SUPERMERCADOS
O processo de produção do espaço urbano no Rio Grande do Norte historicamente apresenta-se vinculado a fatores de ordem econômica que condicionaram a formação do espaço nordestino, que, por sua vez, ocorreu no âmbito da organização do território brasileiro, no contexto da expansão do modo de produção capitalista, iniciada no século XVI.
No que diz respeito à ocupação do território, o Rio Grande do Norte seguiu a tendência do litoral brasileiro, onde foi implementado o cultivo da cana-de-açúcar. Já o Sertão foi a criação de gado a principal atividade que possibilitou sua ocupação.
Com a produção de cana-de-açúcar no litoral oriental do estado, localizado nos vales úmidos dos rios Potengi, Ceará-Mirim, Trairí, Cunhaú e Curimataú, teve origem às primeiras freguesias, vilas e cidades. Dos centros urbanos originados nesse contexto faz-se importante destacar: Natal, Vila Flor, Arês, São José de Mipibu e Extremoz. Essas primeiras vilas e cidades se consolidaram tendo como referência as atividades administrativas, mas também de troca, propiciando o surgimento de feiras e pequenos comércios.
A ocupação da área sertaneja do Estado iniciou-se no século XVIII, possibilitada pela atividade da pecuária extensiva, que surge como uma atividade subsidiária à atividade canavieira e que propiciou, em certa medida, uma integração
territorial através dos chamados caminhos do gado, que faziam as ligações do sertão com o litoral e as cidades.
E assim como verificado com a produção canavieira, a pecuária também vai reproduzir a grande propriedade. Herança desse passado, a zona rural do sertão norte-rio-grandense, até hoje, é marcada pelos latifúndios que são utilizados na pecuária extensiva. No que se refere ao poder político, enquanto na zona da mata o poder era mantido pelos senhores de engenho, no interior sertanejo o poder era mantido pelos fazendeiros.
A expansão direcionada para o sertão se efetivou por meio de frentes de ocupação pelos vales úmidos dos rios Piranhas-Açu e Apodi-Mossoró. E foi subsidiada por essa atividade que, no Rio Grande do Norte se formaram alguns núcleos urbanos, a exemplo de Currais Novos, Pau dos Ferros e Caicó, que se constituem, na atualidade, importantes cidades.
Do mesmo modo que a cana-de-açúcar, a pecuária também se constituiu num viés da acumulação de capital, que se deu subsidiando a agricultura canavieira. Todavia, a partir da crise verificada na cana-de-açúcar, decorrente de um novo contexto na economia mundial marcado pelo aparecimento do processo de industrialização, o capital passa a requisitar novas demandas para sua reprodução sendo o algodão uma matéria-prima fundamental para o desenvolvimento da indústria têxtil nascente (GOMES, 1997).
A produção do algodão no estado ganhou destaque no cenário econômico norte-rio-grandense principalmente associado ao advento da revolução industrial. A expansão dessa atividade vai se dá a partir da segunda metade do século XVIII, devido à forte procura do mercado inglês, para o abastecimento de sua indústria têxtil. Com o desenvolvimento do algodão “mocó” no sertão do Rio Grande do Norte, o processo de ocupação da área sertaneja tomou um novo impulso. Isso porque, de acordo com Andrade (1981), o algodão bem adaptado ao clima semiárido logo se expandiu pelas terras antes destinadas apenas a pecuária extensiva.
Além de conquistar grandes áreas dedicadas às pastagens, o algodão provocou também um fluxo de população, aumentando a necessidade de alimentos. É importante ressaltar que a produção algodoeira permitiu a coexistência de outras culturas intercalares (feijão, milho, fava, mandioca), criando assim o consórcio: pecuária, algodão e culturas alimentares.
Este novo processo produtivo trouxe consigo mudanças significativas no processo de construção do território propiciando uma nova configuração, principalmente, nas cidades. Devido à necessidade de mercado para a comercialização do produto, várias cidades se dinamizaram em virtude da expansão da atividade algodoeira, tornando-se de muita importância para o estado. É o caso de Mossoró, Caicó, Açu e Macaíba, dentre outras, com destaque para Mossoró que desponta como centro de comércio e administração algodoeiro do sertão.
Os centros urbanos norte-rio-grandenses que surgem em função dessas atividades econômicas são fortalecidos com a expansão da produção algodoeira no estado e o surgimento de atividades industriais ligadas ao seu beneficiamento, como as primeiras descaroçadoras e prensas de algodão, se constituindo na primeira unidade fabril das cidades sertanejas (FELIPE, 1986).
Foi a partir desse processo que as agroindústrias localizadas nas áreas urbanas do território potiguar dinamizaram a vida das cidades, as quais passaram a acumular a função de centro de comercialização da produção do campo e de beneficiamento, de modo que, os produtos que antes eram unicamente vendidos in
natura para outros estados brasileiros ou mesmo exportados, passaram a ser
beneficiados pelas agroindústrias aqui instaladas.
Ao analisar a organização territorial do estado, Gomes (1997) chama a atenção para o fato de que é a partir do desenvolvimento da cultura algodoeira, com a construção das ferrovias e, posteriormente, das rodovias, tendo em vista a necessidade de transportar o produto do sertão até as áreas portuárias, que de fato irá ocorrer à articulação mais substancial do território, o que não se conseguiu com a produção de cana-de-açúcar nem com a pecuária devido às suas próprias características.
