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5. Analyseredskap, vitenskapelige krav og forskningsetiske dilemmaer

5.1 Analyseredskap – en konstruert, treleddet analyse

5.1.2 Den empirinære analysen

A nossa pesquisa é fruto de um longo processo que envolveu motivações, temporalidades e sujeitos diversos. Iniciou-se em 2010 quando nos aproximamos da problemática dos agrotóxicos junto aos movimentos sociais da região, motivada pela pedagogia do território, interconectada com o desejo de estudar e com a oportunidade de participar de um grupo de pesquisa.

A participação nas atividades de campo do Núcleo Tramas nos levou a adentrar no cotidiano das famílias camponesas, por meio de um relacionamento próximo e comprometido com o território. Este contato permitiu e possibilitou a troca de experiências e saberes, fortalecendo a ideia que comungamos com Santos (2008) de que estaríamos diante de dois sujeitos e não entre um sujeito e um objeto. Ambos sujeitos de conhecimentos e abertos para aprender.

Desse modo, na tentativa de articular as questões globais e as locais - que afetam as condições de vida das mulheres- bem como levando em conta os processos históricos que engendraram as formas de resistência camponesa e que são mediados pelos conflitos oriundos da modernização agrícola, definimos os procedimentos metodológicos qualitativos, divididos em seis fases: participação em atividades no território, debates nos núcleos de pesquisa

(Núcleo Tramas e GPM21), estudo bibliográfico, levantamento documental, trabalho de campo e sistematização dos dados.

As etapas percorridas no decorrer da pesquisa não foram de forma linear: foram desencadeadas em função da necessidade de darmos conta dos objetivos a que nos propusemos. Assim, ora recorríamos aos livros para aprofundamento de temas, de dúvidas e ideias que contribuíssem para nos conduzir ao caminho de um rigor acadêmico; ora atuávamos no campo, quando as questões surgiam. Por vezes, esses movimentos se entrecruzavam. Do mesmo modo, as vivências dessa interelação nos impulsionavam a querer saber sempre mais e mergulhar em novas e pulsantes questões, que provinham do território e das falas das mulheres.

De toda forma, organizamos esse nosso percurso por meio de um exercício de sistematização dos passos dados, tal como um trabalhador que, em sua labuta cotidiana de lavrar a terra, vai aprimorando suas experiências mediante sua relação com a produção. Com ele comungamos e socializamos a experiência de ‘lavrar palavras’; passos que demos nessa trajetória de fazer pesquisa engajada.

4.3.1 PREPARANDO A TERRA: Os estudos entre as idas e vindas do campo

Desde que entramos no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal do Ceará - PRODEMA, os trabalhos nas disciplinas e as leituras desenvolvidas aconteceram com o intuito de tecer nossa construção teórico/metodológica para realização da pesquisa.

Na pesquisa bibliográfica foi realizada uma revisão de literatura que embasou nossos estudos em torno das discursões sobre conflito ambiental, território, gênero e feminismo, modernização agrícola conservadora.

Para tanto, os seguintes autores e autoras foram fundamentais para o aprofundamento da parte metodológica de nossa pesquisa: ALBERTI, 1989, 2005. BANDEIRA, 2008 BARROS, 2002. DEBERT, 2001 MINAYO, 1993, 1994 NARVAZ, M. G. & KOLLER, 2006. SANTOS, 2001, 2012. SARDENBERG, 2002. THIOLLENT, 1986. THOMPSON, 2002.

No que se refere a categoria trabalho, nos ancoramos nos estudos de ALVES, 2007. ANTUNES, MARX, 1972, 2004. MESZÁRÓS, 2002. THOMAZ JUNIOR, 2009.

A parte de feminismo e gênero foi embasada pelas contribuições de CAMPOS, 2009. CARRASCO, 2003. COSTA, 1998 DEERE, 2004, ENGELS, 2002. HARDING, 1996. LOBO, 1991. LOURO, 1995. HIRATA, 2001. IASI, 1991. NOBRE, 1999. PACHECO, 1996. SAFIOTTI, 1976, 2001 SCOTT, 1995. SILIPRANDI, 2009.

Em relação ao tema do território e modernização agrícola nos fundamentamos nas contribuições dos autores descritos a seguir, dentre tantos outros que subsidiaram e ampliaram nossa investigação. COSTA, 2006. CORRÊA, 2002. FREITAS, 2010 HAESBAERT, 2002, 2006, 2007. HARVEY, 2004, 2008. PESSOA, 2010. SILVA, 2006. SOARES, 1999.

