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Psykososiale behov:

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5 Drøfting

5.4 Psykososiale behov:

Nesta categoria tratamos do tempo de não trabalho das donas de casa pesquisadas, buscando evidenciar o espaço de tempo que este ocupa no cotidiano destas. Ademais, discorremos sobre as atividades que são realizadas pelas entrevistadas durante esse tempo, bem como aquelas que as donas de casa pesquisadas gostariam de realizar, mas não o fazem, e os motivos associados a tal fato, além de pormenorizar as condicionalidades que se impõem às participantes do nosso estudo ao desejaram usufruir de um “tempo para si” (AQUINO; MARTINS, 2007).

Identificamos no discurso das donas de casa pesquisadas que o tempo de não trabalho é tido como um período destinado a realização de atividades de descanso ou lazer. Dessa forma, quando questionadas sobre a referida duração temporal, as entrevistadas se remetiam às atividades de lazer ou cuidados pessoais que desempenham ou que gostariam de praticar no seu cotidiano.

Dentre as atividades que eram realizadas pelas donas de casa constam: frequentar a academia de ginástica (Cordélia, Joana, Catarina e G.H); fazer caminhada (Elza, Anita e Ana); ir à missa e/ou participar de grupos religiosos (Carlota, Zilda, Laura e Cordélia); ir ao salão de beleza (Cordélia e Anita); passear no shopping (Zilda e Laura); ir à praia em família (Joana e Zilda); realizar reuniões familiares em casa (Anita, Cordélia, Elza, Catarina) e passear com amigos ou parentes externos ao núcleo familiar (Cordélia, Zilda, Laura e Carlota). Com relação às atividades que gostariam de efetuar temos: estudar (Ana e Joana); ter um “tempo só para si” (G.H e Laura), fazer atividade física (Carlota); realizar procedimentos estéticos (Cordélia); ir ao shopping (Carlota) e ir à praia (Carlota e Laura). Desse modo, somente Elza não referiu atividades que gostaria de realizar, afirmando estar satisfeita com as atividades que desempenha no cotidiano. Nesse sentido, constatamos uma significativa evidência de atividades voltadas ao cuidado de si tanto nas atividades que realizam quanto nas que gostariam de realizar.

Com relação às atividades realizadas, observamos uma valorização do tempo destinado ao conjunto das atividades físicas, sendo este, em alguns casos, priorizado em relação às demais tarefas que compõem o dia a dia de afazeres das donas de casa, como explicitado na fala de Catarina: “a academia que eu não perco. Só se eu tiver mesmo indisponível, tiver doente, alguma coisa, mas, se não tiver, a minha primeira tarefa pela manhã é a academia” (CATARINA). Ademais, verificamos que a atividade física também se configura como um momento de lazer e de socialização das donas de casa, que permanecem grande parte do seu

dia a dia reclusas no interior de seus lares, além de ser considerado um momento de cuidado de si, como exposto no discurso de Joana e Cordélia:

Eu digo que a academia ela não é só pra eu, assim, pra cuidar da saúde em si, assim, porque ela me ajuda em muitas coisas. Lá é um momento que eu tenho só pra mim, é um momento em que eu não faço nada além de, assim, cuidar de mim. Acho que até mesmo da nossa cabeça, do nosso dia-a-dia. Me sinto melhor quando eu faço, o meu dia, eu consigo ficar mais disposta, né? É um momento que eu tiro pra mim de lazer só meu, aonde eu passo o restante do meu dia bem, por conta desse exercício físico, dessa rotina de cuidar, né, de cuidados mesmo. (JOANA).

Quando eu falto uma academia eu fico doidinha, porque é o único lazer que tenho e eu preciso. Por quê? Eu tenho que vir pra cá, até mesmo porque é aqui onde eu tenho as amigas, onde eu converso. Porque, como eu não trabalho, como eu me casei muito nova e me dediquei muito aos filhos, eu não tenho lazer com amigas, entendeu? O meu lazer é com meu marido e minhas filhas. O lazer que eu tenho de conversar é aqui. (CORDÉLIA).

