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No processo de socialização primária, a criança internaliza o único mundo que está ao seu redor, sem questionar, convertendo-se dessa forma em membro de um grupo social concreto. A criança, ao se localizar no mundo objetivo e ao se relacionar com as outras pessoas, se apropria de esquemas que definem a sua realidade como objetiva e exterior a ela, de maneira que ao conhecer a realidade poderá também conhecer a si mesma. O processo que explica o conhecer-se a si mesma é a internalização que já foi analisada anteriormente (Martín-Baró, 2001).

A criança, para interiorizar o mundo social dos outros e torná-lo o único mundo existente, precisa de pessoas que se encarreguem de sua socialização, as quais são parte do seu ambiente familiar e são chamadas de “outros significativos” pelos autores Berger & Luckmann (1995). Segundo esses autores, este processo é muito importante porque é carregado de alto grau de emoção. A criança assimila o mundo social e começa a desenvolver sua identidade pessoal identificando-se com os outros significativos, não tendo escolha.

Nessa fase de socialização, a criança cria em sua consciência uma abstração progressiva dos papéis e das atitudes dos outros particulares, transformando-os em seus papéis e atitudes em geral. Essa abstração do papel e da atitude do outro significativo concreto é chamada pelos autores de “outro generalizado” (conceito originário de George Mead). Dessa maneia, a criança se identifica consigo mesma, alcançando estabilidade e continuidade.

A interiorização do outro generalizado na consciência aponta para uma fase muito decisiva da socialização. A sociedade e a realidade objetiva são interiorizadas enquanto tal, resultando em uma identificação coerente e contínua. Desse modo, ocorre uma inter-relação cristalizada entre a sociedade, a identidade e a realidade no mesmo processo de interiorização.

O processo de socialização secundária caracteriza-se pela razão e pela apreensão do “outro generalizado” (ligado à divisão de trabalho, ou seja, à distribuição de conhecimento) e pela interiorização de submundos institucionais, como realidades segmentadas. Esta fase deixa de ser inevitável e se torna superficial. Somente uma situação muito forte pode destruir a maciça interiorização da realidade primária. O indivíduo reage de certa forma, conforme seja interessante, e abandona as formas de agir assim que não forem mais necessárias. O interessante é perceber que nesse processo as regras podem ser mudadas interna ou externamente sem afetar a integridade físico-psicológica, mas a sua interiorização não se dá com forte emoção, como ocorre na socialização primária.

Os submundos interiorizados na socialização secundária são, quase sempre, realidades parciais, ao contrário do que acontece na socialização primária, na qual a realidade é apresentada como única, completa e inevitável. O mundo institucional é transmitido como um corpo de conhecimento, justificado pela legitimação. Os indivíduos não apresentam um alto grau de emoção, visto que a identificação se dá em seqüências racionais, emocionalmente controladas, sendo, portanto, mais facilmente descartadas e substituídas. Não há o forte apego emocional nem a interiorização profunda, que caracterizam a socialização primária.

No processo de socialização secundária, pode acontecer a “alternação”, que consiste na transformação quase total da identidade (realidade subjetiva) e se caracteriza pela anulação do passado. Acontece quando o indivíduo muda de mundo ou neste caso de país que é o tema deste trabalho. O estrangeiro consegue fornecer novas significações de legitimação à transformação do presente lugar onde se encontra, “reinterpretando” radicalmente o significado das vivências passadas no país de origem. Esta transformação do presente é da realidade subjetiva total do indivíduo, a qual pode ser modificada, já que não é estática.

O indivíduo não tem outra escolha a não ser identificar-se com esse último processo. Segundo os autores, esses processos ocorrem em condições especiais de “re-

socialização” e apresentam uma estrutura similar à socialização primária, na qual os outros significativos são muito fortes e de alta carga emocional. Os indivíduos interiorizam um novo universo plausível, como, por exemplo, a conversão religiosa.

A alternação caracteriza-se pela anulação do passado e consegue dar novas significações de legitimação à transformação do presente, “re-interpretando” radicalmente o significado das vivências e das ações da vida passada. A alternação bem-sucedida requer a possibilidade de dispor de uma estrutura efetiva de plausibilidade, como Berger & Luckmann (1995) dizem: “uma base social que sirva de ‘laboratório’ da transformação” (p. 208).

Socialmente, a interação do indivíduo com os outros significativos é carregada de elevado grau de afetividade, dentro do grupo social que corporifica a estrutura de plausibilidade para o sujeito a quem é atribuída a tarefa de re-socialização. No processo de re-socialização, o passado é reinterpretado com a finalidade de harmonizá-lo com a realidade presente, cuja tendência é a reintrojetar no passado aqueles aspectos subjetivos que não foram muito acessíveis naquela época.

Na socialização secundária, a interiorização da realidade social pelo indivíduo pode dar-se interiorizando-a sem se identificar com ela. O indivíduo pode assumi-la como tática. A essa interiorização os autores chamam de alternância fria, que garante ao indivíduo interiorizar a nova realidade, utilizando-a como finalidade de subsistência, mas não se identificando com ela. O indivíduo assume e desempenha papéis com caráter manipulador de tática, de tal forma que Berger & Luckmann (1995) nos dizem: “que ele representa ser

aquilo que não se propõe que seja” (p. 228). Em oposição, temos a alternância quente, segundo a qual o sujeito representa ser aquilo que supõe ser, ele representa o papel acreditando ser o que representa. Na alternância fria, o sujeito representa o papel sabendo que não é.

Quando o mundo objetivo é muito claro e a organização é muito simples, é mais provável se alcançar um ótimo grau de socialização, já que a legitimação se torna mais

controlável na medida em que se processa uma socialização bem-sucedida, em que há simetria entre a realidade objetiva e realidade subjetiva.

O problema se coloca quando essa simetria não se dá, como, por exemplo, na sociedade onde se encontra um grande número de indivíduos que por alguma razão inesperada se afastam do padrão do grupo, sendo considerados desviados pela sociedade.

Porém, Sass (1999) discorda dessa definição, porque esses autores mantêm a relação dicotomizada entre o indivíduo e a sociedade. Assim, também consideram a objetividade como resultado da institucionalização da sociedade e a subjetividade como resultado da socialização do indivíduo. Com esta posição interacionista, não há superação da dicotomia. A relação, segundo os autores, se dá através do mecanismo em que o externo influência o interno e vice-versa.

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