2. Pressestøtte, formål og praksis
2.2 En «avis» er aktuell, politisk og «bred»
Os estudos de Halliday e Hasan (1976; 1985) contribuíram com um imenso legado, deixando rastros na obra de uma diversidade de autores. A propósito, um conceito de cadeia coesiva derivado de Halliday e Hasan (1985) é o de Antunes (1996, p. 78), para quem as cadeias são “o encadeamento textual de nexos semanticamente semelhantes”, e isto inclui como parte das cadeias de coesão os elementos referenciais e até os elementos que consideramos não referenciais.
Ao estudar as funções discursivas dos nexos coesivos em cadeias de repetições e de substituições lexicais em editoriais jornalísticos, a autora propõe uma classificação das cadeias adaptada de Halliday e Hasan (1985). Sem nos apresarmos à análise da autora acerca do valor e das funções destas vias lexicais nos textos, procuramos priorizar, neste momento, as considerações feitas, nas obras de Antunes (1996; 2009), mais precisamente em torno das cadeias referenciais, nosso objeto de interesse. Assim sendo, para Antunes (1996), as cadeias de correferencialidade são equivalentes às de “identidade” sugeridas pelos dois autores, ao passo que a autora discerne em cadeias de contiguidade e em cadeias de associação, tudo aquilo que foi arrolado sob o título de cadeias de “similaridade”, na mesma taxionomia a qual se elucidou no item antecedente.
Antunes (1996) explana que as cadeias de correferencialidade são formadas por nexos de equivalência, os quais se estabelecem mediante uma relação de retomada de um mesmo segmento de realidade (segundo a visão realista da referência, a qual citamos em comparação à noção sociocognitivista de referenciação). Ou seja, para ela, duas expressões nominais, numa relação de correferencialidade, devem ter como referência atual a mesma entidade do mundo da experiência. Tome-se os seguintes trechos do corpus da autora:
(6) Enfrenta, assim o País uma nova etapa (...) Ao se iniciar essa etapa, apraz (...) (ANTUNES, 1996, p. 209, grifos da autora)
(7) Vai-se fazer premente uma reforma para a lei partidária. Só esta reforma, realmente, contribuirá (...) (idem)
Em ambos os trechos, considerando-se apenas os núcleos nominais dos referentes destacados em repetição, a autora aponta a evidência coesiva da correferencialidade entre a primeira e a segunda ocorrências de “etapa” e de “reforma”.
Já as cadeias de contiguidade referem-se ao caso de expressões que ocorrem fora da condição de correferencialidade, mas que guardam relações de intersecção referencial, das quais a inclusão é um tipo. A autora cita como ilustração o caso de dois grupos nominais não correferenciais, cujos núcleos sejam preenchidos por unidades lexicais idênticas ou relacionadas. Logo, esse tipo de cadeia formada por nexos de contiguidade se equipara mais propriamente à noção de “co-classificação” em Halliday e Hasan (1976;1985). Um exemplo concreto disso podemos encontrar na obra dos dois autores:
(8) Você gostaria desse pote de chá redondo?
Não, eu desejo um quadrado. ( HALLIDAY; HASAN, 1976, p.306)
No presente exemplo, quando se pergunta mencionando “esse pote de chá redondo” e se responde remetendo a “um (pote) quadrado”, percebe-se, automaticamente, que se trata de dois membros não idênticos (um pote redondo e um pote quadrado) de uma classe idêntica de objetos (pote); em consequência, trata-se de duas expressões distintas cujos núcleos nominais remetem a unidades lexicais iguais.
As cadeias de associação, latentes à noção de “coextensão” em Halliday e Hasan (1985), ocorrem quando unidades lexicais se concatenam, dividindo o mesmo contexto verbal e estabelecendo, assim, uma regularidade nos padrões de seleção das unidades lexicais de um texto. Este padrão de co-ocorrência das unidades é, para Antunes (1996), o que melhor diferencia este terceiro tipo de cadeia do segundo tipo, pois, segundo a autora, não há limites claros entre ambas, existindo tanto em uma quanto em outra a relação de contiguidade, ou seja, de aproximação semântica e, por isso, nelas também não há correferencialidade. Dentre as relações semânticas que figuram nas cadeias de nexos por associação, Antunes (1996;
2009) destaca aquelas existentes entre os hipônimos (por ex,, gato e rato no conjunto de animais), as relações de parte/todo ou parte/parte, conteúdo/continente (por ex., igreja e torre; boca e queixo), as que expressam diferentes tipos de antonímia (por ex., frio e quente, ou marido e mulher). No próximo exemplo, mais adiante, veremos como essas relações se configuram textualmente.
