“Quando se vive como se pensa, acaba-se pensando como se vive”
Gabriel Marcel
Matos & Gonçalves (2002) desenvolveram um estudo com mulheres vítimas de maus- tratos em que o agressor era o marido.
Analisam a forma como reconstruíam a sua identidade pela narrativa das suas histórias. Citam vários autores, como por exemplo Bruner (1990), que defendem ser a narrativa a melhor forma pela qual os seres humanos dão unidade e sentido às suas vidas, concebendo, pois, que a identidade resulta de uma produção de narrativas.
Os autores, num dado momento do estudo, e seguindo os argumentos dos estudos que abordam a identidade, reflectem sobre a noção de voz e exemplificam com uma comparação: se a voz individual pode narrar uma história pessoal então uma voz colectiva pode contar uma história colectiva, logo podemos pensar em como uma “história colectiva sustenta as diferenças de poder e aborda as questões de género”, no âmbito da violência conjugal.
Prosseguindo o raciocínio, num contexto de conceito de identidade pressupõe-se que exista autonomia das vozes podendo umas delas tornarem-se predominantes sobre as outras. Se pensarmos nos discursos sociais sobre o género, vemos que posicionam o homem e a mulher em diferentes níveis de poder, logo, as vozes “de determinados grupos têm maior oportunidade de ser ouvidas”.
A conclusão que se pode retirar, e os autores citam Holland (1997), é de que não existe igualdade já que essa depende das práticas discursivas, da cultura e das posições sociais, logo quem tem mais poder e mais privilégios faz ouvir a sua voz e quem não tem, fica em silêncio.
Maria Paula Pelúcia Canelas 40 Matos & Gonçalves (2002), afirmam o quanto é importante acabar com os “monólogos silenciosos” e passar para os “diálogos de vozes igualitárias” no que se refere às questões da violência conjugal, e dizem ainda: “ (…) é necessário abrir um espaço para a voz da vítima emergir, sair da marginalidade a que foi colocada pela cultura patriarcal dominante (…) numa polifonia de igualdade de oportunidades para a co-construção de significados”.
Pereira, Matos & Machado (2006), num estudo exploratório sobre as narrativas da vítima relativas à violência sexual na conjugalidade estimam que aconteceram às mulheres mais de 20 violações ao longo da vida conjugal.
As vítimas afirmam que têm dificuldade em prever a violação e que as estratégias de coping não resultam perante a iminência da mesma.
As autoras dizem que a violência apresenta um padrão regular e que se instalou em fases precoces da relação.
Fazem referência aos poucos programas de intervenção e aos poucos trabalhos de investigação que existem nesta área em Portugal, visto o assunto só ter começado a ter relevância científica a partir da década de 90, especialmente nas áreas da psicologia e sociologia. Mesmo assim onde a lacuna ainda é maior é a nível da violência sexual porque o assunto é tabu e está envolvido em muito secretismo, já que faz parte duma esfera mais íntima.
Pereira, Matos & Machado (2006:120), citam Mahoney (2000), para definir desta forma a violação marital: “actos sexuais – cópula, sexo anal, oral, utilização de objectos – cometidos sem o consentimento da mulher e/ou contra a sua vontade, através da força física, ameaça de força contra ela ou uma terceira pessoa ou de dano implícito (baseado em experiências previas, desencadeando na mulher o medo de que a força física será usada se ela resistir) quando o perpetrador é o marido ou ex-marido da vitima”.
Ao contrário do que socialmente se possa pensar, os estudos demonstram que a maioria das mulheres que sofrem violação, esta é perpetrada pelo marido, ex-marido, namorado ou ex-namorado. Os danos físicos e psicológicos cometidos, associados a estas múltiplas violações, são mais duradouros e tão ou mais severos que os perpetrados por um estranho.
Neste estudo é citado um outro de Koss (1988), que diz que 28.6% das mulheres violadas por estranhos contam à polícia enquanto que só 3.2% o fazem se o violador for conhecido.
Maria Paula Pelúcia Canelas 41 Citam um outro estudo de Frazier e Seales (1997) sobre violência sexual num campus universitário onde identificaram 21% das mulheres como sendo vítimas de violação, em que o agressor era em 86% dos casos o namorado ou um conhecido.
Costa e Alves (1999), citados por Pereira, Matos & Machado (2006), estimam que em Portugal entre cinco e quinze mulheres, uma seja violada. Uma em cada seis é violada por dois ou mais indivíduos, acontecendo em qualquer idade, estado civil, raça ou estrato social. Só um 1/5 destas agressões são participadas às autoridades policiais. As autoras afirmam que os efeitos psicológicos da violação se reúnem à volta da sintomatologia depressiva e ansiosa, tais como: depressão, baixa auto-estima, baixo auto-conceito, aumento de sentimentos negativos sobre si, sentimentos de perda de poder e de impotência, auto-culpabilização, perda de interesse sexual e ideação suicida. Segundo Bergen (1996) citado neste estudo de Pereira, Matos & Machado (2006) as estratégias de coping que as mulheres vítimas de violação conjugal utilizam podem ser divididas em dois grupos:
▪ Estratégias protectoras – antes e durante o episódio.
▪ Estratégias de sobrevivência emocional – na fase pós violação.
Alguns exemplos do 1º caso, e antes do acto, são a resistência física, deitar-se depois do marido adormecer, submeter-se ao marido, distanciar-se de familiares e amigos que o marido desaprova, manter a casa limpa e os filhos sossegados, entre outras.
Durante a violação tenta focar o pensamento em momentos felizes do casal ou repete uma determinada frase como forma de se distrair.
Ainda dentro das estratégias protectoras ela tenta minimizar o dano após o início da violência, apaziguando sexualmente o companheiro, fingindo o orgasmo e praticando sexo anal ou oral.
Alguns exemplos das estratégias de sobrevivência emocional têm a ver com a necessidade de cuidar da sua higiene pessoal para se sentir limpa, esquecer o incidente e auto-responsabilizar-se como forma de ter algum controlo.
Referimos algumas afirmações que as participantes do estudo de Pereira, Matos & Machado (2006) fizeram:
▪ Os maridos mantinham relações extraconjugais, com todas as repercussões psicológicas e físicas que lhe estão implícitas, como por exemplo a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis, até porque se recusam a usar preservativo.
▪ Referiam a ineficácia das estratégias [coping] de evitamento que utilizavam.
▪ Episódios sádicos durante horas, em que eram torturadas, brutalizadas e violadas repetidamente.
Maria Paula Pelúcia Canelas 42 ▪ Os filhos ouviam ou presenciavam as violações de que as mães são alvo, com as repercussões inerentes ao presente e ao futuro daquelas crianças.
▪ A maioria atribuía uma gravidade equitativa aos três tipos de violência de que eram alvo: física, psicológica e sexual. As restantes faziam depender da frequência e do significado que atribuíam a cada um deles.
É de reforçar o apelo que as autoras fazem à continuidade da investigação portuguesa nesta área.