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4.1. Silicon production plants
4.1.2. ELKEM Bjølvefossen plant
A abordagem crítica da análise de discurso defende que os significantes e significados linguísticos são socialmente motivados, rejeitando, portanto, o conceito estruturalista de Saussure sobre a arbitrariedade do signo.29
De um modo geral, os textos são ambivalentes e abertos a variadas interpretações e seus intérpretes fazem opções por um sentido que lhes é próprio, reduzindo esta ambivalência. Isto mostra como os sentidos de ver e interpretar o mundo são centrais na ADC, estando diretamente relacionados às funções ideacional e identitária da linguagem. A opção pelo uso de um determinado sentido para o texto também traz conseqüências para a função relacional.
Análise textual
Tecnicamente, esta dimensão analítica é dividida por quatro categorias de análise: vocabulário, gramática, coesão e estrutura textual.
Ao se analisar a categoria vocabulário, deve-se atentar para além dos significados prescritos nos dicionários, pois mesmo estes registros competem entre si em diferentes domínios sociais (institucionalmente, em nível regional, no que se refere a valores e práticas, etc.).
28 Daqui em diante, todas as citações empregadas encontram-se na publicação traduzida. 29 Orientações mais precisas podem ser encontradas em Carvalho (2003).
Fairclough explica que um vocábulo deve ser analisado sob o foco da lexicalização, do significado do wording, que em português assemelha-se ao significado de neologismo,30 ou criação de novas palavras.
Em um discurso, é comum encontrar palavras criadas pelo próprio produtor para dar um sentido particular àquilo que ele (produtor) deseja. Tais palavras novas, ou mesmo outras já convencionadas, podem estar carregadas de diferentes sentidos (significados).
O autor explica que o processo de lexicalização/siginificação do mundo se dá de modo diferente segundo diferentes épocas e grupos sociais. Um vocábulo pode até mesmo ser relexicalizado. Em uma mesma época, mas em contextos diferentes, um vocábulo pode ter sentidos sinônimos ou antagônicos, como é o caso do exemplo utilizado por Fairclough para os termos terroristas e lutadores pela liberdade. A opção pelo sentido de um dos termos depende da posição política e ideológica assumida pelo discursista.
Este exemplo ilustra a justificativa de Fairclough sobre como os sentidos das palavras entram em disputa dentro de lutas sociais mais amplas, sugerindo que em certos domínios da linguagem as relações entre palavras e sentidos são formas de hegemonia.
Para os analistas críticos do discurso, no âmbito da categoria gramatical a unidade principal é a oração simples que, ao ser combinada, forma orações mais complexas. Uma única oração traz em si as funções ideacional, interpessoal e textual propostas na LSF, portanto, toda oração é multifuncional.
As opções particulares sobre o modelo e a estrutura gramatical utilizados em um texto também dão pistas da presença de posições ideológicas sobre o modo de constituir, representar e manter uma visão de mundo, ou ainda, de transformar uma visão de mundo pré-estabelecida.
A categoria analítica da coesão refere-se a como as orações formam uma cadeia coerente entre si segundo os conectivos selecionados: preposições, conjunções, artigos, e outros. Fairclough destaca que essa categoria remete à teoria de Foucault sobre os diferentes esquemas retóricos usados para combinar grupos de enunciados, explicando que tais esquemas, como por exemplo, a estrutura argumentativa dos textos, variam entre diferentes discursos.
A categoria da estrutura textual é o modo como o texto é planejado, ou seja, é a própria arquitetura textual. O interesse está na seleção pela ordem e o modo de como os assuntos são combinados para constituir um determinado tipo de texto.
Ao utilizar o exemplo da estruturação de uma reportagem policial, o autor destaca que esse tipo de texto comumente se expressa em uma linguagem específica, já convencionada. Essas convenções de estruturação facilitam perceber os sistemas de conhecimento, crença, relações e identidades sociais embutidos no texto.
Análise da prática discursiva
Esta dimensão de análise se interessa pela relação sociocognitiva estabelecida pelos participantes do discurso e de como isso implica no processo de produção, distribuição e consumo textual.
Além dos produtores discursivos, existem os leitores múltiplos: os receptores são os leitores oficiais, aqueles a quem o texto se dirige diretamente; os ouvintes são incluídos entre os leitores, mas o texto não está diretamente dirigido a eles; e os destinatários são os consumidores, porém não se confundem com os leitores a quem o texto se dirige diretamente.
Da produção até chegar ao consumo (interpretação), o texto é socialmente restringido, seja pelas estruturas sociais normatizadas ou convencionadas, seja também pela ordem de discurso que influenciam na posição dos participantes.
Comumente o processo discursivo procede de modo inconsciente e automático, tornando-o eficaz para a determinação ideológica. Isso acontece quando os intérpretes tomam suas posições (ordem de discurso) e automaticamente fazem suas conexões discursivas, sendo assujeitados pelo texto.
