3. Aktuell Forskning
5.2 Elevpraksis 1
Metodologicamente, pautamos nosso trabalho por meio dos princípios da Psicologia Discursiva, e escolhemos estudar o processo de Responsabilização no contexto discursivo de oficinas em grupo com pessoas com Diabetes mellitus.
Optamos em trabalhar com a Psicologia Discursiva como embasamento metodológico, por entendermos que tal perspectiva nos permitiria operacionalizar uma das principais premissas que a epistemologia construcionista social propõe: a linguagem como construtora da realidade. Dessa forma, poder-se-ia demonstrar como as pessoas constroem versões da realidade por meio de suas falas e textos, e produzem, com isso, ações e identidades.
É importante ressaltar que nos apoiamos numa Psicologia Discursiva fortemente influenciada pela Análise da Conversação – proposta teórica que também estuda a interação por meio da fala. Mais precisamente, a Análise da Conversação é uma abordagem teórico- metodológica usada na compreensão da vida social, que se pauta por três pressupostos principais: a) a fala é uma forma de ação; b) a ação é estruturalmente organizada; e c) a fala cria e mantém a intersubjetividade (Wiggins & Potter, 2008). Muitos trabalhos têm se pautado por uma Psicologia Discursiva influenciada pela Análise da Conversação, entre eles podemos citar o livro “Discursive research in practice: new approaches to psychology and interaction” de Hepburn e Wiggins (2007), e o livro “Representing Reality” de Potter (2000).
A Psicologia Discursiva nos permitiu mostrar a natureza do discurso, como ele é construído e constitutivo, é situacional e orientado para a ação. Mais precisamente, tal perspectiva nos permitiu apresentar, com mais detalhes, como se construiu o processo de Responsabilização por meio do uso de certos jeitos de se conversar.
Apesar de mostrar o caráter construtor e constitutivo da linguagem, o uso da Psicologia Discursiva enquanto alicerce metodológico, também convida a algumas reflexões sobre possíveis riscos para o pesquisador. Por exemplo, ao buscar entender o efeito do uso de determinados recursos linguísticos e estratégias discursivas no contexto relacional, pode-se produzir, por meio dessa perspectiva, uma explicação radicalmente empiricista e objetivista do processo de construção da realidade. Isso pode acontecer porque o modo de análise e o próprio processo de construção do corpus da pesquisa são orientados, nessa perspectiva, por algumas exigências, tais como:
a) Busca por materiais naturalísticos
Os psicólogos discursivos, em geral, procuram realizar suas investigações, preferencialmente, em situações e contextos em que as conversas ocorrem naturalmente, sem uma interferência direta por meio da imposição de categorias ou assuntos que são importantes para o pesquisador. Dito de outro modo, o pesquisador é conduzido pelo ritmo e pelos movimentos do contexto conversacional. Assim, costumam realizar gravações de conversas em família durante refeições, gravar atendimentos em terapia, conversas em sala de aula, entre outros. A polêmica em torno dessa concepção está no fato de que, dessa maneira, parece existir um universo real separado e exterior ao pesquisador e a pesquisa.
b) Padrão detalhado e sistemático de transcrição
Os pesquisadores orientados pela Psicologia Discursiva por buscarem uma compreensão pormenorizada do efeito da linguagem na interação, acabam utilizando procedimentos de transcrição bastante detalhados e sistemáticos, que capturam minúcias da fala, como segundos de pausa, aumento da intensidade de voz, uso de vocábulos, figuras de linguagem, entre outros. O uso desse tipo de transcrição é utilizado como se fosse possível capturar um real.
Assim, além de exigir uma grande dedicação de tempo e esforço do pesquisador, pode-se produzir a ideia de que existe um real que dita o conhecimento verdadeiro e que exige sua apreensão detalhada em minúcias.
c) Recorte do Contexto Macrossocial
Nessa perspectiva, o pesquisador está interessado no efeito das palavras no contexto interacional imediato. Dessa forma, o foco está no contexto microssocial, no tempo do agora, do “face a face”. A História e o contexto macrossocial, bem como o processo de sociabilidade das pessoas envolvidas na interação não são considerados ou são pouco visualizados por meio de breves recortes.
Com relação à construção do corpus da pesquisa, vale comentar também que acreditamos que as oficinas grupais conseguiram gerar uma multiplicidade de sentidos sobre viver com Diabetes mellitus. Nesse processo, entendemos que o uso de recursos artísticos como música, poesia e imagens, que foram empregados como ferramentas disparadoras de conversas durante as oficinas, permitiram a criação de um contexto acolhedor e uma atmosfera não-avaliativa, no qual os vocabulários dos participantes orientaram as conversas que aconteceram no grupo. Isto é, os diferentes conteúdos e formas de apresentação permitiram que as conversas acontecessem de forma mais natural, bem como possibilitaram a diminuição de discursos estereotipados sobre diabetes (jeitos de falar sobre diabetes ligados, em geral, a aspectos biomédicos) estimulando diferentes possibilidades para a negociação de sentidos entre os participantes, de maneira que a diferença fosse algo possível, que cabia na conversa, e a reflexão pudesse, então, ser fomentada. Acreditamos, assim, que a pesquisa organizada a partir desses recursos aponta para um caráter interventivo das investigações em ciências humanas, pois ao se gerar uma conversa livre de julgamentos ou de preconceitos,
possibilita-se mudanças de sentidos para os participantes, que passam a pensar até sobre aquilo que lhes parecia diferente. A nosso ver, esse tipo de recurso possibilita gerar o que Andersen (1998) chamou de “diferenças adequadamente incomuns”, que não são tão perturbadoras nem tão diferentes do nosso repertório, mas que geram abertura à mudança. Ademais, por meio dessas ferramentas culturais podemos vislumbrar novas propostas metodológicas para o fazer ciência na área de Psicologia da Saúde.
No que diz respeito à eleição do nosso foco analítico, escolhemos trabalhar com um aspecto do Modelo de Ação Discursiva de Edwards & Potter (1992) – a Responsabilização, pois seu manejo tem fortes implicações identitárias para o contexto interacional. Enquanto uma doença crônica, que não tem cura, o Diabetes mellitus pode imprimir uma identidade patologizada ou ainda um movimento de culpabilização para as pessoas que têm o seu diagnóstico. Assim, ficamos interessados em entender alguns aspectos que se entrelaçavam à criação de identidades em pessoas com essa doença. Por isso, escolhemos o manejo da Responsabilização como nosso objeto de estudo. Porém, como já foi comentado, vale lembrar que enquanto fenômeno discursivo, os três aspectos, Ação, Fato e interesse e Responsabilização, ocorrem simultaneamente na interação, e foram, de certa forma, minimamente contemplados na construção da análise. Eleger um aspecto em específico esteve relacionado ao foco da pesquisa, bem como nos permitiu compreender a estruturação e o manejo do fenômeno de forma pormenorizada e com maior clareza.