CHAPTER 5. DATA PRESENTATION AND ANALYSIS
5.4. ELOI and Quality of Classroom Teaching/Learning
No primeiro capítulo deste trabalho, a configuração do lugar de adjunto adverbial foi colocada em questão na medida em que observamos que esse lugar não constituiria silêncio sintático. Posteriormente os desdobramentos de nossa reflexão nos levaram a estabelecer um recorte, voltando o nosso olhar para as FAdvs. Isso nos fez agregar em nosso escopo de análise elementos que a tradição categoriza como complemento relativo, oblíquo ou complemento circunstancial (argumentos obrigatórios), já que o critério de identificação da FAdv seria a possibilidade de substituir essa formação por uma unidade adverbial. Assim, entraram em
nosso escopo formações como ‘colocar o livro na estante’ ou ‘ir ao cabeleireiro’, pois ambas podem ser substituídas por um advérbio dêitico como ‘ali’ ou ‘lá’. Introduzindo esses
elementos no grupo das FAdvs, o lugar de adjunto adverbial passa ao estatuto de lugar sintático também propício a realizar matriz de apontamento in absentia, já que ‘na estante’ e
‘ao cabeleireiro’, por exemplo, estariam agregadas, respectivamente, ao DSM dos verbos ‘colocar’ e ‘ir’ nas sentenças que apresentamos aqui. Nos casos em que essa matriz de
apontamento não se efetiva em silêncio sintático, consideramos que as categorias materializadas pelas FAdvs permanecem em estado latente no cenário de referência constituído pela sentença, potencialmente emergindo como lugar ou tempo, enraizadas na própria constituição do cenário em que se apresentam, ou como ponto de vista, enraizadas na perspectiva que o locutor investe sobre a referência constituída na atualidade do dizer.
Ao chegarmos nesse ponto da discussão, uma questão ainda nos instiga a refletir. Esta diz respeito às FAdvs que sofrem apagamento da preposição, como mostramos nos pares de exemplos em (82) e (83).
(82) Esse ano, o Sol está em Touro enquanto Saturno reside no poderoso Escorpião.82 (Nesse ano)
(83) Não houve sessões do festival em cinemas comerciais esse ano, ao menos em São Paulo.83 (nesse ano)
Incialmente, indagamos se a alternância entre as formações com e sem preposição estariam efetivamente ocupando o mesmo lugar sintático. Como podemos observar a partir das amostras em (82) e (83), o uso da FAdv sem cabeça parece se dar indiferentemente da posição em que ela ocorre na ordenação da sentença. Tanto em posição inicial quanto em posição final, encontramos ocorrências desse tipo de FAdv, lembrando que a marcação de início e fim de sentença se dá de forma clara nos exemplos em questão, pois eles foram extraídos de texto escrito. A nossa hipótese inicial é que esse fato linguístico concorreria para o fortalecimento do conceito de lugar sintático aplicado aos adjuntos adverbiais. Esse entendimento se explica na medida em que o apagamento da preposição, indicando a perda de um índice funcional, leva-nos a crer que o lugar sintático sustenta a articulação de adjunto adverbial por si só. Essas ocorrências na escrita poderiam ser apenas um reflexo da baixa qualidade auditiva da consoante nasal /n/ que, em posição inicial da palavra, parece ter a sua percepção comprometida. Confirmando-se essa hipótese, uma oposição entre ‘nesse ano’ e
‘esse ano’ tornar-se-ia rarefeita.
Outros exemplos levam-nos, entretanto, à percepção de um fato sintático que apresenta disparidade com a hipótese que levantamos. A fim de dar prosseguimento à discussão, retomemos em (84) a transcrição de um diálogo com o qual trabalhamos anteriormente.
(84) L1 – olha... na feira... nós não achamos muita graça não...
L2 – ah... falando em feira... é porque::::... a mamãe amanhã vai na:: Casa Cor...
L1 – não... Casa Cor não... L2 – Casa Cor não... Grupo Corpo...
