4.2 Studieplanen
4.2.2 Emner og emnebeskrivelser
O estilo “travecão”. O rosto da travesti aparece borrado, por ser essa uma categoria depreciativa entre as travestis.
deixam seduzir pelos apelos da moda, por padrões estéticos rigidamente estabelecidos pela mídia. Assim, muitas delas reproduzem esses valores, em busca de legitimidade.
Os travecões denunciam o insucesso no corpo e na idade, enquanto as ninfetinhas e/ou “patricinhas” são o reverso da moeda. São jovens, valor cultuado entre elas, pois as coloca em melhor posição no mercado sexual, podem ter acesso a toda uma tecnologia estética que não estava disponível até muito recentemente, o que as torna “mais bonitas” e melhor sucedidas em seu processo de transformação. Porém, as mais velhas, travecões ou não, as consideram “abusadas”: querem dizer que são desrespeitosas e arrogantes.
O que aborrece as mais velhas é que as jovens não admitem sua inexperiência e esnobam aquelas que “abriram as portas” para elas.
Esses preceitos estético-morais se ligam também às questões de saúde, cuidados e, portanto, de prevenção às DST e aids. Obter sucesso na transformação se sobrepõe aos cuidados com as DST e aids que o discurso oficial preventivo tem como prioritários em termos de saúde. Além do que, o preservativo não é para elas apenas um insumo preventivo, mas também um elemento que marca o grau de intimidade e de afetividade com o/os parceiro/os.
Gladys, por exemplo, fez seu exame de HIV porque havia “transado” muitas vezes sem preservativos, tanto com namorados como com “clientes gostosos”. Ela avalia o uso de preservativos: “porque é uma merda fazer com camisinha a vida toda e quando encontra
alguém lindo e maravilhoso vira romance, aí, pronto: a primeira prova de ‘amor’ é fazer sem camisinha. Mas com quantas antes ele também já não deu essa ‘prova de amor’?”,
interroga-se. Esta maneira de relacionar o não uso de preservativo ao amor e à confiança no parceiro é também recorrente entre as mulheres, sobretudo as pertencentes às classes populares, como discutiu Carmem Dora Guimarães (1998) e Daniela Knauth (1995 e 1999).
A camisinha também está ligada a algumas práticas sexuais específicas, sendo raro o seu uso quando se trata de sexo oral.
Há outro elemento que deve ser considerado quando se pensa nas diferentes categorias de travestis e na relação com o sistema público de saúde. As tops, por exemplo, preferem comprar os preservativos, pois ganham o suficiente para isso e não gostam de ser
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“Fazer a linha” significa “agir como se fosse”. Pode significar também compartilhar bens com outras pessoas, numa generosidade regida mais pela educação e pelo desejo de ser vista como “fina” do que por altruísmo.
Foto 4
confundidas com as travestis em geral, evitam freqüentar os “guetos” e os locais associados às travestis, como é o caso das unidades de saúde voltadas para prevenção e assistência em DST/aids.
Pergunto a Mylena Toledo se, quando estava no Brasil, costumava pegar preservativos nas unidades de saúde. Ela diz que quando começou a se prostituir sim, mas que atualmente prefere comprar. Questiono o porquê de comprar, se pode obter de graça. Ela diz que “é muito trabalhoso”, pois os horários são fixos para que se pegue as camisinhas. “A gente acorda tarde, né?”, argumenta ela. Eu contra-argumento afirmando que os horários de distribuição nas unidades públicas de saúde são sempre após as 14 horas. Ela diz, então, que hoje em dia o preservativo é tão barato que “não vale a pena”. Para ela, submeter-se a entrevistas, cadastramentos, processos de convencimento em fazer exames e convites para acompanhar palestras compõem o “não vale a pena”. Tomam seu tempo e não a seduzem para o uso dos benefícios oferecidos pelas unidades de saúde que atendem a esta clientela.
Além disso, Mylena não confia no sistema público de saúde. Conta-me que conhece “pencas de travesti que fazem de tudo sem camisinha e foram fazer o exame e deu
negativo”. Por isso, quando fez os seus dois exames preferiu um laboratório particular.
