É uma nova agenda que já conta com algumas condições básicas importantes que necessitam ser potencializada, especialmente a relação entre as TIC e a educação. Dentro de um processo paulatino, foi-se configurando uma política de incorporação das TICs à educação através da execução do Projeto Enlaces desde 1992, iniciativa que, por cobertura e investimento proporcional, está sendo considerada como um dos esforços mais relevantes de incorporação das TICs no contexto da educação pública primária e secundária da América Latina.
O Projeto Enlaces destaca-se por sua continuidade e maturidade alcançadas em mais de treze anos de aplicação, com uma organização que permitiu cobertura nacional e avançar na concepção de informática como objetivo transversal da educação, junto a limitações e considerações que se projetam como desafios para sua continuidade. Tais desafios são: obsolescência do equipamento e ampliação dos recursos, que sendo significativos32, gerou maiores demandas da comunidade escolar para atender necessidades específicas sobre usos pedagógico do recurso em aula, tensões a respeito da mudança cultural que estaria significando para o professorado trabalhar com tecnologia informática (atitude pouco favorável às TIC), debilidade de vinculação do Projeto à Formação Inicial Docente (universidades), avançar na concepção de um novo modelo de aprendizagem com tecnologia, além do uso tradicional do recurso e considerações sobre a magnitude de investimento do projeto que foi de 19 milhões de dólares anuais durante uma década, que em relação ao tamanho do sistema educativo chileno atendido33, resulta ser um projeto economicamente elevado e dificilmente replicável no conjunto de países da América Latina (MENEZES, 2005, p. 57-59).
31 O Chile destina um baixíssimo investimento no desenvolvimento da ciência e tecnologia, 0.6 do PIB. Abaixo
do Brasil (0,9), superior a Argentina (0,5), Colômbia (0,2) e México (0,4). Mas muito abaixo de médias dos países desenvolvidos OCDE (2,2) (BRUNNER; ELACQUA, 2003, p. 14).
32 em geral, todos os estabelecimentos participantes do projeto recebem um laboratório de computadores em rede local em proporção ao tamanho do estabelecimento, com conexão a Internet.
O referido projeto construiu um alicerce importante para o uso de tecnologia informática pela população escolar - um primeiro nível digital34 – que permite dispor de uma base de recursos humanos para acometer futuras ações que se sintonizem com as necessidades de elevar a capacidade do capital humano em condições de utilizar intensivamente e economicamente a tecnologia social, sempre que se coloque adequada atenção às dificuldades (relevantes) antes assinaladas, que conduz à problemática de como é a formação em contextos com tecnologia e a maneira como as TIC são ressignificadas pelos professores ao levá-la ao currículo e à aula.
Estes desafios são concordantes com outras investigações de tipo qualitativas que fazem notar a necessidade de atender os aspectos pedagógicos e curriculares da integração das TIC, repensando o modelo pedagógico que está por trás da integração curricular e o estilo da capacitação que é oferecida. Uma das fortes objeções se dirige aos programas de aperfeiçoamento e/ou capacitação de professores, os quais não estariam atentos a superar o papel passivo frente ao aprender que os professores adotam na capacitação, produto do modelo de transferência e reprodução que adota a relação professor–estudante, muitas vezes, aceito no operar dos referidos aperfeiçoamentos (ARREDONDO et al, 2002, p. 26-28). Estes desafios coincidem com as recomendações citadas na avaliação final do Projeto Enlaces (CIDE-IGT, 2004, p. 179-182).
