Depois do diálogo intergeracional, foi dada continuidade ao trabalho somente com os professores. A jornada do dia começou com os participantes sendo recepcionados com a exposição de fotos feitas pelo professor João Figueiredo de diversos aspectos da realidade de Irauçuba, acompanhada do som do Armorial Cordas do Caroá, grupo paraibano, com a música Macambira e o poema Lampejo.
Solicitei que cada participante escolhesse uma fotografia com a qual se identificasse naquele momento ou representasse melhor o seu lugar.
Depois, sentados no chão e em círculo, cada um de nós apresentou a foto escolhida e explicou o porquê de sua escolha. Conversamos sobre como a fotografia, a
música e o poema nos tocavam afetivamente e qual a relação da imagem com nossa realidade. A partir das fotos, foi possível acessar um pouco mais o mundo subjetivo e as relações de cada sujeito com o entorno. A proposta de se trabalhar com expressões artísticas (fotografias, músicas e poemas) serviu para deflagrar emoções e sentimentos que foram compartilhados pelo grupo, como podemos perceber a partir dos relatos apresentados:
Eu escolhi esta foto pelo contraste, também até questão aqui do verão, aqui que a gente percebe como é o semiárido no verão e quando começam as primeiras chuvas que começa a aparecer o verde rapidamente, não é? A gente sabe que a rapidez que tem para as árvores secarem também tem para ficarem verdes. Dá uma chuvinha e já começa tudo a ficar verde de novo. E esta outra parte aqui por causa das queimadas, porque, assim, no período do verão isso dá uma tristeza muito grande. Quando eu vejo assim aquelas queimadas, o município fica praticamente invadido por fumaça das queimadas que o povo ainda faz muito assim descontroladamente, desordenadamente as queimadas. E isso me entristece muito porque a gente pode fazer muito pouca coisa e a gente percebe grandes propriedades de terras que onde existia matas foram todas cortadas e destruídas. Lá perto do Boqueirão, eu senti uma tristeza grande quando eu cheguei ali, depois da Timbaúba, e eu vi uma parte da mata que ainda existia. Era uma mata que era preservada e esse ano o pessoal derrubou a mata toda e queimou o chão, não ficou mais nenhum vestígio daquelas plantas e, assim, isso me entristece muito e a gente vê esse contraste, não é? E me parece que esse ano aumentou 50% as queimadas aqui, ao invés de ter diminuído, aumentou (Cléia).
Abaixo, encontra-se o relato da professora Erislândia, intercalado com intervenções minhas. Neste trecho de sua fala, ela cita elementos que suscitaram muitas discussões durante o estudo: a relação com a água, a degradação ambiental ao longo do tempo e a importância de recordar as vivências do passado.
Erislândia - Bom eu peguei essa imagem aqui, eu nem sei onde que é, mas eu não sei se parece uma lagoa, um lago, eu não sei, mas eu peguei imaginando um rio, que quando a gente saía de casa para ir lavar as roupas no rio, né? Que aqui as pessoas lavam as roupas em uma pedra na frente do rio, que é o que muita gente fazia aqui, outras pessoas pegam da água do poço de uma cacimba, não sei... e imaginando o que a gente fazia com isso, não é? Pegava a água do rio e colocava na cabeça, levava nos balde... o que naquela época para a gente era ruim demais, ter que carregar água na cabeça, só que hoje, a gente voltando assim no tempo, a gente vê que não era assim tão ruim. Eu achava...
Pesquisadora - Divertido?
Erislandia - É, a gente era feliz e não sabia. Quando a gente saía para lavar roupa no rio, a gente ainda podia lavar roupa no rio, dessa forma que estão fazendo aqui. Eu estou imaginando como se fosse o rio daqui e hoje a gente não pode mais fazer isso não, nem entrar, nem tomar banho. Como se fosse nessa época aqui quando eu era criança que eu podia ir lavar roupa, cair na água e brincar, pular no rio e que hoje a gente não pode mais fazer isso. Os meus filhos não tiveram o mesmo privilégio que eu tive na época, né? Que a gente fazia...
brincava... a gente ia para a escola e ficava muito tempo tomando banho no rio, chegava em casa muito tarde tomando banho no rio... então eu imaginei... Pesquisadora- E porque não pode fazer mais isso hoje?
