícia do jornal O Liberal sobre o 3º Rock 24 Horas, constroem historicamente, uma memória sobre o Rock local em geral, e em particular, o Heavy Metal. Uma memória associada à “violência”, “desorganização” e “insegurança”. Tal caráter implica incompatibilidade e incompreensão, por parte da mídia impressa local em relação, em relação à interação social dos headbangers nesse evento.

Valorizando o enfoque sobre mudança de visão, feita pela mídia impressa, de “divertido” para “violento”, no que diz respeito ao Funk carioca, logo depois de um “arrastão”, ocorrido na Praia do Arpoador, no dia 18 de outubro de 1992, Hermano Vianna argumenta que o que é “exótico nem sempre está distante” em uma grande capital, sendo “o exótico”, vizinho de muitos grupos sociais residente nela, entretanto, “nunca” irá ser “familiarizado”. Aqui em Belém, o 3º Rock 24 Horas foi o “operador lógico”, que tornou o

Heavy Metal paraense “familiar” aos belenenses, porém, isso não significou “uma

domesticação” e, sim, deu a esse gênero musical um ar “selvagem” via “familiarização”.148 O jornal O Liberal, que noticiou vários shows de bandas paraenses de Heavy Metal, em muitos espaços da cidade, inclusive os que ocorreram nas três edições do Rock 24 Horas e

146 VIANNA, Hermano. Op. Cit., p. 179.

147 Entrevista concedida por Guilherme De La Penha, Secretário de Cultura do Estado (SECULT), ao jornal O

Liberal. In:_____. Jornal “O Liberal”, 26/04/1993, p. 14. Belém – PA.

no TEWH, fazia questão de colocá-los como formas de estabelecer um espaço para tal estilo musical, propagação e consolidação desse tipo específico de música em Belém e, até para festejos sobre a longevidade de algumas bandas e com intenções de ajudar um conhecido necessitado de ajuda médica.

O jornal O Liberal (21/01/1992), na Coluna Dial 97 de Dom Floriano, falava sobre o II

Underground Festival, marcado para acontecer no TEWH, aglutinador de bandas Punk e de

Heavy Metal (Black Mass e Retaliatory, por exemplo), afirmou ser uma “tentativa de consolidação do rock pesado paraense”, “ser uma forma de reunião, de organização para consolidar o intercâmbio entre as bandas de rock pesado com outros músicos da cidade”.149

Em mais uma notícia sobre os shows de “música pesada” no TEWH, ele (O Liberal, 1/08/1990) destacou a apresentação da Morfeus, considerando que “o objetivo do show de hoje é angariar fundos para tratamento médico de um dos integrantes de bandas de rock, que sofreu um acidente e necessita de cuidado médico especializado”.150

A DNA e seus vários eventos realizados no TEWH, não passaram despercebidos pelo periódico paraense. Em um deles, O Liberal (13/10/1990) afirmou que ela estava na “luta pelo espaço cultural” e, os seus membros “trabalham pelo direito à mídia, de forma autônoma, já que são poucos os que investem neste ritmo energético e contagiante, que significa, para quem curte, uma opção de vida, já que influencia de forma direta, no comportamento dos bangers”, junto à “iniciativa da campanha independente ao combate às drogas, já lançada pela gravadora norte-americana „Road Racer‟, há 2 anos, através de seus discos”. Com isso, a

DNAusou o “hall do teatro”, para “uma mostra de fotografias e cartazes sobre o uso indevido de drogas”.151

Então, depois do 3º Rock 24 Horas, de repente, todas as pessoas integrantes do jornal O Liberal e outros impressos locais, mudaram completamente? Ou será que foram todos os

headbangers paraenses? Ou existiu uma ruptura na maneira como certos grupos sociais de Belém (no meio deles, os jornalistas) elegeram enxergar e interagir com os shows de Heavy

Metal? Partindo do entendimento de Hermano Vianna, o show de Heavy Metal, após o “festival violento” Rock 24 Horas, tornou a ser olhado como “um fenômeno, antes de qualquer coisa, violento”, portanto, a “violência”, e não o comprometimento em conseguir

149 Jornal O Liberal, 21/01/1992, Caderno Cartaz, p. 5. Belém – PA. 150 Jornal O Liberal, 1/08/1990, Caderno Dois, p. 1. Belém – PA.

espaço e vontade de expandir a cultura Heavy Metal por Belém, “se transformou na sua principal marca” e os headbangers “foram estigmatizados”.152