Notoriamente, verificamos a importância do espaço da academia de ginástica para ambas as entrevistadas, contudo, no caso de Cordélia, este se configura como o único canal de interlocução regular com pessoas externas ao seu núcleo familiar, sendo mais representativo em seu cotidiano do que o é para as demais entrevistadas que frequentam à academia

No caso de Anita e Carlota, verificamos que a importância atribuída à prática de exercícios físicos está vinculada à manutenção da saúde física. Nesse sentido, Anita considera que realizar caminhadas diariamente contribui para seu estado geral de saúde, principalmente ao considerar o seu quadro de artrose e artrite crônicas, sendo inclusive uma recomendação médica. No caso de Carlota, que não realiza atividades físicas atualmente, o desejo de voltar a participar das aulas de ginástica, ministradas por membros do corpo de bombeiros, denota a valorização que a entrevistada confere à referida atividade, como explicitado em seu relato:

Eu tava participando do bombeiro, né, dois dias na semana, mas até isso eu já parei. Dos bombeiros é educação física, é alongamento, essas coisas, né? Não tô fazendo mais. Porque é sete horas e a minha filha começou a trabalhar, né. Aí, eu tenho que cuidar deles, né [filhos da referida filha]. Aí, sete horas, ela já chega com eles [...], mas eu tenho que sair umas seis horas pra fazer uma caminhada, porque eu não vou ficar parada. Eu tenho que fazer porque eu sempre fiz uma atividade física, assim, uma caminhada, essa física com os bombeiros, e tô parada, né? E eu vou ter que sair muito cedo, seis horas pra sete horas já tá aqui pra pegar eles [netos]. É, é corrido. Eu gostaria de participar dos bombeiros novamente, né. Mas tudo a gente tem que ter um jeito, né. Eu já tava até pensando assim: essa semana se eu levar o carrinho dela [neta caçula], né, que é de empurrar, levar meu neto que fica comigo de manhã, né, tem treze anos, e vir com ela no carrinho e fazer a minha atividade lá. E ele olhar enquanto eu faço. Eu tenho que me organizar, né. Assim, também eu não posso ficar mais parada, principalmente pela minha idade, né, que a pessoa fica muito... enferrujada (risos). As juntas vão ficando duras e, por isso, a gente tem que fazer alguma atividade. (CARLOTA).

Nitidamente, evidenciamos a prevalência das obrigações laborais da referida dona de casa sobre a atividade física realizada anteriormente, o que acarretou na interrupção destas a

despeito dos possíveis prejuízos ao seu bem-estar físico decorrentes da extinção da prática de exercícios físicos. Nesse sentido, nossa pesquisa corrobora com o enunciado por Ávila e Ferreira (2014) ao denunciarem que a invasão dos tempos de trabalho no cotidiano das mulheres, a longo prazo, reverbera na dificuldade destas de zelarem por sua saúde, bem como de desfrutarem de bens culturais e de lazer.

De fato, cinco de nossas entrevistadas relataram a falta de tempo para dedicarem a si, denunciando, assim como Cardoso (2010), um tempo de não trabalho que é tomado pelo cansaço, pela sensação de que estão sempre em estado de alerta, a postos para atender às demandas familiares e, dessa forma, são tomadas pela sensação de que este “tempo para si” é insuficiente, como podemos perceber na fala de Laura e Joana:

Mulher, particularmente, pra mim mesmo eu não tenho [tempo para si], sabe? Poucas vezes, acho que umas duas vezes durante esses dezoito anos de casada que eu tirei, assim, esses dois dias: foi um final de semana que eu fui num retiro da igreja e o outro dia, também, foi só um sábado na igreja, também. Pronto, esses dois dias que eu tirei pra mim, de um lazer pra mim, só eu, sozinha. Porque quando eu vou com os meninos, não é só pra mim, é mais pra eles. (LAURA).

No momento, como as crianças são muito pequenas, eu dedico o meu tempo no momento a elas, não por uma questão de querer, vamos dizer assim [...], mas eu gostaria de ter um tempo pra mim maior. (JOANA).

Nessa direção, fazemo-nos o mesmo questionamento proposto por Machado (2014) ao investigar sobre a questão do tempo para as mulheres: para o quê falta tempo? Em nossa pesquisa encontramos correspondência com o verificado pela referida autora e, dessa forma, obtivemos que falta tempo para: estudar (Joana, Ana e G.H); fazer atividades físicas e lazer (Carlota) e lazer individual (Laura).

Permanecendo na questão temporal, verificamos que o tempo destinado às atividades de lazer, aos cuidados pessoais ou ao descanso variava conforme a rotina de afazeres diários das donas de casa pesquisadas, uma vez que tais afazeres têm prevalência sobre as demais atividades. Assim, mesmo nos casos em que o tempo destinado ao exercício físico era tido como extremamente importante, por exemplo, este era alocado no cotidiano de acordo com a rotina de afazeres diários. Tomando o caso de Catarina e Ana, que se referiram às suas atividades físicas como “sagradas”, verificamos que ambas as donas de casa posicionavam tais atividades nas primeiras horas do dia, de forma a não “atrapalharem” a rotina de afazeres domésticos.

