1. INNLEDNING
4.2 EMK art. 7
Um dos métodos de pesquisa mais utilizados no campo dos estudos linguísticos continua sendo, no início do século XXI, a introspecção. Ao utilizar esse método, o pesquisador parte do princípio de que certos aspectos da linguagem espontânea e do pensamento podem ser evocados e manifestados na consciência dos usuários da língua e, assim sendo, podem ser objeto de análise científica.
No prefácio da obra Methods in Cognitive Linguistics (GONZALEZ- MARQUEZ et al., 2006), Leonard Talmy destaca a introspecção como um importante método de pesquisa no campo da Linguística Cognitiva. Esse método pressupõe que o pesquisador trabalhe com diferentes níveis de consciência no processo de análise de dados linguísticos. Segundo Talmy (2006, p. XII), a “consciência de primeiro nível” ocorre quando o usuário da língua dirige a sua atenção consciente para aspectos particulares da linguagem da forma como os manifesta a sua própria cognição. Isso significa que certos aspectos da linguagem humana podem se manifestar, espontaneamente ou através da evocação, na consciência dos usuários da língua. Um segundo nível de consciência, no processo
de introspecção, ocorre quando o usuário da língua elege como objeto de análise os conteúdos linguísticos identificados no/pelo primeiro nível de consciência. Esse segundo nível de consciência — ou de atenção — pode ser evocado, volitivamente e diretamente, para um dado elemento linguístico. A acessibilidade a um aspecto específico da linguagem pelo uso da atenção consciente dirigida depende de cinco fatores: da organização cognitiva em geral; das particularidades da cognição do indivíduo; da situação comunicativa em curso; das condições atencionais e, por fim, da categoria do objeto da atenção.
Talmy (2006, p. XII-XIII) explica que, de acordo com o primeiro fator, a cognição entre indivíduos parece ser estruturada de forma tal — quer de maneira inata ou a partir de condições comuns de desenvolvimento — como que para privilegiar certos aspectos da linguagem em detrimento de outros. Como segundo fator, observa que, a despeito de diferenças cognitivas individuais — quer resultem de diferenças inatas ou de treino, prática — aspectos particulares da linguagem podem ser mais ou menos acessíveis para um mesmo usuário consciente da língua. Como terceiro fator, explica que a acessibilidade que vários aspectos da linguagem permitem desencadear na consciência pode variar, todo tempo, em um mesmo indivíduo de acordo com as mudanças ocorridas na situação em curso ou de acordo com seus próprios interesses. O quarto fator nos permite observar que a acessibilidade para a consciência de vários aspectos da linguagem difere de acordo com o que pode ser chamado de condições atencionais.
Para ilustrar em que medida as condições atencionais podem servir de parâmetro no método de introspecção, Talmy (2006) destaca três condições. A primeira diz respeito aos usos individuais de segundo nível de consciência por parte do pesquisador para observar, em isolado, certos aspectos da linguagem em partes extraídas do discurso, tais como uma palavra, uma sentença, um período. Na segunda condição, focalizam-se esforços individuais para observar, com
segundo nível de consciência, aspectos da linguagem que aparecem, em primeiro nível, no curso de um evento de comunicação em que o usuário da língua participe como falante ou ouvinte. A terceira condição baseia-se na hipótese de que algum traço do primeiro nível de consciência sobre algum aspecto da linguagem pode continuar a ser presente por um pequeno tempo, desaparecendo, gradualmente, logo após sua evocação em algum evento comunicativo. Em seu trabalho, Talmy (2006) sugere que, em alguns casos e em alguma medida, o pesquisador pode utilizar o segundo nível de consciência para observar essa breve preservação do primeiro nível de consciência e para examinar o que seu conteúdo poderia ser durante a ativação imediatamente precedente.
O quinto fator, implicado no uso da atenção consciente dirigida para análise de dados linguísticos, diz respeito à categoria do objeto da atenção. Isso pode variar do significado de uma palavra até a gramaticalidade de uma sentença ou a entonação da fala de alguém. Esse fator precisa ser considerado em conjunção com as propriedades dos fatores anteriores.
A explicitação desses cinco fatores nos permite inferir que, no que se refere ao uso da linguagem verbal, no conjunto de metodologias que se aplicam à investigação da estrutura conceptual, podemos incluir
i. a introspecção por parte do pesquisador com vistas a descrever os sentidos que emergem das estruturas das formas linguísticas, tanto em isolado quanto em um contexto de uso concreto da linguagem e, da mesma forma, ii. a comparação de uma introspecção própria de alguém — no caso, a do
pesquisador — com aquelas reportadas por outros falantes/ouvintes da língua em estudo.
A reflexão introspectiva, aqui compreendida como uma atividade de caráter metacognitivo, é a base metodológica da análise de dados realizada neste trabalho de pesquisa. Como veremos mais adiante, isso se justifica, por três motivos: pela natureza do fenômeno em estudo; pelos objetivos propostos para
este trabalho de investigação científica; pela natureza da ferramenta teórica adotada na descrição no fenômeno: o modelo de Integração Conceptual proposto pela Escola de Aarhus.
Antes de passarmos à explicitação de fatores que servem como parâmetros para a análise introspectiva de dados, realizada no âmbito desta pesquisa, teceremos considerações sobre críticas que a Linguística Cognitiva vem recebendo por adotar a introspecção como método de análise.