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identidade entre as ações

citadas na charge abaixo?

Há alguma coisa em comum

nos conflitos citados? Que interes-

ses levam estas pessoas a brigarem, a

fecharem fronteiras, a praticarem aten-

tados à vida?

O espaço geográfico pode explicar.

O que você faria se invadissem sua casa? Ou, se fossem assistir, em sua casa, ao final de um campeonato, mas... torcendo para o outro time?

Então, vamos pensar! Se o espaço geográfico tem a ver com isso, quais seriam os conceitos da Geografia presentes aí?

Você certamente já ouviu falar em território. Mas o que é território?

“(...) extensão considerável de terra; torrão. Área de um país ou estado, ou província, ou cidade, etc. Base geográfica do Estado, sobre a qual exer- ce ele sua soberania (...)” (FERREIRA, 1986)

“Área terrestre, seu espaço aéreo e mares vizinhos, organizados em um Estado soberano.” (GIOVANNETTI; LACERDA, 1996, p. 208)

Durante muito tempo as definições apresentadas eram a única for- ma de território reconhecida na sociedade civil, e ao falarmos ou ou- virmos tal palavra nos vinha ou ainda vem à mente sentimentos nacio- nalistas. Entretanto, nas últimas décadas, a situação começou a mudar e surgiram discussões sobre a existência de novas territorialidades.

Atualmente, território tem sido definido como um espaço estabele- cido e delimitado através de relações de poder – político e/ou econô- mico – e estas relações podem ou não estar associadas ao Estado. Es- te território pode ser contínuo ou descontínuo.

Mas, o que é um território descontínuo?

Ao longo de milhares de anos, os territórios foram estabelecidos e mantidos pela força, pelas relações de poder. Assim, não são e nunca foram eternos, mas mutáveis, transformáveis, readaptáveis, moldáveis, frágeis ou não. Por exemplo, lembra do Reino Unido de Portugal e Al- garves? Este era o nome do Brasil, que na época era território de Por- tugal, ou seja, fazia parte daquele Estado. Embora geograficamente dis- tantes, formavam um só reino - olha o território descontínuo aí!

Hoje, a relação colonial entre países não está mais institucionalizada, mas existem outras relações que formam territórios descontínuos, são os territórios-rede. Você consegue imaginar isso? Consegue perceber estes territórios na realidade vivida? Assista aos telejornais e anote as notícias que você acha que se referem à idéia de território descontínuo.

No momento vivenciado por nós, onde a velocidade das transfor- mações são intensas, temos diversos territórios em diferentes escalas geográficas. Do mundo até o bairro ou a casa, existem várias escalas de análise do espaço; este dimensionamento do grande para o peque- no, do macro para o micro é o que chamamos de escala geográfica. Por exemplo, há territórios “opacos” – como os territórios dos bichei- ros, das prostitutas, dos narcotraficantes, das gangues, das minorias ét- nicas – dentro de territórios “luminosos”. Amplie a conversa lendo o

Quadro 1

Milton Santos usa tais ex- pressões para se referir a locais que acumulam den- sidades técnicas e informa- cionais, atraindo mais investi- mentos (luminosos) ou onde estes estão ausentes (opa- cos). Uso-as para referir-me a territórios reconhecidos legal- mente (luminosos) e os não reconhecidos (opacos), mas não dando maior importância a um que a outro.

Veja mais sobre este assun- to no Folhas “Dinheiro traz fe- licidade?”

Alguns conflitos envolvem diferentes grupos étnicos dentro de um mesmo Estado, pois há povos que formam uma nação sem Estado. Ocupam um território, mantém suas características culturais (religião, idioma e tradições), mas não possuem independência, reconhecimento.

Você já ouviu falar disso? Conhece algum exemplo?

Entre os diversos conflitos étnicos que existem, o que ocorre na Irlanda do Norte e o que ocorre na Espanha e França (País Basco – mapa 1) serão tratados aqui. Você pode pesquisar outros, diversos deles são noticiados na TV todos os dias.

