A socialização musical é bem representativa de jovens integrantes de bandas musicais diversas, pois vínculos são estabelecidos e, neste momento, apreende-se uma pluralidade de gostos e inclinações desses artistas. Pôde ser observado, na trajetória dos integrantes da banda Dona Zefinha, uma diversidade de estilos componentes em sua formação musical. O debate nas linhas posteriores terá base neste enfoque.
As décadas de 1980/1990, contexto histórico no qual os artistas da banda Dona Zefinha estavam inseridos na adolescência, marcaram um momento de grandes
movimentações artístico-juvenis, e o Ceará não ficou à margem desse processo. Primeiro, com os punks, com sua musicalidade de forte conotação de movimento social que
carregava em si uma organização contrária ao sistema capitalista. Depois, com o hip-hop,
jovens dançarinos de break, cantores de rap, em contato com pessoas do movimento estudantil e popular, surgem com o objetivo de congregar jovens amantes da arte e dar- lhes uma conotação política.
Em Fortaleza, por exemplo, nos anos 1980 (DAMASCENO, 2011), surge primeiro o break. Eram muitos dançarinos anônimos rodopiando nas praças, nas escolas e nos bairros periféricos. Apesar de ter sido o break o primeiro movimento a surgir em Fortaleza, outros elementos estavam a ele agregados, como o grafite e o rap. Orlângelo Leal, criador da banda Dona Zefinha, relata a importância do rap e do funk em sua trajetória musical.
Comecei a gostar de musica através do rap e do funk. No final dos anos oitenta dancei break. Depois veio a época do rock através do skate. E os festivais me incentivaram a conhecer a música brasileira. Primeiro, Elomar, Xangai, Vital
Farias e Geraldo Azevedo. Eu ganhei um disco de um tio: ―Cantoria‖. Fiquei
encantado. Depois, curioso, fui buscar Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Alceu Valença e outros grandes nomes da música nordestina. Eu já tinha aprendido a tocar violão e, para melhorar os estudos como instrumentista, pesquisei a Bossa Nova (João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes) e a MPB (Gilberto Gil, Caetano, Tom Zé). A banda de rock acabou, e eu me dediquei ao teatro. Passei uns quatro anos sem atuação pública na área de música (informação verbal).54
Conforme Orlângelo, a aproximação musical consolidou-se por meio desses movimentos juvenis que tinham como base uma ―contestação social e política‖. Dessa forma, o objetivo neste momento é refletir sobre os espaços ocupados pelos artistas no início de sua trajetória e a rede de relações que foi se estabelecendo em termos políticos, artísticos e sociais.
O artista relata que essas movimentações artísticas chegavam ao município de Itapipoca por meio de influências do que já estava acontecendo na capital – Fortaleza – e por influxos dos meios de comunicação: ―Tudo chegava a Itapipoca pelo filtro da TV‖.
A geração da banda Dona Zefinha, nascida por volta do início da década de 1980, foi muito influenciada também pelo rock. Em 1985, o rock nacional e internacional se concretizou no mercado brasileiro (BRANDÃO, 1990), diante das crises sociais e políticas que ocorriam no país, tornando-se uma das formas de crítica do jovem brasileiro
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em relação à realidade social. Orlângelo Leal revela este momento em sua trajetória artística e a relação que estabeleceu com o break e o rock em Itapipoca, período que ele denomina de ―anarquia na juventude‖.
Nos anos noventa eu recebia toda influência da televisão; existia uma cena, onde tudo ao mesmo tempo agora era possível, eu andava de skate, dançava break e tinha uma banda de rock, a Plebe Juvenil; além disso, também passei uma época pichando, era moda anárquica da juventude rebelde. Tudo chegava à Itapipoca pelo filtro da TV (informação verbal).55
A narrativa de Orlângelo Leal mostra como as informações eram recebidas pela juventude de Itapipoca. A televisão naquele momento representou um importante meio de difusão da música por meio das novelas (VICENTE, 2004). Além disso, a mídia escrita também dispensou enorme atenção a este gênero musical, o rock, graças, além dos jornalistas, à participação de artistas na elaboração de matérias para revistas, paralelamente à ligação de muitos grupos com o meio universitário.
Nesse contexto, houve uma ―explosão do rock nacional‖; as gravadoras colhiam sua matéria-prima no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Rio Grande do Sul e em Brasília principalmente. Nessa época, quase ninguém estourou fora desse eixo, em que predominavam nomes como Paralamas do Sucesso, Legião Urbana e Titãs, que representavam, assim, ―a menina dos olhos da indústria fonográfica‖ naquele momento. De todos os segmentos musicais, constituídos ou evidenciados ao longo dos anos 1980, o
rock foi, sem dúvida, o mais importante (VICENTE, 2004). É nesse contexto que
Orlângelo Leal revela suas primeiras aproximações com o campo musical: ―Tocava em casa, influenciado pelo rock dos anos 1980‖, relatou o artista. Dessa forma, ele criou uma banda de rock no início de sua trajetória musical chamada Plebe Juvenil, no começo dos anos 1990. Segundo o artista, ―[...] era sagrado estar todos os jovens, todos os domingos, ouvindo rock dos anos 1980‖.