L1 – ah... Grupo Corpo... vai ter... uma apresentação... [59]
No diálogo em questão, temos duas ocorrências de FAdvs plenas, i.e., encabeçadas pela preposição que lhes serve de índice funcional, indicando o exercício da ocupação do lugar de adjunto adverbial. Nas três últimas falas, diferentemente, encontramos em condição de
82http://goo.gl/4Fzmp. Acesso: 20 de junho de 2013. 83http://goo.gl/yuxmV
ressonância84 três formações desprovidas de preposição. Dentre essas, a última ocorrência, que seria um adjunto adnominal, é a que precisamente nos chama a atenção. Podemos notar
pela organização sintática da última fala de L1 que a formação ‘Grupo Corpo’ seria uma alternante da formação preposicionada ‘do Grupo Corpo’. A migração dessa formação para a
posição inicial da sentença, tornando-a adjacente da forma verbal ‘vai ter’ produz um efeito
de que ‘Grupo Corpo’ estaria ocupando o lugar de sujeito da sentença. Vejamos como esse
fenômeno, com relação às FAdvs, parece produtivo na língua.
(85) a- Chove muito em Viçosa. b- Viçosa chove muito. (86) a- Em janeiro chove muito.
b- Janeiro chove muito.
(87) a- Nessa cidade tem muito engarrafamento. b- Essa cidade tem muito engarrafamento.
Nas sentenças (85a), (86a) e (87a), verificamos que a FAdv encabeçada por preposição nitidamente ocupa o lugar de adjunto adverbial. Nesses exemplos, as sentenças estariam organizadas da seguinte forma: a FAdv ocupa o lugar de adjunto adverbial em posição inicial, em seguida, apresenta-se a forma verbal e, por fim, o elemento sujeito. Em (85a) e (86a) o sujeito apresentar-se-ia em convergência85 com o verbo ‘chover’. Aderimos, como já explicitado em outros pontos deste trabalho, a uma perspectiva que considera a inexistência de orações sem sujeito no português. Segundo o nosso ponto de vista, cabe ao lugar de sujeito trazer à sentença anterioridade de predicação, servindo de base de referência que lança sobre o verbo as coordenadas de enunciação que o retiram do estado infinitivo. Assim, vislumbramos
que o elemento ‘chuva’ seria o sujeito do verbo ‘chover’ que, por apresentar a mesma base
lexical desse verbo, convergiria com ele em uma base única, dispensando materialidade
lexical independente. Entretanto, nos casos em que o verbo ‘chover’ apresenta outro elemento
sujeito, distinto da sua base lexical, esse sujeito apresenta-se expresso em uma unidade lexical
independente, como se dá em “Choveu granizo”.
84 O trabalho de Da Matta (2005), do qual extraímos esse diálogo, faz justamente uma análise de estruturas ressonantes.
85
Dias (2002) faz alguns apontamentos sobre a noção de convergência sintática e Pereira (2008) apresenta um trabalho sobre a convergência dos lugares de sujeito e de objeto em verbos como ‘ter’ (sentido de existir), ‘haver’e ‘existir’.
Para explicar a distribuição dos lugares sintáticos em (87a), também aderimos à abordagem que considera a inoperância de orações sem sujeito no português. Nessa linha, há duas propostas de explicação para (87a). Ambas concordam em afirmar que o sujeito de (87a) seria
‘muito engarrafamento’, contudo, uma delas entende que não há objeto direto nessa oração
(GARCIA, 1997)86 e outra compreende que convergem, na mesma FN, as funções de sujeito e de objeto (PEREIRA, 2008). Considerando a hipótese da convergência, diríamos que, estando o sujeito gramatical convergente com a forma verbal ou com o elemento objeto, encontramos na sentença uma predisposição ao desmembramento desse sujeito em uma unidade independente. Parece uma tendência natural do funcionamento da sintaxe da língua que cada unidade de referência tenha a sua contraparte material específica, apesar da discrepância entre as dimensões simbólica e material da língua. E, de fato, verificamos essa tendência nas
sentenças em (85b), (86b) e (87b), cujas respectivas formações ‘Viçosa’, ‘Janeiro’ e ‘Essa cidade’, tendo perdido o distintivo funcional, tornam-se unidades de referência disponíveis
para serem alçadas pelo lugar de sujeito. Ou seja, ao perderem a preposição, traço formal que devotava a elas a condição de constituintes de referência em perspectiva, tais formações migram para o lugar de sujeito gramatical. Bechara (1976) admite a conformação resultante dessa migração, reconhecendo que expressões adverbiais de “base nominal” como ‘hoje’ e
‘aqui’ possam exercer o papel de sujeito, o que se verifica, por exemplo, em “Hoje é segunda- feira” e “Aqui é ótimo para a saúde”.
