Pensar a arte africana em uma unidade hermética é reduzi-la a uma arte sem a diversidade que lhe cabe, visto que estamos falando de um vasto continente com centenas de línguas e culturas das mais distintas. A África é um continente que possui cinquenta e quatro países, com povos de diversos grupos étnicos e línguas faladas que somam mais de mil e oitocentas. Tais dados e dimensões nos dão a proporção da amplitude que temos em mãos quando se trata de pesquisar e analisar a cultura dos povos africanos, incluindo a arte.
Refletir sobre a África Tradicional8 e sua arte torna-se complexo por várias óticas: 1 - por tratar-se de um continente territorialmente imenso, com situações geopolíticas complexas e com diferentes povos e culturas, o que demanda diversos estudos aprofundados em vários âmbitos e áreas do conhecimento; 2 - por se tratarem de sociedades ágrafas9, em sua maioria, com histórias baseadas na oralidade, cuja boa parte dos registros históricos é a partir do olhar europeu, coberto por padrões e códigos de moral e conduta do seu ponto de vista; 3 - por pouco se conhecer do continente, e consequentemente de sua arte, com finalidades e códigos estéticos totalmente distintos da arte ocidental; 4 - pelo fato de que a arte africana não teve o
status de arte, nos padrões ocidentais, quando conhecida pelos europeus, sendo pilhada e
8 Segundo Waldman (1999), África Tradicional refere-se ao modo de vida e visão de mundo diferente do olhar ocidental. Os povos da África Tradicional possuem um modo de vida comunitário, centrado no núcleo familiar, que incluem agregados e pessoas consideradas pelos ocidentais como parentes distantes. A terra é entendida como um bem coletivo, constituindo-se herança dos ancestrais, os quais mantêm uma relação com o meio ambiente, retirando os elementos necessários apenas para a subsistência. Possuem referências do universo religioso e cultural, os quais a religiosidade tem suas expressões marcadas por elementos da natureza e fortemente ligadas aos fatos sociais da comunidade.
saqueada, retirada de seu contexto cultural, catalogada e exposta enquanto artefato etnológico, etnográfico e/ou antropológico; 5 - por tratar-se de várias Áfricas, desmistificando a visão única e fechada, do ponto de vista étnico e sociocultural de um continente vasto como o africano.
Ainda ressaltamos o fato de a arte africana ter sido apropriada por artistas de movimentos como o da arte moderna europeia, sem que fosse dado o devido reconhecimento e crédito aos africanos. Tal postura reafirmou o valor da arte africana pelos estudos eurocêntricos apenas sob a ótica dos campos etnológico e/ou antropológico, sendo que, do ponto de vista estético e artístico, era considerada “exótica” e “primitiva”10. Apesar de tais atributos negativos, inspirou uma geração de artistas modernistas que retiraram elementos simbólicos e estéticos da arte africana e rearranjaram em seus trabalhos, atingindo, então, o ápice da realização da arte, nos cânones europeus.
Para Salum (2005), o Cubismo, por exemplo, é uma invenção intelectual dos europeus, totalmente distinta da intenção dos africanos, mas que ocasionou aproximações entre a arte africana e a arte ocidental através de elementos como o naturalismo e o abstracionismo. Quando a arte africana foi descoberta pelos europeus, não teve seu valor reconhecido, talvez porque não fosse estratégico politicamente ressaltar o desenvolvimento artístico do colonizado, porém, a arte europeia inspirada na arte africana ganhou proporções importantes, ocasionando uma oxigenação e renovação há muito esperada e aguardada no cenário artístico. Um fato que constata tal afirmação, e assumida muito tempo depois, foi a exposição
Primitivism in 20 th Century Art, ocorrida no The Musem of Modern Art, em Nova Iorque, na década de 1980. As obras foram expostas lado a lado, uma de origem africana e outra, de origem europeia, feita por um artista modernista, de modo que fossem observadas as semelhanças estéticas. Artistas como Pablo Picasso, Max Ernst e Paul Gauguin figuravam entre os artistas que buscaram referenciais na arte africana.
