No diálogo em espanhol, onde Daniela era o expert, e Andressa era o aprendiz, observei como Andressa, muito ativa e participativa na interação com a parceira, às vezes, preferia procurar na internet a resposta que ela precisava, em vez de confiar no insumo14 fornecido pela parceira. A seguir trago excertos das interações que caracterizam os fenômenos observados durante o diálogo colaborativo da parceria analisada.
14 Embora não seja um termo próprio da teoria sociocultural, uso o termo ‘insumo’ para referir-me a língua que o aprendiz recebe do expert, que não se configura necessariamente em um andaime.
No excerto 1, Andressa e Daniela estão lendo um texto de um romance colombiano
chamada “María”. Em dado momento, Andressa lê a palavra quiebra, da qual não tinha
conhecimento:
Excerto 01 (Trecho da Interação 06)
1 Andressa Se hizo parte del negocio de su familia y acabó en la quiebra (…) quiebra? 2 Daniela Quiebra? ((pensando)) bancarrota (...) pobreza
3 Andressa Ahh sim (...) como perdió todo? 4 Daniela Quiebra igual a pobreza
5 Andressa Ok ((procura na internet))
Observamos que Andressa apresenta uma lacuna de conhecimento que a impede de prosseguir na leitura do texto ao não conseguir depreender, no próprio texto, o significado da
palavra “quiebra”. Ao manifestar estranhamento com a palavra desconhecida, recebe
explicação da parceira em forma de sinônimos, que permitem uma construção rápida do significado (turno 3). No entanto, apesar do insumo recebido, Andressa faz uso da internet, para se certificar de que entendera, o que pode denotar insegurança com respeito ao processo negociador vivenciado pelas parceiras, desconfiança com o que a parceira lhe proporciona ou simplesmente a tentativa de mediação feita pela parceria e insuficiente para o aprendiz. Segundo Ferreira (2008), os alunos têm dificuldade para atuar como par colaborativo, já que vem de um sistema educacional bancário (de transmissão de conteúdo) e têm dificuldades na interação-relação com os outros colegas.
Outra característica própria da interação da parceria em espanhol era que Andressa como aprendiz não tinha medo de falar, mesmo criando palavras ou misturando sua LM com a L-alvo, situação que era difícil para Daniela como expert, já que às vezes não percebia os desvios da parceira sem, portanto, conseguir oferecer-lhe o insumo adequado.
No excerto 2, observamos que Andressa comete desvios, já que parece não estar interessada na atividade, no caso, falar sobre o filme Titanic:
Excerto 02 (Trecho da interação 04)
1 Daniela Bueno cuéntame de Titanic
2 Andressa ¿Titanic?
3 Daniela Titanic
4 Andressa Es una película como/ primeramente es una historia de amor ((risos)) el chico se enamora por la chica y se ven enamorados
5 Daniela [y se enamoran
un navío (…) ¿navío?
7 Daniela Barco (…) en la película sería crucero 8 Andressa Crucero (…) bueno voy a resumir ((risos)) 9 Daniela La idea de esto es que hables en pasado 10 Andressa Pero este crucero como que:::
11 Daniela [choco
12 Andressa ¿Chocó com um iceberg? 13 Daniela con un iceberg
14 Andressa un iceberg e acabó afondou y es básicamente esto ((risos))
15 Daniela [se hundió
16 Andressa Hundió la chica sobrevivió y el chico murió ((risos))
17 Daniela Bueno esta película fue basado en una historia real (…) la idea era que saliera desde París hasta llegar a Nueva York (…) y bueno al chocarse con iceberg (…) tuvieron muchos inconvenientes y los que sobrevivieron fueron las familias ricas