Outro integrante da banda, bastante influenciado por esse gênero musical, foi Iranilson Carneiro. De acordo com ele, sua gênese musical era o rock. Ele contou que andava de preto pelas ruas de Itapipoca, que era filiado a um partido, inserido num movimento estudantil; contudo, descreve uma característica fundamental em sua narrativa: ―Sempre com uma tendência para rebeldia‖.
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Toquei muito também na noite, em Itapipoca, com MPB. Tocava em restaurante, pizzaria, tive quatro anos de experiência, onde tive maior contato com o repertório da música popular brasileira, rock e tudo. Foi muito bom pra mim, uma experiência importante. [...]. Em1998, comprei esse instrumento (a bateria) e formei um grupo de pop rock em Itapipoca chamado Normais Demais, só baixo, bateria, guitarra e voz. Esse grupo durou de 1998 até 2001, eu já com os Bufões56, que éramos eu e Orlângelo (informação verbal).57 A rebeldia e a contestação política e social são elementos elencados pelos artistas para expressar esse momento em sua trajetória musical. Isso porque o rock tinha essa representatividade – de expressão e manifestação da juventude. Além da música, as vestimentas eram marcas expressivas de representação. Orlângelo expõe que naquele momento, além de fazer pichações nas ruas de Itapipoca, ―andava de blusa curta e calça rasgada‖. Já Iranilson Carneiro declara: ―Eu gostava de rock, de sair de preto‖.
O percussionista Vanildo Franco também elencou o rock como uma de suas primeiras influências no campo musical. Porém sua experiência com o gênero já se constituiu desde sua atuação como cover da banda Nação Zumbi e Chico Science, originária de Pernambuco, até porque os instrumentos tocados pelo artista são os pífanos e a percussão, elementos estes ausentes de uma banda de rock tradicional: ―[...] eu tive uma banda de rock lá também, na época da adolescência, que fazia cover do Chico Science. Acho que passei três anos com essa galera, aí depois entrei na Dona Zefinha‖. (Vanildo Franco, 2013)
Ao lado do rock, outro gênero musical de caráter contestatório é o reggae, mencionado na fala de Ângelo Márcio, quando indagado sobre suas primeiras inspirações musicais: ―Eu durante muito tempo ouvi muito reggae, ouvia muito reggae mesmo...‖. O
reggae representou também outro momento de manifestação da juventude na produção de
um ritmo que encarnava a rebelião negra (DAMASCENO, 2011), cujo grande expoente é Bob Marley. Este estilo mundial na música representou uma importante forma de contestação étnica e principalmente contrária ao capitalismo, trazendo ideais de paz, igualdade, negritude para os repertórios juvenis.
Pensar sobre a inserção desses artistas por meio de uma sociabilidade musical tendo como influências o rock e o reggae traz algumas manifestações convergentes em torno da interpretação da trajetória dos integrantes da banda Dona Zefinha, em termos de estilos, gostos e formas de inserção no cenário artístico musical. Trazendo a reflexão de
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Os Bufões representaram o primeiro espetáculo infantil da Trupe Metamorfose, que em 2000 transformou-se na banda Dona Zefinha.
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Lima Filho (2010), o autor narra a forma de sociabilidade na comunidade roqueira de Fortaleza. Nesta discussão, expõe a relação entre agrupamentos externos ao rock, dentre eles o reggae, e traz a representatividade do intitulado ―forró eletrônico‖ como palco de discussão e tensões, como perspectivas coincidentes desses grupos, rock e reggae, os quais teciam críticas a esse gênero musical.
As narrativas dos artistas da banda Dona Zefinha mencionam o rock e o
reggae como momento de sociabilidade musical no início da carreira. Eles também tecem
críticas às bandas de forró eletrônico. Orlângelo relatou que nos anos 1990 a cidade de Itapipoca estava permeada por este gênero musical, o forró eletrônico. Ao ser questionado sobre existir alguma aproximação sua com essas bandas, respondeu categoricamente de forma negativa: ―Saí da banda Plebe Juvenil por ter virado uma banda de forró‖. Além de Orlângelo, Iranilson Carneiro e Vanildo Franco demonstram sua posição em relação a este gênero musical.
