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O que transforma um fato em notícia? Mauro Wolf (2002) define alguns valores/notícia, critérios utilizados pelos meios de comunicação para selecionar os acontecimentos considerados suficientemente relevantes para aparecerem nas páginas dos jornais. Fazem, portanto, parte da rotina da atividade jornalística e são interiorizados pelos profissionais, o que assemelha esse processo a uma linha de produção. Os valores/notícia também são um dos procedimentos que visam a tentar garantir a objetividade do processo.

Wolf (2002) aponta quatro variáveis que ajudam o jornalista a definir o que é ou não notícia. A primeira delas é o nível hierárquico dos personagens envolvidos no acontecimento. A presença de autoridades e celebridades, por exemplo, é característica relevante para a seleção das notícias.

A segunda diz respeito ao “impacto sobre a nação e sobre o interesse nacional” (WOLF, 2002, p.202). Baseando-se apenas nesse critério, já é possível afirmar que a Copa do Mundo de 2014 é pauta obrigatória em redes de rádio e televisão, portais e sites de notícias e jornais impressos, tanto nas editorias de esporte quanto nas outras seções. Além de ser um megaevento, definição abordada no primeiro capítulo, acontece no Brasil – outro critério específico citado por Wolf (2002), o da proximidade. Isso já é suficiente para colocá-la em pauta, em todos os seus aspectos.

A terceira categoria de valor/notícia de Wolf (2002) está relacionada à quantidade de pessoas que o fato pode envolver. A última refere-se à relevância que o fato tem dentro de um processo ou de um acontecimento maior – como as eleições. Outros critérios também são utilizados pelos jornalistas na hora de tomar essa decisão: interesse humano, interesse público, atualidade, valor financeiro envolvido, decisões políticas e governamentais, facilidade de acesso do profissional na cobertura do fato, frequência do acontecimento. No caso da televisão, até o tipo de imagem que pode ser gerada interfere na escolha de uma pauta.

Como megaevento esportivo, a Copa do Mundo no Brasil cumpre alguns desses critérios, principalmente aqueles relacionados à amplitude e ao interesse público que dele resulta.

Pesquisando quatro grandes portais de notícias do Brasil, – Globo, Estadão, Terra e UOL – Tatiane Hilgemberg (2013) descobriu que a maioria dos textos analisados (40% de 67 matérias) é relativa a obras de estádios, mobilidade urbana, hoteis, aeroportos e outros pontos das cidades-sede. O restante das matérias diz respeito

à previsão de gastos e orçamentos – além de outras questões econômicas –, eventos, segurança durante a Copa e operação dos estádios.

Hilgemberg (2013) aponta que os aspectos envolvidos no megaevento, da remodelação urbana ao desenvolvimento da infraestrutura, requerem uma demanda de informações sobre o andamento das obras e os altos investimentos feitos para construí- los. Os acontecimentos englobados pela preparação à Copa também são palco de histórias de interesse humano, típicas ainda do “jornalismo para cima” (STYCER, 2009, p.207) e propícias para o surgimento de personagens anônimos – operários, torcedores – cujas histórias, com pitadas de emoção, atraem a atenção e a empatia dos leitores.

Segundo a hipótese do agendasetting, os meios de comunicação são responsáveis, ao menos em parte, por definir quais questões entram na pauta de discussões da sociedade (WOLF, 2002). A opinião pública, porém, não segue os moldes propostos pelos meios. Cada indivíduo é influenciado de maneira diferente, dependendo de conhecimentos anteriores e do contexto cultural em que está inserido. Há também uma variedade de agendas em diferentes veículos de comunicação, de áreas diversas. Mesmo assim, é mais provável que a visibilidade gerada pela presença nos meios de comunicação coloque em pauta certos acontecimentos e atores sociais em detrimento de outros:

em consequência da ação dos jornais, da televisão e de outros meios de informação, o público sabe ou ignora, presta atenção ou descura, realça ou negligencia elementos específicos dos cenários públicos. As pessoas têm tendência para incluir ou excluir dos seus conhecimentos aquilo que os mass media incluem ou excluem do seu próprio conteúdo. (SHAW, 1979, p.96 apud WOLF, 2002, p.144)

Ainda que a preparação para a Copa do Mundo no Brasil, por diversos aspectos, seja pauta obrigatória nos jornais, precisa disputar espaço com o que geralmente ocupa a grade de programação e os cadernos esportivos: as competições. O jornalismo esportivo é preso ao calendário do futebol no país – poucos são os meses em que não há competição da modalidade. A ampliação do tipo de cobertura realizada é dificultada também pela falta de profissionais nas redações e pela própria falta de espaço nos cadernos, ocupados com toda e qualquer informação que diz respeito ao esporte número um do país. As outras modalidades esportivas, o esporte amador e até as questões extracampo do futebol também acabam relegados a segundo plano63.

63 Embora não faça parte dos objetivos desse trabalho, a coleta do corpus e as leituras de outros jornais, além de artigos sobre o tema, nos permitem fazer essa observação. Conquistas importantes de modalidades como vôlei e natação ocupam menos espaço do que os jogos de fim de semana, no futebol.

Outras questões relacionadas à preparação também são pouco abordadas pelos veículos de comunicação – principalmente nas editorias de esporte – o que, segundo a hipótese do agendamento, aumenta a probabilidade de deixá-las de fora do debate na sociedade. Dentre elas, é possível citar a polêmica das desapropriações.

Este capítulo abordou a editoria esportiva como uma especialidade do jornalismo, trazendo o histórico da imprensa esportiva no Brasil e no Ceará, além de versar sobre a relação entre informação e entretenimento, uma discussão atual quando se trata de jornalismo esportivo. As especificidades da linguagem nesta editoria – a subjetividade e a informalidade, principalmente – também foram apresentadas, e o capítulo se encerra com a teoria sobre agendamento e critérios de noticiabilidade, que mostra os motivos de a Copa do Mundo ser considerada pauta obrigatória pelo jornalismo.

O capítulo seguinte trará a análise das matérias sobre as obras de mobilidade urbana para a Copa do Mundo em Fortaleza, utilizando-se da análise de conteúdo para investigar hipóteses relacionadas às temáticas priorizadas, ao ponto de vista predominante e ao destaque dado aos textos.

3. A MOBILIDADE URBANA E O JORNALISMO ESPORTIVO: UMA

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