como uma instância concretizada no discurso que ancora uma responsabilidade e uma autoria, consideramos o relato de Riobaldo estabelecendo essa autoria que revela um lugar discursivo, uma topografia social, histórica e temporal com suas implicações ideológicas devidas. Essa autoria (do ato discursivo) caracteriza-se por um lugar assumido – nem sempre num processo consciente e transparente – o que está evidenciado, marcado na materialidade linguística, entretanto sempre estabelecendo uma responsabilidade sem álibi.
Tendo em vista a presença da voz materna nesse discurso, é inevitável abordar o caráter ético dessa resposta de um narrador masculino constituido pelos princípios femininos e masculinos de uma sociedade patriarcal. O relato de Riobaldo como auto-informe- confissão, como já esclarecido, traz um fluxo de consciência característico de quem fala mais consigo mesmo do que para o outro: “Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai embora, é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo.” (p. 37). Desse modo, o narrador se coloca no lugar de quem se entrega, sugerindo que alem da narrativa que fluía, num enredo, numa estória, havia um ser se fazendo e se mostrando: “Isto não é o de um relatar passagens de sua vida, em toda admiração. Conto o que fui e vi, no levantar do dia.” (p. 568). Expõe-se sem álibi e sem a priori - nesse evento, que
relata outros tantos eventos e revela outros tantos Riobaldos. Contudo, é possível estabelecer um fio que sutura esse narrador, dando-lhe, ainda que de maneira imprecisa, movediça, um tom, uma assinatura, uma posição assumida, no que diz respeito à mãe em sua narrativa.
O ato discursivo de Riobaldo, um relato auto-informe-confissão, é caracterizado, como qualquer ato, por uma atitude participativa, interessada, atravessada por valores sócio-histórico-ideológicos específicos. O olhar do narrador, não obstante tratar-se de uma personagem fictícia, revela um modo de pensar o mundo que não é feito fortuitamente, mas estreitamente comprometido com valores éticos, sociais específicos, revelando um tom-emocional volitivo. É essa perspectiva de união do conteúdo sentido ao ser que se constrói no evento, revelando um valor, um sentido, que caracteriza a resposta única e singular.
Ao se observar a seguinte fala, como todas as demais, de Riobaldo:
Deus não devia de ajudar a quem vai por santas vinganças?! Devia. Nós não estávamos forte em frente, com a coragem esporeada? Estávamos. Mas, então? Ah, então: mas tem o Outro – o figura, o morcegão, o tunes, o cramulhão, o debo, o carocho, do pé-de-pato, o mal-encarado, aquele – o- que-não-existe! Que não existe, que não, que não, é o que minha alma soletra. E da existência desse me defendo, em pedras pontudas ajoelhado, beijando a barra do manto de minha Nossa Senhora da Abadia! (p. 281,282).
Pode-se notar um tom, uma posição interessada, assumida no que diz respeito a certas crenças, desejos, anseios, de um determinado contexto, no caso, o do sertanejo brasileiro.
Há, inexoravelmente, uma atitude responsiva responsável, pois enunciar implica enunciar-se, colocar-se, assumir um tom, um lugar no mundo, tomar um partido. Embora Riobaldo seja em todo o romance um ser caleidoscópio que muda a cada mirada, é e não é ao mesmo tempo, ainda assim, não se pode dizer que não há responsabilidade, porque estar no mundo, como já esclarecido, significa necessariamente, inevitavelmente, fazer parte do jogo, da linguagem, sem álibi. Nesse jogo, o sujeito não existe a priori, é sempre, no momento mesmo do ato, que aquilo a que se almeja, que existiu enquanto potência, se realiza, revelando outras faces, de maneira singular e irrepetível.
Pertinente e imprescindível considerar nesse ponto a problemática da ética. Em toda narrativa de Grande sertão: veredas, como já mencionado, pode ser observada a preocupação de Riobaldo com a questão da culpa, portanto, com a ética. Há um grande conflito ao tratar de suas culpas. Quase sempre, há interrogação, ora afirmando, ora negando-a:
Em alguns momentos desse conflito, Riobaldo muda de assunto sem dar prosseguimento à questão colocada: “Quando foi que eu tive minha culpa? Aqui é Minas; lá já é a Bahia?” (p. 289), demonstrando a não resolução, entretanto, deixando implícita a consciência de uma responsabilidade em ser, estar, fazer.