Para a questão ambiental foi fundamental as contribuições de BOFF, 2000. ACSELRAD, H. 2004, 2005, 2009, 2010. HERCULANO & PACHECO, 2006. PORTO, 2007. RIGOTTO, 2008, 2011. TEIXEIRA, 2010.

Para os estudos sobre o campesinato e agricultura realizamos leituras de BOMBARDI, 2003. Carvalho, 2004; CHAYANOV, 1974, 1981. COSTA NETO, 2007. DINIZ, 2009. FABRINI, 2010. FERNANDES, 2001, 2003, 2008. GUZMÁN; S.; MOLINA, 2005. MARQUES, 1994. MARTINS, 1986. SHANIN, 2008. OLIVEIRA, 2007, 2008. WANDERLEY, 2009. MST, 2000, 2006. Dentre tantos outros que contribuíram para subsidiar e ampliar a nossa pesquisa.

Na etapa de levantamento bibliográfico foi realizada uma busca por registros documentais, dissertações, teses, artigos de revistas que publicizaram problematizações relevantes para o objetivo da pesquisa, que tinha como eixo mulheres camponesas, trabalho e ambiente. Para tanto, foram consultados os acervos da Biblioteca da UFC, NEAD, Núcleo Tramas, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), IPECE, ADECE, ABRASCO, Bancos de Teses e Dissertações, dentre outras.

4.3.2 ABRINDO OS SULCOS DA TERRA: A Arte de Semear Processos

Por diversas vezes fomos a campo no intuito de articularmos e dialogamos com sujeitos do território sobre a intenção da pesquisa, bem como firmarmos compromissos com a mesma. Então, a seguir registramos alguns momentos que foram importantíssimos para debatermos acerca do desenho da pesquisa.

O primeiro deles se deu durante o acompanhamento da greve dos trabalhadores e das trabalhadoras da Empresa Delmont onde pudemos perceber as péssimas condições de trabalho, as ameaças, e a vulnerabilização em que vivem cotidianamente no ambiente de trabalho. O contato para a realização da pesquisa se deu com algumas das mulheres que aderiram e estavam no comando das negociações da greve.

Dessa maneira, foram 11 dias de convivência com os e as grevistas nos quais pudemos escutar relatos das condições de trabalho e acompanhar todo o processo de negociação com a empresa. Isso com um olhar voltado especialmente às mulheres e sua inserção nas negociações, debates nos meios de comunicação, além da observação das pressões para o retorno ao trabalho, sobretudo por parte da família.

Também tivemos contato com as mulheres de Potiretama no intercâmbio que o Núcleo Tramas proporcionou de experiência com comunidades em transição agroecológica. Durante dois dias conhecemos as experiências de duas comunidades: a Comunidade de Catingueirinha – acompanhada pela Cáritas – e que tem um trabalho com quintais produtivos, cisterna calçadão e casa de sementes, envolvendo 30 famílias da Comunidade que participam também da feira de agricultura familiar e economia solidária no Município de Potiretama.

Também conhecemos o Assentamento Oziel Alves pertencente ao Movimento Sem Terra (MST). O Assentamento se autodenomina ‘Comunidade

de Resistência’, no qual, em uma área de 1.200 ha de terra as famílias optaram

pela coletivização dos bens naturais: terra, água, e a vivência coletiva em Comunidade.

O terceiro momento de aproximação com o território se deu em Janeiro de 2013 durante a visita do Núcleo Tramas para realizar o inventário dos

casos de câncer em Comunidades da Chapada. Respondendo à solicitação de agentes de pastorais da igreja, fomos a campo para realizar entrevistas com moradores e moradoras, no intuito de fazer uma avaliação preliminar de casos de câncer e da história ocupacional e ambiental desses e dessas moradoras, além do objetivo de detalhar a caracterização da doença e a exposição a agrotóxicos e outros cancerígenos, levando em consideração os locais de moradia e de trabalho ao longo de toda a vida dos sujeitos envolvidos na pesquisa para uma posterior avaliação da percepção de risco. Estivemos na Comunidade de Lagoinha contribuindo nesse processo. Fomos também com o objetivo de conhecer a realidade da Comunidade e para promover uma aproximação com as mulheres prostitutas.