Tenho uma visão mais humana, menos mercadológica. Eu vejo a arte como uma saída pra humanidade, como uma forma de humanizar as pessoas e torná- las mais sensíveis, pra se relacionarem melhor. Não é viver de arte, mas viver com arte e viver bem. Acho que devia ser vista assim por todo mundo. Não uma arte descartável; a que não tem essa preocupação, pra mim, não é arte. Vou citar aqui exemplos, mas uma banda de forró pra mim não é arte, você não pode chamar aquilo de arte. Já o trabalho da Dona Zefinha você pode, você vê que tem arte aqui acontecendo, porque existe a pesquisa, a criação, a preocupação social e política, cultural, esse resgate de coisas tradicionais, expressões das nossas manifestações, que existe essa vontade de ensinar as crianças. Arte é vida, tem que ser vista assim, como forma de humanizar. Cada vez, estamos precisando mais dela pra afastar as pessoas da violência, da droga, tornando-as mais sensíveis e próximas. Eu acho que é isso (informação verbal).58
O que o mercado atualmente vende? Música com melodias simples, arranjos simplificados, refrão chiclete que gruda na cabeça e a pessoa sai cantando. Eles estão preocupados com isso, nós não. Então, existe um mercado paralelo que absorve o trabalho que a gente faz. [...] existe um mercado pra isso, com outra abordagem, não tem as mesmas cifras de um mercado convencional, mas em compensação está dentro daquilo que a gente quer como banda: ser reconhecido pelo trabalho artístico, não porque vendeu, tocou tantas [sic] milhões de vezes nossa música na rádio, mas reconhecido porque faz um trabalho artístico de qualidade. Existe um mercado que corre paralelo a esse mercado convencional, aí tem pessoas produzindo, estúdios gravando, bandas tocando, festivais sendo realizados que estão dentro dessa linha do nosso trabalho (informação verbal).59
Sobre as bandas de forró, eu não tenho nada contra, acho que representam uma forma de manifestar, de fazer; minha grande questão é só contra o monopólio tanto dos governos como dos empresários; eles pegam um ritmo e depois
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Iranilson Carneiro, 2013, grifos nossos. 59
tudo mais é esquecido, como se nada mais existisse. Então todas as festas, todas as rádios, todas as TVs, tudo! Vira uma epidemia, e a música está a serviço de ganhar dinheiro, não está a serviço de ser só música, e acho ruim esse aspecto. Também em outros estados do Brasil, pessoas que são dominadas pelo sertanejo, pelo pancadão, ou seja, onde estiver essa indústria de massa acho que ela empobrece bastante, porque fica só esse tipo de oferecimento musical enquanto uma grande maioria de outras pessoas que fazem músicas diversas de outros estilos não tem acesso. Não pode tocar a música numa rádio, não é convidado para programa de TV, não vai ter show nem festa em que o cara possa trabalhar.
informação verbal).60
Nestas narrativas, os artistas trazem a referência ao forró eletrônico como uma ―expressão mercadológica‖. No cenário artístico, a questão da mercantilização é de uma forma geral criticada pelo senso comum. Muito se discute sobre a grande diferenciação entre arte ―verdadeira‖ e arte ―comercial‖, aspecto analisado por Bourdieu (2008) como uma luta para adquirir um capital simbólico por parte dos profissionais da arte. O autor afirma que no interior do campo uma série de narrativas se constitui como forma de demarcar seu lugar no campo, estabelecendo, assim, limites. Neste sentido, o campo musical é permeado de um jogo de posições, lutas e trocas simbólicas; o valor da obra de arte é definido não somente pela concorrência entre agentes, mas também pelos conflitos entre agentes que ocupam posições diferenciadas no desenvolvimento de produtos. O campo artístico em específico traz em sua narrativa uma pretensa crítica à lógica econômica, em detrimento da obra artística, exposta por Bourdieu (1996) como ―autenticidade do desinteresse‖. Esse discurso está presente em amplos setores do meio artístico e se traduz na fala dos artistas da banda Dona Zefinha.
Por meio dessa análise realizada sobre a constituição do habitus musical desses artistas, percebe-se a importância de retratá-los enquanto expressões da sociabilidade constituída em seu percurso. Compreendo que esses processos de identificação de gêneros musicais e aproximações políticas não são fixos e que fazem parte de um contexto; contudo, cumprem importante função no processo de compreensão da constituição da socialização desses artistas. A partir dos vínculos ou das afinidades, tenta-se apreender a pluralidade de gostos ou inclinações dos pesquisados. A captação dos vínculos de amizade é uma importante forma de estudar as transformações e/ou reorganizações das disposições presentes na trajetória dos músicos componentes da banda Dona Zefinha.
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