Considerando que, como já aventado, na perspectiva bakhtiniana, é o tom emocional-volitivo que possibilita a instauração do ato, ou seja, é a instituição de um valor que faculta a sua existência singular, única e irrepetível, o ato é, portanto, responsável, ético. Esse tom como elemento indissociável e essencial na arquitetônica do enunciado não é a priori nem subjetivo, mas aponta para um contexto coletivo de valores e crenças que se realizam no processo do ato concretizado na materialidade da linguagem. Tomando o relato de Riobaldo no que diz respeito à presença da mãe, é imprescindível reiterar aqui, de modo a fechar a análise proposta, o tom emocional-volitivo que foi possível detectar através da arquitetônica do romance, na maneira do narrador conduzir o enredo, no cronotopo romanesco, nas formas de apresentação da figura materna, etc.
Como já excessivamente colocado, o tom explícito, em relação à mãe, é de reverência, demonstrando ser ela motivo de consolo, amor, alegria: “A lembrança dela me fantasiou, fraseou – só face dum momento – feito grandeza cantável, feito entre madrugar e manhecer.” (p. 38). Entretanto, esse tom é confirmado de maneira muito sutil no romance de Rosa, pois Riobaldo não dá voz ativa a Bigri, cita-a, como esclarecido, capturada em seu discurso, em seu tom, repetindo, na forma de apresentá-la, o papel executado pela mulher durante séculos, anônima, oculta. Revela, assim, na superfície de seu discurso, na maneira como apresenta a fala das personagens femininas, um sertanejo constituído em valores machistas. No entanto, tendo em vista a arquitetônica do romance, a mãe figura imprescindível, de uma maneira em que, simplesmente, Riobaldo e sua história não seriam.
Esse caráter ético, esse tom que se encontra no ato, evidencia uma verdade, um valor, um sentido, instituídos na interação (não anterior). Essa verdade (sentido) que se instaura no ato/relato de Riobaldo em relação à figura materna está atravessada em toda a arquitetônica do romance, demonstrando em sua singularidade, unicidade e irrepetibilidade, que ela é marca de vida, consolo, religiosidade, é o sagrado, as forças inconscientes do desejo. É ponto de partida para as travessias empreendidas e presença que não se desvanece com o correr da vida. A Bigri fica preservada até o final do relato, na madureza, quando confirma a busca pela bondade e religiosidade, marcas da mãe. Também pela compreensão tardia do amor dedicado ocultamente à Nhorinhá, comparado ao que sentia por Diadorim, sendo capaz de vê- la além de um objeto momentâneo de prazer, contrariando os valores machistas do sertão. E, ainda, na citação final do São Francisco que se comparece soberano, grande, como um pau grosso, revelando paradoxalmente uma imagem viril do rio, o que parece sugerir uma integração do princípio feminino na masculinidade do narrador.
Temos assim, a resposta de Riobaldo enunciando um valor, um tom, que revela a posição do ser marcado/atravessado pela figura materna. Marca essa afiançada não só pelas citações explícitas de reverência à mãe, mas, sobretudo, pelo modo como atravessa o sertão, na fluência das águas dos rios, principalmente o São Francisco, onde conhece o menino (feminino oculto, interditado) e por ele se encanta. A maneira de ver e descrever as mulheres do sertão, ainda que não dê a elas voz ativa: defende Ana Duzuza; ama Nhorinhá; acata a decisão de Maria-da-Luz; compreende o silêncio da mulher do Hermógenes e consegue enxergar beleza na secura que ela expunha; vê delicadezas em Diadorim, jagunço duro, valente, que se movia pelo ódio. O mote da luta de Riobaldo na jagunçagem do sertão é o amor pelo menino/Reinaldo/Diadorim, cujo verde do olhar trazia a doçura do olhar materno, era a busca de si: “[..] amor é a gente querendo achar o que é da gente.” (p. 337). Nessa busca, nessa resposta atravessando o mundo no ato discursivo, seu tom indica a presença da figura materna, a presença do feminino como elemento constituinte de si, tom esse que, por sua vez, é marca de sua responsividade responsável.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta tese se propôs a analisar o discurso de Riobaldo no romance de Rosa, enfocando a presença da figura materna no intuito de dimensionar a importância da mãe, bem como os procedimentos que demonstram o ancoramento dessa voz nesse discurso determinando as travessias efetuadas pelo sujeito concretizado no discurso do narrador/personagem. O objetivo central, conforme esclarecido na introdução da pesquisa, foi demonstrar que essa voz é situada de maneira preponderante no relato do narrador, orientando a condução do enredo em suas travessias.
Para proceder tal investigação, consideramos pertinente partir da concepção de sujeito na perspectiva epistemológica do Círculo bakhtiniano que embasa esta análise demonstrando que Riobaldo é uma personagem-discurso cujo relato assume as características de um relato auto-informe-confissão que aproximam-no de uma confissão em que o distanciamento entre autor/personagem é precário, limitado, promovendo uma inconclusibilidade, certa tensão e conflito do narrador que se expõe em sua narrativa, materializando um sujeito que se constrói no ato, na eventicidade, num processo infinitamente inconcluso, inexorável, sem álibi.
