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Conforme descrito neste capítulo, a construção da metodologia de pesquisa aconteceu gradualmente na medida em que interpretava as informações colhidas. Em consonância com a metodologia de uma etnografia ao final da pesquisa tive em mãos uma quantidade enorme de informações coletadas ao longo de dois anos. Para tanto esse material foi cuidadosamente selecionado para a análise.

Os recursos utilizados para a análise das informações foram construídos com vistas a alcançar os objetivos da pesquisa. Nesse sentido, achei prudente dividir a análise em duas partes distribuídas nos capítulos III e IV da dissertação, que se fazem complementares para a (in)conclusão realizada no capítulo V.

5.1. Análise da Roda de Conversa

A análise da roda de conversa está inserida na primeira parte do estudo e foi inspirada na metodologia de Brandão (2003). Conforme sugere o autor, classifiquei os sujeitos de pesquisa e categorizei as falas formando um quadro onde ficam claros tanto o discurso coletivo dos sujeitos frente às categorias quanto o discurso individual sobre os assuntos abordados.

Nesse caso, separei os sujeitos em quatro grupos de acordo com as características apresentadas durante o discurso.

G1 - Sujeitos que participam das Bicicletadas com frequência, alguns desde o surgimento outros mais recentes. Relatam com propriedade suas experiências no coletivo e demonstram conhecer a história e os enredamentos deste pelo mundo.

G2 - Sujeitos que participam esporadicamente das Bicicletadas e que a conhece a pouco tempo.

G3 - Sujeitos que nunca participaram das Bicicletada e não fazem parte de nenhum grupo de bicicleta, entretanto, de acordo com o discurso participam de movimentos sociais.

G4 - Sujeitos que não participam das Bicicletadas, mas que são representantes de associações ou OnGs de bicicleta em suas cidades.

Em seguida, agrupei os relatos em oito categorias que emergiram ao longo das falas. Dessas oito, reagrupei em quatro, a fim de dar coerência aos discursos e facilitar a compreensão do todo. Abaixo, os significados de cada categoria e o que elas trazem: ORGANIZAÇÃO DOS GRUPOS - Abrange um pouco sobre o histórico dos grupos em suas cidades desde o surgimento até o desenvolvimento e a apropriação de princípios como a horizontalidade. Nesse sentido não há diferença nos discursos, em que os presentes parecem concordar e já terem se apropriado desse modelo descentralizado de organização, embora mais adiante algumas nuances são apontadas e posicionamentos sutis reveladores de processos de organização diferenciados. Outra questão relevante que apareceu na maioria das falas foi com relação a quantidade de pessoas participantes do movimento. Aqui há um contraste grande quanto ao que é muito ou pouco, ou o sucesso do grupo.

CARACTERIZAÇÃO – Uma tentativa de revelar identidades desses grupos. As Bicicletadas são definidas com uma diversidade enorme de elementos refletidos pelas experiências pessoais e relações no grupo. Aparecem com intensidade aspectos relacionados à formação pessoal, do coletivo e da sociedade.

DERIVAÇÃO - Conforme descrito em outros tópicos, o significado da Bicicletada para cada participante é subjetivo, conectado a valores culturais e existenciais. Nesta categoria observamos de fato as influências tanto no âmbito individual quanto coletivo. Ou seja, o potencial de influência e intervenção para a transformação social.

RAZÃO DE SER - Nesta categoria foi analisada a razão de ser das Bicicletadas, ou seja, o direito à cidade, a ruptura de paradigmas, conflitos com a sociedade, de modo que tais questões são determinantes para o conceito político desses grupos.

As quatro categorias são norteadoras da leitura sobre o movimento e reveladoras de como se constitui as identidades desses grupos nas cidades brasileiras de acordo com as situações relatadas. Dessa forma, obtive um quadro individual dos discursos de cada participante da roda bem como um texto coletivo sobre as categorias emergentes. Optei

por ocultar o quadro da análise, bem como assegurar o sigilo dos nomes dos participantes.

Embora categorizadas, as análises foram diluídas ao longo do texto na proposta de dialogar com os sujeitos de pesquisa e autores que utilizamos como fonte de aprofundamento teórico a fim de compreender o fenômeno das bicicletadas, o surgimento, as formas de organização, a visão de mundo dos participantes, as características e significados.

5.2. Análise do breve Estudo de Caso

A fim de compreender profundamente e de forma mais focada os processos de aprendizagem e autoaprendizado, debrucei sobre uma análise de um estudo de caso da Bicicletada de Brasília. Para isso pautei os estudos na interpretação das FALAS dos sujeitos, nas AÇÕES dos grupos e nos PRODUTOS gerados, coletadas nas observações participantes. Sabendo serem estes elementos que ora se complementam ora se opõem, estes nos permitiram compor e explicitar a dimensão singular e plural do coletivo.

A análise das falas deu-se no material coletado dos emails e rodas de conversas que antecederam as pedaladas do grupo. As falas são registros singulares que dialogam em contextos distintos, que contribuem para a validação da diversidade ideológica e social existente nos coletivos.

As ações foram compreendidas como as ações diretas de intervenção urbana, que aconteceram nos encontros mensais, ocupações de espaços públicos, pinturas na cena urbana e colocação de placas na cidade e saída nas ruas em pedalada.

Os produtos significaram as produções coletivas e individuais de materiais: panfletos, cartazes, fotografias, vídeos e pesquisas. Tais materiais nos proporcionaram subsídios para leituras gráficas e artísticas, bem como os processos de aproximação, empoderamento e expressão dos participantes.