Portanto, as unidades de nexos que perfazem as cadeias descritas providenciam assim os pontos de ligação dos segmentos textuais, de tal forma que “o texto poderia ser imaginado como um terreno pontilhado por diferentes tipos de nós” (ANTUNES, 1996, p.77). De agora em diante, observaremos a relevância de algumas ponderações de Antunes (2009), as quais, mesmo não se alinhando exatamente à nossa perspectiva analítica, ainda assim revelam certos pontos sobre os quais convém refletirmos. Por exemplo, julgamos de total relevância o destaque dado pela autora em relação à cadeia de associação, pela exigência da ativação de nosso conhecimento acerca dos esquemas ou frames em torno das coisas e processos da vida social e cultural. Veja-se o excerto de uma matéria na revista Veja, extraída da obra de Antunes (2009):
(9) OS PREÇOS MUITO LOUCOS DA ERA DO REAL
Culpar a última caipirinha pela total discrepância entre a nota apresentada pelo garçom e a inflação exibida pelo governo é injustiça. Emprestar os ouvidos para o dono da pizzaria explicar a elevação de preços, apesar da baixa da farinha e dos ovos, é masoquismo. Os preços dos itens que influem no bolso da classe média estão uma loucura. Esse é, hoje, um dos principais desafios do Plano Real. (...) um sinal de que o real ainda tem chão pela frente antes de ser encarado como moeda forte para valer: até agora, os centavos quase não existem para os brasileiros. (...) (Revista Veja, 19/07/1995, extraída de ANTUNES, 2009, p.147)
Esquema 1: Modelo de cadeias de associação
Inflação Elevação baixa
Moeda preço
Plano Real governo
↕
↕
Pizzaria Dono garçom nota
Farinha ovos
↕
Brasileiros classe média governo
Fonte: Antunes (2009)
Dentre as cadeias de associação esquematizadas pela autora para explicar seu funcionamento na matéria veiculada em (9), demonstramos algumas destas cadeias, ou parte delas, para explicar, mais precisamente, os elementos que aparecem no trecho acima. A pesquisadora assim sinaliza que, para a determinação desse conjunto de acoplamentos, o recurso às noções básicas do que seja inflação, economia, comércio e dos referentes que daí decorrem torna-se vital, e isso é viável por ocasião de nosso conhecimento, que vem dos esquemas mentais acerca de como os eventos, as coisas e as pessoas se distribuem e se organizam, regularmente, na experiência do mundo físico e cultural circundante (KOCH, 2002; VAN DIJK, 2012). Diante desse contexto, é fácil notar que entidades como “elevação, baixa, moeda, preço, Plano Real, governo” guardam relações intrínsecas com o sentido da palavra “inflação”, ancorando-se nela. Faremos a ressalva, porém, de que nossa análise transcende a “autossuficiência” semântica do sistema da língua na tessitura dessas relações e encontra fundamento de vínculo, sobretudo, em relações pragmáticas e contextuais, instauradas na memória discursiva dos interlocutores para a “fabricação” de redes referenciais; algo de que Antunes (1996; 2009) não se ocupa de modo principal, mesmo tendo em mente que tais instâncias são também características desses processos, especialmente para se encontrar as raízes dessa articulação, por exemplo, entre “Plano Real”, “governo” e outros referentes do texto supramencionado, no contexto histórico em que foi escrito.
Veja-se que dessas associações decorre um outro fato asseverado por Antunes (1996), o qual é por nós comprovado empiricamente: o fato de que uma cadeia, de certa forma, continua-se em outra, de tal modo que se torna difícil determinar suas fronteiras, pois
Moda Elevação baixa
“não constituem, por isso, feixes isolados de relações, mas providenciam verdadeiras teias de ligações com linhas que se unem em todas as direções” (ANTUNES, 2009, p. 158). Assim, são colocadas as setas dúplices entre uma cadeia e outra, no quadro acima, para fornecer a indicação dessa via de mão dupla, de interação e reciprocidade entre as cadeias, uma vez que a teia de “inflação” dialoga com a de “moeda”, ao passo que os itens mais diretamente contíguos aos de “moeda” remetem, concomitantemente, aos itens da cadeia seguinte, e assim por diante, de forma que, após se estabelecer a coerência do texto, descobre-se que nenhuma palavra está “solta”. Nesse continuum, elementos de uma cadeia também interagem com outra (s), de tal modo que há a probabilidade de um mesmo elemento aparecer em mais de uma cadeia. É o caso dos elementos “elevação” e baixa”, que pertencem, ao mesmo tempo, à cadeia de “inflação” e de “moeda”, visto haver também uma íntima articulação semântica, cognitiva e temática entre ambas no texto em exposição. O mesmo ocorre com o termo “governo” que surge na teia de “inflação” e de “brasileiros”, ambas profundamente interligadas, levando-se em consideração o contexto sócio-histórico da enunciação. Sem dúvida, esse fato é corroborado de forma recorrente, na análise de nossa amostra, e verificamos tal ocorrência não só no nível relacional entre lexemas, mas também no nível das dependências de natureza sociocognitiva e pragmático-discursiva entre as redes referenciais e os elementos do texto.
