Como visto anteriormente, a teoria do mito-ritual foi inicialmente desenvolvida em Cambridge por W. Robertson Smith e James Frazer. Porém, aqui nos interessa mais directamente a influência deste último na compreensão dos mitos por Malinowski. Vimos que Frazer acreditava que o rito era a representação material do mito, e dessa forma, buscou a compreensão do mesmo a partir desse prisma (DOWDEN, 1994:44). Em sua maior obra: Argonauts of the Western Pacific (1922)49, Malinowski demonstra concordar com tal associação; porém, vai mais além em relação ao papel do mito no cotidiano dos nativos.
Ao descrever os procedimentos seguidos pelos nativos para construção de suas canoas, Malinowski observa a presença de um ritual imiscuído nessa operação, e da mesma forma que Frazer acreditava, Malinowski percebia que havia um mito associado ao rito da construção das canoas que eram utilizadas pelos nativos para integrarem o sistema Kula: ”O rito se encontra intimamente ligado ao mito da canoa voadora, localizado em Kudayuri, uma localidade da ilha Kitava, e muitas alusões são feitas a esse mito” (Malinowski, 1978:106, grifo nosso). Contudo, embora utilizasse a noção de Frazer da associação entre mito e ritual, Malinowski acreditava que Frazer nunca se tornou consciente do fator social da mitologia. (idem, 1970:177, grifo nosso).
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Utilizamos uma tradução brasileira (Os Argonautas do Pacífico Ocidental) de Anton P. Carr publicada pela primeira vez em 1976 e reeditada através das constantes reedições da série: “Os Pensadores”.
Para Malinowski, o Kula50, a instituição central de seu estudo em Os Argonautas do Pacífico Ocidental, o qual ele acredita ser uma instituição enorme e extraordinariamente complexa, não só em extensão geográfica, mas também na multiplicidade de seus objectivos; está amplamente sustentado na tradição e enraizado nos seus mitos. (1978:72, 73, grifo nosso). Tal abordagem nos faz perceber que diferentemente da escola mito-ritual de Cambridge, Malinowski situa o mito num plano de antecedência em relação ao ritual, observando que o mito funciona de forma muito mais ampla do que apenas no âmbito de uma breve associação com os rituais encontrados entre os melanésios: “Nos rituais, nas cerimônias, nos costumes e na organização social fazem- se, às vezes, referências directas ao mito, e são encarados como consequência do acontecimento mítico” (1984:110).
Malinowski acreditava que os mitos construíam em torno do Kula formas bem definidas de cerimônias e rituais, possibilitando aos nativos observar essa instituição com enorme paixão (1978:72, 73). Dessa forma, como indica Durham (1986:77), a atitude dos nativos em relação ao Kula e, por conseguinte os rituais neles envolvidos, são uma manifestação ou reflexo de sua mitologia.
O primeiro passo de Malinowski para entender a funcionalidade do mito entre os melanésios, foi manter sua tradicional preocupação em não utilizar um conceito definido exclusivamente em termos abstractos a partir da concepção desse mesmo conceito em nossa sociedade. Dessa forma, ao invés de utilizar uma categoria pré- concebida e tentar adequar a mesma aos dados obtidos em seu trabalho de campo, Malinowski se pergunta: o que é mito para os nativos? Tal questionamento, o leva a tentar distinguir entre as diversas categorias de contos e lendas que foram legados aos nativos pelas gerações anteriores, quais delas representa o mito tal como o concebemos em relação à realidade dos melanésios.
Os nativos fazem distinção entre quatro tipos de contos: primeiramente o libogwo (falar antigo); em segundo lugar os kukwanebu (contos de fadas), que são utilizados com o
50 O Kula é uma troca cerimonial de dois artigos feitos pelos nativos das Ilhas Trobriand. Esses objectos
(braceletes e colares de conchas) circulam entre as comunidades que habitavam as diferentes ilhas, fazendo-se transportar em canoas. Tal actividade é praticada por um extenso número de distritos que formam um círculo fechado. Em sua obra os Argonautas do Pacífico Ocidental, Malinowski encontra no Kula uma das instituições mais importantes por abarcar um grande número de atividades inter- relacionadas e interdependentes que formam um todo orgânico, representando entre outras coisas aspectos econômicos, sociais e míticos. Malinowski (1978: 21).
intuito de divertir os ouvintes numa época específica do ano; em terceiro o wosi (canções diversas utilizadas em alguns folguedos); e em quarto o megwa ou yopa, que são as fórmulas mágicas. Para Malinowski, somente o libogwo denota o mito tal como o concebemos.