Keyla Zanon e Victória Rusthy são T-gatas (tgs), pois freqüentam o Dia T. Ambas estão com o corpo bastante transformado; por fazerem filmes e estarem em evidência em sites especializados, são consideradas tops. Tanto Victória quanto Keyla pegam preservativos no COAS (Centro de Testagem e Aconselhamento Sorológico) Henfil, onde a cota máxima, segundo Victória, é de 100 preservativos. Mas Keyla assegura que pega mais. Comento sobre a cota negociada, ao que retruca: “aí tem que se cadastrar, e eu não
quero”. Interrogo o motivo, ao que Victória responde sem paciência: “Ah não, ficar lá respondendo um monte de coisas!”. Quando pergunto se elas já ouviram falar do Tudo de
Bom!, elas não têm certeza quanto a isso. Keyla pensa mais um pouco e me diz que conhece uma travesti agente de prevenção que se chama Adriana (não conheci nenhuma travesti agente de prevenção com este nome).
Mesmo sendo tratada pelo nome masculino no COAS Henfil, Victória Rusthy prefere ir lá do que ao SAE (Serviço Ambulatorial Especializado) Campos Elíseos. Alega que é distante, e Keyla emenda dizendo que “o chato lá é que tem que ouvir palestra pra
pegar camisinha”. E reclama que as palestras só tratam de assuntos que elas sabem: DST,
prevenção, drogas. “Até eu podia dar palestra lá!”, ri Keyla. Digo que, pelo que fiquei sabendo, atualmente não é mais preciso ouvir palestras. Mas elas parecem já ter uma opinião formada. Não querem ficar falando de si para “amapôs” que nada sabem da vida das travestis, mas se julgam com autoridade para ensinar-lhes técnicas de prevenção e de cuidados de saúde.
A favor do SAE Campos Elíseos, Victória aponta o atendimento: “Lá eles me
perguntaram: ‘você quer ser chamada por qual nome?’”. As informações seguem
contraditórias, pois Keyla volta a afirmar que sempre foi chamada no COAS Henfil pelo seu nome de mulher. A divergência de opinião sobre os serviços aponta para um não- vinculamento delas a qualquer um deles, se servindo em cada um daquilo que necessitam, de maneira pontual. Ambas têm outras preocupações no que se refere ao sexo com clientes e parceiros amorosos. Mais importantes para elas na hora de fazer programas não é propriamente o uso do preservativo, que me asseguram usarem sempre, mas quem é o cliente, o que vai exigir das práticas sexuais e se pagará corretamente. Em relação à saúde estão mais preocupadas em corrigir algumas imperfeições, como tornar coxas mais proporcionais às nádegas ou acertar no uso do hormônio.
Como se vê, a intervenção na carne é também uma alteração moral. Uma transformação que só pode ser empreendida dentro de uma rede social específica. Não se pode tornar-se travesti sem essa inserção. Pois é ali que se aprende a falar o bajubá e as gírias próprias do meio, a andar, a gesticular como mulher, mudar a voz, o nome, tomar hormônios, depilar-se, maquiar-se. Aprende-se os truques, os macetes da prostituição, a classificar os clientes, a se proteger dos perigos da noite e da rua.
A rua, como espaço de aprendizado, sociabilidade e prostituição, faz parte dessa conformação de gênero, da vivência da sexualidade e, assim, da construção da Pessoa. É também na rua que as travestis vivenciam as experiências ligadas à prevenção da aids e de outras DST, como também outras experiências associadas à saúde, como o aprendizado em relação à ingestão de hormônios femininos e cuidados relativos ao uso do silicone industrial.
A rua/pista/avenida, categorias nativas para se classificar o espaço de prostituição, é o espaço privilegiado para a abordagem das agentes de prevenção junto às travestis que se
prostituem na capital paulista, numa tentativa do sistema oficial de saúde de acessar, por meio dessas, as margens, territórios onde o Estado normalmente só comparece por meio das ações repressivas da polícia.
3. Prevenção e “SIDAdanização”
128SUSjeitos da aids
Numa rua perpendicular à avenida Afonso Sampaio de Souza, na movimentada região do Parque do Carmo, Juliana sai de um Fiat Uno. Antes mesmo que o carro dobre a esquina, ela levanta a minissaia rodada, baixa a calcinha e começa a “aqüendar a neca”, técnica utilizada pelas travestis para esconder o pênis. A operação leva de dois a três minutos. Juliana abre as pernas, calcinha no joelho, curva-se sobre si mesma, “fazendo a
buceta”. Quando se ergue e vê Márcia, abre um largo sorriso.