Erislandia - Por conta da poluição, né? Muito poluído e o rio é assoreado, as árvores que tinham, as oiticicas, de onde a gente pulava lá de cima para dentro da água, não tem mais e os esgotos correm dentro do rio. Então são fatores que... a vegetação, por exemplo, já não tem mais o cipó do rio, eu nunca mais nem vi, que a gente subia bastante. Então eu acho assim, um lazer que acabou. Boa parte para a gente, eu vejo dessa forma aqui, é como se fosse o bem antes... aí eu escolhi essa [foto] porque quando eu vi aqui, me vi nessa paisagem aqui, me deu saudade.
A professora Elizandra, ao tomar a palavra, cita a fala de sua colega Erislândia e reforça a reflexão acerca da água, acrescentando a importância das cisternas de placa e o contraste que as parabólicas trazem para a paisagem.
Eu escolhi esta e já comentei sobre o contraste da casinha de taipa com a parabólica em cima, que ela quase que a gente vê assim bem destruída, bem deteriorada, a casinha, mas com a parabólica e isto aqui é um dos contrastes que nós temos também aqui na nossa região... E também tem uma cisterna de placa, também aqui que é interessante até porque é assim do comentário da Preta (Erislândia), hoje nós não temos mais a água que nós tínhamos, de uma qualidade que nós tínhamos antes, por conta da poluição, da destruição e hoje uma das saídas é realmente as cisternas de placas, mesmo então foi essa foto que me chamou a atenção. Uma das fotos, né, não foi só essa, tem outras e aí se fosse comentar, eu comentaria, também outras fotos, mas essa aqui eu peguei, comecei a comentar e fiquei com essa mesmo (Elizandra).
Terminada a pausa para o lanche, voltamos com mais poesia, lendo “Aninha e suas pedras”10, de Cora Coralina. Depois foi distribuído o texto “As histórias de vida
abrem novas potencialidades às pessoas”, entrevista de Rui Seguro feita com Marie-
Christine Josso para a revista “Aprender ao longo da vida” (2008), que faz uma introdução
sobre a pesquisa autobiográfica e sua importância. Também foi entregue o texto: “História de vida e formação”, de Margarida Belchior (2008).
Após a leitura dos textos, passamos à discussão dos mesmos. O grupo pôde entrar em contato com a pesquisa autobiográfica e começar a se preparar para ir mais longe na viagem em direção ao encontro consigo que continuaríamos logo mais.
Alguns pontos dos textos foram destacados pelo participantes, denotando a paulatina apropriação de certos princípios epistemológicos que balizam a pesquisa:
10 Cito apenas uma parte dos textos utilizados durante o Círculo Ecobiográfico e alguns deles constam nos
Às vezes uma pessoa jovem pensa que não tem muito o que dizer, mas tudo o que é dito pode ajudar muito (Elizandra).
Existe a fase oral e a fase escrita e cada fase dessas é muito importante (Claumir).
Tem gente que diz que não tem nada pra falar porque todo mundo casa, tem filhos, estuda etc (Sandra).
Tudo o que é dito é importante. Às vezes a gente não dá importância ao que algumas pessoas dizem, mas tudo é importante (Erislândia).
Esta etapa da pesquisa foi realizada na parte da manhã e à tarde continuamos nosso trabalho começando a fazer os relatos orais de forma mais estruturada. Entretanto, antes de dar início aos relatos diretamente, o grupo passou por um novo momento de sensibilização, através de poemas e canções, pois entre a primeira e a segunda etapa do trabalho realizado neste dia, havia o intervalo do almoço, o que os deixou um pouco dispersos.