Os antecedentes revisados dos processos de incorporação das TIC nos níveis primário e secundário dão conta que se produziu um importante avanço no conhecimento e no uso das ferramentas informáticas pelos professores e estudantes, e em menor magnitude pelos pais dos estudantes, mas distante de ser considerado um domínio de bom nível (CIDE, 2004, p. 66-68). Os professores estariam fazendo uso das TIC para potencializar seu trabalho profissional docente em especial para preparar material de aulas, fazer apresentações de conteúdos, elaborar informes e reunir informações a partir da Internet, em uma alta porcentagem, ainda que os níveis de apropriação sejam relativos (COLLECT-ENLACES, 2004, p. 21). Os estudantes, em um alto número, estão usando as TIC para apoiar seus trabalhos escolares, elaborar informes, apresentações, comunicar-se com seus companheiros para compartilhar tarefas. Ambos grupos, professores e estudantes, alcançam um nível médio de domínio das ferramentas computacionais de uso genérico. Além disso, os estudantes estão usando o
34 Estatística Nacional Enlaces. Até 2005, 88% das Escolas (7.909) de Educação Básica e 85% dos Liceus
(1.499)de Ensino Médio do país integrados ao Projeto Enlaces. Até março de 2006, 94% (2.331.188) dos estudantes de Educação Básica e 87% (752.025) dos estudantes do Ensino Médio com acesso a computadores. Até 2005, 75.711.- computadores instalados. Até março de 2005, Estabelecimentos com Conexão a Internet: 3.151 com Banda Larga e 2.578 com Conexão Comutada. Capacitação de Docentes em Informática Educativa (Março 2005), 82,5% (101.081) professores capacitados por Enlaces (ENLACES, 2005, p. 27-33).
computador em alta porcentagem para atividades recreativas pessoais como escutar música e jogar35. Mas são os pais dos estudantes de setores com menores condições culturais e econômicas quem têm baixo nível de conhecimento digital, apesar de que seus filhos apresentam níveis de alfabetização e manejo informático significativo (Gráficos, 5, 6, 7, 8, e 9), (CIDE, 2004, p. 52-58).
Contudo, há evidências de que os professores estão levando seus estudantes aos laboratórios de informática para apoiar processos de aprendizagens e atividades curriculares específicas, em vários casos usando softwares orientados às suas especialidades. Reconhece- se que a integração curricular das TIC é uma tarefa pendente no conjunto do sistema educativo chileno (MARTÍNEZ, 2005, p. 4).
Diferentes indicadores da educação superior em relação à preparação e incorporação de seus recursos humanos para uma nova agenda de formação e produção, nos mostra um escasso desenvolvimento: baixos números de profissionais e técnicos em comparação à sua força de trabalho; uma mínima fração de sua população cumpre com os níveis mais altos de competência (Internacional Adult Literacy Survey); discreto número de profissionais acadêmicos com estudos de pós-graduação; um reduzido gasto em ciências e tecnologia como porcentagem do produto interno bruto (0,6%); escasso gasto de pesquisa e desenvolvimento em especial do setor privado (abaixo de alguns países da América Latina) e índice de inovação muito abaixo de países desenvolvidos, ainda que sobre os países da América Latina (BRUNNER; ELACQUA, 2003).
A superação desta debilidade é uma tarefa complexa que aponta em vários sentidos. Para alguns autores faltaria dispor de maior quantidade de horas de acessos ao recurso computacional nas escolas, mas a explicação mais profunda nos conduz a assinalar a ausência de clareza relativa aos aportes ou contribuições que a incorporação da tecnologia pode dar ao currículo escolar, questão que de alguma forma se condiz com a falta de resultados e pesquisa que mostra estas contribuições. Não haveria uma maior reflexão sobre os processos de (novas) aprendizagens que trazem um fazer formativo em cenários informáticos, nem das competências pedagógicas que os professores devem ter ao incorporar estas ferramentas em atividades formativas. Esta é uma dificuldade que se transporta também aos centros de formação inicial de professores, os quais não estariam incorporando as TIC com claro sentido curricular e formativo nos futuros professores – por exemplo, somente 5% dos professores do
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Em geral as crianças e jovens ocupam grande parte de seu tempo jogando em ambientes computacionais colocando em desenvolvimento, muitas das vezes, estratégias de jogo de tipo complexa onde se requer por em ação processos de conhecimento em vários planos. Em geral, a formação formal não estaria colocando atenção neste fato, nem ao menos aproveitando pedagogicamente (novas aprendizagens) esta situação.
sistema nacional receberam algum tipo de formação em e com as TIC na formação inicial (COLLECT-ENLACES, 2004 apud MARTÍNEZ, 2005, p. 4-6).
