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Causa-nos impressão constatar que a depressão materna seja tão pouco diagnosticada ultimamente. O efeito disso é alarmante, dado o impacto que ela pode acarretar à mãe e ao bebê, como também ao pai e ao contexto familiar com um todo.

A depressão materna na contemporaneidade não se mostra facilmente: esconde-se, apresenta-se de uma maneira latente, é “mascarada”, insinua-se apenas por meio dos sofrimentos somáticos e da astenia (KREISLER,1999; GOLSE, 2003). É preocupante e particularmente nociva em virtude do modo pelo qual se manifesta, correndo o risco de se prolongar ao passar desapercebida por todos. As mães deprimidas funcionam como se estivessem desconectadas de seus bebês ou emocionalmente ausentes; mas estão presentes do ponto de vista físico e concreto, exercendo mecanicamente suas tarefas com o bebê (GREEN, 1988; GOLSE, 2003; MAZET e STOLERU, 1990; KREISLER,1999).

A forma característica pela qual a depressão materna se manifesta remete- nos ao conceito de “depressão essencial”, originalmente descrito por P. Marty (1968, apud KREISLER, 1999, p. 55), que se refere à depressão encontrada na origem da desorganização somática, a qual apresenta uma falta de “expressão mentalizada positiva” caracterizada por uma ausência da sintomatologia mental e é encontrada com extrema facilidade nos estados depressivos clássicos, como é o caso de tristeza, dor, abatimento e culpa.

Na depressão essencial, encontra-se fundamentalmente uma significativa diminuição do tônus libidinal, do tônus da pulsão de vida, levando o sujeito a um funcionamento mecânico e desvitalizado, sem nenhum colorido afetivo. Esse tipo de

depressão é considerado uma das principais manifestações clínicas da presença da pulsão de morte (KREISLER, 1999).

A depressão essencial utiliza o pensamento operatório ou a vida operatória a fim de se expressar, tendo como cerne um distúrbio do pré-consciente e um isolamento do inconsciente. “A carga ligada aos afetos e às emoções, mal-veiculada, não elaborada, trancada, é contida fora dos processos da mentalização” (KREISLER, 1999, p. 57).

Sobre uma estrutura mental frágil produziu-se um traumatismo que a atingiu em cheio, fator desencadeante cuja objetividade real ou variável opera em função da personalidade que a recebe. Desde então tudo mudou apesar de uma expressão pouco visível no exterior. A depressão essencial instalou-se e com ela uma modalidade de pensamento operatório. Os automatismos aparecem. O comportamento só continua adaptado na aparência, ela funciona como uma mecânica repetitiva. O apagamento das defesas mentais responde pelo empobrecimento da vida onírica e de fantasia, em suma, por um funcionamento mental de tipo operatório. (KREISLER, 1999, pp. 56-7)

Podemos entender que esse traumatismo na depressão materna se daria com o nascimento do bebê real e a morte do bebê imaginário? Seria vivido pela mãe como um excesso, um transbordamento pulsional impossível de se representar e também de se elaborar, resultando num certo desligamento psíquico, numa pane psíquica? No presente momento, não poderemos avançar nesses questionamentos.

A depressão materna compreendida pela caracterização da depressão essencial toma uma significação de alarme e de forte impacto, uma vez que se apresenta de forma silenciosa, pouco diagnosticada pelos profissionais de saúde e, até mesmo, pouco acessível à mãe e ao seu entorno. A depressão materna infiltrada pela depressão essencial é grave, não só pelo formato que assume ao se esconder, ao não se deixar ver, tal como algo velado, mas por sua essência primeira: o caráter de imprimir morte em vida. Morte do psiquismo de alguém que teria função de cuidar

de um outro e protegê-lo; um outro que espera vida, espera contato libidinizante, mas recebe em troca contatos mecânicos de alguém que está imerso numa desconexão com a vida.

Um aspecto fundamental da depressão materna está vinculado à dinâmica inconsciente da mulher referente à perda do bebê imaginário ao vir à luz o bebê real. Teresa Lartigue (2004) postula que o que está em jogo na depressão materna parece ser a constatação da mulher de que o bebê real não corresponde à representação do bebê imaginário, construída intimamente no inconsciente, somada à perda da fantasia de completude narcísica, de não existir castração, de não haver falta. Unem-se a regressão e a ambivalência afetiva, específicas do momento particular que caracteriza a perinatalidade.

