Teoretiske perspektiver og begreper
Del 3: Encounters med det mer-enn-menneskelige og vital materialisme Ved hjelp av en fortelling vil jeg nå undersøke hvordan dyrkingspraksiser bærer med seg
No arranjo de governança do PBF, o Nível Vertical é o mais denso no que tange à
quantidade e diversidade de instrumentos, pois agrega tanto os instrumentos próprios do
Programa quanto aqueles já em operação no âmbito das políticas de assistência social,
educação e saúde, os quais passam a incluir dispositivos do PBF. Vários dos instrumentos
refletem mais de um tipo de mecanismo ou de modo de governança, com o aparente
predomínio da governança em rede decorrente da autonomia formal dos entes federados no
Brasil, porém com fortes elementos de governança hierárquica relacionada à centralidade do
Governo Federal no arranjo, e até mesmo alguns elementos de governança de mercado.
O mecanismo de agência demonstra um caráter dual neste nível, ora estando
relacionado a uma governança em rede, ora a uma governança hierárquica, e em alguns casos,
a ambos. Nessa perspectiva, quando discute a governança multinível, Charbit (2011, p. 7,
tradução nossa) aponta para:
[...] o alto grau da dependência dos governos centrais em relação à
efetividade dos governos subnacionais na oferta de bens públicos para
serviços que são de alta importância no nível nacional. Alguns até
consideram que há a necessidade de separar na cesta de competências
subnacionais aquelas que afetam acima de tudo bens públicos nacionais,
apenas implementadas no nível subnacional, de bens e serviços públicos
locais e regionais mais específicos. No primeiro caso, os governos
subnacionais poderiam até mesmo ser considerados como agentes dos
governos centrais, voltados a padrões nacionais em termos de oferta de
serviços públicos (ainda que os processos para alcance desses padrões
tivessem que ser adaptados a situações locais para uma oferta efetiva).
Assim, pode-se argumentar que o caráter de hierarquia associado ao mecanismo de agência
está relacionado ao estabelecimento de padrões nacionais estabelecidos pelo Governo Federal,
enquanto o aspecto de rede está relacionado à discricionariedade dos governos subnacionais
na adaptação desses padrões às especificidades locais.
O caráter hierárquico, neste nível, não decorre de uma autoridade formal entre os
atores, uma vez que, como apontado, os entes subnacionais gozam de autonomia e status
federativo equivalente ao da União. A autoridade do Governo Federal sobre os governos
subnacionais parece advir, neste nível, da normatização, da qualificação técnica e do
financiamento. O mecanismo de normas e regras reforça o aspecto hierárquico da relações de
agência. As relações interfederativas no Programa são formalizadas por meio da assinatura de
termos de adesão entre o Governo Federal e os estados e municípios que desejam aderir ao
PBF (hoje, todos os governos subnacionais são parte do Programa). Os termos representam o
principal estatuto que regula as relações verticais no arranjo, além da própria legislação do
Programa. Apesar de serem assinados bilateralmente, seguem um modelo que é
unilateralmente estabelecido pelo Governo Federal.
Outros instrumentos servem ao reforço da autoridade normativa do Governo Federal,
seja no sentido de reiterar diretrizes e procedimentos atribuídos principalmente aos
municípios, seja visando ao monitoramento e controle da atuação dos entes subnacionais. Por
meio das entrevistas com atores municipais, pode-se perceber como capacitações, sistemas de
informação e canais de comunicação, ainda que informais, servem para orientar os municípios
a cumprir suas atribuições de acordo com o estabelecido, obter informações sobre seu
desempenho e cobrar o alcance de metas. Esses instrumentos de aprendizagem
interorganizacional, elaborados em sua maioria numa perspectiva top-down do nível federal
para os demais e cujos conteúdos consistem basicamente das normas que regem o Programa,
representam o exercício da autoridade técnica.
Não são apenas os municípios que assumem um papel de agentes do Governo Federal
ao receberem a atribuição de execução do Programa. Os governos estaduais têm papel
fundamental nesse aspecto, atuando como agentes do Governo Federal justamente na
interação direta com os municípios, visto que o número de municípios e a vastidão do
território inviabilizam o exercício de um controle centralizado. As atribuições de apoio e de
cobrança dos estados sobre os municípios, no entanto, parecem conflitar entre si, não estando
claro o que predomina, ou o que parece predominar na percepção dos atores municipais.
Quanto ao financiamento, um instrumento implementado no Nível Vertical que
merece atenção é o Índice de Gestão Descentralizada (IGD). Por meio dele, o desempenho
dos governos subnacionais é medido e incentivado pela transferência de recursos financeiros
que variam de acordo com o valor do índice, que é calculado com base na
qualidade/integridade e atualização das informações do Cadastro Único e na cobertura do
monitoramento das condicionalidades – ambos procedimentos operacionais padronizados
determinados pelas regras do Programa. A transferência de recursos é automática e não requer
interação direta além do fluxo de informação sobre as famílias dos municípios para o Governo
Federal. O índice dos estados é calculado com base nos índices dos municípios daquele estado
e no acompanhamento da frequência escolar de beneficiários que estudam nas escolas da rede
estadual.