Márcia é travesti agente de prevenção do Projeto Tudo de Bom!, da prefeitura de São Paulo, e pelo menos duas vezes por semana circula ali pela região entregando preservativos, conversando com as travestis e mulheres que trabalham nas casas de prostituição, drive-ins e nas calçadas da longa avenida. Ao encontrar Juliana, a agente de prevenção dá a ela uma tira com três preservativos, enquanto elogia a sua beleza. Márcia aproveita para convidá-la a comparecer ao “postinho”. É assim que a maioria das pessoas dali reconhece e chama o Serviço de Assistência Especializada (SAE) situado na zona Leste. Jéssica pega os preservativos, agradece, sorri e segue em busca de mais um programa.
Próximo à entrada principal do Parque, na esquina oposta, um grupo de travestis se alegra ao ver Márcia e Tereza, a assistente social que é a técnica responsável pelo Tudo de Bom!, naquela região. As travestis falam da noite, dão notícia sobre uma ou outra conhecida, fazem comentários sobre a forma física de Tereza. Márcia também troca informações e entrega as camisinhas. Tereza quer saber notícias sobre uma travesti que tem aids, pois ela não aparecera mais no “postinho”.
[Travesti 1] Aquela lá?! Tá só o pó da rabiola. [com aparência pouco saudável] E tá na rua fazendo programa!
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Valho-me das discussões de Luiz Fernando Duarte et. al (1993) sobre a “cidadanização” entre camadas populares para traçar um paralelo entre o que estes autores chamaram de processo racionalizador e disciplinador de conversão à cidadania e as ações de intervenção do modelo oficial preventivo entre determinadas populações, com relevo para as travestis.
[Tereza] O quê?! Ela faz programa ainda?! Gente, quem faz programa
com ela? Ela estava caída demais, muito derrubada.
[Travesti 2] Mas entra nos carros só pra roubar, dona Tereza. [Tereza] Mas como ela consegue que o cliente pare?!
[Travesti 1] Só no truque, dona Tereza. Isso é só no truque.
“Dar o truque” significa, entre as travestis, enganar, “fazer-se passar por”, “se virar” com o que se tem, otimizando atributos físicos e habilidades em geral. Era exatamente o que estava fazendo uma outra travesti, naquela mesma noite em que Tereza e Márcia faziam seu trabalho preventivo. Bronzeada, vestida com um short branco muito curto e uma blusa igualmente curta, que lhe valorizava o colo e deixava o piercing do umbigo à mostra, a travesti justificava-se com Márcia por não ter comparecido a mais
uma consulta previamente agendada. Márcia escuta atenta e, mais tarde, quando reencontra Tereza, que havia ficado conversando com a dona de uns dos drive-ins da avenida, comenta:
[Márcia] Sabe quem eu vi hoje? [diz o nome da travesti] Tá lá na esquina:
loira, no salto129, bronzeada! Quem diz que aquela bicha tem aids?
[Pesquisadora] Mas ela tá em tratamento?
[Márcia] Que tá, tá, né? Mas não acompanha, como é que vai saber como
vai a carga viral?
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Essa expressão é bastante usada pelas travestis e significa estar elegante, não perder a altivez, mesmo em situações delicadas e embaraçosas.
No mapa se vê a parte central da avenida Afonso Sampaio de Souza. No lado oposto ao do Parque encontram-se os muitos drive-ins da região. Na extensa avenida a agente de prevenção do Tudo de Bom! caminha, duas vezes por semana, por mais de 2 horas. Circundada em vermelho vê-se a localização do drive-in de Clara, uma “amiga do Projeto”.
Drive-in de Clara
Técnica e agente se queixam do não comparecimento das travestis e “garotas”130 às consultas. A mesma reclamação parte de Poliane, travesti agente de prevenção que atua nas imediações da avenida Indianópolis, zona Sul da cidade. “Essas bichas, e as mulheres
também, sei lá... são muito folgadas. A gente passa, fala, cadastra, chama... e elas vão? Vão nada.”
