De acordo com as teorias de Sen (2000) e Mayoux (1999), a melhoria do bem- estar feminino está diretamente relacionada possibilidade de auferição de renda. Como destacado nos tópicos anteriores, a administração da própria renda proporcionou às tomadoras de empréstimo do ELAS a possibilidade de tomar decisões relativas ao seu consumo pessoal e familiar, impactando positivamente em sua autoestima. O reflexo positivo do reconhecimento que recebem pelos membros de sua família e conhecidos se constitui como o principal elemento de seu bem-estar, uma vez que, para elas, o bem- estar de seus filhos e maridos é mais importante que o próprio.
O desenvolvimento de um empreendimento que possibilite que elas estejam mais próximas de sua casa e sua família, também foram elementos já destacados na melhoria de seu bem-estar.
Neste momento, é necessário recordar o perfil das mulheres entrevistadas. São mulheres com situação socioeconômica bastante delicada, com baixa escolaridade e distantes da estrutura de oferecimento de serviços públicos de qualidade de Fortaleza (CE), por conta de sua residência ser na periferia.
Segundo Rego & Pinzani (2014), o estado de pobreza dos indivíduos não se mediria apenas por sua baixa renda; haveriam elementos de ordem qualitativa que influenciariam o desenvolvimento humano e reforçariam outros indivíduos nesta condição, mesmo que sua renda estivesse um pouco acima do limite de renda previamente considerado como estado de pobreza. O exemplo fornecido pelos autores seria o de um indivíduo com renda superior aos seus vizinhos, mas morador de uma região em que doenças causadas por vermes tenham alta incidência. Este indivíduo pode ter problemas de subnutrição, mesmo com capacidade de adquirir alimentos, por conta do quadro de doenças que assola sua região, impossibilitando a este que saia da condição de pobreza.
Os autores elencam elementos para definição do estado de pobreza em que milhões de brasileiros estariam inseridos90. Neste estudo de caso, alguns desses elementos foram discutidos, como a falta de crédito. Outro elemento de difícil medição, mas necessário a esta discussão por conta de sua grande influência no bem-estar das mulheres do projeto ELAS foi o que os autores definiram como “Invisibilidade e mudez”.
90 Falta de condições para uma vida saudável; acesso nulo ou irregular à renda derivante de um trabalho
regular; trabalho infantil e abandono do lar; alta natalidade; acidentes; falta de crédito; invisibilidade e mudez; desigualdade interna às famílias; vergonha; cultura da resignação e exclusão da cidadania.
114 Os pobres geralmente teriam uma existência segregada, vivendo em bairros longínquos e separados (favelas, morros etc), convivendo com infraestrutura precária de serviços públicos (ausência de esgoto, ausência de espaços de lazer etc) em trabalhos desqualificados tanto social quanto economicamente. Este isolamento dificultaria a troca comunicativa entre os indivíduos, isolando-os ainda mais dos outros indivíduos, tornando-os praticamente mudos, com dificuldade de conexão até mesmo com seus iguais, sem muita capacidade de falar sobre suas dificuldades e suas dores (REGO & PINZANI, 2014).
As entrevistadas do projeto ELAS descreveram este fenômeno em suas trajetórias, quase que de forma unânime. As dificuldades relativas à sua comunicação foram colocadas como um dos principais problemas em suas vidas. Por conta da vergonha que sentiam em não se comunicar de forma apropriada, muitas optaram pelo isolamento durante anos de suas vidas.
Embora parte das entrevistadas afirmassem que o recebimento do empréstimo atuou positivamente no sentido de incentivá-las a se comunicar para desenvolver seu pequeno empreendimento, aquelas que participaram nos cursos profissionalizantes oferecidos pelo projeto ELAS afirmaram que esta participação teria tido um impacto bastante significativo em sua autoestima.
As entrevistadas que ainda não conseguiram acessar o empréstimo ou as que fizeram empréstimos para consumo mas participaram dos cursos profissionalizantes, também relataram melhoria de seu bem-estar pessoal, mesmo sem modificação aparente dentro do ambiente doméstico,provavelmente por não terem alcançado o seu empoderamento econômico e consequente auxílio ao consumo da família.