No ‘Encontro de Formação de Novas Lideranças da Chapada do

Apodi’ organizado e coordenado pela Cáritas de Limoeiro do Norte, tivemos um

espaço de discussão em que o grupo foi convidado a identificar mulheres nas comunidades que pudessem contribuir na pesquisa. Já nesse primeiro contato, explicitamos os nossos objetivos em relação ao problema de estudo e enfatizamos a relevância da participação das mulheres como sujeitos construtoras desse conhecimento coletivo e como forma de valorizar e reconhecer os saberes sobre o território. Foi nesse momento que houve a adesão para a participação na pesquisa de algumas mulheres, bem como a sugestão de nomes de outras mulheres.

Essas visitas exploratórias no território ocorreram no intuito de construir - por meio do diálogo com movimentos sociais, pastorais sociais e mulheres - nossa interação e aproximação com o território além da constituição do grupo de pesquisa e a construção da nossa proposta de pesquisa, tendo em vista que nossa abordagem é centrada nas práticas e vivências das mulheres no seu cotidiano.

Todo esse processo foi sendo mediado com as contribuições no Grupo de Pesquisa do M21 - o GPM21 - e nas reuniões de orientação do Núcleo Tramas, os quais foram espaços de socialização e diálogo sistemático sobre as vivências da pesquisa, bem como de acolhida às contribuições do coletivo na ampliação e aprofundamento das questões sobre o problema de pesquisa.

4.3.3 ÉPOCA DE PLANTAR, OBSERVAR E CUIDAR: definindo passos, reavaliando escolhas e recriando caminhos

As adesões foram a porta de entrada para que pudéssemos conversar com algumas mulheres e convidá-las a nos indicarem outras mulheres que consideravam importantes irmos lá, conhecer e convidá-las para participarem da pesquisa. Nossa primeira tarefa foi dialogar com mulheres que já conhecíamos com vistas à indicação de nomes de mulheres para participarem da pesquisa. Tendo a clareza dos critérios que construímos, fomos visitando e conhecendo àquelas que se engajariam na pesquisa. O critério estabelecido foi a variedade de trabalho que desenvolviam e sua relação com a terra.

Tivemos a colaboração de duas mulheres para realizar as visitas e os convites nas casas das mulheres e, à medida que elas iam participando e escutando a proposta, foram se envolvendo na pesquisa.

Quando fazíamos a nossa apresentação como participante do Núcleo Tramas, dos objetivos da Pesquisa e a tarefa de concluir o curso com a apresentação de um trabalho final, fomos indicando sobre nossa opção de não escrever sozinha, de não realizar um estudo a portas fechadas. Mas de fazer um exercício diferente em que o trabalho fosse construído a muitas mãos, que tivesse sentido para falarmos e publicizarmos sobre os conhecimentos das mulheres. Por isso nossa escolha em convidá-las a construirmos um espaço de diálogo, de conversa, de reflexão que expressasse nesse trabalho o que pensam, como vivem e como dialogam as mulheres sobre temas significativos e que considerassem relevantes para suas vidas no contexto atual.

Apresentamos também nossa motivação em trabalhar com e sobre o tema das mulheres trazendo a tona nossa vivência de que durante um bom tempo, realizamos trabalhos de formação com as mulheres, de motivação para participação em espaços políticos, de realização de estudos e ações com mulheres em movimentos sociais.

Falamos da escolha do território da Chapada do Apodi porque conhecemos alguns estudos sobre a região e não encontramos pesquisas especialmente sobre as mulheres. Citamos os trabalhos de pesquisa do Núcleo Tramas que até então mulheres haviam participado falando de temas gerais como a água, a saúde, etc. Mas não sobre elas mesmas, como mulheres. 108

Lembramo-nos da Pesquisa Agrotóxicos em que foram feitos exames de 540 trabalhadores e nenhum deles eram mulheres. E organizamos a pergunta de partida da nossa pesquisa nos questionando sobre o que pensam as mulheres sobre a Chapada, sobre o seu trabalho, sobre a realidade social em que vivem.

Assim, com cada uma delas, partilhamos nosso desejo de fazer um estudo que falasse sobre o trabalho das mulheres na Chapada, partindo de uma metodologia de olharmos para a história de vida, a partir do relato do que já vivenciou e vivencia tendo como eixo central o tema do trabalho. Combinamos que a princípio não teríamos perguntas fechadas mas que a fala de cada uma seria sobre as vivências e experiências do trabalho a partir da sua história de vida.