Os libogwo são justamente o conjunto das velhas tradições tidas como verdadeiras pelos nativos, pois relatam os feitos de velhos heróis, ou de chefes anteriores (como a narrativa de Tomakam descrita acima). Ademais, os libogwo abarcam uma categoria especial de histórias as quais os nativos chamam de lili‘u. Diferentemente das outras categorias descritas acima, os nativos têm um respeito enorme com os lili‘u. Ademais, essa categoria exerce grande influência no comportamento dos mesmos. Levando-os à crença e constituindo-se de modelos paradigmáticos no ornamento da paisagem. Ou seja, como veremos adiante, Malinowski não procura especificar uma relação directa entre conduta e narrativa, outrossim, demonstrar que a mesma tinge a paisagem e o imaginário de nativos de tons bastante peculiares.
Mas como mostrar a influência que essas narrativas exercem no quotidiano dos nativos, tendo em vista que Malinowski está sempre baseando sua análise em objectos e comportamentos manifestos? Pois a única manifestação concreta do mito é seu relato, e esse muitas vezes não fala das instituições de forma directa:
“(...) a mitologia não se integra tão facilmente à exposição quanto a magia. A magia não é simplesmente uma representação, mas envolve também ação que se insere explícita e distintamente, como comportamento concreto, na série de comportamentos que constitui o Kula. (...) A mitologia, ao contrário,
está presente no Kula apenas de modo indireto” (Durham, 1978:76, 77,
grifo nosso).
Ao comentar a respeito de um libogwo sobre o Kula, Malinowski resolve tal problema ao demonstrar de que maneira essa categoria de história influencia, mesmo que indirectamente, a realidade dos nativos. Como já explicitado acima, o Kula leva diversas canoas a circularem por uma área ampla, perpassando vários distritos a fim de realizarem a troca de presentes. Num relato do chefe do distrito de Omarakana, colhido por Malinowski, encontra-se uma narrativa conhecida entre os nativos da região que demonstra um dos aspectos da funcionalidade dos mitos para Malinowski. O relato conta que num determinado tempo, duas canoas provenientes da ilha de Burakwa fizeram uma exploração na costa de Koyatabu com o intuito de trocar presentes com os nativos das aldeias dessa região; conta-se que os habitantes dessa aldeia não respeitaram
as regras do Kula e atacaram traiçoeiramente o chefe Toraya que veio numa das canoas. Mais tarde, o irmão mais novo de Toraya, conhecido como Tomakam, foi até Koyatabu e matou e vingou a morte do irmão matando o chefe de uma das aldeias de Koya de Gabu.
Há uma canção sobre essa narrativa em que se conta detalhes dos eventos ocorridos nos locais abordados acima. O trecho aqui citado se refere ao momento em que o irmão de Toraya chega às costas da baía de Koyatabu com o intuito de vingar a morte de Tomakam: “No dia seguinte, o mar se enche de espuma, a canoa do chefe pára no recife; A tempestade se aproxima; o chefe tem medo de afogar-se. Toca-se o búzio; Seu toque ressoa pela montanha. Eles todos choram no recife” (Idem: 222). Sendo assim, quando os nativos passam novamente nos locais descritos pelo mito em que ocorreu a tragédia do irmão de Toraya, a paisagem toma vida, e o Kula se reveste de significado. Ao participar do cotidiano dos nativos, e ao vivenciar sua realidade, Malinowski percebe o quanto à paisagem e, por conseguinte, a noção de espaço dos nativos é constituída na mente destes a partir do mito de Tomakam:
“Vamos tentar reconstruir aqui a influencia dos mitos sobre essa vasta região, mitos esses que lhe emprestam colorido, dão-lhe significado e a transformam em algo vivo e familiar. O que antes era um simples rochedo, agora assume personalidade; o que era apenas um pontinho no horizonte, transforma-se num ponto de referência importante, consagrado pela associação romântica com os heróis; um acidente geográfico sem importância adquire um significado, sem dúvida, mais repleto de intensa emoção” (Idem: 224). Como já explicitado anteriormente, Malinowski buscava entender a cultura dos nativos a partir do ponto de vista destes. Dessa forma, no momento em que ele percebe que o mito possibilita aos nativos olhar o Kula e a paisagem com “enorme paixão”, a mitologia se torna um elemento perfeito para que ele tente compreender a visão de mundo do nativo tal qual ela se acha reflectida em suas mentes.