A região denominada “País Basco” (Euskadi, em vasconço – idio- ma local) abrange o Norte da Espanha e o Sudoeste da França. Do pri- meiro país, engloba as províncias de Álava, Guipúscoa e Biscaia e as províncias autônomas de Navarra; do segundo, engloba as regiões de Sola, Lapurdi e Baixa Navarra.

O povo basco está estabelecido, historicamente, neste mesmo ter- ritório há aproximadamente 5 mil anos, entretanto há indícios que re- montam sua cultura à pré-história européia. Resistiram às sucessivas invasões de romanos, visigodos, francos, mouros, dentre outros.

A população basca sempre tentou manter sua independência eco- nômica, política, social e territorial. A partir do século IX iniciou-se, na Península Ibérica, a for- mação de vários reinos independentes, como Leão, Aragão, Navarra e Castela; ficando o povo basco concentrado nes- tes dois últimos.

Por que existem brigas entre grupos étnicos? O que representam estes grupos? Por que querem territórios?

ATIVIDADE

Mapa 1 - País Basco

Hoje se fala em territórios flexíveis, cíclicos, descontínuos, isto é, territórios que podem mudar em curto, médio ou longo prazo. Mas no momento, estudaremos outros territórios, aqueles que envolvem dis- puta entre diferentes grupos étnicos.

O CASO DO TERRITÓRIO BASCO

No século XVI, parte do Reino de Navarra foi anexado à Espanha e parte à França, ficando o povo basco dividido entre esses dois países.

Os bascos conservaram, desde a Idade Média, relativa autonomia admi- nistrativa e comercial, embora tivessem que pagar tributos aos dominado- res, sendo duramente reprimidos em muitos momentos de sua história.

Em 1931, com a queda da monarquia espanhola, os bascos inicia- ram nova tentativa de independência. As divergências políticas inter- nas eram grandes e o descontentamento era geral. Nas eleições de 1936, republicanos, socialistas e comunistas se uniram na Frente Po- pular, obtendo vitória. O governo, com maioria de esquerda, anistiou presos políticos e fez uma reforma agrária; no entanto os conflitos de rua continuavam (articulados pela direita). Num dos conflitos, um líder de direita foi assassinado, abrindo caminho para a ação do exército do general Francisco Franco, dando início à Guerra Civil Espanhola (1936- 1939). Franco pediu apoio a Hitler para realizar um grande ataque sen- do prontamente atendido, realizando muitos bombardeios em Madri.

Hitler viu nesse conflito uma forma de testar novas armas de guer- ra e, juntamente com Franco, escolheu um local para um bombardeio ininterrupto de sua força aérea. A cidadezinha de Guernica foi escolhi- da, pois era um alvo fácil, desarmado, onde havia um grande carvalho embaixo do qual, desde a Idade Média, os reis espanhóis juravam res- peitar o conselho, as leis, os costumes dos bascos. Também era uma demonstração do que aconteceria com todos aqueles que sonhavam com uma Espanha federalista. Aproximadamente 40% da população foi morta ou ferida. Tal acontecimento ficou imortalizado pelas mãos de Pablo Picasso - pintor e desenhista de origem espanhola.

A autonomia regional foi abolida na ditadura de Francisco Franco, sendo reestabelecida parcialmente em 1979, com a assinatura do Tra- tado do Estatuto de Autonomia de Guernica.

Os bascos resistiram à aculturação mantendo suas tradições e sua língua (euskera ou vasconço), que não apresenta nenhuma semelhança com as demais faladas no continente. Segundo os bascos, a fronteira de seu país (território) é nítida, sendo delimitada pela língua, ou seja, come- ça onde se fala o vasconço e termina onde este deixa de ser usado.

Na França, a população basca é pequena, mas na Espanha, esta é vis- ta como ameaça. Em alguns momentos viveram um massacre silencioso e indireto, pois tiveram a proibição do ensino de seu idioma nas esco- las, como tentativa de ‘matar’ o elo cultural que une seu povo, não po- dendo se manifestar política e culturalmente.