Outro aspecto interessante no que diz respeito à produção de algodão é que esta atividade envolvia não só o grande proprietário, mas também os pequenos produtores. No entanto, o grande proprietário era quase sempre comerciante, pecuarista e/ou industrial de beneficiamento de algodão. Já os pequenos proprietários, na condição de parceiros, tinham interesse na produção do algodão por ser através desta cultura, conjuntamente com a produção de milho e de feijão, que garantiam a subsistência familiar.
Não se pode deixar de mencionar que o algodão além de redefinir o processo de construção de território nos aspectos econômico, social e espacial, também
redefiniu o aspecto político, através do estabelecimento de uma estrutura fundiária ainda hoje vigente, centrada nos grandes latifúndios. É dessa estrutura que emergem os coronéis como expressão máxima de toda política regionalista nordestina e, particularmente, norte-rio-grandense. Desse modo, a política local antes representada pelos barões do açúcar, passa a partir de então, para o domínio dos coronéis do algodão e da pecuária, já que as duas atividades caminhavam juntas (GOMES, 1997).
Além da tríade cana-gado-algodão, outras atividades marcaram a construção territorial do Rio Grande do Norte, principalmente, a partir do século XIX. Dentre estas, ressalta-se a mineração em cidades seridoenses, a pequena produção agrária nas regiões Agreste, Sertaneja e Serrana; a extração de sal no litoral norte – Mossoró, Macau e Areia Branca – e a extração da cera de carnaúba na região central.
Desse modo, do ponto de vista das atividades produtivas fundadoras, estas se apresentaram de forma especifica na construção dos núcleos urbanos do estado. Essas atividades, em um primeiro momento, atribuíram um papel de grande significado rural na construção do território. Foi essa economia essencialmente agrária que fez surgir uma indústria de beneficiamento como as usinas de açúcar, as algodoeiras, as fábricas de óleo (oiticica e algodão), as oficinas de carne, curtumes, casas de farinha, e algumas atividades ligadas às indústrias alimentícias como padarias, fábricas de macarrão e moageiras de sal, e mais tarde os serviços, principalmente de educação e saúde. As cidades além da função de comercializar a produção do campo passam a industrializar parte dessa produção, beneficiando esses produtos que saem como matéria-prima para outras indústrias localizadas no exterior e em outras áreas do país (FELIPE, 1986).
É nesse contexto de reprodução das economias tradicionais que se encontra a origem de inúmeras cidades do Rio Grande do Norte, e especialmente de algumas pequenas cidades. Algumas destas surgiram com funções comerciais de centro repassador da produção do seu espaço regional e/ou também como sede da fábrica, da indústria e da prestação de serviços, especialmente, o serviço de saúde e de educação (FELIPE, 1986).
O processo de construção do território norte-rio-grandense a partir da segunda metade do século XX é marcado pela crise das economias tradicionais e pelo processo de reestruturação sob a égide da produção capitalista. Mesmo assim,
assiste-se no território potiguar uma intensa fragmentação de modo que diversas cidades hoje existentes tiveram suas origens nesse período vinculadas a interesses políticos eleitorais, as quais notadamente, em sua maioria, são marcadas pela vulnerabilidade, fragilidade e dificuldade de produzir as condições mínimas para a reprodução de sua população. Essas novas cidades passaram a fazer parte da malha urbana estadual contribuindo ainda mais para a constituição de uma rede urbana frágil e esgarçada (SILVA, GOMES E SILVA, 2000).
A partir da década de 1980, várias mudanças puderam ser observadas no processo de produção do espaço potiguar, ainda que de forma pontual, vinculados ao movimento do capital privado, assim como aos incentivos estatais. Essas mudanças passaram a exigir, um conjunto técnico mais complexo e impuseram novos desafios à construção do território.
No âmbito dessas mudanças, faz-se importante destacar atividades como a fruticultura irrigada, a exploração de petróleo, a carcinicultura, o turismo, a modernização das salinas e a inserção e ampliação de processos industriais modernos, mais recentemente, no século XXI, a implantação de parques eólicos que servirão de opção para a produção energética do Estado.
A dinâmica dessas novas atividades associada dentre outros aspectos à maior integração do território estadual e ao aumento do acesso aos bens de consumo, resultaram em um processo de reestruturação que tem revelado uma dinâmica urbana concentrada, principalmente, em Natal e Mossoró e também nas cidades intermediárias e em algumas pequenas cidades, denotando uma configuração urbana marcada por uma diversidade espacial na qual predominam atividades primárias e terciárias.
A ausência da atividade industrial amplia as reivindicações pela maior presença do Estado nas pequenas cidades, seja criando instituições ou fortalecendo outros serviços importantes, como é o caso da educação e saúde. Diante desta realidade as pequenas cidades tiveram que recorrer no processo de urbanização do estado à oferta da prestação de serviços.
Essas ideias são apontadas no estudo de Clementino (2003) quando analisa as novas dinâmicas econômicas das cidades do Rio Grande do Norte. A referida autora considera que as desigualdades intra-regionais refletem-se na concentração dos investimentos em dois polos principais: o litoral oriental, que além de sediar a capital, conta com as atividades turísticas, industriais e comerciais e; a região de