O uso de incentivo financeiro também pode ser considerado um mecanismo de
agência, que visa a reforçar no agente o comportamento desejado pelo principal. Porém, o
IGD não configura apenas um incentivo, mas também um apoio à gestão do PBF, o que lhe
atribui caráter de rede. O caráter de mercado, por sua vez, decorre não apenas de sua
dimensão financeira, mas por ser, em hipótese, baseado em decisões calculadas pelos agentes
em relação à alocação de força de trabalho, em um mercado em que conjuntos de atribuições
programáticas demandadas pelo Governo Federal competem entre si face a um preço
estabelecido em troca de sua execução. Para entender essa hipótese, é importante lembrar que
o PBF não conta com uma estrutura de implementação própria, sendo implementado pelas
equipes de assistência social, educação e saúde dos governos subnacionais, que têm que lidar
com outras atribuições e requerimentos de trabalho de suas respectivas políticas. As
transferências previstas nas pactuações setoriais seguiriam a mesma lógica, com os governos
subnacionais tomando decisões calculativas baseadas nos custos e capacidades locais para
negociar e/ou implementar as metas de oferta de serviços estabelecidas junto ao Governo
Federal.
Para além dos aspectos de hierarquia e mercado, a governança em rede parece
predominar dentre os instrumentos identificados, por meio de mecanismos de grupos e, em
alguns casos, de negociação. Por exemplo, governos em diferentes níveis também podem, no
âmbito do PBF, estabelecer acordos de cooperação voluntários entre eles, para desenvolver
outras ações em torno do Cadastro Único ou do PBF, incluindo complementação dos
benefícios transferidos às famílias. Dessa forma, especificidades territoriais, relacionadas a
custos de vida, por exemplo, podem ser contempladas.
Tal como ocorre na atuação dos estados junto aos municípios, alguns dos instrumentos
têm caráter concomitante de hierarquia e de rede, o que evidencia uma possível contradição
entre o objetivo de incentivo à intersetorialidade estabelecido pelo Governo Federal e a forma
como eles são percebidos pelos agentes no nível local. Os sistemas informatizados
representam claramente essa situação: quando utilizados como instrumentos de gestão,
voltados ao reforço de procedimentos e à obtenção de informações de desempenho dos
governos subnacionais, por meio de formulários eletrônicos padronizados, por exemplo, têm
caráter hierárquico; quando voltados à disponibilização de dados e informações aos estados e
municípios, têm caráter de rede.
Um entrevistado dos níveis subnacionais, em específico, comparando a ênfase do
Governo Federal em questões procedimentais e no alcance de metas, por um lado, e no
incentivo à articulação intersetorial para oferta integral de serviços, por outro, mencionou que
os esforços para a primeira dimensão são muito mais intensos do que para a segunda. Pode-se
especular, por isso, que o caráter formal dos elementos procedimentais e do controle de metas
acaba por servir de obstáculo às relações em rede entre os atores de diferentes níveis de
governo, pois se opõe frontalmente à confiança apontada na literatura como requisito da
governança em redes. A diferença no efeito da “sombra da hierarquia” neste nível, em
comparação com o efeito positivo aventado no Nível Horizontal Superior, pode decorrer da
aceitação comum de uma autoridade explícita, naquele caso, em contraste com uma menor
evidência dos aspectos hierárquicos no Nível Vertical, em relação aos quais não há uma
aceitação clara pelos atores envolvidos. Essa falta de clareza estaria relacionada, por sua vez,
justamente à dualidade apresentada por boa parte dos diversos instrumentos empregados neste
nível.
Em consequência, as seguintes proposições podem ser formuladas em caráter mais
geral, merecendo aprofundamento futuro: 1) os governos subnacionais, em resposta a
instrumentos de incentivo financeiro, tomam decisões calculativas baseadas nos custos locais,
em suas capacidades operacionais e na percepção de benefícios potenciais ao negociar e/ou
aceitar padrões de oferta de serviços estabelecidos pelo Governo Federal, cujas demandas
competem pelos recursos operacionais escassos em nível local (estrutura, equipes, etc.); 2) o
duplo caráter de hierarquia e rede de alguns instrumentos (como os sistemas informatizados, a
atuação dos coordenadores estaduais, o IGD e, possivelmente, as ações de capacitação) gera
contradições na sinalização do principal (Governo Federal) para os agentes (governos
subnacionais) na implementação do Programa no nível local, de forma que a “sombra da
hierarquia”, neste nível, se torna prejudicial à governança em rede.