Em 1904, o estudante de medicina brasileiro Manoel Lima citava o alienista Charcot, dizendo que “uma gota de esperma de um alcoólico contém toda a família neuropática”789. A relação entre o uso de bebidas alcoólicas e a predisposição mórbida
nos descendentes dos alcoólatras vai ser um dos principais argumentos para justificar a intervenção terapêutica. Santos comenta que nos discursos médicos:
“a predisposição poderia ser responsável tanto pela tendência individual de sucumbir ao vício da bebida – sendo neste caso o alcoolismo visto como consequência da constituição orgânica –
786 LIMA, Op. cit. P. 57. 787 BANDEIRA, Op. cit. P. 89.
788 DUQUE, Estrada. Ethio-Pathogenia do Delirio Alcoolico (contribuição ao seu estudo). Tese FMRJ, Tip. do Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 1910. P. 87.
quanto pela existência de distúrbios mentais que poderiam ser desencadeados ou agravados devido ao alcoolismo”790.
Nas argumentações dadas pelos psiquiatras para estabelecer essa relação, tanto no Brasil como Chile, concorrem aproximações estatísticas aprimoradas feitas no século XIX. Diferentemente dos estudos que revisamos de Beca e Beze, dedicados a magnitudes contáveis nos asilos, a projeção estatística pula os muros asilares para ir à procura da herança familiar. As explicações dadas são que as doenças mentais ou as anomalias de caráter familiar atacam várias pessoas de uma mesma família nas gerações sucessivas. Um ponto de início dessa inteligibilidade são os estudos do eugenista Francis Galton (1822-1911), que tenta evidenciar a transmissão da genialidade em Hereditary Genius (1863), obra baseada nas ideias de Mendel sobre a herança. Em meados daquele século, são produzidos vários estudos na Europa e Estados Unidos que tratavam do papel da ‘herança mórbida’. Um deles foi o estudo The Jukes: A Study in Crime, Pauperism, Disease and Heredity (1875), feito pelo comerciante norte- americano Richard Louis Dugdale (1841-1883) e que vinculou 1200 pessoas como descendentes do pescador Yukes (nascido em 1720), as quais compartilharam uma herança doente e criminosa. A família Jukes será muito citada tanto no Chile no Brasil nas referências dos cientistas à questão da herança mórbida791.
O uso de grandes grupos familiares para explicar os efeitos do alcoolismo sobre a descendência vai ser uma estratégia discursiva muito utilizada pelos psiquiatras da época. Fundamentalmente direcionadas a explicar os efeitos da herança, constituem no final do século XIX um importante mecanismo de verossimilhança das doutrinas psiquiátricas. Os estudos da família Juke, de Lancereaux e Legrain, foram fartamente citados.
No caso do Chile, a relação entre o uso de álcool e a herança mórbida vai ser estabelecida no tempo de percurso de nossa pesquisa. Como veremos, o que nos
790 SANTOS et All. Op. cit. P. 403.
791 É interessante observar que quando o médico Salvador Allende faz uma genealogia dos estudos sobre a herança mórbida na sua tese Higiene Mental y Delincuencia, em 1933, ele estabelece uma origem dos estudos centrados na herança na obra de Galton e salienta considerar o estudo sobre a família Juke. Na sua genealogia, também comenta os estudos de D. Knecht que vinculam a epilepsia com a criminalidade (De la transmission de la dégénérescence physique chez les criminels. Annales médico-psicologiques. Paris: Masson, n. 7, p. 316, 1885), os de M. Marro sobre a longevidade dos pais dos criminais (Caratteri del delinquenti, 1887), os do médico francês que descobriu o síndrome genético que leva seu nome, M. E. Apert, dedicados à transmissão de características especiais (L’acrocéphalosyndactylie, 1906), e os do médico britânico Charles Buckman Goring (1870–1919), que através de estudos na prisão de Parkhurst refutou as teses de Lombroso, medindo a longitude craniana de três mil delinquentes e comparando-as com estudantes de Oxford e Cambridge e, por sua vez, concluiu que um 68% dos delinquentes tem parentes criminais (The English convict: a statistical study, 1913). Ver ALLENDE, Salvador. Higiene Mental y Delincuencia. Tese da Facultad de Medicina da Universidad de Chile, Santiago, 1933. P. 20.