A arte africana tradicional pretendia ser uma arte funcional, utilitária e religiosa, geralmente com fins ritualísticos, mas também como arte para a vida, retratando as práticas cotidianas e existenciais. Cunha (1983, p. 986) pergunta “qual arte não é funcional?”, explicando que nem toda a arte africana explicitava sua função e que a função religiosa não pode ser critério único para avaliar a arte africana, apesar de sabermos que ela tem uma profunda conotação utilitária e religiosa.
A arte africana tradicional diferencia-se da arte ocidental dentro de uma concepção eurocêntrica, vigente em nosso sistema, pois possuía outras finalidades, bem como códigos estéticos e artísticos distintos. A arte ocidental é considerada a arte criada pelas civilizações e culturas ao redor do Mar Mediterrâneo - Europa, Oriente Próximo e Norte da África - desde a Antiguidade até os tempos modernos. Depois da Segunda Guerra, passa a ser considerada basicamente a arte produzida na Europa e nos Estados Unidos da América. Tem como alguns pressupostos a arte não utilitária, que deve ser apreciada por um grupo seleto, e tida como uma criação individual, cujo artista tem que expressar toda sua individualidade destacando-se dos demais. O próprio conceito de arte tem inúmeras definições e hoje a arte ocidental tenta fugir de conceitos herméticos com a arte contemporânea e suas múltiplas facetas, a arte produzida por diversos grupos culturais e as imagens que permeiam nosso cotidiano como as da publicidade, do design, entre outras.
Diferenciando-se da arte ocidental, com fins contemplatórios e apreciativos, a arte africana tradicional não se pretendia para fins em espaços expositivos, como o “cubo branco”11, o qual a arte contemporânea vem refutando, como nos esclarece Zózimo.
Os espaços habituais de arte, divididos em parcelas e parâmetros de galerias comerciais, de fundações culturais ancoradas por instituições privadas, de museus institucionais e de tentativas esparsas que davam vazão à produção de arte, foram amplamente questionados pelas práticas artísticas das décadas de sessenta e setenta. (ZÓZIMO, 2011, p. 83).
Não se pretende, com esta afirmação, comparar a arte africana tradicional com a arte contemporânea, no que diz respeito a espaços de arte e para a arte. Pretende-se apenas fazer aproximações do que acontecia em um universo distinto do ocidental, em épocas passadas, mas que de alguma forma, encontram convergências entre si. Para Salum (2005), a arte africana é um termo reducionista inventado por estrangeiros, mas que está cristalizado em nós, com a finalidade de interpretar a cultura material estética dos povos africanos tradicionais, ou seja, a arte produzida antes e durante a colonização, até meados do século XX, mas que difere das artes plásticas da África contemporânea que, assim como as brasileiras, integram o circuito internacional de exposições.
11 O cubo branco é uma expressão utilizada por O’Doherty (2002) para designar o espaço da galeria moderna, total e intencionalmente reclusa ao seu interior, ignorando influências que possam vir do exterior, com as paredes pintadas de branco e as janelas, geralmente lacradas, isolando a obra de arte de tudo que possa prejudicar a apreciação de si mesma. O cubo branco é um instrumento de transição que tentou apagar o passado e controlar o futuro lançando métodos de presença e poder.
Segundo Cunha (1983), para compreendermos a arte africana, de maneira global, devemos considerar três níveis: 1 - o formal e o técnico; 2 - a finalidade e o sentido; 3 - sua capacidade de influir sobre outras culturas. Reduzi-la a uma arte de menor valor perante a arte ocidental é, no mínimo, equivocado e preconceituoso, pois o autor relaciona critérios importantes em vários âmbitos da arte, para tentarmos compreender a arte africana. Os povos africanos tradicionais percebiam sua arte não enquanto objeto para exposição ou contemplação, mas enquanto função social, uma arte para vivê-la, diferenciando-se da visão dos europeus.
Para Cunha (1983), a arte africana é uma arte conceitual, o que faz com que essa semelhança com a arte ocidental aconteça em relação ao espaço físico que ocupa (espaços externos a galerias e museus) e a sua função mais social, embora sejam funções sociais distintas. Monti (1992) nos diz que a arte na África teve uma função eminentemente social, isto é, era entendida como meio de ensinamento e motivação da existência cotidiana e metafísica do homem, a quem explicava o sentido da vida e indicava a posição correta de cada pessoa no seio do grupo. Para Abdou Sylla (apud Araujo e Moura, 1994, p. 38), “o objeto de arte que o artista africano produz é em si um signo, um símbolo; o que ele procura atingir não é uma aparência externa, mas uma essência”, e, desta forma, transcende a forma em busca da verdadeira realidade simbolizada.