A participação nos cursos profissionalizantes foi tida como “muito importante”, “divertida” e “relaxante”. Para as entrevistadas, a procura inicial por um espaço que as capacitasse profissionalmente, foi complementada por um espaço em que era possível falar sobre suas trajetórias, seus problemas familiares e suas angústias. O instrumento da fala, até então pouco utilizado por elas, começou a ser desenvolvido. A consequência disto para sua autoestima e sua sensação de bem-estar foi descrita como significativa:
“Eu me interessei pelo Banco Palmas por conta dos cursos de cozinha
e corte e costura. Eu pesava 90 quilos quando comecei nos cursos. Aí fui percebendo melhor quem eu era, percebi que gostava de falar com as pessoas... aí eu comecei a caminhar, me interessar por outros projetos e hoje já estou com 70 quilos! Também botei meu marido pra cozinhar, pra me ajudar, não é. E hoje ele já faz outras tarefas
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domésticas que é pra eu dar conta do meu trabalho” (Entrevistada 3,
30 anos).
“Eu acho que as mulheres são pouco articuladas porque ficam muito
em casa. Mas o Palmas estimula nossa participação. Se você tiver interesse aqui você vai, entendeu? Fazer parte do ELAS te tira de dentro de casa. Põe a gente pra falar com a outra. Por que você vai ficar passando e lavando pra homem?! Tem que viver a vida dela! Nunca pensei que eu ia conhecer praia, conhecer museu. E eu conheci. Agora eu quero é fazer faculdade, mas tenho que aprender redação. Sempre quis estudar, mas na época era muito difícil pra minha mãe.
Mas um dia eu vou fazer, sim. Eu quero ser advogada” (Entrevistada
7, 52 anos).
“Primeiro eu queria o crédito. Aí perguntaram por que que eu não fazia
um curso. Falei vou fazer. Quando comecei percebi que deixei muito tempo passar sem eu aproveitar. O comodismo me deixou parada em casa vendo novela. Acho que a gente só começa a viver depois dos 40 anos, viu. Que é quando a gente aproveita mais o que o mundo tem pra
oferecer” (Entrevistada 19, 50 anos).
“Foi bom participar. As meninas eram muito legais. Eu era feliz no
curso. Energia boa. Hoje eu me valorizo mais, tenho mais orgulho de mim mesma. Antes eu ficava muito triste, quase tive depressão. Aí com as vendas e com o curso que fiz isso passou. Melhor coisa que fizeram
no Conjunto Palmeiras até hoje” (Entrevistada 14, 48 anos).
“Me sinto bem. Melhorei e muito porque agora consigo falar com os outros. Me entrosar, sabe? Melhorei foi muito” (Entrevistada 18, 28
anos).
“A gente fica com mais conhecimento, conhece mais pessoas, fala com
elas. Abre mais os olhos diante da pessoa. Melhora alguma coisa, é claro. Melhor do que viver em casa trancada. Vai ficar sem atividade nenhuma?!” (Entrevistada 20, 30 anos).
“É uma terapia. Me divirto. A gente ri, conhece a vida da outra,
aprende. No fim de semana sinto falta da convivência. Virou quase uma
família. Eu fico mais calma depois de passar por aqui” (Entrevistada
116 Pode-se perceber, portanto, que o processo de empoderamento econômico e a melhoria do bem-estar pessoal e familiar de muitas mulheres foram alcançadas por meio do projeto ELAS.
A complementaridade da participação em cursos profissionalizantes foi crucial, uma vez que as mulheres pesquisadas apresentavam dificuldade em sua comunicação. A percepção de problemas e realidades em comum enturmou as participantes de forma a estimular seu entrosamento e permitir algo que até então era distante de sua realidade: a possibilidade de interagir com outras pessoas de fora do círculo familiar, exercitando sua capacidade de fala.
A seguir, será discutida a última “espiral virtuosa” do modelo de Mayoux (1999): o empoderamento social e político e suas implicações para o processo de empoderamento, como um todo.