Todas as mulheres que visitamos concordaram em fazer parte do diálogo e da troca de experiência. O grupo que selecionamos poderia ter sido bem maior – visto que as mulheres foram indicando outras mulheres para conhecermos seus trabalhos (especialmente no artesanato) - mas optamos pelo número de 11 mulheres que estavam em diversos espaços (empresas, espaço doméstico, agricultura, igreja, perímetro, escola) e realizavam diferentes tipos de trabalho, seguindo o critério de ligação com a agricultura, espaços de atuação e variedade de trabalho.

Um passo importante de reorganização foi dado quando nos deparamos com a dinâmica do território a partir das idas à campo. A variedade de trabalho e o tempo de vivência no cotidiano das mulheres, a densidade de temas e profundidade das entrevistas, as distâncias das comunidades e moradias, e o contexto que se inseriam. Além dos temas que nos propusemos inicialmente, teríamos que aprofundar as questões ligadas à agroecologia, reforma agrária e todo o debate sobre prostituição, mercantilização do corpo, etc.

Nossa angústia era em relação ao tempo da pesquisa, ao acúmulo teórico das problemáticas, e pensar que instrumentos iríamos adquirir para analisar com profundidade as questões que as mulheres levantavam. Isso porque no primeiro momento tínhamos no nosso horizonte envolver mais dois grupos de mulheres: as prostitutas dos bares da Comunidade de Lagoinha em Quixeré e mulheres com experiência em agroecologia de uma comunidade

camponesa e um assentamento de Reforma Agrária ambas no município de Potiretama.

Mas ao longo das idas a campo para a Chapada e da profundidade das entrevistas, vimos o quanto nosso universo estava ampliado e em diálogo e combinação nas reuniões de orientação definimos por diminuir o número de Comunidades e segmentos de mulheres e mediante a necessidade de diversidade de olhares das mulheres da Chapada, acrescentamos uma mulher jovem ao grupo de pesquisa.

De todo o exposto, são 04 Comunidades envolvidas na pesquisa: Tomé, Ipú/Maracajá, Carnaúbas, Macacos pertencentes à dois municípios do Vale Jaguaribe: Quixeré e Limoeiro do Norte. Três fatores nos levaram a escolha dessas comunidades, dentre as 07 Comunidades da Chapada que participaram do processo de formação da Cáritas. O primeiro diz respeito ao fato de que algumas mulheres protagonizaram sua inserção na pesquisa; o segundo porque nesse encontro de formação foram indicadas mulheres e por ultimo a indicação de que deveria ter também na pesquisa, mulheres da comunidade que tem a presença da usina de reciclagem de materiais tóxicos. O que mediou a escolha não foi propriamente o lugar de moradia, mas os diferentes tipos de trabalho desenvolvidos pelas mulheres.

Escolhemos para a pesquisa diferentes sujeitos que contemplem a diversidade dessas mulheres. A escolha se deu por elos significativos em relação às diferentes formas de trabalho: a) Mulheres empregadas nas empresas do agronegócio; b) Pequenas produtoras; c) Mulheres de trabalhadores de empresas; d) Trabalhadoras da usina de reciclagem de produtos tóxicos; e) Pequenas produtoras irrigantes; f) Donas de casa; g) Sócias da Associação Comunitária; h) jovens estudantes; i) Artesãs; j) Agentes de Saúde. Conforme o desenho a seguir:

Figura 8. Mandala de Mulheres envolvidas na Pesquisa9

A escolha por essa diversidade é para mostrar que não existe de forma homogênea a mulher camponesa, mas as mulheres com suas diversidades e multiplicidades de identidades sociais, suas diferentes formas de serem sujeitos políticos e suas diferentes identidades culturais, de trabalho e de relação com o ambiente. Essas mulheres têm em comum o trabalho ligado à agricultura; vivem no campo e vêem de lugares diferenciados a relação de conflito com o agronegócio em seus territórios. Nosso objetivo não é aprofundar cada segmento, mas o que nos une na nossa pesquisa: os diferentes olhares e experiências sobre o trabalho, o ambiente e seus conflitos a partir do processo de modernização da agricultura em curso no território.

9

Escolhemos a Mandala como significado de círculo, ou "aquilo que circunda um centro", inspirada nos círculos de cultura do Paulo Freire, mas também por outros significados, como espaço de integração, elo de encontros com histórias, memórias, sentidos, fazeres, como espaço de criação e recriação dos sentidos sobre o trabalho e o ambiente a partir dos olhares das mulheres.

