Part I - Foundation
2 Theory
2.3 Emotional impact
Como capacidade de expressar os pensamentos, é através da linguagem – nas suas mais variadas formas – que o indivíduo expõe seus conceitos e sentimentos, além de fornecer elementos para passar, explicar e expandir novos conhecimentos. Nesse contexto, Perozo, Falcão e Uriarte (2007) entendem que a comunicação do surdo deve ser feita com base em linguagem própria, refletindo concepções e interpretações de sua realidade e experiências, desenvolvendo assim suas capacidades cognitivas de forma plena. Entende-se tanto gestos, leitura labial e comunicação oralizada representam formas de linguagem utilizadas por surdos.
Já a língua representa o conjunto do vocabulário e regras gramaticais de um determinado idioma. Quando uma pessoa faz uso de uma determinada língua, apoia-se em uma modalidade de percepção e produção da mesma, podendo ser da forma oral-auditiva ou viso- espacial. Menezes et al. (2009) cita que em 1960 o estudioso Dr. William C. Stokoe comprovou que a língua de sinais se assemelhava a língua falada, pois era composta por uma sintaxe e gramática independentes. Além disso, por apresentar as mesmas propriedades das línguas orais, a língua de sinais é considerada uma língua natural, sendo
um conjunto de sentenças finitas em cumprimento e construídas com base em um conjunto finito de elementos. Assim, entende-se que a língua de sinais são naturais para as comunidades surdas.
[...] a língua de sinais e a falada compartilham propriedades abstratas, mas diferem radicalmente em sua forma externa. As línguas faladas são codificadas em mudanças acústico-temporais, variações do som no tempo. As línguas de sinais, contudo, baseiam-se em mudanças visuo- espaciais, para assinalar contrastes lingüísticos. (MENEZES ET AL., 2009, p. 20)
No Brasil, a LIBRAS é um sistema linguístico de natureza visual- motora de transmissão de ideias e fatos, estruturada com gramática própria, oriundas de comunidades surdas do país. Como medida de institucionalização, o decreto 5.626, de 25 de dezembro de 2005, insere a Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS – nas disciplinas curriculares de formação de professores em todos os cursos de licenciatura do Brasil, difundindo assim a LIBRAS e a Língua oral/escrita Portuguesa na educação de pessoas surdas. Dessa forma, entende-se que o cidadão Surdo brasileiro deve ter um caráter bilíngue, considerando sua língua materna, a falada pelos pais – que necessariamente não são surdos – ou do seu País de origem, o Português oral/escrito, e, sua língua nativa a LIBRAS.
Entretanto, o que se nota é que o sistema educacional brasileiro, em se tratando de alunos surdos, deixa a aprendizagem das disciplinas escolares em segundo plano, relegando o ensino a apenas torná-los aptos a utilizar uma língua determinada. Embora o aspecto comunicacional auxilie o rendimento quanto à aprendizagem, não se devem privar os indivíduos surdos das possibilidades em relação ao seu desenvolvimento educacional. “Este quadro aos poucos está sendo mudado no contexto educacional. Atualmente encontram-se alguns alunos surdos formando- se nas escolas e universidades brasileiras” (VIEIRA; 2005, p. 113). O que se constata é que ainda há uma pequena parcela de surdos que frequentam escolas, e que na sua maioria, são vítimas de processos educacionais experimentais, causando em muitos casos processos traumáticos, o que leva ao abandono e desinteresse:
Ao lidar com um aluno surdo, o professor deve se ater a algumas mudanças em seus hábitos, pois geralmente está acostumado a relacionar-se com alunos ouvintes. Este deve levar em consideração que o surdo capta a informação pelo aspecto visual e que abordando seu conteúdo desta forma, facilitaria a compreensão de seu conteúdo. Falar de frente para o público alvo, [...] colabora com a compreensão dos surdos que tem capacidade de leitura labial e interage com todos os alunos ao considerar as expressões faciais envolvidas na transmissão do conteúdo. (VIEIRA; 2005, p. 115).
Em pesquisa realizada por Vieira e Araújo (2007) com professores no Instituto Cearense de Educação dos Surdos (ICES) em Fortaleza, que tem como proposta educacional o Bilinguismo, identificou-se que a instituição compreende a LIBRAS como língua natural dos alunos surdos. Nessa mesma pesquisa, os professores identificaram que a maior dificuldade dos alunos surdos é na leitura de longos textos na língua portuguesa escrita.
