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O século XVIII foi para o Rio de Janeiro um marco no que tange a sua importância econômica. Foi neste século em que se deu o período áureo da extração mineral na região das minas gerais e não possuindo aquela, contato com o mar, foi a cidade de São Sebastião sobremaneira beneficiada.

O Rio tornou-se simplesmente o entreposto comercial que ligava a zona extratora de metal precioso e a metrópole, além de sê-lo também entre as demais áreas interioranas que necessitavam de mão-de-obra e os navios fornecedores de cativos africanos. Ela tornar-se-ia por excelência um ponto de entrada e escoamento dos mais diversos artigos comercializáveis negociados por colonos e estrangeiros.

Em seu livro Ser escravo no Brasil, Kátia de Queirós Mattoso diz que:

Angola continua a ser, no século XVIII, o principal fornecedor de escravos ao Brasil. Entre 1723 e 1771, as importações de Angola são

8 Lauro Cavalcanti. Paço Imperial. Rio de Janeiro: Sextante Artes, 1999. Aquarela pintada por

feitas principalmente para o Rio de Janeiro, que recebe 51% dos cativos, enquanto cabe à Bahia 27,3%, a Pernambuco 18,2% e a Santos modestos 0,2% (MATTOSO, 2003, p. 49).

Como se observou nos dados apresentados acima, no decorrer daquele século o Rio configurou-se como o maior importador de escravos da colônia suplantando até mesmo as regiões canavieiras do nordeste, fazendo com que nela estivesse presente uma substancial parcela de escravos e conseqüentemente houvesse manifestações cultuais oriundas d’África.

Muito embora grande parte dos escravos que chegavam às terras cariocas tivesse como destino o interior da colônia, ainda assim um número substancial deles permaneceu na cidade ou nas cercanias dela desempenhando as mais variadas atividades ligadas ao mundo rural ou urbano dando ao Rio a possibilidade de absorver muito da rica cultura daqueles homens que para ele foram levados.

O centro urbano e suas imediações que até então serviram para a instalação e habitação daqueles que ali viviam tornou-se com o passar do tempo insuficiente a medida que a cidade atraia mais pessoas, fossem aquelas ligadas a atividades comerciais ou não.

Sendo assim houve um movimento durante o século XVIII proporcionando o aumento do número de chácaras e sesmarias em áreas mais distantes que se ligavam ao povoamento urbano através de estradas de barro um tanto quanto precárias, mas que serviam na medida do possível para a exploração do território assim como para o escoamento dos produtos agrícolas. As estradas e veredas foram de suma importância para o estabelecimento do contato com as regiões mais distantes visto que estas áreas eram fornecedoras de inúmeros gêneros agrícolas e víveres que obviamente a urbe não era capaz de produzir.

Carroças e seus condutores saiam de locais longínquos para abastecer o mercado carioca, prática essa que perdurou até inícios do século XX sendo extinta pelas ações urbanísticas e administrativas levadas a cabo por Pereira Passos, que veremos no capítulo posterior.

Ao longo do século XVIII a cidade foi ampliando sua malha urbana central a medida que o volume das transações financeiras avolumava seu poder econômico. Novas ruas e estradas interligando áreas, facilitando cada vez mais o contato entre aqueles que se dedicavam aos diversos ramos da

economia que permitiram o enriquecimento da cidade ao decorrer daquele século.

Figura 6

A organização espacial do centro urbano e suas imediações, com ruas e estradas interligando o litoral e as áreas interioranas.

Fonte: Barreiros. Atlas da Evolução Urbana da cidade do Rio de Janeiro, 1965, p.17

Na figura 6 vemos a quantidades de caminhos, em vermelho, que ligavam o centro urbano aos recônditos mais distantes formando uma malha de circulação de transeuntes com gêneros agrícolas e víveres que abasteciam a área central da cidade.

No ano de 1763, mesmo diante dos evidentes sinais de enfraquecimento da atividade mineradora na região de Minas Gerais a cidade do Rio de Janeiro foi alçada ao patamar de capital da colônia suplantando a cidade de Salvador e tornando-se o novo pólo da política colonial.

Por mais que a extração aurífera apresentasse um movimento de decadência era preciso aumentar o rigor da fiscalização9 sobre a área, não só

criando novas leis e impostos para a região como a capitação – instituída entre 1735 e 1750 – e a derrama – 1751 – mas também dobrar o controle sobre a rota de escoamento visto que foi a partir da década de 50 daquele século que houve a diminuição da extração. Associado a esta pretensão, havia a intenção da Coroa lusitana em manter contato com a região do Rio da Prata a fim de garantir a obtenção de metais preciosos mesmo após a decadência mineira.

Muito embora o Rio tenha conseguido se tornar capital da colônia por volta da segunda metade do século XVIII, não possuía condições físicas efetivas para sê-la. A cidade era bastante deficitária em sua estrutura urbana, não possuindo planejamento arquitetônico satisfatoriamente preciso, sistema de esgoto ou água encanada. Ao longo dos anos a cidade havia crescido, porém sem planejamento algum.

A inexistência do sistema de esgoto na cidade fez com que determinadas áreas se tornassem repositórios dos detritos produzidos pela população carioca. A Praia dos Peixes e o Campo de Santana serviram durante longa data como local de despejos dos detritos carregados pelos tigres10, atividade esta que perdurou até a década de 1860 (COARACY, 2008, p. 88).

9 Pesquisas sobre o período aurífero apontam que do total de ouro extraído em Minas Gerais

cerca de 35% fora contrabandeado, lesando os cofres régios. Por esta razão a Coroa lusitana se negava a acreditar na real decadência aurífera.

10 O significado do termo

tigre no período colonial se referia ao escravo encarregado de

transportar as fezes coletando-as de casa em casa. Recebiam este pseudônimo, pois os detritos permeando o balde deixavam as costas do cativo com listras como se fosse o referido

Durante o período do Brasil colonial e imperial a cidade do Rio sofreria com inúmeras doenças epidêmicas em decorrência das precárias condições higiênicas naquela antiga capital. A varíola, a febre amarela e a tuberculose marcaram a história carioca entre o século XIX e XX, assolando a população em geral, sobretudo os mais pobres em decorrência das parcas condições higiênicas nas instalações habitacionais. Sidney Chalhoub produziu um trabalho de grande fôlego acerca do assunto em A Cidade Febril (2001).