primeiros discursos aparece como a influência hereditária, será desdobrado como degeneração psíquica hereditária, predisposição mórbida ou taras. Salamanca (1879) levantava o tema da seguinte forma:
“¿Cuántos no vienen al mundo epilépticos, dementes, sordos- mudos, cretinos, escrufulosos, etc. a causa del vicio de sus padres? ¿Cuántos suicidas, bandidos, asesinos miserables, que yacen en el fondo de las prisiones, no debe la fatalidad de sus instintos a la influencia hereditaria que el alcohol crea?”792.
Como já assinalamos, Beca configurava a dipsomania como uma doença própria dos descendentes dos alcoólatras, enquadramento que integra dentro dos parâmetros da degeneração:
“El carácter hereditario de la afección está, por otra parte, comprobada con lo que ocurre en la práctica, pues los casos de dipsomanía observados se han presentado en hijos, nietos y parientes de enajenados, en descendientes de alcohólicos y dipsómanos, en hijos de matrimonios cosanguíneos, etc. Casos en todos los cuales ha habido motivos para la degeneración psíquica hereditaria”793.
A ebriedade é pensada como uma característica efêmera da loucura, dependendo da intensidade da dose ingerida. A alienação acontece pela repetição constante do vício. No Chile, em 1910, um médico, depois de definir que os estágios da loucura eram a mania crônica, a demência e a loucura paralítica, comenta em sua tese:
“De aquí se desprende que los vínculos existentes entre la embriaguez i la locura son mui estrechos i definidos: el ebrio denota características efímeras de la locura con acentos más o menos intensos según el grado de la embriaguez, mientras que la enajenación mental, provocada por la repetición constante de aquel vicio se constituye con todos los estigmas i síntomas morbosos de la degeneración”794.
Duas décadas depois, uma tese que objetivava experimentar um tratamento para o alcoolismo descrevia que:
“el dipsómano es congénito, degenerado, impulsivo, cuya tendencia a beber es una manifestación del estado patológico primitivo de su sistema nervioso. El dipsómano bebe sin saber
792 SALAMANCA, Op. cit. P. 303. 793 BECA, 1892 (b). Op. cit. P. 362. 794 LABRA, Op. cit. P. 6.
por que lo hace; bebe sin experimentar placer ; no le importa lo que beba, bueno o malo"795.
Outro viés da herança mórbida era possível através do convívio próximo com os alcoólatras, o que afetava principalmente seus filhos. O médico Ángel Sanhueza cita uma conferência de Lancereux em Paris para acusar que:
“la mayor falta del borracho de oficio es legar á sus propios hijos su vicio y sus enfermedades que los haran terminar su vida miserable en el manicomio, en el hospicio, en la penitenciaría ó en el patíbulo (…) el hijo del borracho es un predestinado que lleva desde que nace la marca del alcoholismo. Muchas veces adquiere el hábito en presencia y en compañía de sus propios padres, como desgraciadamente sucede en la gente de nuestro propio pueblo; otras veces el desgraciado predestinado bebe por primera vez de una manera inconciente, luego siente la necesidad de volver á beber y en seguida un impuso irresistible lo obliga á seguir bebiendo hasta que termina por hacerse alcohólico”796.
Loyns, que sustenta que os filhos de alcoólatras têm mais inclinação para a bebida, reproduz a noção de Morel a respeito da herança alcoólica, cujo quadro tenta englobar os “grados progressivos da decadência”, que se podem julgar de uma geração para outra, tendo como fim irremediável a esterilidade. O quadro apresentado é o seguinte:
1ª geração: imoralidade, depravação, excessos alcoólicos, embrutecimento moral. 2ª geração: embriaguez hereditária, acessos maníacos, paralisia geral.
3ª geração: sobriedade, tendências hipocondríacas, lipemia, ideias sistemáticas de persecução, tendências homicidas.