Avançar a incorporação curricular apropriada das TIC em todos os níveis do sistema parece ser o requisito fundamental para o ingresso social e produtivo na sociedade do conhecimento. É uma etapa que aponta novos desafios para o sistema educativo nacional, de busca da distinção adequada sobre a relação existente entre formação de professores com as TIC e suas contribuições ao currículo escolar.
Um exemplo orientado em tal direção é a experiência que se está levando desde 2004 no Chile através do curso Educar para o Futuro36 que acolheu o projeto Enlaces - MINEDUC para avançar em torno do tema de competências pedagógicas e informáticas nos professores. É uma iniciativa que busca aprofundar os aspectos curriculares da incorporação das TIC na aula – como um segundo nível de capacitação em Tecnologia de Informação e Comunicação para os professores – e também a formação dos futuros professores – via experiências-piloto de integração no currículo de formação inicial37. Além disso, outra iniciativa que se encaminha neste segundo nível das TIC na educação é gestada desde o Centro de Educação e Tecnologia Enlaces do MINEDUC pela via de concursos de Projetos de Inovação Tecnológica que têm um claro formato de pesquisa–intervenção curricular no sistema educativo nacional, aberto à participação de equipes interdisciplinares de investigadores e professores. Estes Projetos começaram a ser executados em 2005 e estão mostrando diferentes experiências de integração das TIC na Aula e no Aperfeiçoamento de Professores, de viés curricular e formativo, iniciativas que buscam superar a visão tradicional de uso apenas instrumental (operacional e tecnológico) das ferramentas informáticas na educação, além disso, de validarem-se como experiências práticas de integração das TIC em ambientes educativos (ENLACES, 2006).
Isto é, existe no nível do setor que abarca o sistema educativo primário e secundário do país, uma base digital de competências básicas operacionais das TIC de nível intermediário neste segmento da população, que se alinha com as necessidades e demandas que se instalaram na sociedade contemporânea. Contudo, o uso de tecnologia informática e de comunicações para a criação de cenários curriculares e formativos, para promover e catalisar
36 Curso produzido pela Intel Educação Corporação de tipo padrão para Fomentar Competências Pedagógicas e Informáticas, adaptado para o Chile pelo Instituto de Informática Educativa da Universidade da Frontera - Temuco e o Centro de Informática Educativa da Pontificia Universidade Católica - Santiago. Que conta com o apoio do Centro de Educação e Tecnologia Enlaces – MINEDUC.
37 A Universidade Metropolitana de Ciências da Educação (UMCE) inicia os primeiros pilotos de integração do
curso Educar para o Futuro em algumas carreiras de formação de professores em 2006, somando-se a outras universidades do país.
eventos de aprendizagens usando tecnologia visualiza-se como uma tarefa e um desafio ainda pendente, o que conduz a carências na formação de professores que permitem distinguir as contribuições das TIC no currículo escolar, apropriadamente. Porque elevar o capital humano do país está relacionado com uma formação de cidadãos que fomente novos modelos pedagógicos e de aprendizagens que se apropriem das TIC para inter-atuar (produzir) a sociedade atual, mas que coloca em crise o próprio modelo de formação de professores em exercício em todo o sistema educativo, anunciando a necessidade de uma nova lógica de formação, em especial dos professores. Cabe-nos perguntar:
Como formar em contextos com Tecnologia de Informação e Comunicação? Que contribuição tem para a formação dos cidadãos em geral, em particular para a formação de professores, incorporar nas grades curriculares as TIC? A formação em cenários com tecnologia de informação e comunicação favorece a gestação de um modelo pedagógico coerente com as demandas de uma sociedade complexa como a atual? Quais são as dificuldades, limitações e possibilidades de integrar as TIC na formação dos professores?