Modernização Trabalho Ambiente Empregada da Usina de Reciclagem Empregadas do Agronegócio Jovem estudante Agricultoras de sequeiro Artesã Dona de Casa Sócia da Associação Comunitária Pequena Produtora Irrigante Integrada Mulher de Trabalhador Agente de Saúde 111

4.3.4 O PROCESSO DE COLHEITA: colhendo e acolhendo as histórias

Nossa inserção no campo e as vivências da pesquisa ocorreram durante os meses de outubro, novembro e dezembro de (2013) e fevereiro de (2014), totalizando sete visitas de campo de duração média de uma semana cada. Foi um intenso período de convivência, no qual optamos por morar na Comunidade do Tomé, onde fomos acolhidas por uma das famílias.

Figura 9. Fotos da Pesquisa de Campo – Colaboração Socorro Oliveira

Após as visitas em cada casa, explicando os objetivos e fazendo o convite para a participação na nossa pesquisa, realizamos a aplicação de questionário para colhermos informações sobre cada mulher com vistas a conhecer melhor o perfil delas.

O questionário foi fundamental para a obtenção dos dados quantitativos que compõem a pesquisa, bem como possibilitou reflexões de caráter qualitativo acerca das condições sociais e econômicas das mulheres.

Outro passo importante que demos foram as visitas aos locais de 112

moradia e de trabalho das mulheres. Utilizando como transporte a bicicleta, percorremos as três comunidades para realizar visitas ora eram visitas informais para convivência, ora agendadas com as mulheres para realização das entrevistas, ora quando éramos convidadas para participar de alguma atividade social e religiosa na família ou na comunidade.

As entrevistas individuais com as mulheres foram feitas com o agendamento prévio para esse fim. Consideramos muito importante a combinação que fizemos de respeitar os tempos em que elas estivessem livres para que esse momento se realizasse com a maior tranquilidade possível do tempo necessário para a conversa que poderia se prolongar. Nesse sentido, pedimos que elas mesmas definissem o dia e o melhor horário e nós nos adequamos à agenda delas.

Optamos então em realizar duas entrevistas a cada visita ao campo, assim teríamos tempo não só para o momento das entrevistas, mas também para a observação participante, de acompanhar, e na conversa informal, pudemos experimentar novas questões, tirar dúvidas, entender melhor o contexto das falas no seu cotidiano.

Nossos encontros foram seguidos de um engajamento em tarefas necessárias para um tempo de informalidade, de troca de informações e de espaços de fortalecimento da confiança mútua, em que pudemos nos conhecer mais, para falarmos o mais naturalmente possível durante as entrevistas com o gravador ligado ou para o momento das fotografias.

Nos momentos das entrevistas, abrimos espaço para a memória, para as emoções, para expressão das angústias e também das alegrias. Assim, tendo o trabalho como eixo, como ponto de partida e de chegada, através da memória a história foi recriada pelas mulheres que, inicialmente, tinham dificuldade de falar, mas, à medida que iam reconstruindo sua história, valorizavam a oportunidade de parar e refletir sobre o vivido.

A realização de entrevistas individuais para a construção das histórias de vida teve duas questões como ponto de partida: as vivências e os significados do trabalho e do modo de vida camponês e as transformações do território com a chegada do agronegócio. A partir dos objetivos da pesquisa, organizamos questões que nos subsidiaram durante as entrevistas.

Para analisar as repercussões do processo de des-reterritorialização 113

empreendido pela modernização da agricultura sobre o ambiente e o trabalho, tínhamos como fio condutor desse momento as concepções e percepções das mulheres sobre o ambiente, sob alguns aspectos:

1. A partir de sua trajetória de vida como camponesa, sua condição como mulher trabalhadora; como vêem a vida no campo; a relação com o ambiente e seus conflitos: terra, água, etc. E como lidam com as novas situações sociais.

2. As repercussões das transformações e do conflito ambiental nos modos de viver e produzir entre mulheres camponesas com a chegada das empresas: transformações (econômicas, sociais, culturais e produtivas); interferências nos modos de vida das comunidades camponesas; implicações no trabalho das mulheres; formas de lutas e resistências.

3. Aspectos das trajetórias de trabalho das mulheres: acesso, condições, conquistas e dificuldades; sentidos do trabalho no agronegócio, na agricultura familiar, na agroecologia, na prostituição e no trabalho doméstico; discutir os sentidos e perspectivas do trabalho no campo para as mulheres camponesas. 4. Perspectiva de viver e produzir no campo.

Porém, no momento das entrevistas, após fazermos uma breve apresentação de quem somos, nossos objetivos com a pesquisa, etc., deixamos em aberto as escolhas do percurso vivido de como a temática do trabalho foi se