Como se pode diferenciar a depressão materna, a partir da caracterização acima descrita, da depressão pós-parto normal designada pelo termo baby-blues? Mesmo tomando como questão o continuum que compreende o baby-blues, a depressão materna e a psicose puerperal?

Contribuindo de forma intensa para o desnudamento e uma melhor compreensão das questões envolvidas na dinâmica inconsciente da depressão materna, Axelrod e Vives (2000) enfatizam que um certo grau de depressão após o nascimento de um bebê é um destino comum a todos os partos, pois, a partir desse momento inaugural, a mulher toma contato com o bebê da realidade, o que lhe traz uma sensação de vazio, vivida em graus variados, com um sentimento de perda de algo que era parte dela mesma e não é mais. Em todas as mulheres, tal perda requer um intenso trabalho de luto e de elaboração em virtude da simultaneidade intrapsíquica da presença do bebê da realidade e da ausência do bebê imaginário.

Dessa forma, a depressão materna configura um quadro singular, por se tratar de um luto decorrente de uma perda de um objeto imaginário, pertencente assim ao mundo interno. A elaboração se dá paralelamente às relações vinculares com o bebê da realidade, o que, de certa maneira, poderia facilitar o processo, uma vez que a “morte do bebê imaginário” sofreria um golpe pelo nascimento do filho da realidade. No entanto, em algumas situações, os pais sabem quem perderam no luto do bebê imaginário, mas não sabem o que perderam com o desaparecimento do bebê ideal. Provavelmente, a situação remete à perda de ilusões fantasmáticas existentes através do investimento narcísico do bebê ideal (AXELROD e VIVES, 2000).

Neste contexto os progenitores perdem as oportunidades de reparação onipotente de figuras parentais mortas, cuja possível reparação haviam fantasiado no bebê imaginário, ou também a possibilidade de reparar aspectos de sua própria pessoa, de projetos nunca realizados, de sexos nunca tidos e de vidas nunca experimentadas. (AXELROD e VIVES, 2000, p. 127)

Assim, o bebê imaginário transforma-se em depositário maciço do ego ideal materno. Sua perda pode acarretar, nos casos mais leves, uma depressão; em contrapartida, nos casos mais severos, pode haver uma ruptura psicótica com a realidade.

Sabemos que o bebê imaginário é sempre fruto de intensos investimentos narcísicos dos pais; estes, no entanto, devem poder transitar emocionalmente do investimento narcísico próprio do bebê imaginário à gradativa libidinização do filho real, ou, no termo de Silvia Bleichmar (1994), fazer “transvasar” o narcisismo dos pais ao filho.

A impossibilidade materna de realizar o “transvasamento narcísico” ao bebê, ocasionada por uma certa “erupção” exacerbada de seu próprio narcisismo (em

decorrência do processo de regressão iniciado na gestação), a leva a fixar-se em seu narcisismo, tornando-a incapaz de flexibilizá-lo e colocá-lo a favor do bebê da realidade, a fim de constituir seu psiquismo.

A constituição do sujeito pode ficar seriamente impedida por efeito de um narcisismo parental insuficientemente elaborado, que volta à cena e vem à tona no período perinatal. Dessa maneira, Axelrod e Vives (2000) alertam para o caráter decisivo da elaboração do luto parental pelo bebê imaginário na caracterização do bebê real, erguendo os alicerces fundamentais para que o bebê venha a ser uma pessoa de fato.

Finalmente, a depressão materna – que pode desencadear-se por uma perda “real”, resultado de algum evento externo à mãe e facilmente identificável, ou pelo próprio fato de tornar-se mãe – expõe seu narcisismo não suficientemente elaborado, presentificado no bebê imaginário, tomado como ego ideal; a mãe resvala no engodo em que seu psiquismo está encerrado pelo nascimento do filho “de carne e osso”, e precisa “fazê-lo viver”. Com o nascimento do filho da realidade, há uma abrupta ruptura narcísica na mulher, dada pela falência radical do funcionamento narcísico do ego ideal.

As ilusões fantasmáticas paternas depositadas no bebê ideal caem por terra, exigindo do sujeito uma flexibilização das exigências de perfeição através do rearranjo do passado feito de uma forma mágica. A possível construção de um ideal de ego torna-se premente e necessária àquela que se deprimiu: em contato verdadeiro com seu filho real, ela pode, quem sabe, começar a partir dele a perceber que ele próprio não é perfeito e nem por isso não é coisa alguma.