Adentrando na quantidade de tempo dispendido com o lazer, o exercício físico e os cuidados pessoais, temos que Ana, Elza e Anita afirmaram gastar cerca de quarenta minutos, diariamente, na execução da caminhada. Já nos casos de Cordélia, Catarina, Joana e G.H, que frequentam a academia de ginástica, o tempo referido foi em média de uma hora e meia

diariamente, e, por último, Laura, Carlota e Zilda alegam não realizarem atividade física regularmente. Com relação aos cuidados pessoais, somente Carlota e Cordélia referiram destinar um tempo regular para estes, compreendendo de uma a duas horas semanais. A diferença entre as duas entrevistadas citadas repousa na situação socioeconômica destas: enquanto Cordélia tem um horário fixo (todas as quartas-feiras, às 14 horas) no salão de beleza, Carlota se responsabiliza pelos próprios cuidados.

Ademais, chamou-nos a atenção o fato de que Laura, Carlota e Zilda, embora tenham verbalizado que sentem o desejo de realizarem mais atividades de lazer, tais como passear, ir à praia ou ao shopping, afirmaram que não o fazem por não terem a companhia de seus respectivos maridos, que se recusam a realizar tais atividades por serem “caseiros”. Apesar de não haver uma interdição explícita por parte de seus maridos em relação a estas saírem sem a companhia dos cônjuges, as entrevistadas referenciadas relatam que não se sentem “à vontade” saindo desacompanhadas, como podemos observar no relato de Carlota:

Eu gostaria, né… Porque tem que ter um passeio, né, assim, uma praia, essas coisas, ir pra um shopping. O marido não gosta de sair. Ele não gosta. Minha filha diz assim “mãe, chame a sua amiga e vá pro shopping e vá pra praia”. Eu não gosto de sair assim, coisa minha.

Dito isto, identificamos com nitidez o componente dominador/opressor/explorador das relações sociais de sexo que é internalizado pelas donas de casa pesquisadas, em diferentes graus de intensidade, e que incide na forma como estas irão dispor de seu tempo de não trabalho. Dentre nossas entrevistadas, aquela que melhor retrata a natureza dessa relação de dominação patriarcal é Cordélia, como constatamos em sua fala:

É tanto que, quando as meninas [amigas da academia] inventam de fazer alguma coisa pra fora, eu nunca vou. [...]Porque o meu marido é muito ciumento. Então, o que é que eu faço? Eu evito certas coisas. Eu já sou casada há 26 anos, então eu acho assim, tem certas coisas na vida que não precisa pra piorar um casamento [...]. Então assim, eu tenho minhas amigas daqui [academia] e daqui não sai. São minhas amigas daqui. Mas, no meu dia a dia, são o meu marido, as minhas duas filhas e a minha família. As minhas irmãs, a gente sai muito. Na minha casa, toda sexta-feira a gente tem churrasco, aí eu levo todo mundo pra dentro da minha casa. [...] E tem também muitos, muitos amigos, muitos mesmo. Um grupo muito grande de amigos, todos casados. A gente, às vezes, vai pra casa de praia. [...] Feriado, sempre a gente se encontra em alguma casa de praia, a gente marca qual praia. Mas tudo assim, sempre em família. Marido com as duas filhas e os amigos com os filhos também. Eu nunca, nunca, nunca, nunca saí só com alguém. Assim: “Vamos no shopping?” Não. Elas tão até aí fazendo uma competição lá em cima, pra ver quem perde mais peso, não sei se tu viu. Aí diz “Vamos?” Aí eu digo “vou não, porque vocês querem fazer corrida e não sei o que, não sei o que, e eu não vou”. Como o meu marido é muito ciumento, se eu começar a inventar coisas extras na academia, não dá certo. Então eu evito muita coisa. Eu prefiro ficar aqui, faço as minhas coisas. As minhas amigas mesmo ficam aqui e daqui não saio. (CORDÉLIA).

Sumarizando essa categoria, inferimos que o tempo de não trabalho das donas de casa pesquisadas está condicionado ao tempo de trabalho reprodutivo, variando de acordo com a rotina de afazeres domésticos e cuidados parentais de cada entrevistada. Ademais, as atividades de lazer e cuidados pessoas estão condicionadas à referida rotina, bem como à dinâmica da dominação patriarcal que se estabelece entre as donas de casa entrevistadas e seus cônjuges, expondo os conflitos inerentes à divisão sexual do trabalho e às relações sociais de sexo (KERGOAT, 2000).

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