Enfim, iniciamos esta seção com uma questão e a concluímos com duas considerações que julgamos de suma importância nas mãos. A primeira delas já nos parece suficientemente clara e não integra o ponto principal deste trabalho: a urgência do lugar de sujeito gramatical na constituição da sentença. Trata-se do lugar sintático que definitivamente guarda um compromisso singular com o eixo enunciativo 1, i.e., com o eixo responsável pela instalação da sentença. Assim, se o arranjo sintático concorre para a constituição da sentença, naturalmente ele concorre para a sedimentação de uma anterioridade de predicação. E essa sedimentação parece ser o primeiro ponto na escala de prioridades do efeito de completude que se quer alcançar na constituição da sentença. Nesse sentido, a urgência de se delimitar o lugar de sujeito parece comandar a cessão de uma aparente FAdv sem preposição do lugar de adjunto adverbial, secundário para a instalação da sentença.
A segunda consideração versa sobre o papel do lugar de adjunto adverbial como suporte para a constituição de uma base de referência necessária ao efeito de completude da sentença. Vejamos a trinca de exemplos a seguir.
(88) a- (?) Viaja-se à praia.
b- No Brasil, viaja-se à praia. c- Viaja-se muito nas férias.
Identificamos em (88a) uma sentença cujo efeito de completude está comprometido, ao passo que essa demanda se satisfaz em (88b) e (88c). O que distingue a primeira sentença das duas seguintes é a ocupação dos lugares de adjunto adverbial, delimitando um cenário na constituição da referência da sentença. Podemos notar que esse cenário mostra-se defasado em (88a) porque combinam nessa sentença a constituição de uma referência indefinida no escopo do lugar de sujeito e a ausência de um elemento ocupante do lugar de adjunto adverbial investindo na sentença categoria de tempo ou lugar. Admitimos que a defasagem se deva a essas razões porque tão logo um desses pontos seja reconfigurado a sentença parece alcançar efeito de completude. Os próprios exemplos (88b) e (88c) nos mostram isso pela ocupação do lugar de adjunto adverbial, enquanto uma sentença como “Ele viaja à praia” confirma a saturação pelo investimento de um recorte de referência no lugar de sujeito. Enfim, verificamos que o lugar de adjunto adverbial, ao atuar na constituição do cenário de referência da sentença, serve de ponto de ancoragem para o efeito de completude dessa sentença, dando subsídio ao lugar de sujeito nas condições em que este último produz um recorte de referência pouco delimitado.
4.4 SÍNTESE
A investigação que desenvolvemos neste capítulo procurou delinear traços distintivos do lugar de adjunto adverbial considerando os suportes teórico e metodológico de uma sintaxe de bases enunciativas. Verificamos que esse lugar sintático seria base de referência para uma gama de variáveis que dariam suporte à constituição do cenário de referência da sentença. Essas variáveis parecem configurar desde a inserção mostrada da perspectiva do locutor no seu próprio dizer até as categorias de tempo e lugar. Diríamos, portanto, que a perspectiva de uma sintaxe única entenderia que não apenas um lugar, mas um feixe de lugares de adjunto adverbial estaria submerso na constituição da sentença, potencialmente emergindo como
subsidiários da constituição de um cenário de referência. O compromisso do lugar de adjunto com a constituição da base de referência da sentença seria corroborado pelo comportamento migratório desse lugar sintático em sentenças cuja anterioridade de predicação estaria comprometida.