Atrair as travestis para o posto de saúde é uma das metas do Projeto Preventivo Tudo de Bom!, que tem como objetivo geral reduzir a incidência de DST/aids entre a população de “profissionais do sexo”, resgatando os “princípios de cidadania”131. Desta forma, agentes de prevenção devem atuar nas ruas orientados por três princípios: (1) informar, (2) orientar e (3) levar o discurso preventivo, tal como é formulado pela agência pública DST/Aids Cidade de São Paulo, aos chamados “profissionais do sexo”.Esse grupo foi dividido, na perspectiva do Tudo de Bom!, em três segmentos: prostitutas mulheres,
michês (garotos de programa) e travestis.
Para atingir essa população, o projeto se vale da “educação entre pares” como recurso metodológico de intervenção. Desta forma, profissionais de saúde ligados ao projeto “identificam, nas regiões dos seus serviços, pessoas que comercializam sexo, com perfil para o trabalho em campo. Estas pessoas, após formação específica, desenvolvem intervenções em áreas de prostituição da cidade’” (Abate. 2003: 33).
As travestis que se prostituem são “capacitadas”132 como agentes de prevenção, para atuarem junto a seus pares. Estas passam, então, a receber uma ajuda de custo de R$ 300,00 mensais, por uma dedicação semanal de 20 horas, divididas entre atuação em campo e atendimento em plantões, ocorridos, em geral, duas vezes na semana (porém, nem em todas as unidades onde o projeto funciona há plantões). Este expediente envolve a presença do/da agente de prevenção que deve procurar fidelizar a clientela visada e que foi
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É como são chamadas por elas as mulheres que se prostituem.
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As expressões que aparecem entre aspas foram extraídas da fala do coordenador de Prevenção da
Diversidade Sexual, órgão ligado à Secretaria Municipal de Saúde, durante o I Seminário Paulistano de Transexuais e Travestis, realizado entre os dias 09 e 11 de dezembro, na cidade de São Paulo. A importância
de colocá-las entre aspas está também em frisar que se tratam de termos próprios do discurso oficial preventivo, que serão discutidos e problematizados ao longo deste texto.
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Uso o termo entre aspas, não só por ele ser próprio da linguagem das agências públicas, em relação à formação de quadros de pessoal para atuar em diversas frentes (saúde, educação, meio ambiente), como também para deixar claro que a pesquisadora não adota o termo tal qual ele é proposto pelo modelo preventivo para DST/aids. “Capacitação”, segundo o modelo oficial, pressupõe que a equipe de agentes obtenha informações corretas sobre DST/aids e formas preventivas, medidas essas consideradas adequadas de se fazer a abordagem e de se alcançar mudanças de comportamento das pessoas atingidas.
acionada no trabalho de rua. Esse é o momento de fazer cadastros para dar acesso às cotas mensais de preservativos133, seduzir para a realização de exames e, a partir do diálogo proporcionado pela identificação entre usuário e agente de prevenção, procurar “vincular” esse indivíduo ao serviço.
Os/as agentes de prevenção devem, ainda, comparecer a reuniões de grupo, nas quais todo o pessoal dos projetos preventivos se reúne, e a outras que porventura sejam agendadas. Assim, cada unidade de saúde que aloca o projeto tem técnicas responsáveis por ele (coloco no feminino pois, em todas as unidades visitadas, as pessoas responsáveis eram mulheres). Os/as técnicos/as são aqueles que formam a equipe de prevenção, que deve ser multiprofissional. Esta pode ser composta por assistentes sociais, psicólogos, educadores, nutricionistas, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, entre outros ligados às áreas da saúde e da educação. Desta equipe fazem parte profissionais de nível superior e de nível médio, que têm como função supervisionar as ações que são realizadas em campo pelos agentes de prevenção.