4ª geração: intelecto pouco desenvolvido, primeiro acesso de mania aos 16 anos, estupidez, transição ao idiotismo e extinção provável da raça797.
Para explicar os efeitos sobre a degeneração, Loyns recorre às estatísticas feitas pelo médico francês Paul Legrain na Colônia de Idiotas de Vaucluse (1895). O alienista apresentou uma estatística de 215 observações de famílias alcoólatras, dedicando-se a
795 GUTIÉRREZ, Alejandro. Contribución al Tratamiento del Alcoholismo, autoseroterapia, 1933. P. 15. 796 SANHUEZA, Ángel. Alcoholismo Hereditario. Revista Médica de Chile. Tomo 26. 1898. P. 259. 797 LOYNS, Op. cit. P. 31.
analisar 819 descendentes. Num quadro, apresenta os nascidos prematuramente, os mortos ainda infantes, os casos de ‘debilidade física favoráveis a tuberculoses’ e os casos de loucura. Loyns comenta que “la otra mitad de los descendientes de estas familias observadas comprendia un gran número de individuos desequilibrados, dejenerados, epilépticos, histéricos, etc.”798. O médico chileno conclui dizendo que:
“Poco importaria que el borracho pagara su delito, lo sensible es que el castigo viene, por lo jeneral, tardiamente, con enfermedades raras vez curables i que los hijos de estos pobres, cuando los tienen, nacen cretinos e imbéciles, incapaces de ganarse la vida, cuando no mueren pronto. I esto significa decadencia o dejeneracion física i moral de una raza”799.
No Brasil, a relação entre hereditariedade e alcoolismo nos discursos psiquiátricos segue um percurso similar ao do Chile. O quadro de Morel sobre as gerações é reproduzido por Lima (1904). Já em 1894, um médico citava Legrain para destacar que o alcoolismo era um elemento indicativo da herança nervosa800. A teoria da degenerescência vigorava na explicação da relação entre hereditariedade e o alcoolismo. O médico Mauricio de Medeiros, em 1906, apresenta um caso de uma família integrada por cinco filhos:
“Os dois primeiros muito fortes e sadios. O pai começa a beber e se embriaga frequentemente. Nasce um terceiro filho histérico e um quarto débil mental. O pai deixa de beber. Nasce um quinto filho sadio como os dois mais velhos (...) Indiscutível então é a degeneração dos filhos de alcoolistas inveterados”801.
Além dos efeitos do álcool trasmitidos na herança genética e pelo contato próximo com os bêbados, os relatos médicos atingem o ato da concepção. Santos coloca o caso do médico Guilherme Araujo que, em 1917, advertia que se a intoxicação alcoólica acontece no ato sexual, a criança gerada estaria marcada pela degeneração para toda a vida. A descrição dada pelo médico considerava que “os filhos que vingam
798 Ibid. P. 35.
799 Ibid.
800 NOVA, Op. cit. P.17.
801 MEDEIROS, Maurício de. Notas de um antialcoolista. Archivos Brasileiros de Psychiatria, Neurologia e Sciencias Affins, Nº2, Rio de Janeiro, 1906. P.153. Apud. Santos, 2010. P. 405.
dos alcoolistas estão sujeitos a convulsões, meningites, epilepsia”. Sustentando-se em Legrain, Araujo leva o agir do álcool até práticas de ordem moral na época:
“As crianças que escapam a qualquer uma destas manifestações de heredoalcoolismo trazem, contudo, uma moral degradada, que o esforço da educação não pode suprimir. Todos têm uma tendência especial para se degenerarem. Tornam-se, bem cedo, onanistas ou pederastas ativos ou passivos e sentem-se felizes na sua degradação moral”802.
Na década de 1920 no Chile, uma tese similar do titular da cadeira de Patologia Geral da Faculdade de Medicina, Armando Larraguibel, em um manual da sua disciplina, sustentava a importância da embriaguez na fecundação, dizendo que:
“tiene gran importancia en la producción de las taras en los descendientes. El hijo concebido durante una sola embriaguez, puede nacer tarado y esperará más tarde sólo la causa ocasional para que estallen en él las diferentes condiciones mórbidas”803.