Este estudo tem como objetivo analisar casos de trabalhadores que se afastaram por Dort e retornaram ao trabalho bancário, sob o referencial da psicodinâmica do trabalho. Visa responder a seguinte questão geral:
• Qual a dinâmica que envolve a relação trabalho e adoecimento por Dort em bancários que retornaram de licença-saúde por acidente de trabalho?
Parte-se da hipótese de que, nas situações de retorno ao trabalho, estratégias defensivas mantêm os bancários em atividade, confiantes na recuperação e no futuro profissional, apesar das seqüelas e incapacidades decorrentes do adoecimento.
Especificamente, procura-se:
• Descrever o processo de adoecimento por Dort;
• Caracterizar a organização do trabalho, antes e depois do adoecimento;
• Analisar as vivências de prazer-sofrimento e as estratégias de enfrentamento, antes, durante e depois do adoecimento.
O foco deste estudo é a relação dinâmica entre organização do trabalho e subjetividade. As seguintes perguntas específicas serão respondidas a partir do objeto de investigação:
• Como se caracteriza o processo de adoecimento por Dort?
• Como se caracteriza a organização do trabalho antes e depois do adoecimento?
• Qual a dinâmica que envolve a mediação do sofrimento e do prazer, antes, durante e depois do adoecimento?
No caso de serviços bancários, a natureza do trabalho baseia-se no “tratamento de informação contábil alfanumérica” (Ferreira, 1997). A informação é a matéria-prima da atividade bancária. Essa característica acelerou a automação do processo produtivo, pela perfeita adequação deste aos sistemas tecnológicos.
O termo Dort refere-se a inúmeras patologias relacionadas ao sistema músculo- esquelético, que ocasionam ou não degeneração dos tecidos, e que acometem as extremidades superiores, na maior parte dos casos. Os Dort iniciam com vários sintomas que aparecem concomitantemente ou não, como choque, dormência, formigamento, peso, fadiga precoce, dor, e, conforme sua gravidade, podem levar ao afastamento do trabalho, temporária ou permanentemente (Brasil, 2000).
A evolução da doença, associada às seqüelas e incapacidades físicas decorrentes do adoecimento, gera, normalmente, sintomas depressivos, conforme já investigado por Rocha (2003). Contudo, acredita-se na mobilização dos bancários que se afastam por Dort e retornam às atividades laborais.
A relação entre as variáveis investigadas neste estudo pressupõe uma abordagem dinâmica. A organização do trabalho é entendida como variável antecedente para as vivências de prazer e sofrimento. As vivências de prazer e sofrimento mediam o processo de saúde ou de adoecimento por Dort.
Para a psicodinâmica do trabalho, o sofrimento e o aumento excessivo de doenças mentais relacionadas ao trabalho têm suas bases na erosão das estratégias coletivas de defesa. Esta idéia pode ser observada na atual crise das formações coletivas e na despolitização da população; processos em evolução desde a década de 70 (Dejours, 2004). Observa-se um processo de desestruturação de todas as formas clássicas de solidariedade.
Os autores Dejours (1987, 1999c, 2004), Lima (1998), Merlo e Barbarini (2002), Mendes e Cruz (2004) e Martins (2002) concordam que existe uma relação entre o aparecimento de LER/Dort e a organização de trabalho, especialmente por causa da estratégia de auto-aceleração para a execução das tarefas. Os trabalhadores e especificamente, os bancários utilizam a auto-aceleração inicialmente como um recurso para executar tarefas repetitivas, sem sentido, monótonas e sob pressão de tempo, o que pode levar ao entorpecimento do pensamento e do sentimento. A esse fato somam-se a
falta de autonomia, as pressões por qualidade e produtividade, o relacionamento com chefes, colegas e clientes, as exigências de qualificação e competição, o aumento do ritmo em decorrência do medo das ameaças de demissão e a dinâmica do reconhecimento.
Diante do sofrimento podem ocorrer duas situações: as estratégias de mobilização coletiva e as estratégias de defesa.
As estratégias de mobilização coletiva buscam transformar o contexto de produção, com o objetivo de minimizar e/ou eliminar o desgaste do trabalhador e de transformar o labor em fonte de prazer. Elas se referem à ação coletiva dos trabalhadores baseada no espaço público de discussão, reforçado pela confiança e cooperação entre os participantes. Esse espaço, criado pelos próprios trabalhadores, designa o lócus onde acontece a expressão coletiva do sofrimento, com autenticidade, compreensão e respeito com as diferenças individuais.
As estratégias defensivas expressam-se por mecanismos de negação e/ou racionalização em relação ao trabalho e podem ser ações individuais e coletivas. A negação refere-se ao não-reconhecimento do próprio sofrimento e ao do outro. Caracteriza-se pelo isolamento, desconfiança, individualismo que desarticula o coletivo e interpreta erroneamente as situações de trabalho. Racionalização é a substituição dos sentimentos de medo, ansiedade e insegurança por atitudes de desprezo, ignorância ou inconsciência em relação aos riscos e imposições do trabalho. Caracteriza-se pelo relato dos resultados positivos, atribuindo os fracassos no trabalho à incapacidade ou incompetência humana. As estratégias defensivas fazem com que o indivíduo se mantenha adaptado ao contexto de produção de bens e serviços e, ao mesmo tempo, fique alienado. O uso intenso dessas estratégias torna-as ineficazes. O sofrimento mal resolvido transforma-se em doença (Mendes, Costa e Barros, 2003; Dejours, 2004).
Os Dort são, possivelmente, decorrentes desse sofrimento, definidos como uma doença ocupacional, conseqüência da combinação de fatores relativos ao contexto de produção de bens e serviços.
Lima (1998), Ribeiro (1999), Borges (2001), Gravina (2001), Martins (2002) concordam que sofrimento anterior ao adoecimento entre os bancários está relacionado a fatores de risco como tarefas monótonas e repetitivas, intensificação do trabalho, pausas fictícias, pressão pela produtividade. A auto-aceleração é a estratégia mais usada para lidar com esses problemas, na tentativa de finalizar uma atividade sem sentido, além de atender às exigências do trabalho. Esses autores identificam também a existência de sofrimento pós-adoecimento relacionado com as restrições que a doença impõe, com o tempo despendido na busca de diagnóstico e tratamento adequados, com a desconfiança de fraude por parte de colegas de trabalho e família, com o afastamento do trabalho entre outros, vivências essas que podem resultar em depressão.
A organização do trabalho é fonte de sofrimento para os bancários acometidos por Dort. Eles utilizam estratégias defensivas para se protegerem, que, ao falharem, permitem a instauração dos Dort. Os trabalhadores acometidos afastam-se do trabalho, buscam alternativas de tratamento da doença. Após o afastamento, os bancários retornam à organização do trabalho.
Este estudo se propõe a investigar o processo de adoecimento e a dinâmica do retorno ao trabalho, considerando o esquema de investigação representado na Figura 1.
Figura 1. Esquema do objeto de investigação. Adaptado de Rocha (2003).