18 Andressa Es una historia chocante
19 Daniela [impresionante
20 Andressa Chocante es más como (…) ¿chocante es cómo?
21 Daniela Chocante es impresionante…IMPRESIONANTE
22 Andressa OK
No excerto, Daniela se antecipa e conclui a fala de Andressa, fornecendo-lhe o verbo adequado (turno 11). Na sequência do diálogo (turno 14), Andressa empresta do português o
verbo “afundou”, que é imediatamente corrigido por Daniela. É só no turno 17 que Daniela
percebe o pouco engajamento da parceira na atividade e tenta formular uma apreciação mais consistente sobre o filme, esperando que a parceira também o fizesse. Ao tentar produzir
significativamente (turno 18), Andressa usa a palavra “chocante”, possivelmente por
influência do português, sendo explicitamente corrigida por Daniela (turnos 19 e 21) sem, contudo receber um andaime. Segundo Wood, Bruner e Ross (1976, p. 90), o aprendiz adquirirá habilidades e poderá, assim, resolver o problema com a assistência de um mediador, pois, para eles, a interação com o mediador envolve muito mais do que simplesmente a imitação de um modelo ou uma simples correção.
Observei como Daniela (expert), na tentativa de oferecer apoio a Andressa na sua compreensão, procurava sinônimos, ou tentava explicar o contexto da palavra em uso; Andressa, na tentativa de produzir, tomava emprestado da sua LM para conseguir criar um significado coerente com aquilo que ela já conhecia, sabendo que sua parceira tinha conhecimentos na sua LM; contudo, as duas pareciam não se entender, não havendo um diálogo eu-outro (diálogo colaborativo) nem regulação pelo expert (mediação).
No excerto 3, Andressa está lendo sobre a biografia de um poeta colombiano que é reconhecido pelo seu trabalho e pelo caráter malicioso (morboso) de sua obra, o que gerou dificuldade de compreensão pela interagente brasileira:
Excerto 03 (Trecho da interação 06)
1 Andressa A ellos se le suma el carácter morboso cargado de alusiones eróticas (…) cuyo objeto es una hermana muerta.
2 Daniela ¿Sabes qué es morboso? (...) cuando uno la utiliza hacia una persona (...)
es como una persona vulgar ( ...) pero es más como el ver a una mujer (…)
si la tocas (...) ahí decimos esa persona es morbosa o cuidado con él que es
un morboso (…) desvaloriza la mujer (...) si me hago entender 3 Andressa Ahh (...) ((pensando)) no también (...) morboso como de vurgar
4 Daniela VULGAR es como de hablar y mirar
5 Andressa AH
6 Daniela [es como de deseo
7 Andressa en Brasil utilizamos uma palabra que es “galinha”
8 Daniela ¿Como de animal?
9 Andressa Sí ou cafajeste
10 Daniela ¿Uno le dice a una persona que es galinha?
11 Andressa Galinha es como una persona que conquista varias mujeres siempre está con una (...) es cafajeste también
12 Daniela [morboso es desvalorizando a la mujer (…) la ve con ese deseo
13 Andressa Sí
14 Daniela Pero hay otro que le decimos don juan (…) que si es él que coquetea con todas y todas quieren con él
15 Andressa Ok
Daniela, suspeitando que Andressa desconhecesse o termo morboso em espanhol, pergunta a ela pelo seu significado. Observamos, também, que Daniela se esforça em dar uma explicação culta, escolhendo as palavras para não dizer algo grosseiro, que pudesse ofender a parceira sem, contudo, conseguir clareza em sua explicação (turno 2). Andressa, por sua vez, parece não entender sobre o que discorre a parceira e tenta construir sentido em sua língua
materna, relacionando o termo a dois significados próximos em português, “galinha” e “cafajeste” (turnos 3 a 11), que, para Daniela, estão mais relacionados ao termo don juan (que
gosta de todas as mulheres). A confirmação de entendimento por parte de Andressa (turno 15), entretanto, não transmite a certeza de que elas estivessem falando da mesma coisa, já que sua produção é inexistente.
A partir das análises feitas, é possível afirmar que a falta de diálogo eu-outro sustenta a desistência de Andressa em todos os excertos acima, o que pode evidenciar a falta de
andaimes mais efetivos por parte do expert, que ofereçam o apoio que a parceira necessita e a mantenha engajada em um processo de negociação (coconstrução de conhecimento).