Ao tratar a fabulação (material na arte literária - maneira como o acontecimento ocorre na narrativa) foi considerada a perspectiva bakhtiniana que toma o material não como um dado a priori, mas como um elemento de criação que compõe toda a arquitetônica e desse modo a fabulação constrói sua unidade não apenas em relação ao enredo, mas tendo em vista toda a estrutura do romance que impossibilita tratar separadamente material e procedimento. Assim, ao situarmos a presença da figura materna no enredo de Grande sertão: veredas, foi possível demonstrar que essa presença está necessariamente associada a toda a travessia executada pelo narrador, expressa na arquitetônica romanesca.
A maneira como Riobaldo cita o discurso das personagens femininas, sobretudo o da mãe, incorporando-a em seu tom discursivo, denuncia que o poder dessa mulher acontecia no silêncio. A forma como o discurso de Riobaldo apresenta a mãe,
evidenciando-a como uma palavra autoritária e, ao mesmo tempo, sem dar-lhe um lugar explícito, autônomo, trazendo essa figura quase que subliminarmente, como revelação de um narrador cujo desenvolvimento foi forjado num mundo em que os princípios femininos e masculinos são construções sócio-histórico-ideológicas em que o papel da mulher enquanto cidadã foi, ao longo do séculos, de participação indireta, feita atrás ou através dos homens. A Bigri em Grande sertão; veredas repete, na superfície do discurso de Riobaldo, esse processo.
Entretanto, considerando a totalidade do romance, sua arquitetônica, o cronotopo da travessia, o mote do enredo (apaixonamento pelo menino), a rendição na batalha final, o casamento com Otacília, a devoção à Virgem, é possível notar uma presença inegável e inconteste da figura materna, no discurso de Riobaldo, o que nos leva a concluir que o legado da mãe, ainda que estabelecido no silêncio, num contexto predominantemente patriarcal onde a mulher não tem voz, sobretudo a mulher pobre, deixa marcas indeléveis evidenciadas no tom emocional-volitivo que se materializa na arquitetônica do romance.
No que diz respeito ao cronotopo do romance pudemos constatar o rio como o grande orientador do enredo, vetor de travessia que, associado à figura materna, indica o início do enredo em dois momentos da narrativa, um na página 95 e outro na página 288. A presença da água, como representação do princípio feminino e das forças inconscientes, a citação explícita da mãe nesse crontopo, demonstra a importância dessa figura no relato. Essa presença também fica evidente ao observarmos a maneira como Riobaldo se relaciona com os rios, eles parecem refletir e refratar seus estados de alma, ora explicando, ora justificando, ora direcionando sua travessia. Todo o espaço/tempo de Riobaldo tem como referência os rios, sobretudo o São Francisco que, ao final (p. 568), se coloca para ele, assumindo, como mencionado, uma conotação viril (pau grosso, em pé, enorme), sugerindo a travessia efetuada pelo narrador que incorpora, por fim, o princípio masculino, é o ser unificado, o diabo, divisão, não mais existe, “O diabo não há!” [...] Existe é o homem humano.” (p. 568).
O apaixonamento pelo menino, como desenvolvido no item 3.4 do terceiro capítulo, demonstra ser a relação Diadorim/Reinaldo/Riobaldo uma relação especular, verso e
reverso em que Riobaldo manifesta presença materna e ausência paterna e o menino/Diadorim, o contrário. Esse fato estabelece uma preponderância dos princípios de gênero, em Riobaldo, o princípio feminino; em Diadorim, o masculino. Riobaldo é claramente atraído pela ambiguidade do menino que traz, tanto a coragem de um masculino como a doçura do olhar materno. No entanto, é a mãe que o leva ao porto do de-Janeiro e promove o encontro do narrador com o menino nas águas do São Francisco, o enredo, que conduz a travessia, é desencadeado por ela. Assim, foi possível a constatação de que o encantamento pelo menino parece ter como uma das motivações o feminino que se ocultava em Diadorim remetendo Riobaldo à figura materna. Esse fato é corroborado na batalha final quando Riobaldo se rende, foge da luta derradeira em que poderia matar o antagonista e ficar com a donzela. Entretanto não foi o que ele fez, Riobaldo cai num entorpecimento, foge desse amor, o que parece ser a interdição do incesto, uma vez que o amor foi revelado e assumido somente com a morte e Diadorim figurando apenas como um corpo de mulher. Não era mulher, era uma impossibilidade.