Porém, Malinowski parece reconhecer o que Mircea Eliade (2004:11), um dos grandes mitólogos, afirmou apenas tempos depois: “o mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada através de perspectivas múltiplas e complementares”. De fato, ao descrever a influência que certos relatos míticos a respeito do Kula possuem na forma dos nativos perceberem sua paisagem, Malinowski afirma que: “o poder de transformar o ambiente visível é apenas uma das muitas influencias que o mito exerce na vida geral dos nativos” (1978:225). Dessa forma,
Malinowski não apenas faz uma incursão a noção de espaço dos nativos quando associa esse aos aspectos mitológicos, como num segundo momento, tenta entender através do corpus mitológico dos melanésios a noção de tempo destes.
Malinowski percebeu que os personagens dos mitos melanésios se vestem da mesma forma que os nativos actuais; ademais, têm os mesmos interesses e praticam o mesmo tipo de pesca e usam os mesmos meios de transporte. Tais elementos nos levam a perceber que os nativos concebem o passado de maneira muito distinta em relação a nossa. Os acontecimentos históricos relatados pelos nativos não estão pautados numa noção de distinção entre os diversos períodos de tempo, o qual os mesmos possam estar relacionados, ou seja, qualquer acontecimento pode ser associado a pessoas e situações actuais. Porém quando um acontecimento escapa a uma relação com a realidade actual, os nativos situam o mesmo num tempo mítico a que os lili‘u possam configurar e descrever com precisão.
Um acontecimento ocorrido no plano mítico não é compreendido pelos nativos através de uma noção de tempo gradativa, ou seja, não é conhecido como situado numa época em que a sociedade era de maneira diferente da realidade actual. Para Malinowski, os nativos das Ilhas Trobriand: “não tem noção nenhuma daquilo a que poderíamos chamar de evolução do mundo ou de evolução da sociedade (...) eles não apresentam o passado como uma série de mudanças sucessivas” (Idem: 226). Percebe-se nesse caso mais uma das inúmeras funções do mito a qual Malinowski procura identificar: ele está sempre
alimentando uma actualidade retrospectiva, constante e viva.
Para Malinowski a principal força social que governa a vida tribal é a inércia de seus costumes, sendo assim, a adesão completa aos mesmos se torna a principal regra de conduta entre os nativos (Malinowski apud Durham: 1978:79). Sendo o mito o fomentador de uma actualidade retrospectiva que torna o passado mais importante que o presente, Malinowski demonstra sua importante função em fixar os costumes, estabelecer modos de comportamento, e dar significado último a uma instituição. Através de sua experiência em campo, Malinowski percebeu que os nativos espelham seus comportamentos através do exemplo dos heróis das narrativas míticas, sugerindo as mesmas uma função normativa que está constantemente reiterando a tradição e cristalizando-a.
Embora Malinowski pareça tomar a tradição como algo estático, mais tarde, em seu trabalho intitulado Magia, Ciência e Religião (Malinowski, 1984), ele reexamina a questão demonstrando um certo dinamismo no mito que permite faze-lo dialogar com uma tradição em processo:
“Um dos fenômenos mais interessantes, relacionado com os antecedentes e os estatutos tradicionais, é a adaptação do mito e do princípio mitológico a casos em que as próprias bases dessa mitologia são flagrantemente violadas” (1984:120)
Malinowski observou que em alguns momentos, mitos correlatos surgiam (ou ressurgiam) para dialogar com novos problemas ocorridos que iam de encontro à tradição e, por conseguinte, aos mitos: “Daí resulta que surge toda uma categoria especial de histórias mitológicas que justifica e reconhece a anomalia dos problemas” (idem). E mais uma vez, Malinowski demonstra mais uma função do mito na sociedade:
eles encobrem certas inconsistências, fatos e pontos de vistas antagônicos e logicamente incompatíveis51 (ibidem: 120, grifo nosso).