A perspectiva de Michael Pollak, sobre os múltiplos problemas envolvendo a formação da memória de alguém ou de um grupo sobre um acontecimento, é pertinente ao desenrolar do 3º Rock 24 Horas, seus aspectos violentos e sua relação com o Heavy Metal paraense, nas lembranças dos habitantes de Belém. Porque, deve-se frisar que a “memória parece ser um fenômeno individual, algo relativamente íntimo, próprio da pessoa”, mais também, “sobretudo, como um fenômeno coletivo e social, ou seja, como um fenômeno construído coletivamente e submetido a flutuações, transformações, mudanças constantes”.153 Ele continua dizendo que nas “memórias existem marcos ou pontos relativamente invariantes, imutáveis”, pois a “memória é seletiva”, eleitora daqueles acontecimentos que são mais importantes para o indivíduo, tanto do ponto de vista social, quanto político, econômico e cultural e, junto a isso, a “memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual como coletiva, na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si”.154

Nesse intuito, Pollak coloca, se existe a possibilidade do “confronto entre a memória individual e a memória dos outros, isso mostra que a memória e a identidade são valores disputados em conflitos sociais e intergrupais, e particularmente em conflitos que opõem grupos políticos diversos”.155

Mas, José Carlos Sebe Bom Meihy, enxergando por outro prisma e contribuindo a para a discussão do sentido da memória, chama a atenção para se ir mais além e “anular a noção de dominância e estabelecer uma dignidade de aspectos de construções identitárias dos grupos”. Com isso, estabelecer um “diálogo que passa a interessar e os conflitos internos de cada grupo em vez de cristalizar os argumentos propostos por cada causa, passam a expressar a luta de cada camada”.156

Perceber a diversidade e confronto sobre a memória desse fato histórico que marcou o início do declínio do Heavy Metal e do Rock locais, nas falas daqueles que vivenciaram o episódio do 3º Rock 24 Horas, é imprescindível para o questionamento proposto.

152 VIANNA, Hermano, Op. Cit., p. 183.

153 POLLAK, Michael. Memória e Identidade Social. In.: ______. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n.

10, 1992, p. 2.

154 POLLAK, Michael, Op. Cit., pp. 2 – 5. 155 Ibidem, p. 5.

156 MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Os Novos Rumos Da História Oral: O Caso Brasileiro. In: ______. Revista

Mais, ainda sim e, sendo mais direcionado para o grupo social aqui analisado (os

headbangers), é preciso entender como se construiu a memória deles sobre esse evento, visto que somente foi citada a opinião de um deles, Sidney K. C., da banda DNA.

O sentido atribuído ao 3º Rock 24 Horas pelos headbangers locais, em relação às consequências que ele provocou para o cenário underground metálico paraense, tem diversas faces.

Enquanto que pra uns, a imagem do Heavy Metal ficou ligada à violência por parte da imprensa local e munícipes fora do meio headbanger, diminuição do número de bandas, proporção menor de eventos, frequência reduzida de shows de Heavy Metal no Teatro Experimental Waldemar Henrique, caída de público nos shows de Heavy Metal e fechamento de espaços para a prática do Heavy Metal, levou a “música pesada” local a uma perda de qualidade musical e quase um “fim” desse gênero musical na capital paraense, outros colocam que esse foi um momento de “amadurecimento”, “maior organização” e “domínio” maior sobre as ações do movimento headbanger.

Mauro “Gordo” Seabra, naquele momento, baterista das bandas locais de Thrash

Metal157 Dr. Stein e DNA, em entrevista realizada e gravada, afirma:

Prejudicou bastante a cena. A cena ficou praticamente morta durante aí, uns cinco anos. Algumas pessoas tentaram fazer alguns eventos aí, nesse meio tempo e tudo, mas eram eventos bem menores, né? Os shows continuaram. O n° de bandas diminuiu bastante. Porque muitas bandas que, a gente sempre chamou de bandas “empolgadas”, né? O pessoal empolgado, que fazia bandinha só pra aparecer. Esse pessoal aí, se afastou. Se afastou mesmo.158

Ele continua, e faz colocações sobre os aspectos musicais que começaram a aparecer em Belém, no que diz respeito às novas bandas, dentro desse momento pós-3º Rock 24 Horas, além de uma visão ligada ao que aconteceu com o Heavy Metal e Punk Rock locais, junto ao uso feito por eles dos espaços, onde ocorriam shows de Rock:

A partir daí, começa uma certa decadência da qualidade das bandas. Realmente. Porque, cai naquela mesmice, né? Já tava vindo a influência de outros estilos que vinham de fora, né? O Grunge, já tava começando a chegar. E, muita gente, muita gente nova que tava entrando, no mercado, vamos dizer assim, né? Criando banda e