O casamento com Otacília é também um índice de comprovação da marca da mãe sobre o narrador, pois Otacília é a encarnação da feminilidade, repete, em vários aspectos as características da Bigri, a passividade, a religiosidade, a devoção à Nossa Senhora, padrões típicos de um contexto sócio-histórico-ideológico. A esposa executa um papel semelhante ao da mãe, zela, reza, espera.
A devoção do narrador à Virgem Maria revela indubitavelmente a presença e o tom da figura materna em seu discurso tanto pela religiosidade herdada da mãe, quanto pela santa ser representação máxima da maternidade. Através do discurso citado disseminado Riobaldo traz em seu discurso o tom apreciativo da voz feminina materna. Em toda narrativa haverá esse apelo à Nossa Senhora na tentativa de resgatar o princípio feminino como elemento de sustentação, consolo, prazer. Em todas as menções à Virgem o tom assumido é o do ser devoto, entregue e totalmente reverente à mãe e à Nossa Senhora, mãe das mães.
Nessa pesquisa caminhamos na perspectiva bakhtiniana, na proposta de uma análise dialógica, considerando o enunciado concreto (nesse caso o texto de Rosa, o discurso de Riobaldo) como uma resposta que se configura num ato ético em que
estar no mundo significa estar na linguagem, no jogo, onde é impossível não assumir um lugar, um tom, um ponto de vista. Desse modo, o ato discursivo não é representação da vida, é vida. É, como diz Bakhtin, não concebido, mas vivido participativamente. Essa participação dialógica em que as conversas vão estabelecendo redes, conexões, silenciamentos e escutas, é que os encontros do outro, de si, são facultados, possibilitando a nomeação do que estava obscuro, na sombra, inominado. O pesquisador é aquele que se depara com essa sombra, o silêncio, a lacuna, o obscuro, e não suporta a esterilidade do caos, do não-saber, da ausência de nomes, daquilo que não tem nenhuma existência. E como só aos poucos é que o escuro é claro, dialogar é vital, conhecer é primordial e conhecer é criar, é ser no evento mesmo da criação, pois, como diz Riobaldo: “É preciso de Deus existir a gente, mais; e do diabo divertir a gente com sua dele nenhuma existência.” (p. 292 ), considerando Deus o dom da linguagem que é o que nos faz criadores, e, ao mesmo tempo nos cria, nos faz deuses, e o diabo aquilo que ainda não nomeamos, nossa eterna busca, nossa diversão.
Dessa conversa com Bakhtin, Riobaldo e outros tantos, inevitável dizer das sombras encontradas, dos silêncios provocados quando a voz desse narrador nos calou, provocando uma entrega, uma escuta que, ao fim e ao cabo, a escuta do objeto é a escuta de si. Nessa entrega, o consentimento de olhar para o papel feminino e materno desempenhado, ocupando lugares e posições nem sempre escolhidos deliberadamente, no entanto, não menos responsável por isso.
Analisando o relato de Riobaldo, comprovando a preponderância da mãe que o atravessa da meninice à maturidade, revelando o lastro deixado, um fundamento constituinte que se fez no silêncio, ousamos estender a análise e considerar da mesma maneira o trajeto das mulheres que, em grande parte da história humana, também estiveram ausentes da vida pública, entretanto, sua ação, sua presença, atua num mundo que, talvez, o homem (ser masculino) não tenha acesso e ela é soberana. Um mundo sobre o qual depositamos nossos desejos mais secretos de amor e reconhecimento, pois que dele, comumente, deriva a vida e seu alimento.
Acreditamos que os objetivos da pesquisa foram atingidos a contento levando-nos a confirmar a hipótese inicial de uma presença forte da mãe no discurso de Riobaldo,
o que a fortuna crítica de Rosa não havia ainda apontado, a figura da Bigri em sua especificidade dentro do romance rosiano. Acreditamos também que a análise engendrada, ao tratar da função materna - ainda que o enunciado concreto seja ficcional e, como todo enunciado, é vida, não está fora dela - joga luzes para aspectos dos papéis femininos e masculinos numa sociedade de tradição patriarcal e enfatiza que estar no mundo implica necessariamente assumir uma posição, um lugar. É preciso então saber desses lugares, pois “[...] a gente sabendo que ele (o diabo) não existe, aí é que ele toma conta de tudo.” (p. 56).
Aqui finalizamos, damos um enquadramento final, um acabamento estético, mas tal como Riobaldo que encerra a narrativa com a palavra travessia, o que aponta para um caminho cujo fim não existe, o caminho da linguagem em realizar o real, o que na perspectiva bakhtiniana é sempre resposta que provocará outras tantas respostas num processo infindo, consideramos que a pesquisa e o estudo poderão continuar buscando o papel da mãe/mulher e sua força no discurso de protagonistas de outras histórias.
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