Naquilo que propõe Fairclough (2001) para a ADC, o domínio ideológico- discursivo é central no processo analítico, pois na relação do processo de produção, distribuição e consumo existe a possibilidade de tensão entre produtor e intérprete, podendo haver resistência aos posicionamentos estabelecidos nos textos.
Um foco extremamente importante para auxiliar na investigação e na análise dos elementos ideológicos presentes na prática discursiva é a questão da intertextualidade.
Tomando os estudos de Kristeva, Baktin e Foucault (1986, 1986 e 1972), Fairclough explica que um texto se apropria e se constrói de textos do passado (2001, p.114):
Intertextualidade é basicamente a propriedade que têm os textos de ser cheios de fragmentos de outros textos, que podem ser delimitados explicitamente ou mesclados e que o texto pode assimilar, contradizer, ecoar ironicamente, e assim por diante.
O autor divide o modo de abordagem intertextual em duas perspectivas, a intertextualidade manifesta e a interdiscursividade: a primeira explicita outros textos, enquanto a segunda, também chamada de intertextualidade constitutiva, remete às convenções de produção textual.
Ainda que este assunto seja relevante para o método de abordagem analítica da ADC, sua compreensão pode ser complexa, principalmente para aqueles sem uma formação linguística. Propõe-se a apresentação dos principais conceitos e fundamentos deste referencial teórico-metodológico sem aprofundar-se em explicações mais específicas do campo linguístico. O breve exemplo a seguir é uma tentativa de melhor compreender o que se pode perceber ao analisar a prática discursiva sob o foco da intertextualidade. Para os educadores, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB, promulgada em 1996, pode ser considerada um texto original, pois, ainda vigente, antecede a um conjunto de normas que vieram para regulamentá-la, complementá-la, alterá-la ou revogá-la parcialmente.
Mesmo a considerando original, essa Lei também guarda em si uma história vivida por discursos normativos anteriores, cujas vozes podem ter sido inseridas de modo harmônico, em um consenso entre seus legisladores, ou de modo automático, reproduzindo vozes hegemônicas, ou mesmo de modo conflituoso, necessitando de lutas e negociações para afirmar algumas vozes no texto normativo.
De acordo com as reflexões de Fairclough, pode-se considerar que o processo de produção do discurso da LDB estabelece uma relação entre hegemonia e intertextualidade manifesta. Neste caso, o texto da LDB abriu a possibilidade de um texto reconstruir outro texto, quebrando convenções existentes e gerando novos textos. Embora consciente da limitação do espaço de inovação textual, dada as relações de poder existentes na sociedade, tal relação é produtiva porque permite uma luta contra- hegemônica na esfera do discurso.
Fairclough aborda o conceito de interdiscursividade para mostrar que até mesmo a seleção por um tipo de discurso e o estilo utilizado podem estar imbuídos de poder. Como dito no início desta reflexão, comumente a produção dos discursos estão convencionadas socialmente.
Por exemplo, no caso de uma legislação, tradicionalmente se espera que o gênero normativo que lhe constitui seja produzido em um estilo formal de texto. Talvez se
a LDB tivesse sido elaborada em um estilo poético ou conversacional, provavelmente causaria dúvidas na sociedade quanto à seriedade de seu conteúdo, construindo em torno de si uma idéia de discurso frágil e pouco impositivo face ao modo inusitado de sua construção textual.
O texto da LDB mantém uma tradição social de ter sido produzido em gênero normativo e com estilo formal e impositivo, em que se percebe de imediato uma assimetria entre os participantes do discurso, causando um efeito fortemente ideológico e hegemônico.
No campo da intertextualidade manifesta, os textos normativos que lhe deram sequência podem representar uma posição de resistência, causando um efeito de contra- ideologia ou podem ter sido publicados para reforçar seus preceitos. Percebe-se em alguns trechos discursivos que as novas normas romperam a convenção discursiva mantida na LDB (interdiscursividade), estruturando o texto em um estilo mais informal.
Por fim, é necessária a compreensão de que a abordagem analítica da prática discursiva sob as duas perspectivas é central para a missão da ADC – a busca por elementos que possibilitem uma mudança social no/pelo discurso.
Análise da prática social
Esta terceira dimensão analítica se propõe a investigar criticamente o discurso no âmbito de sua prática na sociedade.
Fairclough (op.cit.) é enfático ao defender a relação dialética entre discurso e estrutura social. Reciprocamente, ambos constituem e são constituídos entre si.
Propondo a possibilidade de mudança social no/pelo discurso, o autor se ampara na perspectiva da linguagem ser competente para transformar os discursos ideologicamente posicionados e hegemônicos que, de algum modo, são responsáveis pela dominação de grupos sociais em toda a sociedade.
A fundamentação teórica dessa dimensão analítica corresponde ao trecho contido nesta pesquisa que trata do item discurso, poder e mudança social na ADC.
De modo resumido, os conceitos de ideologia e hegemonia, tal como tratados ao longo deste texto, fornecem um modo de análise sob o foco das relações de poder na prática social a que o discurso pertence, isto é, se e como essas relações de poder reproduzem, reestruturam ou desafiam as dominações sociais existentes.