A troca de experiências, já anunciada em fragmentos discursivos, identificadas em análises anteriores, emerge com vigor nesta classe.
Estudos desenvolvidos por Abric (1998, p. 29) sugerem que ―[...] a representação da tarefa determina diretamente o tipo de estratégia cognitiva adotada pelo grupo, bem como esse se estrutura e comunica, independentemente da realidade objetiva da tarefa‖.
É evidente que as sessões de estudo e planejamento nas escolas municipais, agrupando as professoras por etapa de ensino, vêm contribuindo para fortalecer as trocas de experiência e influenciar as suas representações sociais. Capacita as pessoas de um mesmo segmento ou de níveis diferentes, especialmente quando o conhecimento é entendido como algo processual e
dinâmico em que o ―eu‖ e o ―outro‖ se articulam para a apropriação e elaboração de novos saberes, com objetivos comuns. Conhecido e desconhecido recuperam-se como unidade dialética, superando a falsa dicotomia instituída na escola e na sociedade dos que sabem e dos que não sabem. Estabelece-se assim o, ―ainda‖, indicativo da incompletude e de novas possibilidades, do ―vir a ser‖, ponte para novos saberes. O ―não sei‖ deixa de ser um sentimento de incapacidade, de impossibilidade que, compartilhado com os pares, é ressignificado para enfrentar os desafios da sala de aula e da escola. O ―já sei‖, resultante das parcerias, favorece o desejo de compartilhamento, da busca permanente e/ou de relacioná-lo com as vivências didático-pedagógicas.
Caracteriza-se como um ideário sócio-interacionista que supera os reducionismos do behaviorismo39 e do diretivismo40, na busca da mediação simétrica. O mestre Paulo Freire em uma de suas Conferências, em Natal/RN, dizia mais ou menos assim: ―Não há saber mais ou menos: há saberes diferentes.‖ Pensamento que favorece o diálogo, pelo respeito aos saberes dos outros e desenvolve a habilidade de saber ouvir e posicionar-se quando necessário.
Nesse sentido, é preciso considerar que os saberes dos professores provêm de fontes variadas, de diferentes momentos de suas vidas em suas relações institucionais, interpessoais e intrapessoais: ―[...] o saber dos professores é plural, compósito, heterogêneo, porque envolvem, no próprio exercício do trabalho, conhecimentos e um saber-fazer bastante diverso, provenientes de fontes variadas e, provavelmente, de natureza diferente‖ (TARDIF, 2004, p. 18).
As professoras, passageiras desta viagem náutica, são pessoas integradas a grupos sociais de referência, nos quais circulam concepções de formação continuada de modo de ser, que se constituem em representações e valores que filtram os conhecimentos que lhe chegam.
As palavras agrupadas de acordo com o léxico e a semântica favorecem a reflexão em torno da docência, em sua multidimensionalidade e especificamente em sua dimensão relacional. As trocas, contempladas em todas as classes, ressurgem
39 Segundo os ambientalistas (ou comportamentalistas, também cognominados behavioristas, do inglês behavior = comportamento), cujo grande defensor é B. F. Skinner, o ambiente e a experiência são determinantes do comportamento. Os processos e fatores internos ao indivíduo não são levados em conta, e o próprio desenvolvimento é explicado como decorrente da aprendizagem. (FONTANA; CRUZ, 1997).
40 O diretivismo, uma das características do ideário tradicional, considera o professor como o centro do processo de ensino e aprendizagem, o qual expõe as lições segundo uma gradação lógica e aplica os exercícios que os alunos devem realizar de uma determinada forma.
mais fortemente na classe ―C‖, favorecendo o sentimento de parceria que ―[...] cria nós de estabilidade e recorrência, uma base comum de significância entre seus praticantes. As regras dessa arte mantêm todo um complexo de ambigüidades e convenções, sem o qual a vida não poderia existir‖ (MOSCOVICI, 2003, p. 51).
O trabalho institucional compartilhado favorece as negociações de espaço, de tempos e de sentidos. Negociações que, longe de significarem a transparência da aceitação ou do consenso, esbarram nas relações de poder, no jogo de interesses pessoais ou de distintos grupos, nem sempre conseguida entre os interlocutores. Outro aspecto que pode ser trabalhado é a avaliação dos trabalhos sem personalizar ações, fracassos, limites e possibilidades. Nessa direção, precisamos atentar para o que dizem as professoras a respeito das trocas de experiência, justificando as suas evocações em torno de formação continuada:
Eu acredito que a formação continuada nos traz uma renovação de conhecimentos, atualizando as informações e vivências anteriormente adquiridas. É ainda um espaço de estudo, de troca de experiências, pois muitas vezes aprendemos mais com as experiências dos outros, do que com conceitos e teorias aprendidos e não vivenciados. M118p2.
A formação continuada nos possibilita o conhecimento de algo. Aprendemos com as leituras, com as informações, como também nas trocas de experiência com as colegas. M90p9
As principais responsáveis pela produção das 12 UCE nesta classe foram as professoras das escolas municipais e a maioria possui curso de especialização. Apenas uma professora da rede estadual foi identificada nesta classe e possui curso de especialização.
O planejamento já referido, desenvolvido em horários sistemáticos de planejamento nas escolas e a qualificação das participantes favoreceram essas representações sociais. O aprendizado do saber conviver, um dos pilares da educação, tem como um dos mecanismos a troca de experiências, a inserção e mergulho nas relações sociais em cada realidade vivida. (DELORS, 1996). E esse mergulho requer um tempo, haja vista que a aprendizagem constitui-se na vivência processual, com seus avanços e conflitos a serem administrados. Como ressalta Charlot (2000, p. 78-79).
A apropriação do mundo, a construção de si mesmo, a inscrição em uma rede de relações com os outros – ―o aprender‖ – requerem tempo e jamais acabam. [...] Esse tempo não é homogêneo, é ritmado por momentos significativos, por ocasiões, por rupturas.
A heterogeneidade é um dos aspectos a ser contemplado em qualquer ação formativa, benéfica para os que ainda não sabem e por favorecer e fortalecer as parcerias e a aprendizagem de todos, enquanto um processo interativo e solidário. Possibilita que o desenvolvimento potencial se torne real, cria um novo patamar de desenvolvimento pelo confronto/cooperação entre eu e o outro, necessário aos programas e projetos que visam à melhoria do ensino e da aprendizagem eficazes.
A formação continuada possibilita o compartilhar de experiências, o acesso aos saberes sistematizados ou àqueles saberes mais particulares que todos nós possuímos. E57p16.
Nessa classe apenas uma professora da rede estadual, conforme referido, foi contemplada pelo ALCESTE, frequentou o curso de Pedagogia e especialização em instituição pública, tem 20 anos de experiência em magistério e 16 anos em sala de aula. Mergulhar nas representações sociais de formação continuada, considerando a História e a história já vividas pelos docentes é um dos desafios para a construção de políticas e ações públicas de qualidade socialmente referenciada. Outro desafio é assegurar espaços formativos interinstitucionais, na unidade escolar, dentre outros, com uma carga horária específica para que a formação continuada e o planejamento participativo possam ser viabilizados efetivamente.