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Empirical studies of corruption and budget support

In document Corruption and aid modalities U4ISSUE (sider 15-20)

Encontrar fisicamente aquelas pessoas com quem vinha interagindo há alguns meses me exigiu aguçar os sentidos para compreender detalhes que não conseguia ter acesso por meio do contato visual. Nessas reuniões pude associar rostos, corpos, cheiros, estilos de vestir, as relações de proximidade e formas de expressão corporal, gestual e de fala.

As reuniões abertas para participação e o grupo virtual disponível a quem se interessasse possibilitou que um bom número de participantes transitasse entre as reuniões presenciais ou discussões virtuais. Não havia um critério seletivo para dizer quem fazia ou não parte do Coletivo. Assim, o grupo tinha um formato mutável semana após semana e as decisões eram tomadas entre os presentes naquele momento, não havendo necessidade de prestar contas ou esperar a decisão de outro alguém. Esse formato flexível parecia se adequar bem ao grupo, visto que seus compromissos paralelos, muitas vezes, os impossibilitaram de ir para as reuniões, mas não os afastava do Coletivo.

Dentre os participantes, alguns se ressaltam no contexto da pesquisa por seu envolvimento na articulação do Coletivo para sua continuidade e por suas histórias pessoais. São eles:

PEDRO: Homem cisgênero, gay, 19 anos, entrou no Castelo Branco no ano de

2016, após um período depressivo causado pela não aceitação da sua sexualidade e pelas situações vividas em sua escola anterior. Pedro, que hoje se considera um militante da causa LGBT+, teve uma forte ligação com a religião evangélica em sua infância e adolescência, fato que, para ele, dificultou seu processo de reconhecimento e ruptura com os padrões que havia construído. Ele é um dos fundadores do Coletivo e mesmo após a conclusão dos estudos ajudou a reorganizar as atividades em 2017. Em nosso primeiro encontro, Pedro aparece com uma longa saia preta e de batom escuro, mostrando que gosta de quebrar com os padrões de gênero, apesar do medo de ser agredido na rua, como relatou.

HENRIQUE: Homem cisgênero, se reconhece como bissexual não-praticante, 19

anos, entrou no Castelo Branco em 2015, quando estava repetindo o 1º Ano do Ensino Médio. Henrique sempre estudou em escolas particulares católicas cujo sistema de controle de sexualidade e gênero era mais marcante, por isso, conta ter ficado surpreso ao entrar na escola e perceber que naquele ambiente havia essas discusões. Henrique namorava Caio desde o começo do ano, por esse motivo acredita que, por diversas vezes, foi alvo de perseguição por parte da coordenação/direção da escola. No ano de 2017, Henrique, já no 3º ano do Ensino Médio, ficou responsável por articular a organização do Coletivo.

CAIO: Homem cisgênero, se reconhece como bissexual não-praticante, 18 anos,

entrou no Castelo Branco em 2015, ainda no 1º Ano. Caio mora com Henrique há quase um ano, depois de sair de casa por passar por algumas situações familiares complicadas. Caio é tímido, retraído e quase sempre está acompanhando Henrique.

LARISSA: Mulher cisgênero, lésbica, negra e atual articuladora do Coletivo.

Entrou na escola em 2016, no 1º Ano. Larissa participou de todas as reuniões presenciais e tinha boa participação no grupo virtual, costumeiramente realizava a ata das reuniões e as compartilhava com os demais por meio do WhatsApp. Era a responsável por alimentar os perfis do Coletivo nas redes sociais.

PATRÍCIA: No ano de 2017 a entrada de alunos transgêneros tornou a

comunidade LGBT+ do CCB ainda mais diversa. Patrícia foi uma dessas novas alunas. Mulher transgênero, 17 anos, aluna do 1º Ano traz para o grupo a sua experiência de transição e as dificuldades enfrentadas na escola nessa fase. Ela não é tão envolvida com as atividades políticas do Coletivo apesar de interagir bastante nas conversas que ocorrem no grupo virtual.

RAQUEL: Mulher transgênero, 16 anos, aluna do 1º ano, também entrou no CCB

em 2017 e estuda na mesma sala de Patrícia. Raquel não interage muito pelo grupo virtual, diz não ter paciência para ficar conversando pelo telefone.

RICARDO: Homem cisgênero, gay, professor de matemática do CCB e da

disciplina eletiva de gênero e sexualidade no ano de 2017. Ricardo tinha uma boa aproximação com os alunos LGBT+ da escola e ajudou bastante no processo de reestruturação do Coletivo, possibilitando o acesso às salas, coordenando as discussões e trazendo pautas importantes para as formações realizadas no grupo.

ANGÉLICA: Mulher cisgênero, lésbica, professora de história do CCB e

supervisora do PIBID de direitos humanos (UFC). Angélica foi muito significativa para os participantes por falar abertamente sobre sua sexualidade, abordar essa temática em suas aulas e por ajudar a compartilhar essas discussões com os alunos. Ela foi um apoio importante para Pedro durante a criação do Coletivo em 2016, mesmo ano em que deixou de ser professora do CCB.

Como dito anteriormente, o Coletivo foi se formando no trânsito de vários participantes. Além dos acima citados, havia outros que traziam mais diversidade para o grupo, como o estudante que tinha uma persona Drag Queen, os homens transgêneros e os alunos bissexuais realizavam pontos de contato com o Coletivo em diferentes ambientes. Todos eles com faixa etária entre 16-19 anos, habitantes da cidade de Fortaleza e moradores de bairros próximos ao colégio em que estudam.

Dentro dessa multiplicidade híbrida de contextos, espaços-tempos e formas de interação, pude conhecer outras nuances desses sujeitos, como se comportavam ou se posicionavam em espaços fora dos muros da escola, como participavam dessas questões, as desinibições ao contar histórias que ainda não haviam contado na escola ou no WhatsApp, os medos, as curiosidades sobre o tema e outras tantas das quais vivenciaram e que participaram de seus processos formativos. Ao longo desses encontros, acompanhado pelos recursos do gravador de voz do smartphone e pelo caderninho de notas de campo, vi, ouvi e vivenciei junto deles discussões diversas que transformaram não só a forma como os via, mas também o modo que refletia sobre os rumos dessa pesquisa e a mim mesmo enquanto pesquisador.

In document Corruption and aid modalities U4ISSUE (sider 15-20)