Voltando agora exclusivamente a noção de tempo dos nativos, surge o problema de como diferenciar precisamente a diferença entre o tempo mítico e o tempo histórico na dita mentalidade primitiva. Muito embora, de acordo com Malinowski, os nativos não consigam expressar directamente essa diferença, ela surge na medida em que no tempo mítico ocorriam fatos de toda espécie: situações fabulosas, feitos heróicos grandiosos, ogros selvagens, canoas voadoras e etc. Outro traço importante dessa distinção é que no tempo mítico relatado nos lili‘u, as pessoas eram dotadas de poderes extraordinários, os quais não existem na realidade actual; para os nativos, a perda de tais poderes se refere ao desconhecimento de alguns aspectos da tradição que impossibilitam a magia alcançar a mesma amplitude de funcionamento. É nesse momento que podemos perceber a intima relação que os mitos têm com a prática da magia entre os nativos, pois para eles, a magia testemunha a autenticidade dos mitos na medida em que esta surgiu da tradição expressa nas diversas narrativas míticas da Melanésia. Para Malinowski:
“Muitas vezes a função principal do mito é a de servir como fundamento para um sistema de magia e, onde quer que a magia constitua a espinha dorsal de uma instituição, encontra-se também um mito a fundamenta-la. Nisso talvez resida a maior importância sociológica do mito, ou seja, na sua influência sobre instituições através da magia a ele vinculada” (ibidem: 228).
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Tal ponto de vista se assemelha a maneira de Lévi-Strauss observar o mito: um modelo lógico para resolver uma contradição. (Lévi-Strauss, 2003: 264).
Malinowski compreende a associação entre mito e magia de forma tão inter-relacionada, que num determinado momento, afirma que as narrativas míticas refletem todas as condições sociológicas e culturais idênticas às da actualidade, porém, com a única exceção de que no tempo mítico a magia era muito mais poderosa (ibidem: 237). Dessa forma, ele conclui que: “(...) a magia serve de elo entre a realidade mitológica e a verdadeira realidade” (ibidem: 245). Ora, a medida em que o mito é associado à magia, e essa directamente associada às diversas instituições, podemos perceber como Malinowski procura inserir os mitos num sistema integrado, típico de sua abordagem funcionalista, a qual, sempre busca estabelecer interconexões entre diversos fenómenos. Para Durham (1978:79, grifo nosso): “A magia aparece como o operador que integra o passado no presente, o mito na realidade actual”. Evans-Pritchard dá uma indicação directa de como devemos perceber os aspectos religiosos da cultura:
“Devemos considerar os fatos religiosos em termos da totalidade da cultura e da sociedade em que eles estão (...) Eles devem ser vistos como uma relação de partes entre si dentro de um sistema coerente, de modo que cada parte só faz sentido quando considerada em relação às demais e o próprio sistema também fazendo sentido somente enquanto relacionado com outros sistemas institucionais, agora num sistema mais amplo de relações” (1978:154, 155). Para realizar o que Pritchard indica, ou seja, relacionar o mito com as diversas instituições presentes numa cultura, seria necessário um forte aparato etnográfico. É nesse sentido que Malinowski afirma que os diversos mitólogos que lançavam opiniões diversas a respeito do assunto apenas dialogavam com pura especulação, pois apenas: “O antropólogo tem à mão o criador de mitos” (1984:103). Para Malinowski, diferentemente de outros mitólogos que dialogavam com a história ou a psicologia, o antropólogo: “não se prende aos escassos restos da cultura, tabuinhas partidas ou inscrições fragmentárias. Não necessita de preencher enormes lacunas com comentários extensos e conjecturais” (idem), justamente por conhecer através da experiência etnográfica a vivência com o universo e com o cotidiano dos nativos.