[...] dificuldade central, para eles, está na falta de vocabulário. “Eles conhecem pouquíssimas palavras. A memorização para eles é muito difícil. Nós temos o som para ajudar a memorizar as palavras. Para eles é um esforço extremo. Eles teriam que visualizar as palavras. No entanto, eles conhecem os sinais, mas não as palavras”. (Antônio 06/06/07) (VIEIRA; ARAÚJO, 2007, p. 240).
Uma das conclusões levantadas é que essa dificuldade é gerada porque no texto escrito existem determinadas palavras que não tem significado em LIBRAS. Quanto a utilização de recursos digitais disponíveis, como a internet, identifica que a maior dificuldade dos surdos é o não acompanhamento de tradução em LIBRAS. Entretanto essas barreiras são superadas por surdos oralizados, pois seu domínio na língua escrita portuguesa os possibilita “considerar a internet e seus recursos digitais, ferramentas imprescindíveis para suas vidas. Declaram
que através dos recursos da internet torna-se possível a aquisição de informações do mundo inteiro em tempo real” (VIEIRA, 2005, p. 56). O ambiente web, nesse ponto, apresenta novas perspectivas no desenvolvimento pessoal do surdo, possibilitado pela interação gerada nas trocas virtuais, além de servir como ferramenta informacional, agindo de forma inclusiva em comunidades que podem ou não ser somente composta por seus pares.
Quadros, Cerny e Pereira (2008) entendem que no caso de um curso a distância é necessária a utilização de diversas estratégias de ensino envolvendo os meios de comunicação como mediadores do processo de ensino-aprendizagem. Além disso, é exigido especialização e tempo de análise do conteúdo educacional com o propósito de selecionar as melhores mídias e chegar ao melhor resultado esperado. No caso de um aluno surdo, um dos pontos importantes a serem observados são as particularidades da linguagem utilizada (PEROZO; FALCÃO; URIARTE, 2007).
No levantamento do perfil do usuário surdo profundo, Vieira (2005) considerou no seu estudo sobre a aprendizagem hipermídia de fundamentos de Geometria Descritiva, por exemplo, que além dos conhecimentos de matemática e familiaridade com o computador, que os usuários também conhecessem LIBRAS, apesar de manter o conteúdo escrito em português no ambiente de aprendizagem. Quando avaliado o ambiente, os alunos surdos sugeriram, com relação aos tópicos de acessibilidade que: 1. no ambiente fosse adicionado uma tela de interpretação do português para LIBRAS, desde que esta tenha como tamanho mínimo um quadrado de lado igual três polegadas e meia; 2. destacar o plano de projeção, o qual está sendo relacionada à questão de cada tela (quando passar o mouse sobre o seu nome no texto); 3. apresentar a alternativa de mostrar a tela da interpretação de LIBRAS paralela ao acesso ao texto; 4. possibilitar a ampliação da parte da tela que compreende a LIBRAS, assim como a que corresponde ao texto (aumentando o tamanho da fonte), a animação e as questões a serem respondidas; 5. materializar os sólidos e os planos de projeção para que os alunos possam manusear o material e tirar dúvidas de visualização e do movimento referente ao Rebatimento; 6. exercícios correlacionando imagens para facilitar a compreensão; 7. acesso à animação e a LIBRAS que pudesse ser controlado pelo aluno (retornar, adiantar...); e cuidar com os desenhos, pois há representações em perspectiva que deixam dúvida na interpretação (planos de projeção se cruzando para formar o Tetraedro) (VIEIRA, 2005, ps. 134, 135).
Da mesma forma, em depoimentos de pessoas surdas na pesquisa sobre “Ambientes Informacionais Digitais Acessíveis a Minorias Linguísticas Surdas”, Corradi e Vidotti (2010) levantam que é necessário que as informações estejam postas de forma clara aos usuários. Apesar de considerarem a internet como uma importante ferramenta, a dificuldade de entendimento da língua portuguesa escrita exige que os usuários surdos recorram a intermediários, limitando assim sua autonomia.