La supresión de la colegiación obligatoria de los guías turísticos de las Illes Balears
IV. El empleo del decreto ley para suprimir la colegiación obligatoria de los guías turísticos
É indubitável que o espírito livre nietzschiano acolheu a loucura como um tipo muito peculiar de visão de mundo. Desse modo, a loucura se tornou uma transfiguração filosófica contra o princípio da “falsificação” [Fälschung] da vida451. O louco não é propriamente aquele que perdeu a razão e, sim, aquele que luta a sua maneira contra modelos racionais que falsificam o próprio homem e que o empurra para “saltos infelizes” [muthwilligen Sprüngen].452 Acreditou-se que a própria razão era
446 HL, p. 83.
447 HL, p. 112.
448 HL, p. 113.
449 FOUCAULT, M. O nascimento da clínica. Forense universitária. Tradução: MACHADO, R. Rio de
Janeiro: 2014, p.XV.
450 FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes. 2016, p. 70.
451 NIETZSCHE, F. Sämtliche Werke. KSA. Ed. G. Colli e M.Montinari. Berlim/Nova York/Munique: De
Gruyter, DTV. Vol.5 p. 41. Ver também Além do bem e do mal. tradução: SOUZA, P.C. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.31.
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o instrumento que tornava o homem um animal clarividente, livre e leve, mas foi preciso uma espécie de contra-razão que lançasse luz sobre o homem aprisionado nas teias do mundo artificial da ciência. De um lado, o socratismo que refinou sua ciência, que se postou como “dialético superior”453 contra o homem dos instintos e o condenou ao erro e a irracionalidade e, de outro, a razão cartesiana e seu dualismo que sempre viu nas oposições um quadro de sua própria sanidade. Muito mais tarde, nada será mais conhecido na história da loucura do que um modelo de razão que cria muros contra o “mesquinho mundo”.454
Desde o Nascimento da tragédia (1872), Nietzsche já havia suscitado uma provocação: “uma pergunta para alienistas”, afinal, de onde brotam tantas “neuroses da sanidade”?455 Em oposição a esse modelo de cura do louco, o estado dionisíaco era para Nietzsche o estado da loucura, entendido como uma arrebatadora clarividência. E justamente é a loucura que indica o grau - saudável ou doentio - que um povo, uma época, uma cultura tem com a sua própria sensibilidade, dor e realidade. No caso dos gregos, essa relação sempre foi elogiosa para Nietzsche. A tragédia grega era verdadeiramente o resultado dessa relação com o duplo jogo entre a “beleza” e a “melancolia”, da “saúde transbordante” e a “oração fúnebre”.456 Os gregos escolheram o caminho da “síntese de deus e bode no sátiro”.457 Com efeito, a alma grega floresceu, adquiriu “juventude” em suas “visões”, “arrebatamentos endêmicos, alucinações”, onde o próprio trágico não se rendeu ao “pessimismo”. 458
A questão central para Nietzsche é perceber por que o tema da loucura se tornou mais científico e otimista e, ao mesmo tempo, superficial e teatral? Segundo Nietzsche, ocorreu uma logicização da loucura e, com isso, ela se transformou em culto das “ideias modernas”, numa força delirante e declinante.459 O alienista, com efeito, foi justamente a figura do delírio otimista da razão, da moral, da política. Não é, pois, o alienista (como desdobramento da moral do sacerdote) que anuncia a cura de nossos sintomas de animal sofredor? Podemos assim destacar no último aforismo de O
andarilho e sua sombra que Nietzsche refletiu sobre essas relações entre humanidade
453 Idem, p.91
454 Idem, p. 10.
455 NIETZSCHE, F. Nascimento da tragédia. Tradução: SOUZA; P.C.; S. Paulo: Companhia das Letras,
4, p.17.
456 Idem
457 Idem
458 Idem
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e animalidade por intermédio da loucura, do delírio. Nessa reflexão se constata que toda moralidade foi também um sistema pedagógico que empreendeu esforços para ensinar os homens a desaprender a ser um animal. Mas essa aprendizagem não se fez sem “cadeias”. Se os projetos morais, pedagógicos e civilizatórios sempre se propuseram a transformar o homem em animal “mais brando, mais espirituoso, mais alegre” foi por que uma questão sempre rondou esses projetos, a saber: do homem como animal que sofre? Nietzsche reconhece que a separação do homem do mundo animal é um grande mérito cultural, mas a questão fundamental é saber se as “concepções morais, religiosas, metafísicas” não induziram o homem ao erro, se não são esses sistemas que formam essas sufocantes cadeias, se não são elas mesmas que criam a imagem do animal enfermo que habita no homem.460
Com isso, um quadro de indagações aparece nesse horizonte. Que tipo de animal é o homem? Como se deve educá-lo? Estas questões adquirem múltiplos significados nos escritos de Nietzsche. As respostas a estas indagações aparecem num contexto social e cultural bastante definido, ou seja, o filósofo alemão não ignorou que as “metáforas da saúde e da doença” eram vivenciadas como um conflito entre as “esperanças e temores que assombravam a Europa do fim do século XIX”.461
Outro aspecto a ser destacado são as famosas cadernetas de Nietzsche - que ele usava para anotar pensamentos com o intuito de depois voltar a eles e lapidá-los - estão povoadas de metáforas do mundo vegetal, animal e de objetos aparentemente insignificantes, mas que ao serem inseridos no redemoinho das suas reflexões filosóficas adquirem uma profunda riqueza de significados visuais, sonoros, semânticos e conceituais. Paolo D‟Iorio, por exemplo, descreveu com imensa beleza o significado do badalar dos sinos nos escritos nietzschianos e todos os desdobramentos biográficos, literários e filosóficos. Os sinos são as vozes da infância perdida: é a memória sonora do enterro do pai do filósofo, são as vozes dos mortos, uma voz melancólica; como pode ser também a voz pavorosa do pessimismo, o anúncio de um tempo e de um “vento arrepiante”, das imagens simbólicas do “niilismo e do cristianismo”.462
460 NIETZSCHE, F. Sämtliche Werke. KSA. Ed. G. Colli e M.Montinari. Berlim/Nova York/Munique: De
Gruyter, DTV. Vol.2 p.
461 FIGL, J. Nietzsche und die Religionen. Berlin: Gruyter, 2007.
462 D‟ORIO, P. Nietzsche na Itália. A viagem que mudou os rumos da filosofia. Rio de Janeiro: Zahar,
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Pode-se dizer ainda que apesar de sua “teoria antidarwinista” e de sua constante preocupação com a “decadência da civilização ocidental”, como bem observa Moore, Nietzsche não foi imune ao biologismo do século XIX e XX. Logo, a mesma pergunta sofre uma metamorfose: que tipo de educação o homem deve receber ou evitar para se tornar um animal doente ou sadio? Esta predileção nietzschiana para uma “retórica da saúde e da doença” está relacionada não apenas ao fato de que as “crises médicas” do filósofo deixaram marcas indeléveis em seu pensamento, mas, sobretudo, pelo fato de que seu pensamento percebeu agudamente em sua época “uma cultura cada vez mais medicalizada e que era obcecada em definir e vigiar as fronteiras entre o normal e o patológico”.463