Dessa forma, Malinowski identifica algumas escolas da mitologia que estão imiscuídas em especulações diversas. Como vimos antes, a primeira delas é a escola da Mitologia da Natureza, desenvolvida principalmente na Alemanha, a qual acredita que os mitos servem para contemplação dos fenômenos naturais que carecem de explicação científica. Assim, mesmo que a narrativa não trate directamente de um fenômeno natural específico, ao olharmos nas suas entrelinhas poderíamos percebe-lo. A crítica de Malinowski a essa escola se dirige principalmente ao fato de que tal teoria ignora a
função cultural do mito, ademais, estabelecem num mesmo patamar conto de fadas, lendas, sagas, contos e mitos. Tal abordagem encara a mitologia como responsável exclusivamente por fomentar devaneios naturalistas entre aqueles que nela acreditam. Uma outra escola de mitologia na qual Malinowski encontra problemas é o evemerismo52, que acredita no mito como um relato histórico que fora cristalizado radicalmente na cultura local, e dessa forma, tornou-se uma referência naquela sociedade. Para Malinowski tal abordagem trata o mito como uma mera crônica, e que afinal, acredita que o homem primitivo estaria permeado por uma espécie de impulso científico e, por conseguinte, desejo de conhecimento. (1984:101). Da mesma forma Malinowski critica a visão etiológica do mito por compreende-lo como um mecanismo de explicação da existência ou ocorrência de algo. Para ele, os nativos:
“Não querem „explicar‟, tornar „inteligível‟ algo que sucede nos seus rituais – muito menos uma idéia abstrata. (...) Nada é mais familiar para os nativos do que as tarefas diferentes para o sexo masculino e feminino; não carece de
explicação” (ibidem:112, grifo do autor).
Por último, Malinowski critica a psicanálise por mergulhar profundamente no inconsciente com o intuito de procurar nos mitos aspectos obscuros da mente que foram escondidos através de devaneios simbólicos. Tal visão retira o mito de sua relação com o real criando um distanciamento com o folclore; com a cultura local; e com os aspectos funcionais daquela narrativa no meio a qual está inserida.
Percebe-se nessas críticas, uma das grandes preocupações de Malinowski quanto ao estudo dos mitos: ele não acredita ser possível estudá-los sem ter uma boa noção do contexto em que eles estão inseridos. Para ele:
“A limitação do estudo do mito ao mero exame de textos tem sido fatal para uma conveniente compreensão da sua natureza. As formas de mito que chegam até nós, da antiguidade clássica e dos antigos livros sagrados do Oriente e de outras fontes idênticas, também nos chegaram sem o contexto da fé viva, sem a possibilidade de obter comentários de verdadeiros crentes, sem o conhecimento concomitante da sua organização social, da sua moral posta em prática e dos seus costumes populares – pelo menos sem a totalidade de informações que o moderno trabalhador de campo pode obter facilmente” (ibidem: 103).
Para solucionar tal problema, Malinowski acreditava que o mito deveria ser estudado vivo, ou seja, deveríamos regressar à mitologia primitiva para que pudéssemos contemplar as narrativas em seu contexto real, percebido por intermédio de um intenso
trabalho de campo. Da mesma forma que William James (2005:32) acreditava que: “Os filósofos mais absolutistas pairam em um nível tão alto de abstração, que nem mesmo tentam descer aqui embaixo”, Malinowski acreditava que era necessário reduzir as especulações e abstrações a respeito do mito e relaciona-lo com uma realidade experimentada. Tal como James coloca, era necessário por os pés no chão; e para Malinowski, o chão era a realidade dos nativos. O ponto de vista de Malinowski se torna bem claro ao demonstrar de que forma interpretou um dos mitos de origem dos Melanésios.
Malinowski relata que os nativos acreditavam que o mundo foi povoado a partir do subsolo, e que mesmo antes dos homens chegarem a superfície da terra, toda a organização social estava presente abaixo. Já existiam os clãs, os distritos, as aldeias, e toda a organização hierárquica; porém, eles desejavam trazer à superfície terrestre toda a estructura que havia abaixo do solo. Os nativos identificam uma série de possíveis locais aos quais os primeiros humanos possam ter povoado a superfície: grutas, maciços de árvores, monte de pedras, afloramento de coral, fontes, nascente de riachos e etc. O primeiro par a habitar a terra era constituído de uma irmã, como chefe de família e o seu irmão como seu protetor.
O relato por si só pode gerar inúmeros equívocos sobre os aspectos sócio-culturais dos