Apesar de os africanos escravizados, em muitas situações, terem de desapropriar-se de suas formas simbólicas, ressignificá-las ou reprimi-las para viver a partir de outras culturas que se utilizam dos seus próprios corpos, desprovendo-os de sua humanidade, os africanos conseguiram trazer para o Novo Mundo12 suas experiências de ser e de fazer. São manifestações explicitadas em diversos segmentos culturais, dentre elas, a arte afro-brasileira, que perdura até a contemporaneidade com vigor e inovação.
Importante afirmar, na atualidade, a qualidade e o valor da arte africana da diáspora13, ou seja, a arte produzida pelos africanos e seus descendentes pelo mundo a partir da dispersão africana desde a escravização, culminando atualmente com a arte contemporânea africana.
12 Novo Mundo é um dos nomes dados ao hemisfério ocidental, mais especificamente ao continente americano. O termo tem as suas origens nos finais do século XV quando da descoberta da América por Cristóvão Colombo. 13 O termo diáspora define o deslocamento forçado ou incentivado de grandes massas populacionais originárias de uma zona determinada para várias áreas de acolhimento distintas. Para Hall (2008), o termo refere-se aos fenômenos relativos a migrações humanas dos ex-países coloniais para as antigas metrópoles. O conceito fechado de diáspora se apoia sobre uma concepção dual de diferença, fundado sobre a construção de uma fronteira de exclusão e depende da construção de um “outro” e de uma oposição rígida entre o de dentro e o de fora, porém, os sincretismos das identidades culturais não funcionam sob esta dualidade, pois os mesmos mecanismos que se fecham, abrem-se numa costante oxigenação dos fluxos.
Hoje, a sua relevância é considerada no cenário mundial, tanto dos artistas que residem na África quanto dos artistas que se deslocaram para centros culturais legitimadores da arte, como Europa e Estados Unidos. Faz-se necessário esclarecer que não se trata de uma arte influenciadora da arte afro-brasileira de forma significativa para a sua constituição, como a arte africana dos povos tradicionais até o século XVIII ou talvez, XIX, quando ainda vinham africanos para o Brasil com a escravização, bem como os seus descendentes brasileiros.
As influências nos modos de ser e de viver, trazidas para cá, perduram nas subjetividades dos brasileiros que criaram e desenvolveram práticas artísticas afro-brasileiras, as quais se encontram arraigadas nas práticas sociais e culturais do cotidiano dos brasileiros. Não obstante, igualmente, houve influências na arte afro-brasileira devido aos fluxos de culturas e pessoas ocorridos no século XX entre africanos, brasileiros e afrodescendentes da diáspora africana, porém com tempo e espaço menos substancial em relação aos mais de trezentos anos de influência africana decorrentes do sistema de escravização em nosso país.
A arte produzida pelos africanos e seus descendentes na diáspora brasileira fez com que a habilidade africana para as artes transmutasse em uma arte afro-brasileira e permanecesse até os dias vigentes, apesar da concepção eurocêntrica de raça do ponto de vista biológico, a de que o negro era inferior ao branco devido a sua cor da pele e traços fenótipos, resultando em processos de colonialismo pela Europa a partir do século XIV. Como ressalta Ramos (2008, p. 1633), “outros paradigmas culturais e de linguagem desclassificaram as expressões estéticas, os processos de comunicação e os ritos religiosos praticados pelos africanos, impondo uma crença ocidental e formas de comunicação e arte de domínio europeu”. Dessa forma, desconsideravam as expressões artísticas dos africanos e tentavam impor códigos ocidentais em todas as esferas, o que não obteve afirmativa em muitos casos e, em outros, houve uma ressignificação da produção da arte pelos africanos e seus descendentes na diáspora africana.