Em suma, o papel do/da agente é atrair a clientela até o “posto”, visto que o importante é que as pessoas visadas pelo discurso preventivo sejam motivadas a comparecer às unidades públicas de saúde. Pois lá se almeja, segundo as diretrizes da área de prevenção do DST/Aids Cidade de São Paulo, “ampliar o acesso da população à testagem do HIV, sífilis e hepatite; intensificar o controle da prevenção da transmissão vertical134 para HIV e sífilis” (Prevenção. Consultar fontes eletrônicas na bibliografia). e viabilizar as testagens, entre outros procedimentos que exigem um contato mais prolongado com o público. O que se busca nesses momentos de interação entre clientela e profissionais de saúde é o que no jargão da área da Prevenção se chama “vincular” ou “atrelar”, isto é, estabelecer um vínculo do usuário com o sistema, de maneira menos rarefeita, podendo-se, assim, administrar e controlar uma série de procedimentos relativos aos cuidados de saúde dessa população. No caso dos chamados profissionais do sexo, a distribuição gratuita de preservativos – através da disponibilização de uma cota mensal – tornou-se um atrativo que possibilita uma interação pautada no levantamento de informações, a partir do que o modelo oficial paulistano vem chamando de “prevenção dialogada”. Através do sistema de
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Em algumas unidades, o acesso à cota negociada está vinculado ao acompanhamento de uma palestra sobre DST/aids e prevenção.
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“cotas negociadas”135 os profissionais do sexo podem ter, após uma entrevista com um profissional de saúde, uma determinada quantidade de camisinhas gratuitas. Essa quantidade deve ser fruto do diálogo ocorrido entre ambos. Essa negociação se dá por meio de uma entrevista entre usuário/a e profissional de saúde, determinando, a partir do levantamento do número de programas feitos, a quantidade de preservativos que o/a profissional do sexo terá direito a pegar a cada mês. Uma das técnicas explica como procede em sua unidade:
Eu tenho um critério de inclusão. Então, dentro do meu critério de inclusão, eu faço uma pergunta assim: ‘quantos programas você faz em 24 horas?’ Eu falo 24 horas, porque alguns trabalham na avenida um certo tempo, trabalham também no cinema uma vez por semana, porque é concorrido o cinema, porque lá eles ficam protegidos, ficam num lugar que não chove, que não precisa correr de ninguém, e também eles trabalham por internet e telefone celular. Então eles têm várias opções assim de clientes. Então eu pergunto: ‘quantos programas você faz?’ Por exemplo: ‘dez’. Tendo feito dez programas eu já logo dobro a quantidade de preservativos por dia. Porque, se eles fazem sexo oral eu entendo que é mútuo, então usa-se dois preservativos. Se não é oral, também usa-se dois. Então, se fazem dez programas, eles usam 20 preservativos por dia. Se eles trabalham três ou quatro dias na semana, multiplico isso por quatro, porque não é todos os dias do mês que eles trabalham. E aí acho um número. De modo que não é bem assim, ‘quantos vocês acha...?’ , que eles nunca sabem. Se você perguntar assim pra um travesti: ‘quantos preservativos você acha que gastaria num mês?’, eles nunca sabem. Não sabem me dizer. E quando eu coloco pra eles que eles tiveram com ‘x’ número de parceiros, eles mesmo se assustam: ‘tudo isso?!’ E eles perdem essa noção. Então, é insólito perguntar, primeiro que eles vão falar um número que não corresponde com a realidade. Ou muito pra mais ou muito pra menos. E aí, fazendo essa conta, você chega mais ou menos a um número razoável, porque... E aí você vai perguntando: ‘200 (o número que
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As cotas negociadas vêm sendo rediscutidas, pois geraram um esquema paralelo de venda, principalmente de preservativos masculinos, chamado pelas técnicas e agentes do Tudo de Bom! de “máfia da camisinha”.
você chegou lá) dá?’ ‘Ah, dá.’ Então tá feito o acordo. “O acordo pra você é esse. Tem o direto de vir aqui uma vez por mês, o dia que você quiser durante o mês, apanhar o seu acordo. E se você tiver algum problema de saúde pode ser orientada através daqui. (Técnica de prevenção do Tudo de Bom!. Grifos meus.) 136
Nesse processo, que se pretende mais “horizontal”, caberia ao profissional de saúde construir juntamente ao usuário do serviço o seu “fortalecimento”, sintetizado no que Maria Cristina Abate, coordenadora da área de Prevenção do DST/Aids Cidade de São Paulo, chama de “potencialização da auto-estima”. Trabalha-se, desta forma, na “perspectiva (...) que estas pessoas, além do cuidado integral com sua saúde, desenvolvam um senso de organização de categoria, fomentando, desta forma, uma consciência política para a
defesa de seus direitos”.137 (Abate. 2003: 33. Grifo meu.) Este “novo paradigma” está alicerçado nos conceitos de protagonismo político, direitos humanos e cidadania.