Convém assinalar a importância igualmente dada pela pesquisadora à promoção da continuidade tópica pelos mecanismos de ligação, que se arranjam por diferentes recursos nos textos: “o fato de um texto organizar-se a partir de um filão semântico cria, de certa forma, condições para que se estabeleçam diferentes cadeias de unidades lexicais, vinculadas por diferentes tipos de nexos”. (ANTUNES, 1996, p. 78) Com isso, percebe-se que todas as cadeias do texto (9) se direcionam a um mesmo tópico, em torno da “situação econômica brasileira” na época de 1995, daí a existência das teias convergentes “inflação”, “moeda”, “pizzaria” e “brasileiros” (além de outras surgidas na totalidade do texto).
Com isso, a explanação de Antunes (1996) quanto à unidade semântica de um texto tende a assemelhar-se, em certo momento, à proposta de Jubran (1992)9 a respeito da organização (sub) tópica, uma vez se citando a construção de sentido pelo encadeamento hierárquico dos vários desmembramentos, que remetem para a unidade global do texto, e no
9 No subitem 3.5.2, veremos que tal proposta de Jubran (1992), a respeito da organização (sub)tópica do texto, foi adaptada por Roncarati (2010) para sua análise dos desdobramentos das cadeias nos textos.
encadeamento vicinal dos desmembramentos entre si, numa relação de co-fluência, já que os desmembramentos são também inteiramente relacionais entre si.
Uma vez que há a continuidade textual, dela também decorre a progressão, da qual os dados informativos no texto trazidos pelos elementos de retomada são igualmente responsáveis, projetando-se em várias ligações multidirecionais de sentidos. Sobre isso, pronuncia-se Antunes (1996, p.32, grifo da autora): “se na continuidade da sequência do texto, num jogo de re-ocorrências e retomadas, algo mantém-se, prevalece, sustenta-se, como na integridade de um fio, algo, também, deve ir, como num programa de afluências, somando-se, acrescentando-se, ampliando-se, progredindo”. Deveras, é isso o que comprovamos ao nos deparar com a manutenção e a progressão discursiva dos referentes, ao manter relações com outras entidades discursivas e informações advindas da estruturação retórica do texto, o que efetua, por isso, uma contínua modificação referencial. Em virtude disso, consideramos, em nossa tese, as transformações dos referentes, as quais acontecem devido ao caráter naturalmente recategorizador das anáforas, que ocorrem em quaisquer situações de continuidade referencial, como vemos em Cavalcante e Brito (2016), das quais tornaremos a falar no capítulo 4, que contempla a recategorização. Daí também a importância da classificação de Custódio Filho (2011), que nos ajuda a identificar os modos de continuidade referencial ocorridos nas recategorizações, que sempre implicam um acréscimo e ampliação de informações sobre o referente.
Em suma, nessa pesquisa, além da abordagem da dimensão lexical, que diz respeito aos traços componenciais do plano de conteúdo (“semas”) das palavras e dos campos de sentido que os elos compartilham, demonstra-se certa atenção à dimensão textual - na exigência da unidade e continuidade tópica do texto - e destas dimensões a autora extrai fundamentais conclusões. Todavia, a mesma autora considera como aspecto “externo” ao texto a interferência de um conjunto de propriedades de cunho social, cultural e pragmático na instauração e no reconhecimento das conexões entre os termos. Ao reconhecer tal aspecto separadamente da constituição do texto, e não de forma inerente, a autora prefere aplicar-se ao que seja de ordem propriamente lexical e exclusivamente cotextual na pesquisa da construção de nexos e de cadeias coesivas, deixando fora de seu objeto de estudo tudo aquilo que também nos é de crucial importância para a edificação e manutenção referencial.
Na seção que ora iniciaremos, verifica-se que, tempos depois da publicação de Halliday e Hasan (1985), por quem se pauta Antunes (1996; 2009) e muitos pesquisadores, passos mais largos em direção ao aspecto cognitivo das expressões de referência nas cadeias
foram dados por alguns especialistas nessa temática. Vejamos, pois, a sugestão classificatória das cadeias em Corblin (1995), como uma das tentativas de refinamento conceitual do fenômeno.