Avanços importantes rumo à valorização da arte africana, como explica Ramos (2008), são dados a partir de um movimento de artistas africanos radicados na Europa que organizam, em 1956, a I Conferência Internacional de Escritores e Artistas Negros, realizada em Paris e, em 1966, o I Festival Mundial das Artes Negras, realizado em Dakar. O ministro da Cultura da França na época, André Malraux, substitui o termo “arte negra” para “arte africana”. Tais eventos tinham o intuito de redesenhar o cenário artístico africano do ponto de vista das culturas das Áfricas e de sua negritude e inserir-se no sistema oficial da arte africana contemporânea ocidental. No entanto, o grande marco se deu com a exposição Magiciens de
La Terre, em 1989, e em 2004, com África Remix, ambos no Centro Georges Pompidou, em Paris. São considerações que ilustram o reconhecimento que o “mundo das artes” - predominantemente ocidental, hegemônico e que dita as regras para a legitimação da arte - confere à produção artística dos africanos, mesmo que, neste caso, da arte contemporânea. Isso contribui na desmistificação das teorias raciais14 que viam os africanos como seres destituídos de cultura e de inteligência e que sua arte tradicional conferia apenas exotismo e primitivismo, perspectiva pela qual fora sempre analisada, avaliada e julgada pelos parâmetros da estética ocidental.
No mundo contemporâneo, as estéticas ocidentais e as africanas silenciosamente se interpenetram e começam a estabelecer diálogos intermitentes, subvertendo a lógica colonialista que se pretendia superior e auto-suficiente [sic], tanto na sua técnica quanto nos seus discursos e modos de apresentação do texto artístico. (RAMOS, 2008, p. 1636).
A partir de tal ênfase, é mister livrarmo-nos de convenções e classificações hegemônicas e preconceituosas da arte, pois as mudanças acontecem numa relação não horizontal, ignorando sentidos temporais e espaciais. Ramos (2008) esclarece que, para estabelecermos debates e estudos sobre arte contemporânea, devemos, em primeiro lugar, analisar as noções de nacionalismo, os conceitos sobre identidade e supremacia de determinadas culturas sobre outras; em segundo lugar, distanciarmo-nos de conceitos eurocêntricos que estabelecem concepções estéticas, delimitando a arte e a etnografia e, por último, reconhecer que as fusões entre as culturas vêm reelaborando novas estéticas, rompendo fronteiras, sem esquecer as novas tecnologias que ampliam os meios de comunicar, apresentar e receber a arte.
Apesar de todas as barreiras que a arte produzida pelos povos africanos sofreu através dos desmandos europeus, desde saqueamento e pilhagem, menosprezada em seus valores
14 No século XVII, iniciam estudos para a classificação humana, cuja cor da pele aparece como critério
fundamental, qualificando aos grupos humanos algumas características fenotípicas. Até então, a raça era definida do ponto de vista social e religioso. Com o Iluminismo, no século XVIII, surge a naturalização da concepção de igualdade, e consequentemente, da diferença, o que abriu caminho para o desenvolvimento do determinismo biológico, e não mais a partir de contextos climáticos e geográficos ou fatores como a alimentação e os costumes, para explicar a raça a partir da cor da pele. Os iluministas baseavam-se no ideal de igualdade e liberdade para fortalecer o regime burguês, o que justificava a exploração de povos que contribuíssem na ascensão do regime. Neste contexto, as desigualdades tornavam-se “naturais”. No início do século XIX, já havia uma variedade de métodos e critérios para delimitar as raças, fazendo da “raça branca” a “verdadeira
civilização”, dotada de inteligência e superioridade. Das inúmeras experiências sobre a concepção de raça, surge, na época da expansão europeia, um ideário de branqueamento como ideologia análoga ao discurso dos ideais missionários cristãos, visando à construção de sociedades coloniais. (HOFBAUER, 2006).
genuínos, ao fato de não ser reconhecido na época o seu verdadeiro mérito na influência da arte moderna, a arte africana, tanto tradicional quanto contemporânea, sobrevive na África e em todos os lugares da diáspora africana, reafirmada perante seus povos e – excetuando-se especialistas e setores resistentes ao fim das teorias ultrapassadas da supremacia branca –, segue respeitada e reconhecida pelo mundo das artes.